terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Outro lado, controvérsias e certezas na ciência

Durante o último fim de semana, participei, em Porto Alegre, da I Jornada de Divulgação e Jornalismo Científico, organizada pelo Instituto Latino-Americano de Estudos Avançados (ILEA) e pelo Instituto de Física da UFRGS. Tinha muita gente boa lá, entre jornalistas e cientistas, e muitas questões importantes sobre a popularização da ciência no Brasil foram levantadas e discutidas, mas nas participações que fiz -- uma delas, uma mesa-redonda com outros jornalistas de ciência e cientistas que ocupam espaços na mídia -- uma questão recorrente foi a do tal "outro lado".

A plateia (formada por estudantes e cientistas) queria saber, por que essa obsessão com "outro lado"? Por que a imprensa insiste em dar voz a criacionistas toda vez que fala em evolução, a negacionistas, toda vez que fala do aquecimento global antrópico, a anti-vaxxers (gente que diz que vacinas causam câncer ou autismo), toda vez que surge uma nova campanha de saúde pública? E não se trata apenas de um fenômeno exclusivamente brasileiro: até alguns anos atrás, cientistas britânicos brincavam (contrariados) que toda notícia sobre evolução humana que saía na BBC tinha de terminar com uma citação obrigatória de uma fonte criacionista, que assim ficava com a "última palavra" no assunto.

Minha resposta foi, como costuma acontecer em eventos com muita gente e onde se fala de improviso, um tanto quanto desarticulada, então gostaria de pô-la em ordem por aqui. O "sempre buscar o outro lado" é uma heurística -- uma regra prática -- que, quando bem utilizada, lembra o jornalista de que, um,  ele não é o árbitro final das controvérsias da sociedade e, dois, ele pode estar sendo engabelado pela fonte, logo é prudente buscar uma segunda opinião. No melhor dos mundos, o "outro lado" é um exercício de humildade e de curiosidade intelectual.

Mas não vivemos no melhor dos mundos; regras práticas têm campos limitados de aplicação, não devem ser seguidas indiscriminadamente; o ser humano é isto aí que a gente vê todo dia. No mundo real, o imperativo do "outro lado" volta e meia é usado pelo jornalista como muleta irresponsável, e/ou explorado por fontes interessadas em gerar uma percepção de controvérsia onde, de fato, não é nenhuma.

A muleta é simples: uma vez ouvido o "outro lado", há a sensação de que o trabalho acabou. Esse cara diz isso, aquele cara diz aquilo, transcrevo ambos e o meu papel social de jornalista está cumprido. Abstrai-se, daí, qualquer esforço interpretativo ou de contextualização, que pudesse permitir ao leitor enxergar assimetrias entre a validade dos dois discursos: em vez de decidir com base nos fatos, o pobre leitor fica à mercê da retórica das fontes, e aí está a irresponsabilidade. Que às vezes nem é do jornalista, mas do veículo, que não oferece tempo (ou espaço) suficientes para que a apuração se complete e a interpretação se concretize.

Nesse espaço, aberto pelo uso preguiçoso do "outro lado", entram os fabricantes de controvérsias, que se aproveitam da ignorância dos jornalistas em geral sobre o modo como a ciência é feita e seus consensos, construídos. Para quem é "de humanas", pode ser difícil entender que a questão entre evolucionistas e criacionistas, na Biologia, é materialmente diversa da que existe entre, digamos, neoliberais e desenvolvimentistas, na Economia. O ponto fundamental aí é a legitimidade do outro lado.

Alguém poderia dizer, mas não é arrogante o jornalista decidir quais das vozes presentes na sociedade é mais ou menos legítima? Não, isso não é arrogante. Esse é o trabalho do jornalista. É por isso que nenhum repórter que se dá ao respeito vai pedir um "outro lado" à Sociedade da Terra Plana antes de escrever sobre eclipses, ou ao Partido Nazista quando escreve sobre o Estado de Israel. No caso de ciência e saúde, essas coisas deveriam ser até mais fáceis, porque a  filtragem já foi feita pelos próprios cientistas.

Muitas vezes vejo colegas defendendo o espaço aberto a anti-vaxxers ou criacionistas com o argumento de que "essas pessoas existem, não dá para esconder". Isso é uma verdade parcial: o papel do jornalismo não é mostrar tudo o que existe, mas sim apontar para o público o que é importante e relevante. Construtores de falsas controvérsias se valem disso para inverter a lógica da mídia: em vez de sair no jornal porque se tem ideias relevantes, fazer com que as ideias pareçam relevantes só porque saíram no jornal.

Essa questão de decidir quais as vozes legítimas ou "certas", e o papel privilegiado da ciência nisso, me traz a um segundo ponto também bastante discutido da Jornada de Porto Alegre: o de que a ciência é falível, não produz certezas ou verdades absolutas.

Isso tudo é, claro, bem verdadeiro. Não custa mencionar dois dos postulados do Realismo Crítico, do filósofo da ciência Mario Bunge"Qualquer conhecimento da coisa-em-si é obtido conjuntamente pela experiência (em particular, experimentos) e pela razão (em particular, teorias). No entanto, nenhum desses é capaz de pronunciar um veredicto final sobre as coisas" "O conhecimento factual é hipotético, e portanto corrigível e não definitivo".

O problema é que, não raro, os fabricantes de controvérsias se agarram a esse caráter impermanente do conhecimento científico de uma maneira desonesta. "Se todo conhecimento factual é hipotético, então talvez a Lua seja feita de queijo", para dar um exemplo exagerado. Ou talvez a astrologia funcione. Ou talvez o mundo tenha sido criado há 6.000 anos. Ou talvez...

O que acaba faltando, no fim, é a percepção de que, falível, hipotético e corrigível como é, o conhecimento científico disponível é, a cada instante, o melhor conhecimento disponível naquele instante, e portanto qualquer simetria de legitimidade ou de credibilidade que se tente estabelecer entre o consenso da comunidade científica e eventuais "outros lados" será falsa. Já que citei Bunge lá em cima, fecho com Bertand Russell:

"Quando os especialistas concordam, a opinião oposta não pode ser tida como certa; quando eles não concordam, nenhuma opinião pode ser considerada certa pelo não-especialista; quando todos afirmam que não há base suficiente para uma opinião clara, o melhor é o homem comum suspender seu julgamento".