sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Ciência, saúde e a maldição do "personagem"

Acho que já fiz, no passado, um longo "rant" contra um vício particular que vem tomando conta do jornalismo na área de saúde, a saber, o de que toda matéria tem de girar em torno de um "personagem". Partindo do pressuposto de que o leitor médio de jornais e revistas é incapaz de, ou está indisposto a, prestar atenção em qualquer narrativa um pouco mais complexa que um roteiro de telenovela, os editores passaram a exigir que virtualmente qualquer reportagem sobre doenças ou tratamentos tenha "personagem", e.g., uma pessoa que sofre da moléstia/passa pelo procedimento.

 (Isso ajuda a explicar, entre outras coisas, a superpopulação de jovens mães na casa dos 30, estudantes universitárias, empresárias, jornalistas, publicitárias que infesta as narrativas midiáticas: o jornalismo é cada vez mais uma profissão feminina, e a busca insana por personagens acaba levando as autoras a "caçar" fontes em seu próprio extrato demográfico.)

 Não estou dizendo, veja bem, que matérias jornalísticas construídas em torno de personagens devam ser banidas, ou que é impossível fazer bom jornalismo sobre pessoas e "histórias humanas" (existe outro tipo?). Também reconheço o poder do personagem individual em despertar ações e emoções: o perfil bem construído de uma só vítima de um desastre natural tem muito mais potencial de gerar solidariedade e consciência do problema do que uma tabela com os números de mortos e feridos. "Pôr uma cara nesse número" é uma estratégia eficaz de comunicação.

 Estratégias eficazes de comunicação, no entanto, também são, ceteris paribus, ferramentas eficazes de desinformação e manipulação. E quando o assunto é saúde, desinformação é o tipo de coisa que acaba custando caro. Caso em tela: esta reportagem da BBC, sobre garoto desenganado pelos médicos que, aparentemente, se "curou" do câncer com o uso alternativo de uma caríssima terapia que não havia sido recomendada para seu caso.

 Aqui seria o momento de inserir uma frase de efeito típica da crítica do jornalismo científico, "relato anedótico não é dado", ou invocar uma falácia clássica, a "post hoc". Mas, resumindo: sem um estudo detalhado, envolvendo um grande número de pacientes e controles estatísticos adequados, é impossível afirmar, em boa fé, que foi a terapia que salvou a vida do garoto (se é que ela foi salva: parece haver alguns tumores remanescentes).

 O texto da BBC meio que admite isso, lá no fim, ao citar um médico que diz que não é possível atribuir a recuperação parcial do jovem a uma causa específica, mas encaixar o "disclaimer" depois de 15 parágrafos de mistificação é meio estranho. A história, enfim, não se sustenta como jornalismo de ciência ou saúde, mas apenas como "relato de personagem": temos o garotinho desenganado, sua avó amorosa, a cura. "Face humana", etc. Com o poder de estimular muita gente a vender tudo o que tem e correr para o México em busca de uma terapia que, no fim, talvez seja inadequada.

 O foco narrativo no personagem que o jornalismo atual exige é exatamente o oposto da boa prática científica e, até, dos requisitos mais comezinhos da honestidade intelectual: sempre será possível contar histórias emocionantes sobre pessoas que se salvaram depois de fazer X, ou que sofreram horrores a despeito de terem feito Y.

 Mas a verdadeira questão que o jornalismo, principalmente o jornalismo de saúde, deveria tentar responder é: o que essas histórias significam para a população em geral? O quanto são representativas? Qual probabilidade de que X ou Y produzam, no leitor desavisado, os mesmos efeitos que tiveram sobre o personagem? Isso não é algo que a tal "história humana", sozinha, vai dizer.

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

O poder de prever o futuro

A edição de dezembro da edição americana da Scientific American (e talvez a brasileira também; aliás, parabéns à SciAm Brasil por publicar um artigo de Michael Shermer! espero que vire hábito) traz um artigo sobre o Projeto FuturITC, que pretende criar um computador capaz de modelar o mundo -- integrando os zilhões de bits produzidos diariamente sobre clima, economia, política, etc., para "prever o futuro".

Ou, mais precisamente, criar cenários que possam informar as decisões de líderes políticos, agências internacionais, etc, etc. Usando um exemplo da própria revista, a máquina poderia calcular quais as consequências mais prováveis de a Grécia abandonar o euro. Ou, para ficar mais perto, quais seriam as consequências de longo prazo da aprovação do novo Código Florestal brasileiro.

Uma possibilidade especialmente instigante é a de o FuturITC gerar respostas francamente contraintuitivas -- por exemplo, que o aumento do desmatamento da Amazônia ajudaria a salvar o urso polar da extinção.

Esse tipo de super-integrador de dados lembra o "Demônio de Laplace", uma figura imaginária postulada pelo matemático francês Marquês de Laplace que, conhecendo exatamente a posição e a velocidade de cada partícula do Universo e as forças que atuam sobre todas elas, seria capaz não só de prever todo o futuro como um recriar todo o passado.

O senso-comum atual é o de que a pobre criatura está morta e enterrada, vítima das descobertas da Física Quântica e da Teoria do Caos; mais do que isso, que a proposta de Laplace foi uma espécie de faux-pas filosófico, traindo uma profunda, perigosa e ingênua arrogância da ciência materialista-determinista-newtoniana.

(Gargalhada ominosa do Dr. Frankenstein diante do monstro que ganha vida, por favor, maestro.)



Como bem notou pelo menos um crítico, o Demônio de Laplace é uma das grandes inspirações de meu romance de ficção científica Guerra Justa (à venda no link acima e à direita nesta mesma página, obrigado). Em minha talvez não muito humildade opinião, no entanto, as notícias de seu passamento podem ter sido um tanto quanto exageradas.

Em que pesem o Princípio da Incerteza de Heisenberg e a sensibilidade profunda dos sitemas caóticos às condições iniciais, se pusermos de lado -- por um momento -- o debate filosófico sobre a diferença entre ter certeza absoluta e ter uma ideia boa o suficiente para todos os propósitos práticos, afinal, quais seriam as reais limitações de um sistema arbitrariamente poderoso de processamento de dados para prever o futuro em larga escala?

Além de limitações técnicas, como a qualidade dos inputs e dos algoritmos implementados (que podem ser aperfeiçoados paulatinamente, num processo de aprendizado contínuo) haveria mais alguma?

Como estamos falando "em larga escala", o comportamento de seres humanos individuais -- se você vai ou não resistir à tentação de pegar um chocolate na saída no quilão onde almoçará, por exemplo -- pode ficar de fora. Mas e quanto ao comportamento de grupos humanos: seria possível prever o resultado de uma eleição ou, sendo mais ousado, que a implementação de uma série de políticas hoje fomentará o surgimento de uma organização terrorista dentro de "n" anos?

No que pode ser encarado como um pálido eco da "psico-história" preconizada por Isaac Asimov em sua série Fundação, cientistas vêm descobrindo que grupos humanos podem ser modelados. Embora cada decisão individual seja motivada por uma subjetividade complexa, grandes números de pessoas decidindo subjetivamente parecem levar a surpreendentes regularidades no comportamento coletivo. A hora do rush é um caso.

 Em seu livro Critical Mass: How One Thing Leads to Another , o jornalista Philip Ball descreve vários estudos que indicam a existência de "leis naturais" do comportamento coletivo. Um exemplo especialmente marcante é o de uma simulação que "previu" as políticas de aliança da Segunda Guerra Mundial tratando os diversos países como partículas dotadas de dois tipos de "carga" -- "democracia" e "poder" -- e algumas regras de atração e repulsão semelhantes às que existem entre cargas elétricas e quarks.

E mesmo as decisões individuais talvez não sejam tão inescrutáveis assim: artigo da SciAm cita um modelo criado recentemente que permite prever, com 90% de precisão, onde você vai estar amanhã às 5 da madrugada, com base em dados sobre sua vida pregressa.

Por um lado, não parece grande coisa; por outro, ajuda a lembrar que, embora sejamos teoricamente livres para tomar qualquer decisão -- ninguém encosta uma arma na sua cabeça para obrigar você a ira ao trabalho todo dia, e mesmo se encostasse, você poderia, em tese, optar por levar o tiro -- na prática, acabamos caindo em padrões passíveis de serem detectados e medidos.

Enfim, o Demônio de Laplace talvez não seja, do ponto de vista dos altos debates sobre filosofia da ciência e da liberdade humana,  nada além de um capetinha. Mas convém não subestimá-lo.