terça-feira, 28 de maio de 2013

Você acredita em tudo que vê?

Sempre fui um fã do trabalho de Richard Wiseman, psicólogo britânico especializado no estudo do que poderíamos chamar de enganação -- ou, mais especificamente, das peculiaridades psicológicas e sensoriais que nos tornam vulneráveis a coisas como truques de mágica e contos do vigário. Já há alguns anos, ele vem exemplificando os efeitos que estuda por meio de uma série de vídeos postados no YouTube. 

O vídeo mais famoso provavelmente é o da Carta Que Muda de Cor, que vou colar no rodapé da postagem, mas hoje queria chamar atenção para este aqui embaixo. Até a metade, trata-se da apresentação de um truque de mágica aparentemente banal; do meio em diante, ele mostra como o truque foi executado. É, no mínimo, uma boa lição de humildade epistemológica.

Chama-se A Bola.






E agora, como prometido, o clássico da Carta que Muda de Cor:


segunda-feira, 27 de maio de 2013

O exorcista acidental

Ao menos para quem, como eu, está olhando de fora, a fé religiosa, principalmente sob a forma de apego a uma tradição ou denominação específica, parece existir numa espécie de espectro contínuo que vai da pura superstição fundamentalista -- onde até mesmo cobras falantes são aceitas como fatos -- aos picos rarefeitos da teologia sofisticada, onde praticamente tudo se dissolve em um conjunto de metáforas mal-definidas que, como as mitologias de antigamente, embasam um certo modo de pensar e um senso de comunidade.

Também, aqui olhando de fora, vejo como as pessoas que estão num dos extremos da escala adorariam poder prescindir das que se encontram no outro; mas como, de fato, as duas pontas do espectro estão firmemente amarradas uma à outra. É a teologia sofisticada que dá ao fundamentalismo o verniz de credibilidade que o distingue da superstição mais grosseira, e é a âncora fundamentalista que impede que a teologia sofisticada se dissolva de vez em mito, estética, etiqueta e vagas boas intenções.

Com isso, claro, as hierarquias se veem obrigadas a andar numa espécie de corda-bamba, que é especialmente instável no caso da Igreja Católica, em sua tentativa de apelar a um rebanho cada vez mais heterogêneo em termos intelectuais, e que tem um nervo bem exposto na relação mantida com o antigo ritual de expulsão de demônios. Como se viu na reação embaraçada ao exorcismo acidental que teria sido realizado pelo papa Francisco.

De cordo com a imprensa internacional, o papa argentino estava abençoando, com imposição das mãos, uma série de cadeirantes na praça de São Pedro. Sem que ele soubesse, um desses fiéis tinha sido levado até lá por um padre que acreditava que o homem estava possuído. Diz a Associated Press: "Francisco pôs as mãos na cabeça do homem e recitou uma prece. O homem ofegou profundamente uma meia dúzia de vezes, tremeu e então relaxou na cadeira de rodas". Um canal de TV ligado à conferência episcopal italiana disse que, "sem dúvida", Sua Santidade tinha realizado um exorcismo.

A linha oficial do Vaticano, no fim, foi a de afirmar que o papa havia apenas "rezado por um doente sofredor", mas não consta que o padre-exorcista Gabriele Amorth, que disse que a ação de Francisco tinha constituído um "verdadeiro exorcismo", tenha sido repreendido.

Um observador cínico poderia, talvez, argumentar que as versões contraditórias foram produzidas para atender às necessidade de públicos diversos, com a nota impessoal do Vaticano dirigida aos católicos sofisticados e a fala apaixonada de Amorth, à turma do fogo e ranger de dentes.

O Vaticano produziu, sob o reinado de João Paulo II, uma nova versão de seu guia de exorcismos em 1999, substituindo o texto anterior do século XVII e, em algo que foi notícia na época, reafirmando a existência do diabo como entidade pessoal e sobrenatural.

Ainda na década de 70, o papa Paulo VI já havia advertido contra a conversão do demônio em mito ou metáfora: "Quem se recusa a reconhecer sua existência (...) ou o explica como uma pseudo-realidade, uma personificação imaginária ou conceitual (...) se afasta da integridade do ensinamento bíblico e eclesiástico".

A despeito da sanção papal, a maioria dos bispos nos Estados Unidos considerava, na virada do século, o exorcismo "um embaraço, um atavismo medieval", de acordo com um sociólogo ouvido pelo NY Times.

Um dos pontos importantes do guia sobre exorcismos é a necessidade de se garantir que o possesso não seja vítima de uma doença orgânica, ou da própria imaginação.

Como explico em detalhe no meu Livro dos Milagres, não parece haver nenhum caso claro registrado, em toda a história, em que ambas as possibilidades tenham sido realmente excluídas. De fato, diversos avanços da psiquiatria, como o diagnóstico da Síndrome de Tourette, têm deixado o espaço para o demônio cada vez mais estreito.

domingo, 26 de maio de 2013

Meu UFO dominical!

Logo depois do almoço deste domingo, minha mulher me chamou à janela da cozinha de nosso apartamento -- moramos no nono andar -- para me mostrar um objeto não identificado no céu. Fiz uma série de fotos com o celular e, em uma delas, a coisa quase parece um urubu visto ao longe:


Mas uma versão com zoom mostra que se trata de um objeto artificial, e de linhas curiosamente aerodinâmicas:


Um outro quadro, mais afastado, revela uma curiosa semelhança com o design dos aviões "stealth" da Força Aérea dos EUA:




Será que os gringos estavam sobrevoando Jundiaí (SP) em busca de terroristas na virada cultural? A orientação vertical do nariz da nave indica, no entanto, uma atitude mais coerente com a intenção de deixar  a atmosfera! Seria um veículo de outro planeta?

Nada disso. Não passava de um engenhoso balão solar -- um saco de plástico preto cheio de ar aquecido pela luz do sol --, como, imagino, a próxima foto deixará mais do que claro:


A sequência toda só vem reforçar a lição do astrônomo Neil DeGrasse Tyson sobre o apelo à ignorância: se uma coisa é não-idenficada, então você não sabe o que ela é, e especulações sem base em evidências são ociosas. E a partir do momento em que é identificada... Bem, no caso, aqui, temos um simples balão solar. Mas fico imaginando o que algumas pessoas não teriam inventado com base só nas três primeiras fotos.