quinta-feira, 18 de agosto de 2011

A múmia voltou!

Escrever não dá lá muito dinheiro, mas certamente enche a vida de surpresas. Uma delas surgiu muitos anos atrás -- será que já faz uma década? -- quando o escritor, ilustrador, designer, professor universitário, agitador cultural e kick-ass em geral Octavio Aragão me pôs em contato com o pessoal da Calango Produktado para produzir uma versão em quadrinhos do meu conto A Mortífera Maldição da Múmia.

(O conto, em si, é, com o perdão do pleonasmo, uma história à parte: integra a antologia Intempol, uma coletânea de aventuras em torno de um aparato policial criado para patrulhar as viagens no tempo, mas cujos funcionários pensam e se comportam como, digamos, membros da "base aliada" do governo Dilma.)

Eu me lembro de mandar, acho que toda semana (às quartas?) um e-mail para o Carlos Felipe ("Café") com o texto do episódio e algumas sugestões sobre a quebra da ação em quadros. Durou um semestre o trabalho, mais ou menos.

Outra surpresa, mais recente -- de ontem, para ser exato -- foi a notícia de que a HQ, ou webcomic (porque foi planejada para usar os recursos de diagramação específicos da web) está novamente no bar, num site próprio: aqui!

A história, depois, rendeu duas continuações, novela A Macabra Morte de McMurdock e o romance Melissa, a Meretriz do Mal, que alguém subiu no Scribd sem me consultar mas, ora bolas, e daí? O livro já havia nascido como um e-book gratuito, mesmo.

Um dia, provavelmente quando  eu estiver morto, alguém há-de reunir essas três histórias num volume único de capa dura com letras douradas, miolo em pergaminho, e irá vendê-lo para ávidos colecionadores por um preço extorsivo.

Enquanto esse dia não chega, você tem a oportunidade de curtir a "trilogia MMM" online, passando da HQ para a novela e para o romance. Aproveite, se quiser...

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

A pérola de Popper, o bule de Russell

Imagino que um bom lugar para começar seja com Karl Popper e seu critério da falseabilidade: a ideia de que, para ser digna de escrutínio científico, uma ideia ou hipótese precisa ser, ao menos em princípio, falseável: tem de haver pelo menos um resultado experimental que, se obtido, obrigaria, se não o abandono, ao menos uma profunda revisão da proposta inicial.

A falseabilidade está intimamente ligada à ideia de previsão: uma proposta científica deve ser capaz de prever os resultados de experimentos. Uma previsão errada é sinal de que os cientistas têm de cavar mais fundo. Entre as afirmações não-falseáveis, Popper incluiu as alegações estritas de existência.

Uma alegação estrita de existência é a afirmação de que alguma coisa existe, mas sem especificar onde, como ou de que forma.

O exemplo usado por Popper era a afirmação de que "existe uma pérola que é dez vezes maior que a pérola imediatamente menor". Explica ele: "Uma alegação estrita ou pura de existência aplica-se à totalidade do Universo, e é irrefutável, simplesmente, porque não há um método pelo qual possa ser refutada. Pois, mesmo se fôssemos capazes de realizar uma busca em todo o Universo, a alegação existencial pura ou estrita não teria sido refutada por nosso fracasso em achar a pérola exigida, já que ela pode, sempre, estar escondida no lugar para onde não estamos olhando".

Outros exemplos comumente citados são o bule de chá em órbita do Sol, de Bertand Russell, e o bolo de chocolate entre os anéis de Saturno,  de (se não me engano) Theodore Sturgeon.

Nos casos de Russell e Sturgeon, o domínio espacial definido é menor que a totalidade do Universo -- o sistema solar, a órbita de Saturno -- mas esses são volumes de espaço enormes na comparação com os objetos citados (um bule, um bolo), e dinâmicos o bastante para que a ressalva do filósofo -- "ela pode, sempre, estar escondida no lugar para onde não estamos olhando" -- seja válida.

 O bule o bolo, no entanto, não são geralmente invocados em argumentos sobre a demarcação da ciência, e sim em debates sobre o ônus da prova (se você diz que "X" existe, é sua obrigação me convencer disso). Mas esse argumento me parece ter uma camada ainda mais profunda, ligada à relevância e à honestidade intelectual.

O princípio é o de que uma afirmação que viole o critério popperiano não é apenas não-científica, mas também irrelevante, quando não de má-fé, em termos mais gerais.

(Ainda que não em termos absolutos: nada do que está escrito neste post se aplica à poesia, por exemplo, ou às consequências lógicas demonstráveis, ainda que inobserváveis, de teorias científicas honestas que já sobreviveram a diversos rounds de possível falsificação.)

Esse é um salto que algumas pessoas certamente classificariam, de forma depreciativa, como "cientificismo", mas pense: se meus sentidos -- ampliados pelos mais poderosos instrumentos da ciência -- não são, nem mesmo em princípio, capazes de dar uma resposta definitiva sobre a (ou, que seja, uma boa estimativa da probabilidade da) existência de uma certa entidade "X", qual a relevância, neste tempo e lugar, de tal entidade?

Talvez haja vida na galáxia de Andrômeda, digamos. Mas, a menos que algum tipo de contato seja estabelecido -- ou algum cálculo bem-fundamentado de probabilidade apareça --, que diferença isso faz? Em que a mera possibilidade, uma vez formulada sem qualquer outra qualificação, deve afetar as crenças e atitudes e nós, pobres criaturas sublunares?

Já o questionamento da honestidade intelectual surge quando há motivos para supor que a alegação estrita de existência está sendo usada com o fim definido de manter a verdade do caso fora da esfera da investigação racional.

Enfim, o uso do critério de falseabilidade de Popper como uma espécie de atalho heurístico para determinar se uma alegação sobre a existência de algo é relevante ou honesta me parece fazer todo o sentido. Deixo ao leitor mais curioso a tarefa de aplicar esse critério à defesa da misericórdia divina feita por Paulo na Carta aos Romanos.

Isso pode soar como uma versão mitigada do bom e velho positivismo lógico, que afirmava que toda alegação não verificável carece de sentido (e que acabou caindo em desgraça quando se percebeu que "toda alegação não verificável carece de sentido" é uma alegação não verificável). E talvez seja, mesmo.

Mas minha proposta é menos absoluta e pretensiosa que sua antecessora. Não pretende ser um juízo definitivo; apenas, uma bandeira vermelha -- ou um conselho amigável.