sábado, 29 de janeiro de 2011

Privacidade e crime: o experimento alemão

Alegações divergentes sobre o que é melhor ou pior para uma sociedade representam um desafio para a ciência, já que a forma cientificamente óbvia de resolver a discordância -- realizar experimentos -- não raro se mostra impossível, antiética ou, em muitas ocasiões, impossível e antiética.

Essas situações às vezes podem ser contornadas por meio de chamados "experimentos naturais": basicamente, exemplos históricos de sociedades que adotaram a política em discussão e de sociedades que não a adotaram, que podem ser comparados. 

Mas a análise do experimento natural é capciosa: como não existem duas sociedades que sejam exatamente iguais, é quase sempre muito difícil isolar os efeitos da política em questão de outros fatores culturais, econômicos, políticos, etc., particulares dos grupos em análise. 

Essas dificuldades todas tornam especialmente valioso o estudo divulgado por um grupo alemão de direitos humanos mostrando que a lei europeia de retenção de dados -- pela qual empresas de telefonia e provedores de internet são obrigados a preservar registros de chamadas, visitas a websites e de trocas de e-mails para que a polícia tenha, eventualmente, acesso às informações -- não teve impacto nenhum no número de crimes graves solucionados.

(De fato, os números indicam que, enquanto a política de retenção obrigatória esteve em vigor na Alemanha, a taxa de resolução de crimes caiu, mas isso pode ser apenas uma flutuação estatística. Veja a tabela abaixo.)


O "experimento natural" alemão é excepcional porque envolve momentos muito próximos (um intervalo de poucos anos) da história de um mesmo país -- e um país que não passou por grandes transformações no intervalo estudado. Isso sugere que é plausível imaginar que outras variáveis que teoricamente poderiam confundir o resultado não tiveram um papel importante.

Mesmo crimes considerados "high-tech", como fraude de computador e lavagem de dinheiro, não viram a margem de resolução aumentar durante o período de retenção de dados. A primeira tabela abaixo é a da fraude informática e a segunda, a da lavagem:




O Brasil já pratica a retenção de dados telefônicos, e a chamada Lei Azeredo cria a retenção de comunicações eletrônicas.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

A guerra do quilo

O website da revista Nature traz uma interessante reportagem sobre os debates em torno da definição do quilograma. Ao contrário de outras unidades fundamentais, como o segundo ou o metro, o quilo ainda não tem uma definição tirada diretamente das leis da natureza: um quilo é definido, oficialmente, como a massa de um pedaço de metal mantido num cofre em Sèvres, na França (e que você vê ao lado).

Essa definição, digamos, empírica é um tanto quanto complicada: como diz o texto da Nature, se o bloco-padrão perder uma lasca de, digamos, um grama, todos os outros quilos do mundo passarão automaticamente, e por definição, a pesar na verdade 1,001 kg.  Imagine a confusão na fila do pãozinho.

(Sim, estou misturando vergonhosamente os conceitos de massa e peso. Desculpas aos puristas.)

A situação do quilo é bastante primitiva se comparada à do segundo -- definido como o tempo consumido numa série de vibrações de um átomo de césio -- e do metro, definido como o espaço percorrido por um raio de luz numa fração específica de segundo.

Como as propriedades dos átomos de césio e a velocidade da luz no vácuo são universais, não é preciso amarrar a unidade fundamental de distância a um "bastão  fundamental" que poderia se expandir, contrair ou quebrar, e nem a do tempo a um "relógio absoluto" que pudesse ficar sem corda ou bateria.

De acordo com a Nature, nesta semana, durante uma reunião realizada em Londres, surgiu uma proposta escandalosa e herética de redefinição do quilo: Richard Davis, ex-chefe de massa do Bureau Internacional de Pesos e Medidas, sugeriu que o quilo passasse a ser definido como uma média de duas medições.

Uma média. Não uma lei na natureza, mas uma ficção matemática. Um dado estatístico.

O motivo é que os dois projetos mais avançados de se amarrar o quilo à natureza fundamental do Universo estão produzindo resultados divergentes.

Um deles (e que, confesso, é o meu favorito) usa uma esfera cristalina e tenta definir o quilo como a massa de um número específico de átomos de silício. O outro se vale de uma balança que funciona por meio de campos elétricos e magnéticos, o que permitiria ligar o quilo a constantes fundamentais da mecânica quântica.

O problema é que as duas medições do quilo -- de número de átomos e de efeito sobre campos eletromagnéticos -- estão num desacordo de 175 partes por bilhão. É como se todas as pessoas sobre a face da Terra votassem a favor de uma medida (digamos, colonizar Marte) mas 1.225 pessoas, ou 0,00002% da população,  fossem contra.

Essa divergência é menor que a chance de o asteroide mais perigoso registrado no momento pela Nasa, 2009 FD -- com 130 metros de diâmetro, massa de 3 milhões de toneladas e uma energia de impacto de 120 megatons --  tem de colidir com a Terra (0,25%, entre 2185 e 2190).  E você não vê cientistas arrancando os cabelos por causa disso.

O quilo, no entanto, é uma questão mais delicada. Principalmente porque sua definição vai afetar o valor de algumas constantes fundamentais da natureza, como a massa do próton. Faz sentido usar uma média para determinar que valor dar a uma série importantíssima de dados concretos, que são medidos diretamente?

Há quem nutra a esperança de que os resultados balança eletromagnética e da contagem de átomos venha a convergir ainda mais, e torne o recurso à média desnecessário. Mas é curioso notar que, no fim, todas as melhores medições que fazemos são, de fato, estatísticas.

Pense, por exemplo, numa pessoa que se pesa várias vezes ao dia, e obtém resultados levemente divergentes a cada momento (porque acabou de comer, ou de usar o banheiro, ou de fazer uma caminhada, etc.). O que estaria mais perto de seu peso real: um dos resultados individuais da balança, ou uma média de todas as leituras?

E agora, para um pouco de matemática...

De quantas maneiras diferentes -- e sem repetição -- é possível somar números inteiros positivos para produzir o número 4? São cinco:

4
3+1
2+2
2+1+1
1+1+1+1

Por causa disso, os matemáticos dizem que o número 4 tem cinco partições ou, resumindo, p(4) = 5.

Se você se lembra o suficiente das aulas de matemática do ensino médio, a notação ao final do parágrafo acima deve lhe parecer familiar: é o tipo de simbolismo usado para definir  exprimir uma função.

No caso, a função p(x) dá o total de partições do número "x". Funções são máquinas que associam um número a outro, sempre de acordo com uma regra preestabelecida. Por exemplo, podemos definir a função "idade", ou i(x), como sendo a que informa qual será a idade de uma pessoa nascida no ano "x" em 31 de dezembro de 2011. Assim, i(1971) = 40.

(Para cair na definição mais precisa de função, diz-se que ela associa os elementos de um conjunto -- o domínio -- aos elementos de outro conjunto -- o contradomínio -- de forma que todo integrante do domínio   tenha um único correspondente no contradomínio).

Além do óbvio interesse lógico-matemático, funções têm uma infinidade de aplicações nas ciências e na vida prática. A esmagadora maioria dos gráficos usados para representar uma associação entre duas famílias de dados -- datas e taxas de inflação, tempo de serviço e salário, voos previstos e voos cancelados, total de chuvas e de inundações -- pode ser interpretada como funções.

Quando lançadas num gráfico, algumas funções produzem curvas harmoniosas, como a clássica f(x) = x², ou as funções trigonométricas seno e cosseno (o seno você vê abaixo).




Outras são bem malucas, e p(x) pertence a esse grupo. É contraintuitivo, mas p(x) escapa rapidamente de controle. Enquanto p(4) = 5, p(8) = 22, p(10) = 42, p(100) = 190.569.292 e p(1000) = 24.061.467.864.032.622.473.692.149.727.991. 


Fórmulas para calcular p(x) existem desde o século XVIII, só que no geral são longas e trabalhosas. Mas há uma semana (desculpem a demora, gente) um grupo de matemáticos dos EUA e Alemanha anunciou ter descoberto uma nova fórmula, relativamente simples, para determinar o número de partições de um número inteiro. 


A equipe, trabalhando com o matemático Ken Ono, também provou que as partições dos números primos -- que são divisíveis apenas por 1 e por si mesmos -- têm propriedades que são periódicas, repetindo-se a intervalos previsíveis. Meu palpite é de que essa descoberta pode acabar sendo importante na caçada aos números primos, que por sua vez é importante para a segurança das transações na internet. 


Para quem entende de matemática muito mais do que eu, os artigos de Ono e colegas estão aqui.


(E para os espíritos pobres que estão se perguntando para que serve essa função p(x), afinal, imagine que ela representa o número de maneiras diferentes em que uma quantidade "x" de blocos pode ser empilhada, como no diagrama abaixo, que representa p(x) de 1 a 8, cortesia da Wikipedia:)



Os borgs entram no debate sobre a ditadura brasileira



Desculpe a irrelevância do tema, mas o fato é que nesta sexta-feira o ilustre jurista Ives Gandra usa os borgs de Jornada nas Estrelas como metáfora, em um artigo publicado na Folha de S. Paulo em que se manifesta contrário à abertura de investigações sobre os crimes da ditadura brasileira de 1964-1985.

A ideia geral é a de que os alienígenas cibernéticos que se espalham pela galáxia assimilando -- isto é, convertendo em criaturas iguais a eles mesmos -- os demais povos podem ser vistos como uma metáfora das ideologias de esquerda, que estariam tentando "assimilar" a história brasileira.

É uma leitura interessante, mas cá para mim me pôs a pensar: se os borgs representam um grupo dentro da história humana, que grupo seria esse? Seriam os comunistas realmente bons candidatos? Não nego que o marxismo tenha aspirações "borgianas", por assim dizer, mas elas me parecem muito mal realizadas. Até onde se sabe, a Coreia do Norte não está assimilando muito bem os vizinhos.

Foi então que tive uma epifania: qual ideologia realmente se espalhou de forma epidêmica pelo mundo, esmagando toda oposição, assimilando os heróis dos inimigos (como os borg tentaram fazer com o capitão Jean-Luc Picard), reescrevendo a história em benefício próprio e, no geral, convertendo parte significativa da população, reduzindo de forma drástica a pluralidade de culturas?  Mas é óbvio!

Os borgs não são os comunistas. Os borgs, ora bolas, são os cristãos.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

A natureza humana, em três artigos da Science

A revista Science desta semana traz três artigos, todos igualmente fascinantes -- embora cada um a seu modo -- por revelarem facetas distintas mas interligadas da espécie humana. Minha primeira tendência foi elaborar uma postagem sobre cada um, mas que diabo: se eu não for integrativo aqui no blog, serei onde?

O primeiro -- que provavelmente é o que você verá nas páginas de ciência dos jornais de amanhã -- trata da expansão da humanidade a partir de sua origem na África.

Novos artefatos encontrados no que hoje são os Emirados Árabes Unidos (Dubai, aquelas coisas) indicam que seres humanos "anatomicamente modernos" (i.e., com esqueletos como o meu e o seu) já estavam lá há 100.000 anos. Isso sugere que a colonização do resto do mundo pela nossa forma particular de praga primata tenha começado mais de 40.000 anos antes do que se imaginava.

Se você está se perguntando como um bando de macacos pelados usando a tecnologia (literalmente) de ponta da foto abaixo conseguiu sobreviver no deserto -- os autores especulam que a rota pode ter sido utilizada para dar aos seres humanos acesso à Mesopotâmia e à Índia -- a resposta é uma outra pergunta: deserto? que deserto?


De acordo com os autores da descoberta, há cerca de 130.000 anos o clima da região era bem diferente: não só o mar entre a Arábia e o "Chifre da África" -- a região de Etiópia e Eritreia -- era muito mais raso, como a Península Arábica tinha vegetação abundante, rios e lagos.

Além de ser um testamento da capacidade humana de explorar, inventar e adaptar-se, a descoberta também é um lembrete de como o sucesso ou fracasso de nossa espécie estão intimamente ligados à roleta climática.

O segundo trabalho que chama atenção na Science desta semana é uma pesquisa realizada entre professores de biologia de ensino médio (high school) dos Estados Unidos que revela que 60% deles se esquivam de apresentar a evolução como um fato, e preferem usar estratégias-vaselina para lidar com o tema, como mandando os alunos estudarem porque evolução cai na prova (e não porque seja necessariamente verdade); dizendo que a evolução é apenas mais uma teoria e afirmando aos alunos que eles podem acreditar no que quiserem; ou mencionando evolução apenas no contexto celular, sem entrar na questão da origem das espécies ou da humanidade.

(Dos demais professores, 28% honram a camisa e  apresentam provas da realidade da evolução, e 13% são ratos infiltrados que fazem apologia do criacionismo.)

Assim como a descoberta da migração para a Arábia, essa pesquisa mostra como o ser humano é adaptável e como se deixa influenciar pelo clima -- ainda que, nestas circunstâncias, adaptabilidade e sensibilidade ambiental não pareçam mais características muito positivas.

O terceiro e último trabalho pode ser visto como um complemento filosófico da pesquisa sobre professores: ele mostra que crianças com menos de um ano já sabem que quem é grande e forte se dá bem e quem é pequeno e fraco se dá mal.

Como todo trabalho que tenta interpretar o que uma criança incapaz de falar está pensando, este aqui merece ser visto cum grano salis, mas a história é boa demais para que fique sem ser contada: bebês foram expostos a animações onde dois blocos antropomorfizados -- com olhos e boca -- aparecem se dirigindo ao centro da tela. Quando o bloco pequeno sai do caminho e deixa o grande passar, os pivetes mal tomam conhecimento. Quando é o grande que abre caminho, os pimpolhos quedam-se basbaques.



Essa noção instintiva de manda quem pode e obedece quem tem juízo parece emergir em algum momento entre os oito e dez meses de vida -- para, ao que tudo indica, em alguns casos não desaparecer nunca.

Assembleia Estelar vem aí

Está previsto para fevereiro o lançamento da antologia de ficção científica de temática política da editora Devir, Assembleia Estelar, que contém, entre outros, o meu conto Questão de Sobrevivência. Essa história foi uma das favoritas entre os leitores que tiveram contato com a minha antologia Tempos de Fúria, lançada em 2005 pela Novo Século.

Ela descreve as manobras políticas que um líder de sem-teto é  levado a fazer para navegar entre as vaidades do partido a que seu acampamento é ligado e as necessidades reais dos moradores do lugar. Num tom mais ou menos profético, a narrativa, escrita em 1999, se passa alguns anos depois da "guerra dos morros do Rio".

(Escrever ficção científica às vezes não requer muita coisa além de enxergar o óbvio. Se você ficou curioso a respeito do conto, sugiro que adquira o Assembleia e ajude o Orsi a pagar o condomínio, já que não recebo nenhum tostão furado pelas vendas da Novo Século -- é do contrato, não reclamo, apenas constato.)


Acrescento, para que a coisa não fique com muito jeito de comercial descarado, que não sou lá muito fã das capas do selo Pulsar -- de ficção científica -- da Devir (e, não, essa ressalva não é motivada pelo fato de minha pessoa ter sido relegada à condição de "e outros" nos créditos principais). Elas, no geral, me lembram alguns dos momentos menos memoráveis da antiga coleção de ficção científica da Francisco Alves, como por exemplo:


Mas, enfim, gosto é gosto, e se o conteúdo é bom e os livros encontram seu público, creio que pouco mais importa. No caso do Assembleia,  há alguns pesos-pesados no elenco, com destaque para Ursula K. LeGuin. E se o conto do Roberval Barcellos for o que estou pensando que é, só ele já vale o ingresso.

Assim que tiver mais detalhes sobre o lançamento, aviso.

Faça você mesmo o seu creme facial

Em seu livro Bad Science (que já comentei rapidamente aqui em outra postagem),  jornalista e médico inglês Ben Goldacre oferece ao leitor uma espécie de cartilha das formas como o linguajar científico é usado por publicitários, jornalistas, políticos, etc., para empurrar bobagens goela abaixo do público.

Imagino que o livro dificilmente sairá no Brasil -- se não por outro motivo, muitos dos exemplos que Goldacre usa estão intimamente ligados à vida do Reino Unido -- mas o trecho sobre cosméticos é interessante demais para deixar passar (e, além disso, ele dá uma receita de creme facial que você pode fazer na cozinha.)

Para começar: o que um creme facial faz? Ele hidrata. Só. (Óquei, talvez ele perfume um pouco, também). Não importa se você usa hidratante genérico ou a gosma cor de madrepérola em pote dourado, importada de Paris. O único efeito concreto do creme é hidratação.

Goldacre diz que, durante algum tempo anos anos 90, a indústria dos cosméticos imaginou ter realmente encontrado a fórmula do rejuvenescimento: altas concentrações de vitaminas ou ácidos que realmente ajudavam a pele a parecer mais fresca e conservada. "Mas só funcionam em concentrações tão altas, ou em  níveis de acidez tão elevados, que os cremes causavam irritação, dor, queimaduras e vermelhidão", escreve ele, acrescentando que, hoje em dia, "esses produtos geralmente só entram no seu creme como talismãs,  em concentrações simbólicas".

Outro ingrediente que soa high-tech na propaganda são os peptídeos -- pedaços de proteína; no caso, proteína vegetal. Eles "meio que funcionam", explica Goldacre: formados por cadeias de moléculas menores, os peptídeos se contraem quando o creme seca, em contato com a pele. O efeito disso é repuxar a pele, alisando as rugas, ainda que só por algum tempo. "Trata-se de uma recompensa passageira, mas imediata", reconhece o autor.

E quanto ao efeito principal, a hidratação? Goldacre diz que é possível obter exatamente o mesmo resultado com a seguinte receita caseira:

1. Pegue partes iguais de azeite de oliva, óleo de coco, mel (ou cera de abelha) e água (pode ser água perfumada, se você quiser).

2. Aqueça os ingredientes separadamente, e apenas um pouco.

3. Misture os óleos com o mel (ou cera), mexendo e batendo sem parar; depois, misture a água.

4. Ponha tudo numa jarra e mantenha por três meses na geladeira.

Confesso que não testei a fórmula (com meu nível de talento culinário, há o risco de uma nova forma de vida acabar rastejando para fora da panela), mas ela parece fazer sentido.

"Vaselina faz o trabalho (de hidratar a pele) muito bem", escreve Goldacre. "De fato, muito da pesquisa inicial em cosméticos girava em torno de preservar as propriedades hidratantes da Vaselina e ao mesmo tempo evitar sua oleosidade. Esse desafio técnico foi vencido décadas atrás".


quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Novo recorde: avistada galáxia apenas 480 milhões de anos após o Big Bang

Análise de uma imagem feita pelo Telescópio Espacial Hubble revela a presença de uma galáxia 480 milhões de anos após o Big Bang, quando o Universo tinha apenas 4% de sua idade atual. Esta galáxia torna-se o mais antigo objeto conhecido pelo homem.

Um retrato dela aparece abaixo, devidamente localizado dentro da imagem de campo ultra profundo do Hubble (o "HUDF" do título em azul dentro do quadro significa exatamente "Hubble Ultra Deep Field"):


A preponderância da evidência sugere que o que chamamos de "Universo" teve início há 13,7 bilhões de anos, quando o tempo e o espaço começaram a crescer a partir de um ponto único.

(A ideia de que a expansão do Universo implica uma expansão do próprio espaço não é exatamente uma das mais fáceis de assimilar. Muita gente ainda imagina que o Big Bang representou simplesmente o nascimento da matéria dentro de um espaço previamente vazio.)

Cientistas fazem uma boa ideia -- ou, ao menos, têm uma teoria razoavelmente sólida -- sobre o que aconteceu assim que o Universo começou a se expandir. Na temperatura altíssima que se seguiu ao Big Bang, os componentes da matéria que conhecemos existiam numa espécie de caldo, o plasma de quarks e glúons (o mesmo tipo de material que o LHC vem recriando na Europa). Conforme o espaço aumentava e a temperatura diminuía, as partículas começaram a se agregar, primeiro em núcleos atômicos e depois em átomos.

O surgimento dos átomos deu início à chamada "Idade das Trevas", durante a qual não havia nenhum fenômeno no espaço para produzir luz. Esse período teria começado 380.000 anos após o Big Bang. A ela se seguiu a chamada reionização, quando as primeiras estrelas começaram a brilhar, começando cerca de 400 milhões de anos após o Big Bang.

(O gráfico da Nasa, ao lado, dá a linha do tempo.)

A nova imagem do Hubble (divulgada na revista Nature) mostra uma galáxia surgida no período de reionização. Não se trata da primeira já encontrada dentro dessa faixa: em 2010, foi anunciada a descoberta de uma galáxia de apenas 600 milhões de anos após o Big Bang.

Os autores da descoberta descrita na Nature, da Europa e EUA, destacam o fato de que agora é possível estimar a evolução da taxa de formação e crescimento de galáxias nos primórdios do Universo. Ela simplesmente se multiplicou por dez e depois por vinte, em intervalos aproximados de 200 milhões de anos:


Comentário publicado a respeito da descoberta, na mesma edição da Nature, chama atenção para o fato de que essa taxa de crescimento é consistente com a dos halos de matéria escura em que as galáxias parecem existir.

A "matéria escura", um tipo de partícula que não interage com a radiação eletromagnética (e por isso é invisível) é a fonte da atração gravitacional necessária para manter as galáxias coesas. Embora a natureza dessa forma de matéria ainda seja um mistério, seus efeitos gravitacionais são observados em diversos fenômenos cósmicos, como colisões entre galáxias.

A imagem abaixo, produzida pelo Telescópio Espacial Chandra em 2006, mostra o resultado da colisão entre dois aglomerados de galáxias. Em rosa está marcada a preponderância de matéria normal dos aglomerados e, em roxo, onde está localizada a maior parte da massa da estrutura.



A constatação de que as maiores concentrações de massa estão dissociadas das maiores concentrações de matéria visível é apresentada como prova da existência da matéria escura.

Fobia de vacina: o que é importante saber

Algumas das maiores conquistas da espécie humana, como a erradicação da varíola, a virtual erradicação da pólio e o fato de a esmagadora maioria das crianças que vão à escola hoje não terem coleguinhas que ficaram cegos por terem contraído sarampo são fruto direto das campanhas de vacinação em massa.

Além de imunizar o indivíduo vacinado, a vacinação em larga escala produz ainda um efeito conhecido como "imunização de manada", no qual mesmo pessoas que não tenham recebido a vacina se beneficiam, ao viver em comunidades onde os membros vacinados operam como "escudos", efetivamente criando um cordão de isolamento que a doença não consegue atravessar.

Esse efeito, no entanto, vem se diluindo. São cada vez mais comuns informes vindos de países como EUA ou Canadá em que bebês -- ainda jovens demais para terem sido vacinados -- sucumbem a doenças de que a atual geração de médicos só ouvir falar nos livros de história, basicamente porque seus vizinhos recusaram-se a vacinar os filhos.

O Brasil corre risco semelhante. Confesso que poucas coisas fazem meu sangue ferver mais depressa do que ouvir uma jovem profissional arrojada, de classe média alta e cheia de pretensões intelectuais sentenciar, com o mesmo ar fashion de savoir-faire de quem anuncia que não é mais obrigatório combinar a cor do cinto com a dos sapatos, que não vê a necessidade de vacinar os filhos. Me parece que uma pessoa que escolheu a responsabilidade de gestar, parir e criar uma criança e que dispõe de todos os meios financeiros e educacionais para tal tem a porra da obrigação de se informar direito!


Óquei. Desculpe. Vou lá tomar uma água e já volto.

Onde eu estava? Ah, sim. A oposição à vacina é quase tão antiga quanto o procedimento em si. As causas são várias -- alguns antropólogos referem-se à rejeição da imunização como uma "questão substituta", onde o protesto contra a vacina simboliza um protesto contra alguma outra coisa, como o autoritarismo do governo, a arrogância dos cientistas, o modo de vida ocidental, etc. -- mas geralmente envolvem dois fatores primordiais: a incompetência das autoridades em se comunicar de modo claro, respeitoso e transparente com o público e a irresponsabilidade da mídia e dos formadores de opinião.

A onda mais recente do fenômeno, e que parece ser a que alimenta o antivacinismo fashion brasileiro da atualidade, começou entre 1998 e 1999, na Inglaterra e nos EUA. A princípio dois casos totalmente isolados entre si, ambos se fundiram no início deste século numa onda conjunta de desinformação pop. Mas vamos por partes.

O ano de 1998 marcou a publicação, na revista Lancet, de um artigo assinado, entre outros, pelo gastroenterologista Andrew Wakefield. O trabalho apresentava a hipótese de que uma vacina tríplice -- para sarampo, caxumba e rubéola -- poderia causar irritação intestinal em algumas crianças, e que essa irritação poderia levar ao autismo. Se a ligação entre vacina, dor de barriga, diarreia e autismo lhe parece meio nonsense, é porque é, mesmo.

A Lancet retratou-se do artigo no ano passado, o que, oficialmente, significa que os editores da revista concordam que ele nunca deveria ter sido publicado. Mesmo em 1998, eles provavelmente já desconfiavam disso: a peça não só saiu com um cabeçalho de advertência, deixando claro que se tratava de um resultado preliminar, como a mesma edição trouxe  um comentário escrito por dois especialistas que basicamente apontava diversas falhas e inconsistências nos resultados de Wakefield.

A revista até mesmo absteve-se de enviar um representante à entrevista coletiva marcada pelo médico para anunciar a publicação, e na comunidade científica rapidamente emergiu o consenso de que a peça representava o pior trabalho já publicado na história de mais de 170 anos do augusto periódico. Entre as fraquezas do estudo estava o fato de que ele se baseava em 8 -- oito -- casos, apenas.

Por fim, o texto publicado na Lancet reconhece que nenhuma ligação entre vacina e autismo havia de fato sido comprovada, mas Wakefield disse à imprensa (na coletiva da qual o corpo editorial da revista preferiu não participar) que era preciso suspender as vacinações com urgência.

Diversos problemas éticos foram descobertos mais tarde na realização do estudo, o que levou Wakefield a ser declarado "desonesto" e "irresponsável" pelas autoridades médicas britânicas. Recentemente, o British Medical Journal (BMJ) deu início à publicação de uma série de artigos sobre os bastidores da "pesquisa", incluindo o fato de que Wakefield estava trabalhando para um advogado que procurava um pretexto para processar fabricantes de vacina e pedir gordas indenizações.

Cientificamente falando: na década que se seguiu à publicação de 1998, os resultados do artigo original não foram confirmados. No Japão, país que suspendeu o uso da vacina tríplice acusada por Wakefield, o número de diagnósticos de autismo não caiu.

Timerosal

Ainda comigo? Bem, agora chegamos a 1999 e ao timerosal, o "conservante de mercúrio" usado em algumas vacinas, e ao pânico nos Estados Unidos.

O timerosal é usado como conservante em vacinas desde a década de 30, sem produzir quaisquer efeitos tóxicos conhecidos. A forma de mercúrio que o timerosal contém é o etil-mercúrio, sendo que a molécula orgânica tóxica que contém o mesmo metal é o metil-mercúrio. A diferença de uma letra pode não parecer muito, mas quimicamente é a mesma que existe entre etanol (o álcool do vinho e da cerveja) e o metanol (um álcool radicalmente venenoso).

Na década de 90, quando os efeitos tóxicos do metil-mercúrio já estavam mais do que claros, autoridades sanitárias de diversas partes do mundo decidiram, por via das dúvidas, retirar o timerosal das vacinas. O temor era de que, dado o grande número de imunizações recomendado para as crianças, o acúmulo de etil-mercúrio no corpo acabasse atingindo um nível tóxico.

(Não havia nenhum estudo comprovando que pudesse existir um nível perigoso de exposição a timerosal, mas também não havia nenhum estudo comprovando que tal nível não pudesse existir.)

Problema: quando o governo americano emitiu um comunicado à imprensa informando a substituição do timerosal e dando a justificativa de que o objetivo era tornar "as vacinas que já são seguras ainda mais seguras", o público logo ficou desconfiado. Estimulados por buscas online que revelavam o caráter tóxico do mercúrio -- e que se esquivavam de sutilezas como a distinção entre  "etil" e "metil" -- e organizados também via internet, pais de crianças autistas logo lançaram um movimento para provar que o mercúrio nas vacinas causava autismo.

Diferentemente do elo proposto por Wakefield, entre a vacina de sarampo e a doença, a especulação sobre a ligação entre timerosal e autismo sequer chegou a ser publicada numa revista científica respeitável. Pressionado por políticos e grupos de pais, o Centro para Controle e Prevenção de Doenças dos EUA realizou várias pesquisas sobre o assunto, todas com resultado negativo.

Um estudo específico comparou a taxa de autismo na Dinamarca antes e depois de o país banir o timerosal -- o que aconteceu em 1992 -- e determinou que ela continuou a crescer ao longo de toda a década de 90.

E por fim...

Claro, nada do que foi escrito acima garante que vacinas sejam 100% seguras. Nada é 100% seguro. O timerosal só começou a ser usado como conservante depois que um lote de vacinas foi contaminado por uma bactéria e matou diversas crianças, nas primeiras décadas do século passado; e quando os EUA realizaram sua primeira campanha de vacinação contra a pólio, nos anos 50, erros de controle de qualidade fizeram com que um lote de vacinas, fabricado na Califórnia, acabasse causando paralisia infantil em  algumas crianças, em vez de evitar a doença.

Numa nota mais pessoal, em anos recentes minha mulher teve reações desagradáveis às vacinas de rubéola e gripe, e passou alguns dias com pintinhas na pele e um certo desconforto.

Nada disso, no entanto, muda o fato de que a varíola desapareceu da face da Terra, e de que a pólio também já teria sumido, se a vacinação na Nigéria, há alguns anos, não tivesse sido sabotada por clérigos islâmicos que denunciaram a imunização como parte de uma conspiração para esterilizar meninas muçulmanas.

O ser humano é sabidamente ruim para avaliar riscos. Temos mais medo de andar de avião do que de atravessar a rua, embora anualmente morram muito mais pedestres atropelados do que passageiros de aeronaves. Da mesma forma, o risco de uma reação adversa grave a uma vacina é muito menor que o risco oferecido pela doença contra a qual a vacina protege. É importante ter isso em mente.

E antes que eu me esqueça: muitas das informações desta postagem vieram do livro abaixo, uma leitura que recomendo fortemente:


terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Urano, 25 anos atrás


A imagem acima é o crescente do planeta Urano, fotografado pela sonda Voyager 2. Essa nave foi o único artefato humano a visitar o planeta, o que aconteceu há 25 anos -- em 24 de janeiro de 1986. Com cerca de 500 planetas já descobertos fora do sistema solar, às vezes é fácil esquecer como os nossos vizinhos são pouco conhecidos.

Urano foi o primeiro planeta descoberto por telescópios e não por observação a olho nu do céu. Foi encontrado por William Herschel em 1781. Hoje em dia, com o Telescópio Espacial Hubble produzindo imagens de galáxias localizadas quase na aurora dos tempos, é difícil imaginar o tamanho do impacto que a descoberta de Urano causou.

Herschel inicialmente imaginara ter encontrado um novo cometa, e apenas após uma série de observações acabou convencendo-se de que havia achado um planeta, além da órbita de Saturno. Nas palavras dos astrônomos Roger Culver e Philip Ianna, "em uma noite, Herschel expandiu as fronteiras do sistema solar em mais de 1 bilhão de quilômetros!".

Urano tem anéis, também descobertos pela Voyager 2, e um sistema de mais de 20 luas, todas batizadas com nome de personagens de peças de Shakespeare.

As duas primeiras, Oberon e Titânia, foram encontradas pelo próprio Herschel. Outras três -- Ariel, Umbriel e Miranda -- foram avistadas entre o  século XVIII e 1948. A Voyager 2 descobriu mais dez, e o Hubble também achou um punhado (a lista mais recente, obtida no site da Nasa, você vê ao lado).

Urano tem a peculiaridade de ter o eixo de rotação inclinado em quase 90° em relação ao equador. O planeta literalmente rola, e não gira, em torno de si mesmo. Especula-se que esse "entortamento" foi causado por uma colisão com um astro do tamanho da Terra (nunca é demais lembrar que a Lua provavelmente foi criada a partir da colisão da Terra com um astro do tamanho de Marte).

A imagem abaixo foi feita pelo Hubble e mostra a posição deitada de Urano, com seus anéis e algumas de suas luas. As cores da imagem representam faixas do espectro infravermelho, e não a cor real do planeta.


Urano aparece azul para o olho humano, por conta do metano presente em sua atmosfera. Diferentemente de Saturno e Júpiter, Urano não é um gigante gasoso, mas um gigante gelado: 80% de sua massa está concentrada num núcleo líquido de água, metano e amônia. A imagem abaixo, colorida de forma a representar como Urano aparece em luz visível, mostra o planeta fotografado pelo Hubble, com a lua Ariel projetando sua sombra no disco planetário:



Atualmente, cientistas ligados à Agência Espacial Europeia (ESA) e colegas da Nasa buscam apoio para lançar uma missão ao planeta, a Uranus Pathfinder. Essa missão precisaria de geradores nucleares para funcionar, já que Urano -- 19 vezes mais distante do Sol que a Terra -- fica longe demais para que energia solar seja uma solução viável. A sonda passaria ainda vários anos em trânsito.

Em homenagem aos 25 anos da visita da Voyager 2 ao planeta, a Nasa preparou uma galeria com as cinco melhores imagens da passagem da sonda por Urano, e que inclui alguns close-ups da lua Miranda.

Além da Vida: mediunidade ou leitura a frio?

Aproveitando o feriado paulistano, hoje vou falar um pouco de cinema. No domingo, fui assistir a Além da Vida (Hereafter), de Clint Eastwood, com Matt Damon. Artisticamente é um ótimo filme, com uma fantástica direção de atores e cenas de cortar o coração.

Psicologicamente, é uma exploração delicada dos sentimentos das pessoas que perdem entes queridos.

Já em termos filosóficos -- e científicos -- o filme é um tanto quanto dúbio: ficamos sem saber até que ponto estamos vendo as convicções do diretor (e/ou do roteirista) refletidas na tela, ou até que ponto somos apenas observadores neutros de uma série de eventos na vida dos personagens, apresentados da forma como os personagens os interpretam.

O personagem de Matt Damon é um homem seriamente convencido de que tem o poder de falar com os mortos, e uma cientista consultada pela jornalista Marie LeLay (interpretada por Cécile de France) diz que a constância das imagens das experiências de quase-morte (luz intensa, etc.) sugere que há realmente "algo lá", já que transcende barreiras culturais.

(Esse discurso da pesquisadora, aliás, foi, para mim, o ponto onde o filme mais se aproxima da desonestidade intelectual: existem estudos realizados pela psicóloga britânica Susan Blackmore, por exemplo, sugerindo que a constância das imagens é provocada pela forma como são organizados os neurônios do córtex visual do cérebro humano, algo que obviamente não varia entre culturas. Mais detalhes no livro Consciousness: An Introduction.)

Minha mulher saiu do cinema convicta de que Eastwood havia produzido um libelo em defesa da mediunidade, mas eu não fiquei com tanta certeza. Há muito pouco do que George Lonegan (o personagem de Damon) vê em suas "leituras" que não pode ser explicado como produto de leitura a frio -- a técnica de deduzir coisas sobre as pessoas a partir da observação e da interação com elas, e de elaborar essas deduções com alguns chutes calculados.

Por exemplo, ao "ler" uma amiga alta, magra e morena, Damon diz que está vendo uma mulher alta, magra e morena, mas mais velha; a mulher reconhece a imagem como sendo a própria mãe. Mas, primeiro, sugerir que uma mulher tem uma parente mais velha parecida com ela não é algo que traga um grande risco de erro (se não a mãe, poderia ser uma irmã mais velha, uma tia, a avó); segundo, o dado fundamental, de que a mulher é a mãe, veio da consulente, e não do médium.

Esta é uma parte fundamental da leitura a frio: deixar o cliente preencher as lacunas. O médium interpretado por Damon pede que os consulentes se limitem a responder a suas perguntas com "sim" ou "não", mas todos violam a regra, dando ao médium mais informação do que de fato recebem dele, além de expressar emoções que o ajudam a refinar seus palpites.

Outra característica do bom leitor a frio é a capacidade de produzir palpites genéricos que soam muito específicos para o consulente. Por exemplo, quando o personagem de Damon diz à amiga que o pai dela está "pedindo perdão pelo que fez quando ela era pequena", a mulher tem um colapso emocional -- o que sugere que ela era vítima de abuso sexual.

Mas o médium não falou nada sobre abuso sexual: ele apenas mencionou algo ocorrido na infância, de que o pai se sentia culpado. Poderia ter sido a recusa em comprar um brinquedo, um acidente andando de bicicleta, uma bronca muito dura depois de uma nota baixa na escola...

O curioso é que George Lonegan acredita sinceramente que está em comunicação com os mortos. Isso também não é implausível: muitos leitores a frio são na verdade pessoas de grande empatia natural, que executam seus truques de forma inconsciente, certos de que estão captando a informação por algum canal sobrenatural (é interessante notar que se Lonegan se apresentasse como um telepata leitor de mentes, seu poder seria impossível de distinguir da mediunidade: toda informação sobre os mortos que ele dá aos clientes era composta por coisas de que os consulentes já sabiam, e em muitos casos continha coisas que eles queriam ouvir, como o viúvo perdoado pela mulher morta e instado a se casar de novo.)

Essa leitura alternativa tornou o filme bem mais interessante, ao menos do meu ponto de vista. E o fato de as leituras de Lonegan terem sido estruturas dessa forma ambígua é uma mostra fantástica do talento do autor do roteiro, Peter Morgan.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Memória da água: seria a poliágua revisitada?

A postagem anterior, sobre a campanha 10²³, já ia um pouco longa demais, e por isso resolvi deixar para tratar do assunto da memória da água num texto à parte -- este aqui.

Como escrevi abaixo, diluições homeopáticas são tão grandes que, no produto final que chega às mãos do paciente, raramente resta uma única molécula capaz de produzir efeito biológico.

Uma teoria proposta para contornar essa dificuldade é a da "memória da água": de algum modo, a informação sobre a substância anteriormente presente em solução ficaria codificada na estrutura do líquido, e poderia ser recuperada mais tarde, no corpo do paciente -- como se a água fosse um DVD e o organismo humano o DVD player, digamos.

A ideia tem uma certa plausibilidade superficial. Água é uma substância singular. Gelo se expande, por exemplo, contrariando a regra de que o frio contrai os corpos. Além disso, a molécula de água tem polos elétricos, o que pode gerar alguns efeitos bizarros (deixe um fio bem fino de água escorrer da torneira; esfregue um pente de plástico no cabelo seco; aproxime o pente da água e veja o que acontece).

A primeira alegada "comprovação experimental" da memória da água foi apresentada à comunidade científica pelo pesquisador francês Jacques Benveniste, em artigo publicado em 1988 na revista Nature. Resumindo, Benveniste disse ter obtido uma reação à presença de anticorpos humanos numa amostra de água diluída a ponto de não haver mais nenhum anticorpo presente.

Uma investigação posterior, no entanto, demonstrou que nem mesmo a equipe de Benveniste era capaz de distinguir entre água de anticorpo superdiluída e água pura -- se não se soubesse, de antemão, qual frasco continha o quê. A reação só ocorria nos frascos onde os cientistas esperavam que ela acontecesse. Ficou claro que Benveniste estava vendo o que queria ver, e não o que realmente estava lá.

A situação ficou mais ou menos assim -- com alguns cientistas ainda alegando ver sinais de memória na água, mas sem conseguir convencer a maioria dos colegas -- até o ano passado, quando a causa ganhou um campeão de peso: ninguém menos que Luc Montagnier, ganhador do Nobel de Medicina como um dos descobridores do vírus causador da aids, o HIV.

Em um artigo científico publicado online, Montagnier descreve como, num experimento envolvendo bactérias, células do sistema imunológico humano reagiram à presença do micróbio mesmo numa solução filtrada a ponto de nenhuma bactéria ou fragmento ter restado na água.

No mesmo artigo, ele relata outro experimento, no qual radiação eletromagnética de baixa frequência parece ter sido capaz de transferir as propriedades de uma cadeia de DNA para um frasco de água pura. Depois de receber a transmissão, a água foi submetida a uma reação de PCR -- usada para ampliar fragmentos de material genético encontrados, por exemplo, em cenas de crime -- e produziu DNA 98% compatível com o presente no frasco emissor.



Descrito assim, o resultado não é nada menos que espantoso. A história da ciência, no entanto, está cheia de experimentos com resultados espantosos que parecem à prova de erros no papel, mas que depois se mostraram tragicamente falhos. Talvez o caso mais pertinente à memória da água seja o da "poliágua".

Na década de 60 do século passado, cientistas soviéticos afirmaram ter produzido uma nova forma de água, com propriedades físicas e químicas diferentes das da água comum. Nessa chamada poliágua, as moléculas estariam ligadas em cadeias, e a substância apresentaria uma consistência gelatinosa.

Centenas de cientistas chegaram a se dedicar ao assunto entre 1968 e 1972, até que se comprovasse que os efeitos miraculosos da poliágua eram fruto de contaminação do líquido -- exatamente a explicação mais plausível, e a mesma que os descobridores soviéticos da substância haviam descartado.

Se os efeitos descritos por Montagnier acabarão se revelando mero excesso de entusiasmo (como no caso Benveniste), contaminação (como na poliágua) ou um fenômeno real, só tentativas de reprodução do experimento por pesquisadores independentes poderão dizer.

Mas mesmo se água for capaz de registrar sinais eletromagnéticos, fica uma questão em aberto: como ela sabe quais sinais? Por que o DNA do tubo de ensaio ao lado e não, digamos, a urina do faraó Tutancâmon? Afinal, a água da Terra já foi reciclada pelos corpos dos seres vivos uma infinidade de vezes.

Aguardemos, portanto, as respostas.

domingo, 23 de janeiro de 2011

Brasil entra na campanha 10²³: homeopatia é feita de nada

Você talvez já tenha notado que anualmente, em alguns países do mundo, grupos de pessoas se dirigem a locais públicos e se submetem voluntariamente a "overdoses" de homeopatia -- emborcando de uma vez o conteúdo de frascos inteiros de medicamentos homeopáticos.

Pois bem: neste ano, quem quiser brincar no Brasil também vai poder. O website brasileiro do movimento 10²³: Homeopatia é Feita de Nada entrou oficialmente no ar neste domingo, e a manifestação está marcada para o fim de semana de 5 e 6 de fevereiro. A "overdose" coletiva deve ocorrer às 10h23 da manhã, claro.

O objetivo da campanha é conscientizar as pessoas de que a esmagadora maioria das fórmulas homeopáticas não passa de puro veículo -- água, álcool ou, no caso das pílulas, lactose -- sem absolutamente nenhuma molécula de princípio ativo.

Esse fato deriva diretamente da "Lei dos Infinitesimais" inventada (os homeopatas preferem "descoberta") pelo criador da homeopatia, Samuel Hahnemann. Segundo esse princípio, quanto mais diluída uma substância, mais potente se torna o preparado. Hahnemann acreditava que soluções extremamente diluídas de substâncias capazes de causar os sintomas de uma determinada doença tinham o poder de combater a doença.

(Se a ideia lhe parece um pouco com a psicologia do feiticeiro vodu, para quem machucar um bonequinho que simboliza o inimigo machuca o inimigo -- com a substância causadora do sintoma no lugar do boneco e a doença, no lugar do inimigo -- não se trata de coincidência: ambos são exemplos de "magia simpática", onde uma semelhança, real ou simbólica, entre duas entidades é vista como sinal de que uma é capaz de afetar a outra. É um tipo de pensamento muito comum, que esta na base de toneladas de superstições.)

Em defesa de Hahnemann, é preciso dizer que quando ele teve sua iluminação, a existência de átomos e moléculas ainda não havia sido comprovada, e a doutrina do vitalismo -- a ideia de que as coisas, principalmente seres vivos, têm essências que podem estar presentes mesmo na ausência de qualquer vestígio material -- ainda era cientificamente respeitável.

Hoje em dia, no entanto, sabemos que as substâncias da natureza são feitas de moléculas, e que a partir de um certo nível de diluição, simplesmente não há como restar nenhuma molécula de material em meio ao volume de solvente. Já o vitalismo virou nota de rodapé nos livros de história da ciência, junto com o geocentrismo e outras ideias que pareciam boas mas acabaram não funcionando.

Se você fez ensino médio (ou colegial ou segundo grau, que é como esse negócio se chamava na minha época), é possível que se lembre de que a concentração de soluções costuma ser medida em moles por litro. Um litro é isso mesmo, um litro, e um mol é uma quantidade de moléculas: 6,022x10²³, para ser exato. (Essa notação representa o número 6.022 seguido de 20 zeros).

É do 10²³ do mol que vem o nome da campanha, por falar nisso.

Diluições homeopáticas costumam ser medidas numa escala denotada pelo numeral romano "C", de 100, onde cada ponto a mais -- 1C, 2C, 3C, etc. -- representa uma redução da concentração anterior a 1%. Assim, por exemplo, 5C tem 1% da concentração de 4C, que por sua vez já era apenas 1% de 3C. Uma diluição bastante comum é 30C.

O problema é que, começando com uma solução 1mol/litro, assim que atingimos uma diluição de 12C, o número de moléculas por litro cai a 0,6 -- menos de uma! -- e continua a cair cada vez mais, nas diluições subsequentes.

É por isso que a campanha diz que "homeopatia é feita de nada" e que a "overdose" é segura (desde que o remédio usado tenha uma diluição superior a 12C e o manifestante não sofra de nenhum problema de saúde que possa ser agravado pela lactose, é claro). Simplesmente, não há nada ali.

A reação de muita gente a esses fatos é dizer, "Ok, homeopatia não deveria funcionar, porque não contém nenhuma molécula ativa, mas o fato é que funciona. Certo?". O objetivo da manifestação é desmistificar isso. Se funcionasse, as overdoses deveriam causar algum efeito. Mas não causam.

O sucesso da homeopatia é um fenômeno cultural, não médico-biológico. O paciente reage à atenção especial dedicada pelo homeopata, ao ritual do tratamento, às expectativas positivas criadas, não à droga.

 Isso é medicina à moda antiga: como escreveu Voltaire no século XVIII -- e Voltaire morreu em 1779, mesmo ano em que Hahnemann inventou a homeopatia --, o papel do médico na época limitava-se a manter o doente confortável enquanto a natureza tratava de curá-lo. Em comparação com outras distrações médicas do período, como sangrias e purgantes à base de metais pesados, como mércúrio, a homeopatia causava surpreendentemente pouco dano.

Com exceção de algumas intervenções cirúrgicas e umas poucas drogas realmente eficazes, essa função primordial da medicina -- distrair o paciente -- só mudou, de fato, a partir da descoberta dos antibióticos, no século passado.

No Brasil, onde os homeopatas também são médicos, a maioria é responsável o suficiente para notar quando o tratamento à moda do século XVIII não é suficiente e a ciência moderna precisa intervir. Outras nações não têm a mesma sorte, e não são raros os relatos vindos da Europa, EUA, Ásia e da Oceania de "morte por homeopatia".

PS

Para quem viu a capa da Veja desta semana, sobre Ofiúco e a astrologia: os leitores deste blog ficaram sabendo uma semana antes. ;-)