sexta-feira, 18 de maio de 2012

Religião, evolução, cérebro, violência

Recebi, via Twitter, um link para uma reportagem publicada no site da revista Galileu a respeito de um estudo sobre a possível ligação entre genética e a predisposição para a fé religiosa. A reportagem não parece ser recente, mas a página em que ela aparece não traz data. O estudo de que fala o texto, no entanto, foi publicado em abril de 2005, então suponho que a matéria tenha saído, originalmente, um pouco depois disso. No entanto, como na internet nada nunca desaparece de verdade, pode ser prudente registrar uma análise do assunto, ainda que tardia, para os eventuais interessados.

O estudo em si, Genetic and Environmental Influences on Religiousness: Findings for Retrospective and Current Religiousness Ratings, tentou determinar quais os "pesos" relativos de fatores genéticos ou ambientais na formação e manutenção da fé religiosa ao longo da vida, usando como base a evolução da religiosidade de pares de gêmeos, sendo alguns univitelinos -- "gêmeos idênticos" -- e outros, apenas gêmeos fraternos.

O truque aí é que, como gêmeos univitelinos têm o mesmo conteúdo genético, é em tese possível usá-los para controlar o efeito da hereditariedade: por exemplo, se a proporção de pares de gêmeos idênticos onde um vira ateu e o outro, coroinha, for igual à de gêmeos fraternos onde o mesmo acontece, então dá para supor que a genética não tem lá muito a ver com a religiosidade. 

O trabalho, no entanto, tem limitações que a reportagem da Galileu omite. Sua conclusão, de que a religiosidade sofre forte influência genética, e que essa influência cresce com o tempo, depende da comparação entre a religiosidade de pares de gêmeos na infância e na idade adulta. 

Mas a constatação feita pelos pesquisadores, de que mais gêmeos fraternos divergem muito mais, em termos de religiosidade, ao longo do tempo do que os univitelinos dependeu crucialmente de avaliações feitas pelos gêmeos, individualmente, sobre como eram seus hábitos religiosos na infância, e em comparações entre esses hábitos e os do irmão gêmeo, na mesma fase da vida.

O problema é que tentar resgatar memórias específicas e precisas da infância é uma atividade especialmente suspeita, por conta da tendência que temos de confabular lembrança e fantasia, como o trabalho de Elizabeth Loftus já demonstrou.

Complicando ainda mais a situação, o número de pares de gêmeos univitelinos separados -- isto é, criados por famílias diferentes -- no estudo foi muito pequeno (apenas oito, num total de 169), o que certamente impede que sejam isolados, das causas puramente genéticas, os fatores psicológicos e sociais envolvidos em crescer na companhia de uma pessoa fisicamente muito parecida com você. 

Os próprios autores do estudo chamam atenção para o fato de que "o resultado pode não ser generalizável para a população americana em geral", embora a Galileu não tenha hesitado em insinuar que ele poderia ser generalizável para a totalidade da espécie humana: "Em suma: sejamos crentes ou céticos, a "culpa", em grande parte, é da nossa genética", sentencia o texto.

De qualquer forma, a constatação de que atitudes mentais provavelmente têm forte componente genético (44% no caso da religiosidade adulta, segundo a exegese que a revista faz do artigo científico) não deve surpreender ninguém, exceto os dualistas mais empedernidos, que acreditam que os processos de conformação da mente são, em essência, independentes dos que atuam sobre o corpo. Para nós, materialistas, a personalidade faz parte do fenótipo, e o fenótipo está enraizado (ainda que não determinado, essa é uma distinção importante e capciosa) nos genes.

Onde a reportagem da Galileu escorrega feio, no entanto, é na tentativa de interpretar o significado do possível componente genético da religiosidade:

"Se a religiosidade está mesmo sob influência da genética, fica implícito que esse traço foi selecionado durante o processo evolutivo. O que nos leva a crer que, provavelmente, trouxe vantagens adaptativas para os primeiros crentes. "

Sim. Talvez. Plausível. Mas não necessariamente. Substitua no parágrafo acima "religiosidade" por "hemofilia" e "crentes" por "hemofílicos" e veja se o raciocínio continua a soar atraente. E mesmo que, em tese, a religiosidade tenha trazido alguma vantagem ao povo do paleolítico, nada garante que ela continue a ser uma vantagem hoje. "Intolerância à lactose" é um exemplo fácil, para efeitos de comparação. Mas a reportagem prossegue, impávida:

"Sabe-se que a espiritualidade já foi associada, por exemplo, com o comportamento altruísta, e a falta dela com índices maiores de criminalidade."

Mas é mesmo?

O mapa abaixo mostra a taxa de homicídio por 100 mil habitantes de vários países, tal como apresentado pelo DataBlog do jornal The Guardian, com base em dados de 2003 a 2005:


E este outro aqui representa a proporção de pessoas que responderam "sim" à pergunta "A religião é importante na sua vida cotidiana?", feita numa pesquisa Gallup realizada entre 2006 e 2008 ("1", no caso, é 100%):



Só de bater o olho já da para ver que a África, o continente onde a religião é, coletivamente, tida como mais importante, é também o mais violento. E a América Latina aparece em segundo lugar nos dois quesitos, com o Brasil e a Colômbia destacando-se em ambos os mapas, como um par de dedões inflamados.

O ranking dos cinco países que mais levam a religião a sério é composto por Bangladesh, Níger, Omã, Indonésia, R.D. do Congo. Suas taxas de homicídio são, respectivamente, 2,3; 20,2; 2,1; 8,9; 35,2. Média, 13,74. Já os cinco países menos religiosos são Estônia, Suécia, Dinamarca, Noruega, República Checa. As taxas de homicídio respectivas são: 6,7; 1,2; 1,1; 0,8; 2,2. Média de 2,4. 

Pobreza? Sim, pobreza pode ser um fator, embora Estônia e República Checa não estejam exatamente nadando em dinheiro. Vamos, então, comparar "bananas com bananas". EUA, onde a religião é "importante na vida cotidiana" de 65% da população, e o Canadá, onde apenas 42% pensam isso. As taxas de homicídio são, respectivamente, 5,9 por 100 mil habitantes e 1,5 por 100 mil. Os pios americanos se matam quase quatro vezes mais que os canadenses incréus. 

Agregando os dados, a taxa de homicídio média dos países onde a religião é importante para mais de 50% da população é de 12,5. A dos países onde a religião é importante para menos de 50% da população é de 4,2. A proporção é de 3:1, próxima da que existe entre EUA e Canadá. 

É verdade que é possível encontrar países muito religiosos e bem pouco violentos (Jordânia: 96,5% acham a religião muito importante, e a taxa de homicídio é de apenas 1,2), e o contrário (Rússia: religião importante para 33% da população, 29,7 assassinatos por 100 mil habitantes), mas o melhor que esses contraexemplos chegam a sugerir é que a religiosidade, na melhor das hipóteses, é irrelevante para a paz social.

 A despeito disso tudo, tinha gente por aí escrevendo que a falta de "espiritualidade" -- um conceito escorregadio, mas não creio que seja forçar muito a barra dizer que pessoas que consideram religião "muito importante" no cotidiano são pessoas que se acreditam de alta espiritualidade -- está ligada a "índices maiores de criminalidade".

Óquei, então.



quarta-feira, 16 de maio de 2012

Dando um descanso à Providência

Acho que foi o filósofo Daniel Dennett quem cunhou a expressão "olhar intencional", numa referência à predisposição humana de encarar animais irracionais -- e até objetos inanimados -- como se tivessem intenções comparáveis às nossas. Assim, dizemos que o tempo está bravo, que a árvore podada ficou triste, que o cãozinho sente ciúme.

Para além da expressividade poética, o olhar intencional tem uma utilidade prática: se, como sugerem alguns pesquisadores, a evolução dos poderes mais aguçados do cérebro humano foi estimulada pela necessidade de interação social e da interpretação correta das intenções e desejos dos outros seres humanos ao redor, o, por assim dizer, modo intencional de funcionamento pode representar uma espécie de taquigrafia mental, ajudando na rápida decodificação dos sinais da natureza: se o tempo está bravo, o melhor é buscar abrigo, como faríamos caso um sujeito bravo viesse em nosso encalço.

Mas, como de costume, a diferença entre remédio e veneno está na dose, e a mesma analogia que nos diz que o melhor é fugir de uma tempestade feroz também pode indicar que deve ser possível apaziguá-la da mesma forma que apaziguaríamos uma horda de bárbaros ferozes: com tributos, honras e sacrifícios. Se Org, o Horrendo, se abstém de queimar até o chão os casebres das vilas que lhe oferecem o privilégio de deflorar sua mais bela virgem, talvez Gro, o Deus do Trovão, faça o mesmo?  E como mandar a virgem para o deus? Bom, acendamos uma pira por aqui e...

Nós, civilizados cidadãos do século 21, gostamos de imaginar que já transcendemos ou, pelo menos, domesticamos as tendências mais deletérias ligadas a esse automatismo mental. Mesmo nas ocasiões em que cedemos a ele -- por exemplo, quando praticamos alguma superstição, como bater na madeira -- a tendência é fazê-lo com uma certa dose de autoironia.

Claro, a maioria das religiões organizadas ainda trata a suposta Força Suprema Transcedental e Inescrutável do Universo como se Ela fosse um déspota mesopotâmico da Idade do Ferro, e um com sérios problemas de autoestima, ainda por cima. Mas isso é meramente incidental. Certo?

Cá comigo, tenho a impressão de que o olhar intencional é, de fato, mais insidioso e bem mais difícil de domesticar do que as aparências sugerem. Ele aparece, por exemplo, na chamada visão providencial da história -- a ideia de que o Universo em geral, e a história humana em particular, é guiado por uma Providência (que pode ser Deus, a Mão Invisível do Mercado, a Luta de Classes, a Mãe Natureza, o Espírito Hegeliano, etc., etc.), uma intenção suprema que vai garantir que tudo acabe bem, no dia em que tudo acabar.

Essa Providência tem duas características aparentemente contraditórias: a primeira é que é inútil resistir a seus planos; a segunda é que ela é extremamente vingativa contra quem resiste a seus planos. E essa vingança geralmente recai sobre os inocentes: da mesma forma que o povo do Egito pagou pelo coração duro do faraó, nos dias que precederam ao Êxodo, e os aldeões da Europa medieval eram castigados com pragas e pestes quando o príncipe da vez se mostrava leniente para com judeus e hereges, hoje os desafios ao Mercado e à Natureza (por exemplo) também são pagos com o sangue de gente que nem fazia ideia do que estava acontecendo.

Um efeito da visão providencial, e da falta de mira da Providência na hora de marcar posição, é que ela tende a dividir o mundo em linhas maniqueístas muito claras: nada que os "amigos da Providência" façam para ajudar a avançar o Grande Plano estará errado, não importa o tamanho da atrocidade, e nada que seus inimigos façam, não importa o quanto sejam benéficos os efeitos obtidos, será algo além de um gesto de perfídia.

A visão providencial não escolhe religião ou afiliação política. No debate de questões ambientais, por exemplo, ela marca de modo muito claro os extremistas dos dois campos, um lado achando que Deus ou o Mercado dará um jeito, não importa o quanto estraguemos nosso lar comum, e o outro, que a Natureza ofendida precisa ser aplacada por sacrifícios, mais ou menos como o Deus do Trovão que citei lá em cima.

Não se trata aqui de negar que sistemas complexos -- como os mercados globais ou a ecologia -- tenham sofisticadas redes de feedback delicado, e que portanto é temerário mexer com eles sem primeiro entendê-los bem, ou ao menos tentar entendê-los bem.

Mas é preciso lembrar que esses sistemas não querem nada, não têm emoções ou disposições próprias e, no geral, são totalmente neutros em relação aos valores e propósitos dos seres humanos. Eles não "reagem" quando "irritados", e nem "se vingam" quando "desafiados", simplesmente porque não têm como se irritar, nem como reconhecer o conceito de "desafio".

Se os sistemas em questão são formados por seres humanos (como nações ou mercados) talvez se possa falar de algum tipo de intencionalidade emergente, mas ela é episódica, caótica, bruta, e não deve ser superestimada, sob o risco de embarcarmos nas mais delirantes teorias conspiratórias ou de mergulharmos numa variedade qualquer de fascismo em nome da Vontade Nacional.

A tentação de pensar em termos providenciais é grande, e duvido que exista alguém que não ceda a ela algumas vezes ao dia. Mas, racionalmente, é importante reconhecer que não há nada, nem ninguém, nas rédeas da História. Que a responsabilidade é nossa, e que devemos assumi-la com clareza e cientes de nossas limitações, sem a arrogância que vem da falsa presunção de que agimos inspirados por, sob a bênção de, ou em nome de, alguma Grande Abstração Providencial.