sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Racionalidade é dever moral?

Ética da Crença é o título de um ensaio escrito no século 19 pelo filósofo e matemático britânico William Clifford, em que ele afirma que "é errado, sempre e em qualquer lugar, acreditar em alguma coisa com base em evidência insuficiente". Um dos pontos centrais do argumento de Clifford era a parábola (por assim dizer) do barqueiro devoto: um homem que acredita, com tamanha fé, que Deus protege seu barco que se recusa a realizar os trabalhos mínimos de manutenção (afinal, o que é o talento de um mero barqueiro diante da mão protetora da Onipotência?). Mas um belo dia o barco afunda, matando todos a bordo.

O senso-comum  diria que a culpa foi da negligência do barqueiro, mas Clifford insiste que a culpa foi da crença: o barqueiro acreditava, do fundo do coração, que Deus protegia seu barco, e sua negligência foia penas uma consequência lógica disso. Ele só foi negligente porque foi coerente com sua fé. A tragédia foi o fim inevitável de uma cadeia lógica iniciada pela crença sem base em evidências.



Ética da Crença atraiu uma crítica furiosa de outro filósofo, o americano William James -- não só um dos pais da psicologia moderna como campo de estudo independente, mas também um ardente patrocinador de estudos de mediunidade -- que ponderou, entre outras coisas, que todo mundo age com base em crenças sustentadas em evidência insuficiente: toda vez que abre uma porta e entra numa sala, por exemplo, você age com base na crença de que não há um assassino esperando-o ali de emboscada, mas qual sua evidência para isso?

O debate Clifford-James constitui, de certa forma, o pano de fundo do debate entre céticos e crentes, racionalistas e esotéricos, ateus e devotos, positivistas-cientificistas e relativistas pós-modernos que se desdobra desde então. "Proporcionar a crença à evidência" soa como uma espécie de solução de compromisso, mas ainda assim a questão de o que conta como "evidência" e qual o termo de proporcionalidade a ser aplicado ainda consume muita tinta (e teclado, e cerveja, e fritas). 

Algo saliente na exposição de Clifford, no entanto, é sua insistência na ideia de que a crença sem prova é imoral. Não apenas errada -- no sentido de que 2+2=5 é errado -- ou contraproducente, mas uma violação de deveres éticas, como as obrigações de respeitar o próximo, de não roubar e matar. Isso não seria um exagero?

Se for, trata-se de uma hipérbole popular. Um conjunto de oito estudos, consolidado em artigo publicado no periódico online PLoS ONE, propõe exatamente uma Escala de Racionalidade Moralizada (MRS, na sigla em inglês), que avalia o quanto uma pessoa considera que usar lógica e evidência na formação de crenças é uma virtude -- e uma obrigação -- moral.

Os autores, psicólogos baseados nos Estados Unidos e Reino Unido, afirmam que seus resultados mostram que a MRS é estável, consistente e se liga estatisticamente a outras posturas – por exemplo, um algo grau de MRS tem correlação negativa com religiosidade ou crença no paranormal. Além disso, pessoas com alto MRS tendem a ver outros, que mantêm crenças consideradas irracionais, como menos morais, buscam se afastar deles, evitá-los ou, em certos casos, gostariam de vê-los punidos.

“A intensidade e persistência com que crenças tradicionais são defendidas contra conclusões científicas parte, acredita-se, da ligação íntima dessas crenças com os valores morais centrais das pessoas”, escrevem os autores. “No entanto, não são apenas os defensores moralmente motivados das crenças tradicionais que têm sido caracterizados como intolerantes nos debates. Defensores da ciência também foram chamados de estridentes, raivosos e intolerantes”.

"Os resultados atuais sugerem que não só os defensores de crenças tradicionais são impulsionados por sua convicção moral, mas que os motivos por trás dos defensores da ciência também podem ter natureza moral", ponderam os autores. "Estes resultados sugerem que eles podem ser motivados pela convicção de que é moralmente errado basear-se em crenças sem apoio em lógica ou evidência. Na medida em que esse é o caso, isso pode ajudar a explicar porque seu estilo argumentativo frequentemente soa raivoso e intolerante".

Pessoal com alta MRS, diz ainda o artigo, também se mostraram especialmente motivadas a doar dinheiro ou trabalho voluntário para organizações que combatem a disseminação de superstições e pseudociências. Os autores apontam ainda que a MRS é distinta de uma mera medição do grau de importância que o indivíduo dá à racionalidade. 

O artigo pode ser lido em http://journals.plos.org/plosone/article?id=10.1371/journal.pone.0166332 .


[Esta postagem incorpora e expande informações da Coluna Telescópio do Jornal da Unicamp]

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Congelado para o futuro: round 2016


"Criônica" é o nome dado à tecnologia/crença/negócio de congelar corpos humanos inteiros, ou pelo menos o cérebro, com vistas à ressuscitação futura. Como dispositivo de enredo em obras de ficção, o tema já foi usado em praticamente todo tipo de história, mas também há empresas que oferecem serviços criônicos atuando no mundo real (dado o estado atual da tecnologia e as regras de proteção ao consumidor, elas não podem prometer ressuscitação, assim, com todas as letras, mas apenas vender o "serviço de custódia" do cadáver congelado). Já tratei desse assunto em outras oportunidades, mas dois artigos publicados no fim da semana passada me convenceram a voltar a ele.

O primeiro é do site The Engineer, sobre o caso de uma menina britânica de 14 anos que ganhou, na Justiça, o direito de ser congelada após a morte. De acordo com a notícia (que, por algum motivo, escapou aos ávidos caçadores de sensacionalismo da mídia nacional), "o veredicto veio pouco antes de ela morrer de câncer". O custo do "tratamento" em si, para além do translado do corpo para os Estados Unidos (onde fica a firma criônica) é estimado em 37 mil libras, o que, no momento em que digito esta postagem, equivale a algo como R$ 155 mil.

O site ouviu especialistas sobre o assunto. As críticas à criônica são antigas e conhecidas: com o congelamento, formam-se cristais de gelo no interior das células -- esses cristais são cortantes e pontiagudos. Além disso, a água se expande quando congelada, o que também não deve ser um processo agradável quando você é uma membrana celular tentando segurar o citoplasma lá dentro (ou tentando não ser esmagada pelo gelo que se forma lá fora).


É verdade que existem anticongelantes que evitam a formação de cristais, fazendo o gelo assumir uma conformação amorfa, como a do vidro, e não o aspecto de facas e agulhas. Também é verdade que esperma e embriões são congelados e reutilizados rotineiramente. Mas as fontes ouvidas por The Engineer ajudam  a pôr esses casos em perspectiva: "A criopreservação ainda não foi aplicada com sucesso a estruturas grandes como o rim humano para transplante", disse Barry Fuller, professor de cirurgia e medicina de baixa temperatura do University College London.

O processo não é bom para salvar um rim. O que dizer do corpo inteiro? Ou do órgão mais complexo que existe, o cérebro humano? Esse é o ponto do segundo artigo a que me referi no início, publicado pela revista New Humanist. De autoria do neurocientista Clive Coen, do King's College de Londres, a peça trata, especificamente, das perspectivas da criônica para o cérebro humano. "Spoiler": não são nada boas.

Coen explica que o congelamento de um cérebro, de modo a preservar sua integridade funcional, é uma corrida contra o tempo: primeiro, o anticongelante que deve evitar os danos causados pelos cristais de gelo tem de se infiltrar pelos bilhões de neurônios ao mesmo tempo em que o frio extremo se espalha. Segundo, o frio e o anticongelante têm de fazer seu trabalho antes que a falta de oxigênio, trazida pela morte, cause danos graves a regiões fundamentais do órgão, como as responsáveis pela memória (quem gostaria de acordar amnésico em 2216?).

"As junções entre as células que revestem os vasos sanguíneos do cérebro são especialmente apertadas; formam a barreira hematoencefálica, que protege este órgão vital durante a vida e impedirá a entrada dos agentes criônicos após a morte", aponta o cientista. "Capilares rompidos ou bloqueados atrasarão a perfusão local desses agentes, até que a pressão da bomba os rompa. Mais barreiras são representadas pela mielina, a substância gordurosa que cerca as rotas neuronais no interior e, também, entre os hemisférios do cérebro".

Outras dificuldades aparecem no impacto do congelamento sobre os neurotransmissores. Coen diz que os proponentes da criônica gostam de citar estudos sobre a preservação quase perfeita de cérebros de animais usando certos conservantes, mas lembra que esses conversantes são tóxicos.

No fim, a solução para os problemas trazidos pela criônica acabam sendo jogados no colo de alguma "tecnologia futura" -- nanotecnologia, por exemplo, para consertar neurônios quebrados ou repor neurotransmissores. Mas se é para esperar alguma mágica tecnológica do futuro, por que não contar com a ressurreição de nossas consciências por aliens capazes de extrair a informação estocada por emaranhamento quântico no interior de buracos negros? (Bom, isso talvez demore um pouco mais, é verdade).

Coen aponta ainda outro problema: se você espera não ser um pária ao acordar no futuro, será preciso que seus parentes e amigos se congelem, também: "Não é um esquema de pirâmide, é mais um esquema de iceberg", escreve.

terça-feira, 22 de novembro de 2016

O tombo de Plutão

Dois artigos na edição da última semana da revista Nature exploram explicações para características da Planície Sputnik, uma área gelada que compõe parte do “coração” branco fotografado na superfície de Plutão pela sonda New Horizons. A planície é formada por gelo de nitrogênio, metano e monóxido de carbono, com vários quilômetros de espessura.

Um dos artigos, escrito em parceria por pesquisadores dos EUA e do Japão, nota que Sputnik está alinhada com o eixo que une Plutão a sua maior lua, Caronte, e propõe que essa localização pode ser explicada por um “rolamento” de Plutão – uma mudança de cerca de 60º no eixo do planeta-anão – causado pelo acúmulo da massa de gelo na planície ao longo do tempo. “A Planície Sputnik provavelmente formou-se ao noroeste de sua localização atual e foi carregada com materiais voláteis ao longo de milhões de anos”, diz o artigo.

O segundo trabalho, de autoria de pesquisadores baseados nos Estados Unidos, conclui que a reorientação da Sputnik implica a existência de um oceano sob a superfície de Plutão. Sem um oceano subterrâneo, argumentam os autores, a anomalia gravitacional necessária para “tombar” o planeta, reposicionando a planície, exigiria uma camada de nitrogênio inacreditavelmente espessa, com mais de 40 km.

“Se Plutão contém um oceano líquido gelado (provavelmente com amônia), diversas outras questões se apresentam”, aponta o artigo, incluindo a possibilidade de haver mais oceanos entre os corpos do Cinturão de Kuiper, a região do Sistema Solar localizada para além da órbita de Netuno. (Esta nota faz parte da Coluna Telescópio)

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Trump e a Nasa

O presidente-eleito dos Estados Unidos, Donald Trump, deve redirecionar os esforços da Nasa, enfatizando a exploração do espaço profundo e reduzindo o prestígio dos setores da agência voltados para o monitoramento do clima terrestre, dizem fontes da mídia especializada. As missões voltadas para ciências climáticas e geociências deverão ser transferidas para outro órgão federal, a Administração Nacional de Oceano e Atmosfera (NOAA). Durante o governo Obama, a divisão de Ciências da Terra da Nasa viu seu orçamento crescer, e lançou uma série de satélites para o acompanhamento de fenômenos como a elevação do nível dos mares. (Esta nota faz parte da Coluna Telescópio)