terça-feira, 21 de maio de 2013

Guia quântico de defesa pessoal

Depois de três anos em gestação, finalmente saiu: Pura Picaretagem, da editora LeYa, livro que escrevi em parceria com o físico carioca Daniel Bezerra e que é o tal "guia de defesa pessoal" mencionado aí em cima no título. Ou, mais precisamente, um guia de ceticismo para ajudar as pessoas a enfrentar a verdadeira avalanche de produtos e conselhos "quânticos" picaretas que abundam por aí.

Parte filosofia, parte história e , claro, parte ciência, Pura Picaretagem vai dos primórdios da teoria quântica, nascida na Alemanha do fim do século 19, ao humilhante desaparecimento das pulseiras "quânticas" Power Balance, poucos anos atrás, passando pelo auge da febre místico-quântica dos anos 70 e pelo verdadeiro significado da tal da "lei da atração" que, dizem os desavisados (ou mal intencionados) tem sua base no mundo quântico.

Gurus indianos e produtos sensacionalistas de mídia também recebem doses módicas de atenção, antes de serem devidamente despachados.

Fato impressionante: durante as pesquisas para o livro, descobri que, já nos anos 20 do século passado, alguns cientistas previam que as descobertas da física quântica acabariam sendo açambarcadas por místicos e embusteiros: um artigo publicado por um então futuro ganhador do Nobel na revista Harper's fazia o alerta!

Além de toda essa trajetória histórico-filosófica, também apresentamos o que a teoria quântica de fato é, o que há de realmente chocante e contraintuitivo nela e de que modo os cientistas sérios encaram fenômenos bizarros como o emaranhamento quântico e a dualidade onda-partícula.

A ideia para o livro nasceu quando eu ainda estava no Estadão. Depois que publiquei esta postagem no blog que mantinha por lá, o Daniel, que eu já conhecia virtualmente -- ele é o blogueiro do Telhado de Vidro, espaço que todo mundo que gosta deste aqui deveria visitar --, apareceu com a ideia de fazermos um livro apontando onde e como a versão "pop" da mecânica quântica tinha dado estupidamente errado. Quando perdi o emprego, o tempo para pesquisar e escrever, subitamente, dilatou-se. E, graças à inestimável ajuda do amigo e crítico literário Rodrigo Gurgel, nossos capítulos de teste chegaram à LeYa e agora, graças à LeYa, o livro chega às livrarias, já em pré-venda.

Escrever em dupla, ainda mais com um autor em cada extremidade da Via Dutra, é algo que provavelmente só deu certo graças à internet e, claro, à infinita boa disposição do meu colega de autoria. Durante meses fizemos videoconferências semanais, e os esboços dos capítulos iam e vinham pelo Google Docs, anotados por conta disso ou daquilo. Nesse meio tempo, vi publicado, pela Vieira & Lent, O Livro dos Milagres, minha primeira obra de não-ficção a sair, mas na verdade a segunda a ser concebida.

E agora cá estou, de repente autor de duas obras céticas de divulgação científica (ou de uma e meia, já que o Picaretagem é uma coautoria). Tenho planos para mais umas duas ou três: vamos ver se algo disso chega a se completar. As estantes lá de casa estão cheias de obras de referência prenhes de novos livros, que só precisam de alguma disciplina de minha parte para nascer.

O lançamento de Pura Picaretagem será no Rio de Janeiro, terra do Daniel. Dia 20 de junho, na Livraria da Travessa do Shopping Leblon,  a partir das 19h. Talvez também façamos uma em São Paulo, mas não está certo ainda -- diz a sabedora convencional que 90% das pessoas que aparecem em lançamentos são amigos do autor, e sei que a maioria dos meus amigos paulistanos não gosta lá muito de sair de casa.

O convite para o evento carioca é este aí abaixo:






segunda-feira, 20 de maio de 2013

Os peitos da Angelina

Não ia escrever nada a respeito, juro. Mas a velocidade com que bobagens a respeito estão aparecendo no meu mural do Facebook me obriga a concentrar a resposta num lugar só, e o blog está aqui para isso. Então, vamos lá.

A questão da mastectomia dupla da atriz Angelina Jolie é o tipo de coisa que se desdobra em várias outras questões subsidiárias, e um problema que vejo aparecer em muitas postagens e comentários sobre o caso é uma tendência de misturar, de modo espúrio, os diversos níveis -- usar a ciência dos testes genéticos para impugnar a decisão de Jolie de vir a público, ou a decisão de vir a público para detonar a genética, por exemplo -- quando, na verdade, cada parte merece ser analisada em seus méritos próprios. Este artigo da Salon faz um bom trabalho a respeito. Minha tentativa de fazer o mesmo segue abaixo.

O primeiro ponto, e creio que o menos polêmico de todos, é a decisão pessoal, intransferível, dela de realizar a dupla cirurgia: os peitos são dela, e se achou melhor tirá-los, é uma questão de foro íntimo sobre a qual ninguém que não tenha sido convidado a opinar tem de dar o menor pio.

Dá, é claro, para argumentar que, uma vez tendo optado por tornar a decisão pública, Jolie está fazendo exatamente isso, convidando a opinião pública a dar palpite. Mas vou deixar para tratar da decisão de escrever um artigo sobre o tema para o NY Times por último, porque ela arremata e complementa os outros pontos.

O primeiro é o dos genes BRCA1 e BRCA2. Angelina Jolie testou positivo para uma mutação deletéria do BRCA1, e diz que os médicos que a atendem afirmaram -- com base não apenas no gene, mas em outros fatores específicos dela e de sua família -- que seu risco de vir a desenvolver câncer de mama ao longo da vida seria de 87%. Esse é um fator que muito poucos dos comentários que vi levam em consideração: Angelina Jolie não sucumbiu a uma espécie de "determinismo genético". O teste de DNA foi um fator que entrou no cálculo do risco. Talvez tenha sido o mais importante, mas os médicos ponderaram outras questões também.

E até que ponto a ligação das mutações do BRCA1 e do BRCA2 com o câncer de mama é sólida? Bastante: estudos científicos apontam que a presença de mutações negativas desses genes implicam um aumento médio de cinco vezes no risco básico de uma mulher vir a desenvolver câncer de mama ao longo da vida -- um salto de 12% para 60%. O valor do exame é tamanho que há uma batalha em curso, na Suprema Corte dos Estados Unidos, sobre se a patente desses genes, obtida pela empresa que os descobriu, é válida ou não.

Há algumas teorias da conspiração que apontam o artigo de Angelina Jolie como uma tentativa de influenciar o resultado a favor (óbvio) dos malvados capitalistas. Mas, primeiro, o caso dela não afeta em nada os argumentos apresentados à Corte, que dizem mais respeito à definição do que é "invenção" em oposição ao que é "natural" do que da eficácia ou da importância da descoberta. Segundo, se o artigo aponta algo, é que a patente pode estar pondo vidas em risco, ao tornar os exames mais caros e dificultar a criação de novas tecnologias de detecção.

Um ponto que é bem mais complexo do que as postagens mais irresponsáveis dão a entender é o conceito de risco. Normalmente, risco é definido como uma probabilidade multiplicada por uma perda -- por exemplo, se você tem uma chance de 10% de perder R$ 1.000, seu risco é de R$ 100.

Com isso, daria até para pôr um valor monetário na decisão de Angelina: 87%, multiplicado pelo custo de um tratamento de câncer, contra o que ela teve de pagar pelas cirurgias a que se submeteu, mais a probabilidade de as operações não darem certo ou terem sequelas graves multiplicada pelo custo de reparar ou administrar esses problemas eventuais.

Mas é claro que o trauma psicológico da doença, o desconforto de uma quimioterapia, somado ao risco de vida associado, é algo difícil de quantificar. Daí, vem a questão: como decidir se tudo o que se tem são probabilidades, quando os valores envolvidos em um dos lados do cálculo são largamente imponderáveis?  Sem falar que Angelina Jolie e Brad Pitt são um dos casais mais ricos do mundo, logo o custo financeiro não deve ter pesado muito na decisão deles. E esse é um fator que evidentemente os separa de boa parte do restante da população do planeta.

Tudo isso -- a visão particular do risco, o cálculo dos perigos e dos benefícios, o peso que a escolha vai impor aos recursos (financeiros, emocionais, tecnológicos) disponíveis, e os custos de não fazer nada ou de fazer outra coisa -- faz com que a decisão de Angelina Jolie tenha sido extremamente pessoal, como extremamente pessoal será qualquer decisão tomada por uma mulher que tenha as mesmas informações que Angelina Jolie teve à mão: perfil genético, histórico familiar, cálculo de risco, conselho de médicos de confiança, tamanho da conta bancária.

O que nos traz ao ponto final, a questão do artigo no New York Times. Se a situação toda é tão profundamente pessoal, por que trazê-la a público? Pondo as conspirações tolas de lado, há o risco, muito claro, de o depoimento da atriz vir a inflar a demanda por testes genéticos.

Sistemas de saúde de todo o mundo funcionam com recursos limitados, e exames desnecessários não só representam um custo a mais em si, como também aumentam o número de falsos positivos -- se, digamos, 1% de todos os exames indicam a presença de um problema inexistente e um milhão de pessoas fazem os testes, haverá dez mil tratamentos desnecessários para pagar, o que sobrecarrega inutilmente o sistema. O Reino Unido, por exemplo, tem regras bem estritas para a realização desse tipo de exame.

Por outro lado, há a possibilidade de o artigo ajudar a reduzir o estigma ligado à doença e, também, à mastectomia. Confesso que tenho dificuldade em levar a sério esse tipo de celebrity power -- parafraseando uma megacelebridade fictícia da HQ Marshal Law, "se eu digo que limpar a bunda com purê de batata é bom, é culpa minha as pessoas serem idiotas a ponto de acreditar?" -- mas sou forçado a reconhecer que ele existe. E uma atriz de perfil sexy dizer por aí que trocou os peitos por próteses, por questão de saúde, e que está tudo bem e que seu marido ainda a ama pode, no fim, ser uma influência importante para quem liga para esse tipo de coisa.

Dia de Desenhar Maomé

Hoje é o Dia Mundial de Desenhar Maomé. Como não sou lá muito bom para desenhar (e, pior ainda, para desenhar com ferramentas de computador), compartilho uma tira de Jesus & Mo que, além de conter uma representação do profeta, ainda traz um ponto muito importante sobre essa história de "ofensa" como pretexto para censura.