sábado, 5 de dezembro de 2015

Livro da Astrologia: lançado!

O texto abaixo corresponde aos parágrafos inicias do meu e-book 'O Livro da Astrologia', que está sendo lançado hoje pela Amazon.com.br. Você pode adquirir e baixar o livro neste link. Para encontrá-lo nos sites internacionais da Amazon, basta fazer a busca pelo título. 

Alguém certa vez disse numa rede social, e não faz muito tempo, que criticar a astrologia, nos dias atuais, é “chutar cachorro morto”. Essa é uma impressão, creio, bastante comum entre cientistas e jornalistas científicos: imagino que praticamente todo divulgador de ciência já cometeu pelo menos um artigo desmontando pelo menos um dos muitos aspectos – sem trocadilho – da falácia astrológica e, dando o serviço por terminado, foi cuidar de coisas mais relevantes, como a fobia contra os transgênicos ou a negação da mudança climática. 

O problema, no entanto, é que, quando o assunto é astrologia, o serviço nunca está realmente terminado. Cícero (106 AEC-46 AEC) já havia exposto a prática ao ridículo ainda nos tempos da República Romana, e no século XVI uma bula papal chegou a ser escrita condenando-a. A despeito disso, horóscopos continuam a povoar jornais e revistas cada vez mais claudicantes, mais ou menos como a orquestra a tocar no Titanic enquanto os passageiros se estapeavam pelos botes salva-vidas. O jornal da sua cidade pode não ter uma página de ciência, ou nem mesmo uma seção de quadrinhos, mas certamente tem coluna de horóscopo. E esses horóscopos são apenas a ponta do iceberg.
Mas, afinal, o que é “astrologia”? Há tantas linhas, versões e escolas, sideral ou tropical, chinesa ou indiana, uraniana ou clássica, que é tentador usar uma definição operacional: astrologia é o que os astrólogos fazem. Mas isso não ajuda muito, então podemos tentar algo assim: trata-se da crença de que a posição aparente no céu dos planetas, da Lua e do Sol no momento do nascimento pode ser usada para determinar as características gerais da personalidade de uma pessoa, tendências de temperamento e de comportamento, e para indicar as principais dificuldades que a pessoa provavelmente encontrará em sua vida.
Essa crença representa o que costumo chamar de “superstição socialmente sancionada”, no sentido de que não costuma prejudicar a imagem dos aderentes entre os extratos sociais que se supõem mais “esclarecidos” e “antenados”. Muito pelo contrário: uma pitada de astrologia, estrategicamente posicionada na conversa, pode até aumentar seu charme pessoal em meio a amplos setores da assim chamada “intelligentsia”.
Essa sanção social tácita acaba tendo consequências – financeiras, emocionais, pessoais, até mesmo em questões de saúde – que podem ser temerárias (como no caso, amplamente divulgado, de uma atriz que optou por ter o filho prematuro para que ele nascesse no momento astrológico “correto”) ou, mesmo, trágicas, envolvendo decisões cruciais como a escolha de uma carreira ou o destino de um relacionamento.
No entanto, o que esse uso social-sofisticado da astrologia parece requerer, e de modo um tanto quanto obsessivo, é justificação. Nenhum intelectual simplesmente diz que acredita em astrologia. Ele (ou ela) faz questão de se explicar, muitas vezes em tom de proselitismo.
Entre as explicações oferecidas há a pessoal (“funciona para mim”), a gravitacional (“se a Lua influencia as marés, e nós somos 80% água...?”), a tradicionalista (“astrologia era a arte dos reis da Babilônia”), a sabe-com-quem-está-falando (“Kepler e Newton faziam horóscopos”) a semiótica (“não dá para interpretar arte medieval e renascentista sem saber astrologia”) e a psicanalítica (“Jung! Jung!”). Se o debate se aprofundar, o nome do mui caluniado psicólogo e estatístico francês Michel Gauquelin (1928-1991) certamente virá à tona.
De todas as desculpas, a que chamei de “semiótica” consegue ser uma das mais impressionantes, ao menos na superfície, e, também, uma das mais rasas: se não é possível desfrutar por completo de uma pintura como “Primavera”, de Botticelli, sem ser capaz de reconhecer a rica metáfora astrológica codificada na imagem, também não dá para entender direito a literatura de Homero sem conhecer mitologia grega, mas daí não se deduz que os deuses do Olimpo existem e influenciam nossas vidas.
Embora seja impossível negar o papel que a astrologia desempenhou num determinado estágio do desenvolvimento da filosofia e da ciência na Europa – principalmente durante o Renascimento – usar esse pedigree para argumentar em favor de sua validade atual faz tanto sentido quanto dizer que homens adultos devem dormir em berços, porque em berços dormiam nos primórdios de suas vidas.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Divulgação Científica em Porto Alegre!

Nesta quinta-feira a começa a 1ª Jornada de Divulgação e Jornalismo Científico da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, da qual participo com uma palestra, no fim da tarde de quinta, e depois numa mesa redonda na sexta-feira. A programação completa pode ser vista aqui, e tem um bocado de gente boa.

O público-alvo da minha palestra, Divulgação e Jornalismo em Ciência: Riscos e Oportunidades, são basicamente estudantes e jovens cientistas. Quem assistiu à minha intervenção no Simpósio de Biodiversidade da Universidade Federal de Viçosa (campus Rio Paranaíba), em maio, provavelmente tem uma boa ideia do que vou abordar. É o mesmo argumento, mas com mais exemplos e ilustrações.

O cartaz do evento é este, bonitão, aí embaixo:


terça-feira, 1 de dezembro de 2015

O segundo Argos a gente nunca esquece!



Neste último fim de semana estive no Rio de Janeiro para a cerimônia de entrega dos Prêmios Argos -- concedidos aos melhores trabalhos de fantasia, ficção científica ou terror publicados em língua portuguesa no ano anterior à premiação. Essa escolha dos "melhores" é feita pelos sócios do Clube de Leitores de Ficção Científica (CLFC). Tive a honra de ser premiado na categoria conto, por Clitoridectomia.

Esse foi um reconhecimento triplamente especial: primeiro, por se tratar de um conto publicado em formato digital; segundo, por ser uma história sobre mutilação genital feminina (o que não é o tipo de assunto que a maioria das pessoas associa à ficção científica); terceiro, porque este é o meu segundo Argos. O primeiro, de 2013, me foi concedido por No Vácuo, Você Pode Ouvir o Espaço Gritar, que de certa forma tinha uma temática mais "normal" dentro do gênero (contato com tecnologias alienígenas) e havia saído numa antologia de papel, a Space Opera 2.

Essa diferença entre minhas duas vitórias me pôs a pensar sobre como a chegada da Amazon ao Brasil parece ter afetado o perfil do leitor de contos: em três anos, o destaque passou dos volumes de antologia para a publicação virtual. Entre os sete contos finalistas do Argos neste ano, quatro eram edições digitais, e os outros três, embora tenha saído originalmente em papel, também têm versão online.

Sempre considerado um formato de segunda linha (e hoje em dia ainda mais, neste mundo onde todo mundo só parece querer saber de megalogias de trocentas páginas), o conto parece estar achando seu nicho entre os usuários de e-readers.

Digo isso não só pelo sucesso de Clitoridectomia, mas também pelas carreiras -- até agora modestas, mas não de todo frustrantes -- dos dois contos que publiquei online por conta própria, Diamante Truncado e O Lamento de Suas Mulheres. Nenhum deles vai me permitir trocar o jornalismo pela literatura, mas já me renderam o suficiente para eu considerar a hipótese de voltar a escrever ficção científica em português, algo de que havia desistido, anos atrás, por puro desespero de causa: não me incomodo em não ter lucro, mas o prejuízo estava desproporcional.

Queria agradecer aos votantes do Argos, à direção do CLFC e ao amigos que me receberam tão bem no Rio. E pedir às pessoas que ainda têm prevenção contra o livro eletrônico, mas que apreciam ficção curta, que pensem um pouco mais no assunto: o e-book, cada vez mais, está virando a casa do conto.

segunda-feira, 30 de novembro de 2015

Generosidade e desigualdade

Pessoas ricas são menos generosas em sociedades onde a desigualdade econômica é mais acentuada, sugere levantamento realizado nos Estados Unidos e publicado no periódico PNAS. Os autores, das universidades de Toronto e Stanford, analisaram os resultados de uma pesquisa realizada com mais de mil americanos, e que incluía a opção de se fazer uma doação real, e ainda um segundo estudo com mais de 700 voluntários e que também permitia doações.

Os resultados indicam, segundo os autores, que pessoas mais ricas são, em média, menos generosas que as demais apenas em situações de desigualdade exacerbada ou de percepção exacerbada de desigualdade. “Isso desafia a visão de que os indivíduos de renda elevada são necessariamente mais egoístas”, diz o artigo, “e sugere um modo, até então não documentado, pelo qual a distribuição desigual de recursos prejudica o bem-estar coletivo”. (Esta é uma das notas da coluna Telescópio, do Jornal da Unicamp).