quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Negacionismo à sinistra

"Não há, por exemplo, nenhuma prova de que uma só pessoa tenha morrido, ou mesmo ficado gravemente doente, por causa do resíduo acumulado de pesticidas em sua comida. O mesmo não pode ser dito sobre as toxinas contidas nos alimentos "naturais" -- como os surtos de contaminação por salmonela ou de envenenamento por leite não-pasteurizado nos EUA demonstram continuamente". (Michael Specter, "Denialism")

Quando se fala em negacionismo -- a negação deliberada de um fato bem estabelecido --, a imagem que mais facilmente vem à mente é a da figura conservadora, de direita, seja ela o neonazista que nega o Holocausto, o televangelista que nega a evolução ou o articulista de jornal que nega o aquecimento global. Dois livros que li recentemente, no entanto, chamam a atenção para o fato de que a esquerda também é culpada do mesmo pecado, ainda que com alvos diferentes: Science Left Behind: Feel-Good Fallacies and the Rise of the Anti-Scientific Left e Denialism: How Irrational Thinking Hinders Scientific Progress, Harms the Planet, and Threatens Our Lives.

O primeiro, do biólogo Alex Berezow e de Hank Campbell, criador do site Science 2.0, é mais ideológico: embora traga várias informações interessantes, ele se arrasta numa longa diatribe sobre como os cientistas e jornalistas científicos de esquerda são intelectualmente desonestos ao tratar os políticos do Partido Republicano como brucutus semianalfabetos, ao mesmo tempo em que fazem vistas grossas às bobagens pseudocientíficas que muitos nas fileiras do Partido Democrata abraçam, como a oposição às vacinas, o amor pela medicina alternativa, a satanização dos produtos transgênicos.

O segundo, do jornalista Michael Specter -- citado na epígrafe -- é mais denso em informação e, embora também apresente opiniões, é bem menos estridente, e se apoia bem menos na identidade política dos eventuais negacionistas para apresentar seu caso.

Da leitura de ambas as obras, no entanto, fica a impressão de que o negacionismo de esquerda tem pelo menos uma característica que o distingue do de direita, para além de seus alvos: enquanto a negação pela direita tende a disputar fatos (que a Terra está aquecendo por causa da queima de combustíveis fósseis, que ser humano e o chimpanzé têm um ancestral comum) a negação pela esquerda tende a manipular o conceito de risco.

O que é uma estratégia muito eficaz. O ser humano é especialmente ruim em avaliar o risco envolvido nas coisas que faz. A maioria das pessoas considera que andar de avião é mais perigoso do que de atravessar a rua -- mas, segundo dados do Ministério da Saúde, no ano passado 8.390 pedestres brasileiros morreram no trânsito, e apenas 18 brasileiros perderam a vida em acidentes aéreos. Mesmo levando em consideração que apenas 66 milhões de brasileiros andam de avião (número de 2010), e supondo que todos os 200 milhões atravessem a rua de vez em quando, o risco relativo de andar na rua ainda é 150 vezes maior que o de embarcar numa aeronave.

Ou, como escreve Specter, o número de americanos que morreu, nos últimos 30 anos, em consequência direta e demonstrável de ter comido alimentos transgênicos é zero; já o número de americanos que morreu, em 2008, após tomar um comprimido de aspirina foi de dois mil; e outras 300 pessoas morreram afogadas em suas banheiras nos Estados Unidos, no mesmo ano.

O ponto é que não é possível (ou, ao menos, não é exatamente honesto) falar em risco em termos absolutos: uma coisa não é segura ou arriscada em si, mas apenas mais ou menos arriscada (ou segura) que a alternativa. Todos nós temos uma noção intuitiva disso: por exemplo, mesmo sabendo que é arriscado violar o limite de velocidade no trânsito, consideramos (talvez erroneamente) que esse risco é menor que o de atrasar para a reunião e desagradar o chefe.

Ao apontar para "riscos" genéricos -- ficando no exemplo acima, das lavouras transgênicas que podem causar dano à saúde, ou que podem prejudicar o meio ambiente -- sem oferecer um termo claro de comparação (o risco de pessoas passarem fome, ou de se ter de usar mais pesticidas ou, caso se abandonem tanto os transgênicos quanto os pesticidas, de se ter de destruir mais mata nativa para compensar a perda de produtividade por hectare), a esquerda pratica sua modalidade particular de negacionismo.

Berezow e Campbell mostram-se especialmente exasperados com o fato de que, ao se eximir de fazer comparações de riscos relativos e análises de custo-benefício, a esquerda ambientalista é capaz de condenar, ao mesmo tempo, a energia nuclear (perigosa), a hidrelétrica (ruim para os rios), os combustíveis fósseis (efeito estufa) e, em alguns casos, a eólica (estraga a paisagem, mata pássaros).

Specter, Berezow e Campbell chamam ainda atenção para o mito romântico de que tudo que é "natural" é bom e saudável. Specter lembra que as substâncias que mais matam no mundo são "naturais" -- água e comida contaminados por vírus, fungos e bactérias. "A natureza produz muitos produtos químicos, e eles não são menos tóxicos que os criados pelo homem", escreve.

Berezow e Campbell  se referem a esse deslumbramento com o "natural" como parte de uma "mitologia progressista" que mencionam logo no primeiro capítulo da obra. Os outros axiomas dessa mitologia seriam: tudo que é artificial é mau; a ciência vai nos destruir; e todo conhecimento é relativo.

Mais para o fim do livro eles acrescentam um outro, o da tábula rasa: todas as diferenças de temperamento, inclinação e comportamento que existem entre seres humanos, incluindo as diferenças não-anatômicas entre homens e mulheres, podem ser explicadas por fatores culturais e sociais, nunca pelos genes ou pela natureza. Mesmo concedendo que a tábula rasa parece ter emergido como uma reação bem intencionada ao racismo e ao sexismo, os autores acusam forças de esquerda na academia de usá-la como arma ideológica para sufocar estudos em áreas como a psicologia evolutiva.

É importante notar, porém, que nem o uso irresponsável da noção de risco é exclusividade da esquerda, nem a manipulação ideológica de dados, da direita. O recente estudo francês -- já desacreditado -- sobre transgênicos que causam câncer foi uma manobra que lembra bem as estatísticas furadas dos negacionistas climáticos; e o pânico que a direita americana tentou criar, levantando "riscos" imaginários para evitar a vacinação de adolescentes contra o vírus HPV não cairia mal como peça de um grupo de defensores da medicina alternativa.