sábado, 16 de junho de 2012

China lança sua primeira mulher astronauta

A cápsula espacial chinesa Shenzhou 9 atingiu órbita pouco antes das 8h desta manhã, com três tripulantes a bordo -- entre eles, a primeira chinesa no espaço, Liu Yang. A Shenzhou deverá atracar-se ao módulo espacial Tiangong-1 na segunda-feira, estabelecendo a primeira estação espacial chinesa. Nada que se compare à ISS, de fato, mas ainda assim um grande passo para um esforço executado por um só país.

O programa espacial chinês não se restringe apenas aos esforços tripulados -- que poderiam ser vistos como meras manobras de propaganda -- mas também tem objetivos científicos ambiciosos. A China já enviou duas sondas orbitais à Lua, as Chang'e 1 e 2, e em 2013 a Chang'e 3, composta por um jipe-robô, deverá pousar no satélite natural da Terra. A Índia também já enviou sua sonda orbital à Lua, a Chandrayaan 1, e também planeja um jipe-robô para 2013, em parceria com a Rússia.

Enquanto isso, o Brasil continua a esperar que a parceria espacial com a Ucrânia dê frutos -- um ato de fé comparável aos dos milenaristas que esperam o breve retorno de Jesus à Terra, e provavelmente com as mesmas chances de se realizar.

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Será o 'Novo Ateísmo' funcionando?

Nunca antes na história daquele país (os Estados Unidos) tantos jovens duvidaram da existência de Deus, diz nova Pesquisa Pew:


Esses mesmo jovens veem menos valor nas orações:


E, também, não põem lá muita fé na história de um Juízo Final:


Uma análise do resultado, feita pelo site de política TPM ( sigla de "Talking Points Memo", ou "memorando de assuntos para conversar", não dessa outra coisa em que você está pensando) levanta a hipótese de o declínio ter sido causado pelo ativismo de Dawkins, Hitchens e amigos:

"Os resultados sugerem que um novo movimento de pensamento ateu e agnóstico, durante a última década -- encabeçado por autores famosos como Richard Dawkins, Christopher Hitchens e Sam Harris -- está desviando os jovens das crenças tradicionais de seus pais."

Se a hipótese estiver correta, ela representa uma validação, no campo tático (ainda que não, necessariamente, na esfera ética, ou na filosófica, etc.) da retórica linha-dura que marca o chamado "novo ateísmo". O biólogo Jerry Coyne chama atenção, em seu blog, para o fato de que o declínio acentuado na crença firme em Deus (e também, acrescento, no Juízo Final dos pecados) ocorreu em 2007, quando as principais obras Dawkins, Hitchens  Harris na sera ateísta já haviam sido publicadas.

Existe ainda a clara possibilidade de a pesquisa ter registrado apenas um momento de rebeldia juvenil, e que os garotos (e garotas) que duvidam de Deus hoje um dia voltem ao rebanho, como filhos pródigos.

Contra essa explicação pesa o fato de que as gerações anteriores não passaram por nenhuma queda tão intensa, como fica aparente no gráfico abaixo, que corta os dados por época de nascimento dos entrevistados ("greatest" é a geração que lutou a II Guerra; "silent", os nascidos em 1928 e 1945, jovens demais para terem tomado parte no conflito; "boomers", os do pós-guerra, 1946-1964; "gen-X", o povo que veio entre 1965 e 1980; e "millenial", os pós-1981):


Será que, enfim, os EUA estão seguindo a tendência dos demais países ricos, rumo à ampla secularização da sociedade? E, em caso afirmativo, fica a questão: quando será a nossa vez?

quarta-feira, 13 de junho de 2012

Meu primeiro curso à distância

Concluí, no fim da semana passada, o curso de Introdução à Lógica da Coursera, composto por vídeos e atividades interativas, oferecido por dois professores de Stanford. Além de me capacitar a produzir provas usando indução linear e por contradição, dentro do cálculo lógico de Fitch, permitir-me demonstrar cabalmente que ~(a&b) equivale a (~a|~b) e me ensinar a manipular quantificadores ("qualquer que seja X...", "existe X, tal que...") como um malabarista jogando laranjas para o alto, o curso foi muito útil e interessante sob o aspecto de uma experiência pura e simples.

Foi, afinal, meu primeiro contato "mãos na massa" com educação à distância e, mais especificamente, com a nova onda dos MOOCs, ou Massive Open Online Courses,  tendência que, segundo alguns analistas, pode representar, para as universidades tradicionais, o mesmo que a Amazon.com representou para as cadeias de livrarias dos Estados Unidos, ou que o noticiário online está representando para os jornais e revistas em todo o mundo.

Já há algumas instituições de primeira linha investindo em MOOCs, mais notavelmente Harvard e o MIT, que estabeleceram uma parceria para explorar o campo, a edX. O ponto "Big Bang" da área ocorreu em Stanford, onde em 2011 foi oferecido um curso online gratuito de Introdução à Inteligência Artificial que atraiu 160.000 estudantes -- dos quais 22.000 completaram a disciplina. De lá para cá, o criador desse curso pioneiro, Sebastian Thrun, deixou a universidade para se lançar ao mercado com uma empresa de MOOCs, a Udacity.

O fato de Thrun ter saído da universidade revela um dos pontos de atrito entre o "novo" modelo e o tradicional: as universidades estabelecidas vêm sendo extremamente ciumentas com seus créditos e diplomas. Embora tenha sido criado e lecionado por professores de Stanford, por exemplo, meu bimestre de Introdução à Lógica não valerá nenhum mísero crédito na hipótese (improvável) de eu um dia resolver cursar Matemática nessa mesma instituição. Da mesma forma, embora traga a chancela do MIT e de Harvard, o edX não emitirá créditos ou diplomas acreditados por essas instituições.

As razões por traz disso são tanto econômicas quanto culturais. Sob o aspecto econômico, bolas, se for possível conseguir créditos de Harvard em casa e de graça, para quê pagar para frequentar Harvard? O aspecto cultural é um pouco mais complicado, e envolve desde o arraigado preconceito contra a educação à distância, até resistência burocrática e, suponho, o medo atávico de que o mundo acadêmico seja tomado de assalto por um fenômeno a que gosto de me referir como efeito tenor.

O nome do efeito vem do exemplo que encontrei -- não me lembro onde, mas a historinha não é minha, li isso em algum lugar -- sobre o declínio dos "tenores de bairro". Assim: antes da disseminação do fonógrafo, todo bairro com alguma população italiana expressiva tinha seu tenor, que cantava nas festas de família, quermesses, etc. Com a popularização do registro fonográfico, porém, todo mundo podia ter Caruso em casa, e o tenor do bairro foi para o beleléu.

Agora, imagine que Richard Feynmann -- segundo a lenda, o melhor professor de Física de todos os tempos -- redivivo, começasse a preparar aulas online, com apresentações em vídeo, correção de exercícios automática por software, animações explicativas, fórum de discussão para tirar dúvidas, etc. Imagine, mais, que essas aulas contassem créditos, reconhecidos por instituições de ensino superior de todo o mundo.

Pergunta: quem, em sã consciência, iria querer assistir às aulas de Física do professor da universidade da esquina? A ideia de trocar milhares de professores medíocres e sonolentos por um punhado de verdadeiros gênios da transmissão de conhecimento pode soar tentadora mas, em sua face perversa, o "efeito tenor" pode levar a um descolamento perigoso entre ensino e pesquisa na educação superior.

Afinal, Feynmann era um colosso didático e um pesquisador de nível Nobel, mas essa não é a regra. Por outro lado, não é justo que os estudantes de graduação tenham de suportar (como ocorre hoje em muitos lugares) aulas sem graça só porque os professores são exímios redatores de "papers". Os MOOCs poderão trazer um novo tipo de desequilíbrio entre ensino e pesquisa.


O medo do "efeito tenor" produz como reação a busca por reservas de mercado, e no momento a forma que a reserva toma é esta: os MOOCs não contam créditos. Fica em aberto, no entanto, a questão de como o mercado de trabalho reagirá às "credenciais", como são chamadas, produzidas pelos MOCCs.

Em áreas menos engessadas por exigências de diploma e coisas do gênero, onde competência conta mais que papelada, é possível que os melhores cursos online comecem, em breve, a minar o público dos presenciais. Quando -- se -- o dia chegar em que as barreiras burocráticas passarão a ser vistas como meros baluartes de privilégio, bom, a ver veremos.

Para mim, que tenho uma profunda resistência ao burocratês típico dos meios acadêmicos tradicionais e não estou lá muito interessado em créditos para acolchoar o currículo, os MOOCs são uma dádiva, não dos céus, mas da santa tecnologia. Tanto que já me inscrevi em outro. Sinto-me confortavelmente em casa, nesta era, um tanto quanto paradoxal, do autodidatismo teleguiado.

Jesus & Mo. Classic.


Mais da fantástica dupla, você encontra aqui.

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Escrevendo fantasia

Finalmente, saiu: minha novela de fantasia oriental As Dez Torres de Sangue já está à venda, online, para entrega a partir do fim do mês (edição em papel) ou imediata (edição digital, incluindo para Kindle). Este é apenas mais um dos lançamentos literários envolvendo minha pessoa neste ano e, ao lado do meu conto Antropomaquia, que aparece na antologia Fantasias Urbanas, é o único trabalho de ficção que escrevi, a sair em 2012, que não envolve ciência em nenhum aspecto fundamental (embora Antropomaquia seja um híbrido estranho de fc e fantasia, na verdade, mas deixo o juízo final para os leitores).

O que me traz à perene questão das fronteiras entre ficção científica e fantasia. Por um lado, os gêneros são próximos o bastante para serem representados por uma mesma organização profissional no mundo de língua inglesa, a SF&F Writers of America.

Ambos os gêneros também apelam para uma base de fãs percebida como largamente comum -- para ter uma ideia de até onde vai essa percepção, é só lembrar do hilariante episódio em torno do Um Anel de The Big Bang Theory, por exemplo.

E não nos esqueçamos de que Jorge Luis Borges, um autor universalmente identificado com a fantasia (ou "realismo mágico", para sermos pedantes) é também o escritor de ficção mais citado em "papers" científicos.





Mas, claro, além das semelhanças há também diferenças, em alguns casos irreconciliáveis. Entre as principais semelhanças há o fato de ambos os gêneros serem escapistas, não no sentido de alienantes (ficção realista também pode alienar muito bem, se for essa a intenção), mas de oferecerem ao leitor um modelo de realidade que escapa daquele a que estamos acostumados.

Esse caráter de modelo talvez seja o que atrai as sensibilidades mais científicas para a fantasia. Afinal, a possibilidade de postular modelos e investigar suas ramificações e satisfabilidade é uma das principais atrações da ciência.

Já quanto às diferenças, imagino que sejam principalmente duas, uma mais superficial, de vocabulário (espaço, planeta, nave, computador, versus mago, floresta, espada, dragão); outra, mais profunda, é meio como a que separa o jornalismo da literatura: no primeiro caso, sempre há alguém que pode desmenti-lo  se você escrever bobagem.

Não que a fantasia seja um "vale tudo", mas nela a principal preocupação é a consistência interna, a coesão do universo ficcional consigo mesmo, não a externa, uma correspondência e continuidade entre os eventos do universo ficcional e os fatos do mundo tal como descritos pela ciência -- algo que representa uma preocupação importante da ficção científica strictu senso. Um caso a citar é o de Robert E. Howard, que se apaixonou por escrever ficção histórica, mas incapaz de se livrar da preocupação com os embaraços de fatos e datas, resolveu mandar tudo às favas e inventar a Era Hiboriana.

Há casos curiosos em que o vocabulário de um gênero acaba sendo aplicado ao espírito do outro, o que dá margem a discussões intermináveis como "Será Guerra nas Estrelas ficção científica ou fantasia?". Quanto a mim, escrevo fantasia, quando escrevo, em parte para dar um toque extra de exotismo aos cenários, e em parte para explorar certas questões do tipo "o que aconteceria se...?" mais ligadas à mitologia e à religião do que às ciências "duras".

As Dez Torres de Sangue usa a árvore de sefirot da cabala como princípio organizador, com umas pitadas de astrologia e um pouco de mitologia islâmica na mistura. É fundamentalmente uma história de aventura, outra coisa a que a fantasia se presta muito bem -- as constantes narrativas do gênero sendo mais facilmente reconhecíveis que as da ficção científica, o que poupa o autor do risco de se perder em explicações em meio à ação.

Por fim, gostaria de responder, um tanto quanto preventivamente, a uma questão que volta e meia aparece quando pessoas que me conhecem mais por meu ativismo cético-científico descobrem que escrevo ficção envolvendo deuses, demônio,s astrologia e, até, bíons reichianos (para isso, aguarde o lançamento de Tempos de Fúria Redux). A pergunta é, obviamente: "Como assim?" Algumas pessoas chegam a insinuar que haveria algo de profundamente irônico, freudiano, até, nesta minha "vida dupla".

A resposta, perfeitamente simples, é: eu gosto de ficção. E gosto de especular sobre ficção. Mas também gosto que a ficção, assim como a realidade, se mantenha em seu devido lugar.