terça-feira, 23 de julho de 2013

Minha palestra na UFSM

Nesta segunda-feira, dia 22, participei, como palestrante, do lançamento da revista Arco, publicação de divulgação científica da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), no Rio Grande do Sul. A editora-chefe Luciane Treulieb me fez o convite via Facebook -- eis aí as redes sociais funcionando -- e, como não me mandaram de volta para casa em lombo de burro (e ainda me pagaram um jantar!), creio que o que eu tinha a dizer não foi lá muito impertinente ou ofensivo. Publico, abaixo, o texto que havia preparado para a palestra e que, como de costume, não corresponde exatamente ao que eu disse, mas chega bem perto. 



“A ciência é importante demais para ser deixada aos cientistas”

Lee Nisbet

Quando a Luciane me convidou para falar com vocês nesta festa de lançamento da revista Arco, o tema que ela sugeriu foi: jornalismo científico e o papel da universidade na divulgação da ciência.

Trabalho com jornalismo científico e divulgação há vinte anos, e estou dentro de uma universidade, a Universidade Estadual de Campinas, há dois. Então, provavelment,e minha experiência tem mais a ver com a primeira parte do tema do que com a segunda. Mesmo assim, vou tomar a liberdade de inverter a proposta: falar primeiro do papel da universidade e, depois, sobre o jornalismo em si.

O que tenho a dizer à universidade sobre seu papel na divulgação da ciência cabe numa frase, a mesma que, supostamente, Dom João VI disse a seu filho Pedro, quando deixou o Brasil: faça-o antes que algum aventureiro lance mão.

Uma das coisas que faço na Unicamp é participar da edição de uma revista sobre ensino superior, e uma questão que encontro com frequência é a de que está havendo uma transição na visão que as pessoas têm da universidade: ela está deixando de ser encarada como uma fonte de bens públicos – conhecimento, estudiosos, profissionais que vão ajudar o país a avançar e a se desenvolver – e passando a ser vista como uma fonte de bens privados: diplomas, que vão ajudar um indivíduo específico, o graduado, a subir na vida.

Notem que essas visões não são excludentes: a universidade sempre fez as duas coisas. Mas o foco, na consciência coletiva, está passando do benefício público para o privado. E, nesse contexto, a universidade pública corre o risco de perder o chão. Porque as pessoas começam a se perguntar: por que o dinheiro dos meus impostos está sendo usado para enriquecer os filhos dos outros?

Hoje em dia é preciso, mais do que nunca, fortalecer a posição da universidade como uma fonte de bens públicos. Não apenas por uma questão de dever, mas de sobrevivência. E a divulgação científica é o tipo de benefício público que a universidade está muito bem posicionada para oferecer. E deve oferecer.

O discurso da ciência, ou a aparência de ciência, é, no mundo atual, uma poderosa arma de venda e de persuasão: de clínicas de estética feminina a lobistas de políticas públicas, todos buscam apropriar-se dele ou simulá-lo, muitas vezes com base em estudos espúrios, estatísticas falsificadas, jargão incompreensível.

A universidade prestaria um enorme serviço ao Brasil se abraçasse a tarefa de preparar a todos – não apenas seus alunos – para dialogar com os que invocam para si, de modo legítimo ou espúrio, a autoridade da ciência. E é isso que a boa divulgação faz. Já a má, que vemos com tanta frequência na grande mídia, apenas prepara mais patos para serem abatidos por charlatões.

Agora, um pouco sobre jornalismo.

Existe uma diferença, que às vezes não é muito clara, entre jornalismo científico e divulgação científica. Uma reportagem, por exemplo, sobre uma grande fraude com verbas de pesquisa é jornalismo científico, mas não será, necessariamente, divulgação.

A divulgação é uma ferramenta de que o jornalismo científico lança mão – no exemplo citado, para explicar a natureza da pesquisa que deveria ter sido feita com o dinheiro roubado – mas não é sua essência.

O jornalismo científico tende a orbitar em torno de um de dois paradigmas: o do jornalismo econômico e o do jornalismo de celebridades. Pensem, por um momento, nos cadernos de economia dos grandes jornais, nos jornais que só tratam de economia, e em seus leitores: são textos normalmente escritos por repórteres familiarizados com o assunto, destinados a um público que, se não é especialista na área, tem um interesse pessoal no tema e conhecimentos básicos a respeito.

E o jornalismo de celebridades? Ele tem, é claro, seu nicho de leitores devotos, mas seu apelo é muito mais amplo: todo mundo corre para ler quando um ator deixa a namorada de olho roxo, ou quando uma cantora aparece com o nariz reformado.

O jornalismo científico que se espelha nesse paradigma é aquele que se alimenta do que os teóricos da comunicação chamam de faits-divers: o fato curioso, incomum, chamativo: o animal de duas cabeças, o monstro do lago, o disco voador.

Esse tipo de conteúdo, no caso da ciência, costumava ser justificado como um trampolim para a divulgação: fala-se no objeto voador não identificado para ter um “gancho” – outro termo do jargão jornalístico – para tratar da observação do céu noturno ou dos movimentos do planeta Vênus.

Mas, da mesma forma que o jornalismo de celebridade raramente aspira às alturas de usar seus personagens para produzir explorações da natureza humana, a narrativa dos faits-divers científico muitas vezes, e cada vez mais, se esgota na busca pelo bizarro, na insinuação, preguiçosa ou mal intencionada, de mistérios onde nenhum existe, ou de soluções maravilhosas e inexistentes para problemas que afligem a todos, como a perda da saúde com a chegada da idade.

Aqui, a divulgação científica que a universidade pode e, se me permitem, deve fazer terá um efeito preventivo: o de desviar a atenção do público, dos faits-divers populista para o jornalismo científico de fato. O primeiro e mais eficaz dos controles da mídia é uma audiência educada, que não só recebe, mas dialoga. E isso é algo que a universidade pode produzir, dentro e fora das salas de aula.

domingo, 21 de julho de 2013

Ô da Folha, cadê os muçulmanos, os judeus, os mórmons, os ateus?

O jornal Folha de S. Paulo publica, neste domingo, um caderno sobre o catolicismo no Brasil. Uma das principais atrações é o resultado de uma pesquisa (divulgada também pelo irmão popular do grupo, o Agora) indicando queda na proporção de brasileiros que se declaram católicos -- não exatamente uma novidade, mas algo bom de lembrar nestes tempos de oba-oba vaticanício. Há, no entanto, algo curioso no gráfico: ele aponta "católicos", "evangélicos pentecostais", "evangélicos não pentecostais" e "espíritas kardecistas".

Por alguma mágica do Datafolha, sumiram do Brasil os judeus, os muçulmanos, os budistas, as pessoas sem filiação religiosa definida e, claro, os agnósticos e ateus.

Ora, ora. Deixe de ser implicante, seu ateu pentelho. Esses grupos não aparecem porque "dão traço" na população, como, por exemplo, faz a audiência dos canais de TV católicos. São irrelevantes demais para serem contados.

O problema com essa explicação, em tese perfeitamente razoável, é que ela é falsa. Os próprios números do Datafolha mostram isso: somando-se os valores apresentados -- 57%, 19%, 9%, 3% -- o total é de 88%. Oitenta e oito por cento. Se 12% da população, uma parcela quatro vezes maior que a de kardecistas e três pontos superior à de evangélicos não-pentecostais é "traço", alguém precisa rever seus conceitos, para citar uma frase popular. Ou esses 12% desapareceram do mapa. Milagre do papa Chico? Mas, espere um pouco, eu ainda estou aqui. No mapa. Então, não deve ser.

Ah, sim: é importante notar que a tabela publicada pela Folha (e pelo Agora) tem como título "Evolução da Religião entre os Brasileiros". Não "Evolução da Religião Entre os Cristãos Brasileiros", ou "Evolução do Cristianismo no Brasil", mas "da Religião", assim, em geral. Da onde se depreende que, para o editor do caderno, só cristianismo conta como religião, ou só os cristãos -- parte deles, na verdade -- contam como brasileiros.

Felizmente, há outras fontes de dados, menos viciadas, como o Censo 2010 do IBGE e o Pew Forum on Religion and Public Life, que durante a semana publicou uma análise honesta da evolução da religiosidade no Brasil. De acordo com o Pew, em 2010 eram cerca de 8% os brasileiros "sem religião" e 5% os de "outras religiões", incluindo-se aí os espíritas. Sendo que, na parcela mais jovem da população -- de 15 a 29 anos -- 10% já se declaram sem religião.

Os números do IBGE são bem mais detalhados. O instituto registra 8% da população em geral, ou mais de 15 milhões de brasileiros, como sendo "sem religião", grupo formado, em sua maioria, por pessoas sem filiação religiosa (mais de 14 milhões) ateus (615 mil) e agnósticos (124 mil). Para pôr essas miudezas em perspectiva, o total de ateus é 17 vezes maior que o de muçulmanos, mais de duas vezes maior que o de budistas, seis vezes maior que o de judeus, o triplo do de mórmons e ainda cerca de 20% maior que o de praticantes da umbanda e do candomblé somados.

Agora, mesmo se o uso da frase  "Evolução da Religião entre os Brasileiros" tenha sido apenas um lapso -- quando, na verdade, o que se pretendia medir era a "evolução do cristianismo" -- dois problemas: um, o de que a ausência de, pelo menos, uma categoria "outros" torna a leitura deficiente, já que o pobre leitor que quiser saber qual a proporção de cristãos que pulou do barco terá de ler o caderno com uma calculadora do lado. Outro, a categoria "evangélicos não pentecostais", que está longe de ser clara.

O texto diz que ele se refere a "igrejas protestantes com séculos de existência". Mas onde essa categorização -- "evangélicos pentecostais" ou "não pentecostais" -- deixa as testemunhas de Jeová e os mórmons? Há mais de 1 milhão de testemunhas de Jeová no Brasil, afinal. E os católicos ortodoxos, que são poucos mas estão aí, entram exatamente aonde?

Seria curioso saber quantos desses 12% apagados da realidade nacional pela Folha são leitores do jornal. De acordo com o Pew Forum, 16% dos brasileiros com, pelo menos, ensino médio completo pertencem às categorias "outras religiões" ou "sem religião". É de se supor que leiam jornais -- ou que leriam, se fossem respeitados. #Ficaadica.