quarta-feira, 5 de outubro de 2011

O(s) problema(s) do mal

Para dar continuidade à série (informal e indefinida) sobre os argumentos clássicos do debate entre teísmo e ateísmo, depois de tratar da favelização do inefável, nada melhor que trazer à baila o Problema do Mal.

A palavra "problema" pressupõe que a existência de mal e de sofrimento no mundo é, de certa forma, embaraçosa para quem defende uma concepção mais ou menos clássica de Deus.

Nessa concepção clássica, a suposta entidade divina é entendida como um agente (isto é, um ser dotado de propósitos, intenções e que atua no mundo de forma coerente com esses propósitos e intenções) onipotente, criador e sustentáculo do Universo, infinitamente bom ("onibenevolente"), que ama e se interessa profundamente por suas criaturas.

A formulação mais comum do problema é o chamado Paradoxo de Epicuro: Ou Deus quer acabar com o mal e não pode, e portanto não é onipotente; ou pode e não quer, e portanto não é bom.

A resposta-padrão a esse desafio é o que gosto de chamar de Saída à Romana (porque aparece, elaborada de forma poética, na Carta de Paulo aos Romanos) ou, de modo mais comezinho, de estratégia do "sabe-com-quem-está-falando": reduz-se, basicamente, à admoestação de que a pretensão de emitir juízos morais sobre Deus é de uma arrogância insuportável, um sinal de falta de sofisticação filosófica, uma grosseria. "Homenzinho insignificante! Dobre o joelho e cale a boca. Como ousa...?!"

Essa resposta, no entanto, deixa em aberto o enigma de como o teísta pode afirmar que Deus é bom sem também se mostrar arrogante e grosseiro, já que proclamar a bondade de um agente é, também, o resultado de um julgamento. Ou, ao menos, deveria ser. Do contrário, trata-se apenas de um encômio vazio, o equivalente de se chamar todo e qualquer deputado de "excelência" ou tratar todo reitor de "magnífico". A Saída à Romana aproxima-se bastante, portanto, da falácia da favelização do inefável.

Outra saída às vezes utilizada é argumentar que, como Deus é o padrão final do bem e do mal, ele é bom por definição. Mas isso não só esvazia os conceitos de "bom" e "mau" de todo conteúdo, reduzindo-os à mera arbitrariedade de um poder despótico -- na frase em inglês, might makes right, "a força faz o direito" -- como também nos leva a outro paradoxo clássico, o de Eutifro.

Então, supondo que o "problema do mal" é mesmo um problema para a posição teísta, como o ateu o articula? Existem, historicamente, dois argumentos a respeito: o argumento lógico do mal e o argumento da evidência do mal.

O argumento lógico busca ser uma prova: uma demonstração de que Deus, entendido como um ser bondoso e onipotente, é um conceito tão incoerente quanto um quadrado redondo ou um bípede de quatro patas. Já o argumento da evidência do mal apenas chama atenção para o fato de que a existência de dor e sofrimento no mundo torna altamente improvável a existência de um Deus que seja, ao mesmo tempo, bondoso e onipotente.

Há várias formas de articular o argumento lógico, mas acho que dá para expressar suas premissas e conclusões de forma bem clara assim:

(1) Um ser infinitamente bom desejaria evitar que todos os demais seres sofressem;
(2) Um ser infinitamente poderoso poderia obter tudo o que deseja;
(3) Logo, não deveria haver sofrimento num mundo criado e regido por um ser  infinitamente bom e infinitamente poderoso;
(4) Mas existem seres sofrendo no mundo;
(5) Portanto, o mundo não foi criado, e nem é regido, por um ser infinitamente bom e infinitamente poderoso.

O argumento é válido, mas nenhuma cadeia dedutiva, mesmo válida, é mais forte do que suas premissas mais fracas. Talvez a mais problemática da sequência acima seja (2), já que normalmente se aceita que a onipotência divina tem, na verdade, alguns  limites práticos, como os ditados pelas necessidades lógicas (Deus não pode criar um número ímpar divisível por dois, digamos).

A linha de defesa teísta, aqui, costuma ser a de argumentar que alguns males são logicamente necessários para a produção de bens -- por exemplo, sem pobreza, não haveria espaço para caridade; sem pecado, não poderia haver perdão; sem a possibilidade de roubo, homicídio ou adultério, não haveria liberdade moral; e assim por diante.

Alguém poderia questionar a sanidade de um Deus que deixa crianças passarem fome para que alguns milionários possam exercitar suas virtudes caridosas, ou por que a liberdade dos nazistas em praticar seu sadismo foi mais valiosa, aos olhos divinos, do que a vida de 6 milhões de judeus. Mas a plausibilidade aparente do conceito de mal necessário enfraquece a segunda premissa do argumento lógico o suficiente para que ele não funcione como uma prova cabal, geométrica, da inexistência de Deus. Ele é, no entanto, sugestivo o bastante para nos permitir lançar, em seguida, o argumento da evidência do mal.

Esse argumento nasce da questão de se todo os males que observamos no mundo realmente são absorvidos, ou neutralizados, por bens e virtudes que surgem a partir deles. Aqui, o teísta pode se sentir tentado a levantar, mais uma vez, a acusação de arrogância e maus-modos: "Para julgar se o  bem que existe no mundo compensa o mal", vai o argumento, "você precisaria ter uma sabedoria infinita, e enxergar a eternidade pelos olhos de Deus, o que é impossível!"


Certo. É, talvez. Mas o que a admoestação teísta faz é apenas chutar a bola no mato: se a falta de uma sabedoria infinita proíbe o ateu de especular que o balanço entre bem e mal no mundo é neutro ou negativo, ela também impede o teísta de argumentar o contrário. Dizer que Deus é bom, portanto, torna-se também, e pelo mesmo critério invocado pelo teísta, impossível (o filósofo britânico Stephen Law ilustra este ponto com graça e elegância em sua fábula sobre O Deus do Planeta Eth).

Eis, portanto, que o dragão do inefável e incognoscível ergue, novamente, sua cabeça hedionda. Se quisermos tirar alguma conclusão, ainda que tentativa, é necessário olhar para o mundo com nossos olhos limitados e sopesar a evidência. E o que a evidência mostra?

Há várias manobras engenhosas que tentam justificar o mal que os seres humanos infligem uns aos outros (como os apelos livre arbítrio) ou que sofrem por causa da natureza, como em tsunamis, pragas ou terremotos (males assim "fortalecem o caráter" dos que sofrem e dos que se propõem a ajudá-los).

(Estou desprezando propositalmente o argumento da "justiça na outra vida/na eternidade" porque ele apenas  tornaria a discussão circular, estabelecendo que é preciso acreditar em outra vida para aceitar que Deus é bom; o que é vicioso, já que é necessário acreditar em Deus para aceitar que há outra vida, para começo de conversa!)





Essas manobras são engenhosas, como escrevi, mas no fundo me parecem injustificadas e, também, cruéis. Muito do mal que as pessoas provocam umas às outras nasce, por exemplo, de fraqueza e ignorância, e não é fácil entender como sermos fracos e ignorantes a ponto de cometer certas atrocidades nos torna "mais livres".

Já a questão da formação de caráter, embora possa ser defendida em alguns casos, quando generalizada também assume ares de piada de mau gosto. Dizer que a morte de centenas ou de milhares de pessoas num desastre representa um preço justo para que um ou dois atos de desprendimento e heroísmo possam acontecer é perverso.

Mas o que talvez seja mais difícil de justificar é o sofrimento no mundo natural. Ou, como anotou Charles Darwin, "que livro um capelão do Diabo poderia escrever sobre as obras desajeitadas, dispendiosas, idiotas e horrivelmente cruéis da natureza!"

Supondo que o Universo tenha sido criado com o objetivo fundamental de produzir a vida humana, é difícil enxergar a necessidade lógica, não só de 13,5 bilhões de anos de evolução do espaço-tempo mas, mais ainda, dos mais de 3 bilhões de anos em que a vida na Terra existiu sem nós, e principalmente dos 600 milhões de anos de existência de vida animal, "rubra em garra e presa",  na expressão poética de Lorde Tennyson.

Se o sofrimento humano existe por um sentido de fortalecimento moral (e, suponhamos, por caridade, que o balé fatal de leões e búfalos, tal como na imagem acima, seja uma fonte de alegorias e deleite estético para a edificação humana) por que, durante meio milhão de anos, antes que o primeiro ser humano pisasse a Terra para ser fortalecido, deleitado ou edificado, animais desprovidos de um caráter a ser construído passaram fome e frio, medo e tristeza, contraíram doenças parasitárias terríveis, foram sufocados, afogados,quebrados, estripados, mortos, devorados, soterrados?

Uma saída seria argumentar que, por algum motivo obscuro, a dor dos animais não importa. Talvez porque Deus realmente não ligue para eles (o que põe em questão o motivo de tê-los criado, e também como alguém capaz de criar seres para os quais não liga poderia ser "bom"). Ou talvez porque eles sejam como autômatos ou zumbis, incapazes de sofrer "de verdade".

Mas mesmo reconhecendo que a consciência humana dá uma dimensão extra às dores de nossa espécie, descartar a dor dos animais como irrelevante para uma (suposta) ordem moral do Universo bate de frente não só com a experiência comum -- afinal, sacrificamos bichos doentes para que parem de sofrer, e temos leis proibindo crueldade contra os animais, certo? --, como também contradiz o que sabemos sobre o papel das emoções e dos sentimentos, como dor e prazer, na evolução da própria consciência humana. E mesmo que o sofrimento de um único animal seja irrelevante se comparado ao de um ser humano, o que dizer de bilhões, trilhões ou quatrilhões de vidas "inferiores" esmagadas?

Enfim, o argumento da evidência do mal não prova que não existe um Deus. Mas torna muito, muito difícil justificar racionalmente a decisão de chamá-lo de "bom".

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Universo em expansão acelerada leva o Nobel


Acho que, a esta altura, todo mundo que se interessa pelo assunto já sabe que o Nobel de Física foi para os autores da descoberta da expansão acelerada do Universo.

O que eu queria partilhar com vocês é outro desses momentos "meninos, eu vi" que acontecem cada vez mais deste lado da barreira dos 40 anos; ou, basicamente, o que acho -- acredito, suponho, imagino, mas talvez até esteja errado -- tenha sido a primeira notícia online sobre o assunto em língua portuguesa. E que fui eu que escrevi. Graças ao web archive, você pode ver a reprodução da página neste link.

(Acrescentado mais tarde)


Relendo o texto de meu alter-ego de 13 anos atrás, encontro algumas coisas que me fazem torcer o nariz -- a menção a um "centro hipotético da criação", por exemplo (de fato, o Big Bang não fez o Universo se expandir a partir de um lugar, já que ele criou todos os lugares também).

Outras coisas, como a noção de que o Big Bang representou uma criação ex nihilo ("a partir do nada") e não uma mudança de estado de um "algo" pré-existente, talvez realmente fizessem parte do espírito da época.

O texto de 98 integrava uma seção, chamada Ano 2000, do site da Agência Estado, dedicado a a acompanhar os desenvolvimentos sociais e científicos que estavam levando à virada do milênio (coisa mais passé, né?).

 Tinha um banner retrofuturista muito legal, criado, se não me engano, em cima de uma ilustração colorida de Buck Rogers pela Marcinha Vaitsman. Pena que não ficou preservado no web archive.

domingo, 2 de outubro de 2011

Fé e saúde: vamos aos fatos, por favor...

Depois da Veja, chegou a vez da Folha correr atrás do trio elétrico do "tratamento espiritual" do ator Reynaldo Gianecchini. Se, por um lado, o texto publicado na edição deste domingo da FSP(linkado acima)  tem o mérito de quebrar um velho vício da mídia brasileira -- o de privilegiar as doutrinas do catolicismo sobre as de todas as demais religiões praticadas no país -- ele o quebra, a meu ver, do jeito errado, estendendo às crenças espíritas o mesmo grau de suspensão do senso crítico de que já gozam as supostas aparições Maria e os alegados milagres de Frei Galvão, Irmã Dulce e João Paulo II.

(Imagino até onde irá esse espírito de cortesia para com as crenças alheias. Será que um dia leremos, numa publicação que se pretende de primeira linha, algo como "Fazer trabalho para amarrar o amor funciona? Quanto a isso, não há consenso, nem mesmo entre as feiticeiras que leem tarô cigano...", ou "Ditadura de partido único funciona? Quanto a isso, não há consenso nem mesmo entre os leninistas...")

A edição do caderno ainda tenta dar algum equilíbrio à pauta, publicando um artigo do editor de Ciência, o heroico Reinaldo José Lopes, mas o texto não só foi parar numa página diferente da reportagem principal, quebrando a unidade do tema, como o título ("Pacientes com fé têm melhoras, afirma pesquisa"), além de ser de uma tolice atroz -- pacientes sem fé também têm melhoras, afinal, ou será que só ateus morrem no SUS? -- basicamente desmente o texto, permeado de advertências sobre o caráter pantanoso da questão.

E o lide, dizendo que o número de curas de câncer "pela fé" parece ser ainda menor que o de remissões espontâneas sem intervenções religiosas, vem enterrado na última linha.

(Para os não-iniciados: "lide", em jargão jornalístico, é a informação mais relevante do texto. Na prática jornalística usual, essa informação deve ser apresentada sempre no primeiro parágrafo. Daí vem a palavra "lide", do inglês lead, "o que vem primeiro", "o que encabeça". "Enterrar o lide" é escondê-lo em outras partes da matéria. Um lide pode acabar enterrado por vários motivos, incluindo falta de tempo para estruturar melhor o texto mas, às vezes, jornalistas optam por enterrá-lo deliberadamente, na esperança de que uma informação desagradável passe despercebida. Uma piada que ouvi certa vez diz que "o lide é como um zumbi: não basta enterrá-lo, é preciso decapitá-lo e cremá-lo".)

Mas, enfim, pondo de lado a vontade de vender ao leitor do jornal dominical a reconfortante e altamente digestiva impressão de que algumas doses de superstição e pó de pirlimpimpim podem, talvez, quem sabe, de repente, até fazer bem, o que se pode afirmar sobre a relação entre fé e saúde?

Alguém realmente interessado em informar objetivamente o leitor poderia ter encontrado na internet um paper da Colaboração Cochrane que conclui que a maioria dos estudos existentes não mostra nenhum efeito positivo das preces sobre a saúde, e outro, publicado em 2002 nos Annals of Behavioural Medicine, concluindo que "há pouca base empírica para se afirmar que envolvimento ou atividade religiosa associa-se a resultados de saúde benéficos".

O trabalho da Annals é especialmente importante porque põe em relevo o fato de que os "fatores religiosos" que parecem fazer bem à saúde são, na verdade, fatores que nada têm a ver com as alegações específicas da religião. Por exemplo: freiras enclausuradas têm pressão arterial menor porque vivem vidas regradas e tranquilas, longe do estresse do dia-a-dia, ou porque estão mais perto de Jesus? O fato de que monges budistas também têm uma saúde cardiovascular invejável sugere fortemente que a primeira opção é a correta. Mas "fé faz bem" deve vender mais jornal que "respirar fundo e relaxar faz bem", suponho.

Por fim, a matéria da FSP menciona os "cirurgiões espirituais" das Filipinas sem citar que eles foram desmascarados, seguidas vezes, como prestidigitadores e charlatães. O que é possível conferir no vídeo abaixo: