sexta-feira, 25 de março de 2016

Batman vs. Superman: Em busca de uma nova Era de Prata

Assisti a Batman versus Superman. É um filme razoável: em termos da caracterização do Superman, gostei mais até deste segundo episódio do que de O Homem de Aço: este Kal-El funciona muito melhor, em termos de fidelidade ao conceito fundamental do personagem, do que a arma de destruição em massa que vimos no filme anterior.

A melhor interpretação do filme é a da Gal Gadot: as cenas da Mulher Maravilha são praticamente as únicas em que aquele senso de ridículo instintivo que começa a incomodar no fundo da cabeça quando se vê um adulto fantasiado de super-herói desaparece.

Alguns críticos elogiaram a atuação de Laurence Fishburne como Perry White, mas não entendi o porquê: todas as cenas na redação de O Planeta Diário são decalques óbvios das vistas em Superman e em Superman II, lá se vão mais de 30 anos (incluindo a presença de uma atarantada "Jenny"), mas aquelas cenas tinham sido desenhadas como alívio cômico, enquanto que Fishburne (e Henry Cavill, como Clark Kent), provavelmente seguindo ordens do diretor Jack Zack Snyder, as interpretam como se fossem parte de uma tragédia shakespeareana.

O principal defeito, em termos de plot, é que o filme todo depende de duas "trapaças" de Lex Luthor que o Batman e o Superman "de verdade" deveriam ter visto chegando a quilômetros de distância -- em vez de caírem nelas como patinhos.

Mas esse é o principal defeito em termos de plot. Há um defeito maior, que talvez só seja perceptível para gente como eu, que já tem idade para ser da mesma geração do Batman de Ben Affleck (que, neste filme, era criança em 1981). Que, enfim, viveu a Era de Prata do quadrinhos de super-heróis.

A história das HQs de heróis costuma ser periodizada em Era de Ouro (da publicação da primeira história do Superman, em 1938, até meados dos anos 50), quando o principal público-alvo era infantil; depois, Era de Prata, que arredondando datas iria de 1960 (na verdade, um pouco antes) a 1980 (na verdade, um pouco depois); e em seguida outras eras, Bronze, Contemporânea, etc.

A Era de Prata marca, entre outras coisas, o momento em que as editoras de super-heróis começam a buscar não apenas o público infantil, mas também a cultivar os jovens e os adultos que tinham se acostumado com esse tipo de leitura na infância e mantinham uma ligação afetiva com os personagens. 

A Marvel costuma receber a maior parte do crédito por esse desenvolvimento específico, mas a DC não demorou em seguir a deixa. 

Uma seleção de aventuras do Superman dos anos 70 poderia incluir histórias com temas como racismo (ele seria capaz de amar uma Lois Lane negra?), doença (na primeira aventura contra o vilão Terra-Man, o Homem de aço está sofrendo de um misterioso colapso nervoso), fraqueza e mortalidade (o Superman é infectado pelo Vírus X, uma praga degenerativa e incurável de origem kryptoniana) e responsabilidade social (os Guardiães do Universo advertem o Superman para que deixe os humanos cuidarem de seus problemas políticos e sociais por conta própria, evitando o risco de criar uma humanidade dependente e de se tornar uma espécie de superditador). 

Por mais cabeludos que fossem os temas, no entanto, o cenário se mantinha fantasioso (sereias, duendes, alienígenas cômicos viviam dando as caras) e os finais, felizes. Os heróis não mentiam, não roubavam e não matavam. E mesmo que, eventualmente, discordassem entre si, eram unidos por uma sólida amizade e pelo desejo de fazer o bem.

Mas aí vieram os anos 80, como o acirramento da Guerra Fria, a retórica violenta dos anos Reagan, a ressaca da Guerra do Vietnã, o mantra "ganância é bom". E alguns autores começaram a se perguntar: o que aconteceria se esse ethos humanista e otimista da Era de Prata colidisse como a "realidade" da década? Essa foi a questão que produziu obras como o Miracleman e Watchmen de Alan Moore e o Cavaleiro das Trevas de Frank Miller: sucessos de público e crítica que lançaram a era grim-and-gritty -- "sinistra e áspera" -- dos quadrinhos de heróis, e da qual os filmes de Zack Snyder são herdeiros diretos.

O problema, que o pessoal de vendas e marketing que decidiu que o grim-and-gritty era a "onda do futuro" não percebeu, é que essas obras não tinham autonomia, eram comentários: para funcionar elas dependiam, fundamentalmente, da existência de décadas acumuladas de Era de Prata. 

A luta entre Batman e Superman em Cavaleiro das Trevas só teve a força mítica que teve porque o leitor da época sabia que esse dois personagens tinham sido, durante quase 30 anos, os melhores amigos. Heresias só chocam quando há uma ortodoxia a ser chocada.

Ao tentar construir seus filmes com base na heresia -- ao tentar, de fato, transformar a heresia na nova ortodoxia -- Zack Snyder esvazia os mitos com que trabalha. 

Uma coisa é um Superman que tira uma vida depois de décadas jurando que jamais mataria (numa aventura dos anos 70, em que vai parar, sem memória, num campo de batalha da 2ª Guerra Mundial, Clark Kent é tratado como covarde por sua incapacidade psicológica de puxar o gatilho até mesmo contra nazistas -- ele não conseguia matar nazistas!). Outra coisa é um Superman que mata em sua primeira aparição pública. Uma coisa são Batman e Superman lutando entre si depois de terem salvado o mundo, juntos, centenas ou milhares de vezes; outra é irem às vias de fato em seu segundo encontro.

O universo cinematográfico da DC deveria ter construído sua Era de Prata antes de demoli-la. Iconoclastia, afinal, pressupõe ícones. 

quarta-feira, 23 de março de 2016

A morte de Drácula e outros contos

Teve um tempo, vão-se lá uns 20 anos, em que eu estava fascinado por fantasia histórica. Diferente da fantasia mais tradicional, baseada em realidades alternativas ou "mundos secundários" -- como a sempre lembrada Terra Média -- a fantasia histórica é um gênero que crava o fantástico na história deste nosso mundo. Talvez seja a forma mais antiga de ficção: Gilgamesh, a Ilíada e as lendas do Rei Arthur são, cada uma à sua maneira e em seu contexto próprio, fantasias históricas.

Meu apreço pelo gênero tinha raízes menos nobres, no entanto: ele veio da paixão pelo trabalho de Robert E. Howard, principalmente em contos como The Grey God Passes e, principalmente, as aventuras protagonizadas por Turlogh O'Brien, Bran Mak Morn e Cormac McArt.

Além disso, era uma época em que o mercado para ficção fantástica nacional se resumia, quase só, a revistas de RPG, como Dragão Brasil e Só Aventuras. A fantasia histórica era um gênero de apelo fácil para o público dos jogos de interpretação, já que o cenário para a fantasia já está dado e montado. Confesso que nunca vi muita graça nas fantasias que enchem seus mundos com orcs, elfos, goblins e quetais -- troco a Terra Média pela Era Hiboriana, em qualquer dia da semana, e ainda jogo os Forgotten Realms de brinde.

Bom, então: nessa época cometi alguns contos passados em períodos específicos, como a expansão Tempestade em Snagov, um conto que tenta preencher a "lacuna" entre o último registro histórico sobre o príncipe valáquio Vlad Tepes (sua cabeça foi carregada para Constantinopla em 1477) e a emergência de sua contraparte ficcional, o Conde Drácula. Há alguns dias, resolvi tirar a poeira da história e publicá-la em e-book. Quem estiver curioso pode encontrá-la aqui, por um precinho camarada.

Já sobre o avanço mongol saiu A Queda de Samarcanda, conto em que onde Genghis Khan é um coadjuvante, e que também já converti em e-book e pode ser ser adquirido aqui, também a preços módicos. É, também, uma história sobre (in)tolerância religiosa, um tema que, suponho, começava a me incomodar já nessa época e que só viria a ganhar importância no meu trabalho de lá para cá.

Claro, talvez meu melhor trabalho de fantasia histórica tenha sido a novela As Dez Torres de Sangue, que saiu em e-book e papel pela Draco e foi resenhada recentemente. Melhor e praticamente último: só voltei ao gênero mais duas vezes, para participar da antologia Crônicas de Espada e Magia, e mais recentemente com o conto The Argonaut, a ser publicado na Inglaterra como parte da antologia Swords vs. Cthulhu.

Um último ponto: a parte histórica da minha fantasia histórica, principalmente nos trabalhos mais antigos, deve ser tomada, como diriam os latinos, cum grano salis. Quando escrevo ficção, minha política é nunca deixar que os fatos atrapalhem uma boa história. Jornalismo é jornalismo, fantasia é fantasia. Uma das coisas de que me orgulho é nunca confundir os dois!

E, ah, sim, claro: também estão disponíveis em formato e-book muitos outros trabalhos meus, incluindo contos e romances de ficção científica e de divulgação da ciência. Dá pra achar uma lista bem completa, aqui.

terça-feira, 22 de março de 2016

O horóscopo e a passeata

No último domingo, a ombudsman da Folha de S. Paulo abriu sua coluna comentando as queixas que havia recebido de leitores que tinham visto, nos vaticínios do horóscopo da semana anterior, propaganda subliminar para limitar a participação das pessoas (ou, ao menos, dos crentes em astrologia) nas passeatas contra o governo de 13 de março. Em defesa do jornal, Vera Guimarães Martins ponderou que existe um padrão quase uniforme nos horóscopos de domingo (qualquer domingo), o de sugerir que o leitor aproveite o dia para descansar e curtir a família. E lembrou que, em 2014, tinham sido os defensores do governo Dilma que haviam implicado com o conteúdo da coluna astrológica.

Se hoje não é difícil concordar com a ombudsman e descartar a manipulação deliberada de vaticínios dos astros para fins políticos, nem sempre foi assim: houve períodos no Império Romano em que mapas astrais de imperadores e de pretendentes ao trono eram poderosas armas de propaganda política. Primeiro imperador, Augusto chegou a cunhar moedas com seu signo lunar (Capricórnio).

O historiador Tácito relata que o imperador Tibério foi alvo de uma conspiração articulada por astrólogos. Houve épocas em que traçar o horóscopo do imperador era considerado crime, e há quem diga que a crescente associação entre a figura imperial e o deus-sol, principalmente a partir do século 3 EC -- e que acabaria facilitando, mais tarde, a conversão do império ao cristianismo -- foi motivada pelo desejo dos imperadores de se colocarem (ou, ao menos, de serem vistos como) acima da influência dos demais astros.

Astrologia também foi uma importante arma de propaganda durante a Guerra Civil inglesa do século XVII, com o astrólogo William Lilly fazendo previsões favoráveis aos republicanos de Oliver Cromwell, o que inflou o apoio ao líder rebelde. Mesmo após a restauração da monarquia, Lilly continuou a ser tido em alta conta, sendo até mesmo consultado por uma comissão parlamentar encarregada de investigar as causas do Grande Incêndio de Londres de  1666.

Hoje em dia, embora ainda haja líderes políticos que se deixam influenciar pela opinião de astrólogos, a opinião pública, em si, parece menos maleável à palavra dos astros do que nos tempos romanos ou na Inglaterra dos Seiscentos. Isso talvez se deva menos à melhor educação do público e mais ao caráter anódino dos horóscopos diários baseados apenas no signo solar, uma inovação que data do início do século passado.

O inventor desse produto específico foi o britânico Alan Leo (1860-1917), principal responsável pela transformação da astrologia em algo compatível com a era industrial, passível de produção e distribuição em massa. Entre outras coisas, Leo também foi o inventor do mapa astral modular, em que parágrafos separados descrevem os efeitos de cada astro em particular e alguns aspectos importantes. Com isso, era possível produzir mapas aparentemente individualizados em poucos minutos, apenas copiando os parágrafos relevantes para a carta que seria entregue ao cliente.

O que não significa que não se possa produzir uma crítica política pertinente dos horóscopos dos jornais: em seu ensaio The Stars Down To Earth, o filósofo Theodor Adorno (1903-1969) analisa algumas colunas astrológicas publicadas nos Estados Unidos e conclui que elas cumprem um papel de instilar conformismo, obediência, complacência e fatalismo. O horóscopo, escreve ele, "paralisa a vontade de mudar as condições objetivas, e relega todas as preocupações para um plano privado ao prometer uma solução por meio da mesma conformidade que evita a mudança". Ou seja: se o horóscopo da Folha foi conformista e desmobilizador no último dia 13, não foi por nenhum motivo particularmente ligado à data. É só o que os horóscopos sempre fazem.

Ah, sim, um minuto para o comercial: há muito mais informação sobre a história e o impacto social da astrologia neste livro que escrevi.

segunda-feira, 21 de março de 2016

Intuição artificial bate a humana, missão a Marte e mais

O computador AlphaGo, criado pela empresa britânica Google DeepMind, uma subsidiária da americana Google, derrotou o segundo melhor jogador de go do mundo, o sul-coreano Lee Sedol, em quatro de uma série de cinco partidas: o computador obteve três vitórias consecutivas, perdeu um jogo e voltou a vencer a disputa final. O torneio foi realizado no início do mês, em Seul, 19 anos depois de o então campeão mundial de xadrez Garry Kasparov ter sido derrotado pelo computador Deep Blue, da IBM. 

Em go é impossível usar mera “força bruta” computacional para testar e descartar possíveis jogadas até se encontrar uma opção ótima – o processo usado por Deep Blue contra Kasparov. Assim, o AlphaGo foi construído de modo a deduzir critérios próprios para decidir cada lance. Para tanto, a máquina se vale de análises estatísticas de uma memória de milhões de movimentos feitos por seres humanos, e da experiência adquirida em jogos que disputou contra si mesmo. Executivos do Google comparam essa faculdade a um modelo artificial da intuição humana.

Também na última semana, a missão ExoMars 2016, uma iniciativa conjunta da Agência Espacial Europeia (ESA) e da agência russa Roscosmos, foi lançada da base de Baikonur, no Cazaquistão, no início da última semana. Primeira iniciativa do programa ExoMars, a missão é composta por um satélite que vai analisar a presença de gases importantes para a busca de vida extraterrestre, como o metano, na atmosfera marciana e por um módulo que deve pousar no planeta. A íntegra dessas e de outras notas sobre a ciência no mundo você encontra no Telescópio do Jornal da Unicamp.