sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Violência, não violência, mudança social

Mal foi dada a notícia de sua morte, começou a disputa pelo cadáver de Nelson Mandela. Nas redes sociais, parece que todo e qualquer revolucionário de sofá com uma estratégia favorita sobre como provocar mudanças sociais -- seja por meio de passeatas, terrorismo, resistência pacífica -- passou a peneirar a biografia do líder sul-africano em busca de exemplos para defender sua tese; e todo conservador retinto, que teme qualquer mudança, não importa qual ou de onde venha, também passou a caçar exemplos de que Mandela, o "revolucionário boa-praça", na verdade não passava de um lobo em pele de cordeiro.

Não me parece possível sintetizar a vida de um homem de 95 anos, que passou quase três décadas encarcerado e que se propôs a reconstruir um país inteiro, de modo tão simplista. O argumento, no fim, é menos sobre a identidade de Mandela -- que pode ser explorada em ensaios e biografias mas que, como a identidade de cada um de nós, no fim se reduz a um mistério -- e mais sobre estratégias e meios de mudança: o exemplo de Mandela é cooptado e distorcido para se encaixar nas preferências de quem busca apropriar-se dele e, por tabela, ganhar pontos com um reflexo de sua autoridade moral.

 Mas, fantástico como é, o caso sul-africano, com toda sua complexidade, representa apenas um data point. Há revoluções violentas bem-sucedidas (como a Guerra de Independência dos EUA, a Revolução Francesa, a Revolução Russa) e há revoluções pacíficas bem-sucedidas, como o movimento Poder Popular que derrubou o ditador Ferdinand Marcos, das Filipinas, em 1986, ou as manifestações que frustraram a tentativa do rei do Nepal de se tornar monarca absoluto, em 2006.

Enfim, os exemplos históricos, recentes ou distantes, não parecem endossar nenhum tipo de conclusão ampla, das que cabem num tuíte -- como "violência não leva a nada" ou "sem violência não existe mudança" ou ainda, "revoluções só transformam oprimidos em opressores". Fãs de cada um desses princípios têm inúmeros exemplos a favor para construir casos convincentes, desde que ignorem, polidamente, todos os contraexemplos que também existem.

Mas, parafraseando uma velha frase conhecida entre céticos, estatísticos e cientistas, o plural de exemplo não é informação. Para ter informação, é preciso reunir todos os exemplos (ou o maior número possível deles), sejam contra ou a favor da nossa posição, e sistematizá-los.

Felizmente para nós preguiçosos, no caso da eficácia do uso de violência para provocar mudança social, alguém já fez isso. Você pode ler o "paper" aqui. O título do trabalho é Why Civil Resistance Works ("Por que a Resistência Civil Funciona"), e afirma que, de todos os grandes conflitos entre Estados e agentes não-estatais entre 1900 e 2006, 53% dos movimentos de resistência não-violenta atingiram seus objetivos, o que só é verdade para 26% das campanhas violentas. A vantagem, em termos de taxa de sucesso, é de 2:1 a favor da não-violência. Estratégias terroristas, em particular, são extremamente ineficazes, atingindo seus objetivos políticos em apenas 7% dos casos.

Não-violência, claro, não significa passividade. "Estudiosos identificaram centenas de métodos não-violentos -- incluindo protestos simbólicos, boicotes econômicos, greves, não-cooperação política e social, intervenção não-violenta -- que grupos têm usado para mobilizar públicos a favor ou contra diferentes políticas, deslegitimar adversários, remover ou reduzir a fonte de poder dos adversários", escrevem as autoras do levantamento, Maria J. Stephan e Erica Chenoweth.

Elas acrescentam que uma estratégia articulada e organizada de não-violência pode ser "extremamente destrutiva" para o poder contestado, e que o compromisso com a não-violência ajuda o movimento a crescer e a angariar apoio, interno e externo.

Enfim, o artigo merece a leitura de quem se interessa realmente pelo assunto -- em oposição a quem apenas gosta de dar palpite no fêice. Outra boa fonte para pensar a questão, aliás, é este blog, The Rational Insurgent, geralmente recheado de boas referências bibliográficas.




Debate sobre astrologia: vídeo

No início de novembro, eu e as astróloga Vera Facciollo participamos de um debate sobre a validade da astrologia, em particular -- e das previsões de ano novo, em geral -- promovido pelo iG. Foi um debate curto, de cerca de 15 minutos, então não houve tempo de expandir a argumentação.

A chamada final, feita pela moderadora, para que o público visite o site de previsões esotéricas do próprio iG foi, ao menos para mim, meio que um anticlímax, mas não posso me queixar nem da condução do debate, nem da neutralidade demonstrada pela moderadora durante todo o período a troca de ideias. E por falar em ideias, foi a conversa pré-debate que me levou a pensar na postagem sobre Michel de Gauquelin que publiquei alguns dias atrás, então o efeito de inspiração já valeu a viagem.

Não gosto muito de me ver em vídeo -- sempre tenho a impressão de que estou fazendo careta. Mas, se o leitor caridoso achar que vale a pena, o debate está "embedado" aí embaixo. 

Bem, na verdade, estava, mas fiz uns testes e vi que a tela só passava um (longo) comercial e travava na hora do debate em si. Então, deixo aqui o link para a fonte original.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Papai Noel existe?

A pergunta não é tão tola quanto parece. Afinal, todos os anos Papai Noel é avistado por milhões de crianças e adultos de todo o mundo, e muitas dessas testemunhas, principalmente as crianças, são inocentes e não têm motivo para mentir. Mesmo que muitos dos Noéis avistados sejam impostores, ninguém nunca conseguiu provar que todos são. (Leia a conclusão desse intrigante argumento na coluna Olhar Cético, na revista Galileu)

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Um blog de meio milhão

Esta aqui é uma nota rápida, só para registrar o fato de que, em algum momento desta madrugada, o blog atingiu (e superou) a marca de meio milhão de visitas, acumuladas desde... desde quando, mesmo? Janeiro de 2011. Não sei se é uma marca expressiva em termos de blogs em geral -- o fato de eu ainda não ter recebido um único centavo do AdSense (saldo acumulado de US$ 71, 64) me sugere que não. Mas é um número redondo, bonito, estamos no fim do ano, então, bolas, por que não comemorar?

Aqui, algumas estatísticas para quem curte esse tipo de coisa: embora eu busque encarar o blog como uma ferramenta de divulgação científica, as postagens mais lidas são as em que exponho a revista Veja ao ridículo (de fato, 20% de todo o tráfego foi gerado por uma só delas, esta aqui). O que nem é tão complicado de fazer, aliás -- então, fica a dica para quem quiser "bombar" um blog. Não é difícil. O lado ruim é ter de ler a Veja antes de escrever.

Mais números: minhas principais fontes de tráfego, no agregado dos três anos de existência do blog, são, pela ordem, Kibeloco, Facebook e Twitter; e os termos de busca que mais trazem pessoas aqui são, surpreendentemente, o meu próprio nome e variações. Depois vêm "imagens 3d" e "pornografia gay" (sério).

Vocês, meus visitantes, usam mais Chrome e Firefox -- apenas 10% chegam ao blog a bordo do Internet Expolorer, embora 67% usem Windows. Os países que mais originam tráfego são Brasil, Estados Unidos, Reino Unido e Portugal. Depois vêm Alemanha, Rússia, Japão, Suíça, França e República Checa.

O estado semicomatoso do blog, fruto de meus novos compromissos profissionais (por exemplo, como esta coluna para a revista Galileu, ou esta outra para o Jornal da Unicamp)  já está começando a me custar leitores -- em novembro, o número de visitas ao blog caiu abaixo de dez mil pela primeira vez em muito tempo. Mas, enfim, a gente faz o que é necessário para manter um fluxo adequado de carboidratos e proteínas passando pelo tubo digestivo. Aliás, se alguém quiser ajudar nisso, chamo a atenção para o botão de doações no canto superior direito da página (e para a lista de livros de minha autoria, logo abaixo, sobre os quais recebo direitos autorais).

Bem, obrigado pela companhia, pelo meio milhão de olhares -- e pretendo continuar por aqui, ainda que de modo um tanto quanto errático. Até breve!