terça-feira, 14 de junho de 2016

Mitocôndrias e deuses astronautas

Durante o evento pró-fosfoetanolamina realizado no último sábado, os químicos da USP de São Carlos que, ainda hoje, são os principais promotores da fosfoetanolamina sintética(R) (FOS) como cura universal e inquestionável do câncer, apresentaram sua visão completa do suposto mecanismo de ação da substância (ou mistura de substâncias, de acordo com a análise realizada pelo Instituto de Química da Unicamp). Minimizando o tão decantado papel da FOS em "marcar" as células cancerosas para o sistema imunológico, concentraram-se mais na ideia de que a molécula é capaz de reativar as mitocôndrias, as estruturas responsáveis por oxidar açúcar e gerar energia no interior das células.

Resumindo, os pais da FOS afirmam que as alterações genéticas que fazem a célula reproduzir-se descontroladamente são mera consequência de um problema metabólico, envolvendo o transporte de gordura para o interior da célula.

A falta de gordura, de acordo com o modelo, desativa a mitocôndria. Para obter energia nessas condições, a célula passa a consumir o açúcar num processo de glicólise anaeróbica, análogo à fermentação praticada pelas bactérias, em vez de queimá-lo com oxigênio. Esse novo modo de produção acidifica o meio celular interno. No fim, é a acidez que causa as mutações que transformam o DNA saudável em canceroso. Ainda segundo a biologia são-carlense, a FOS atua normalizando o transporte de gordura, o que reativa a mitocôndria, o que leva a célula, já acostumada a uma dieta frugal à base do ineficiente processo de glicólise anaeróbica, a morrer de indigestão. E pronto: adeus, câncer!

Imagino que, para o biólogo molecular ou o estudioso sério do câncer, ler os parágrafos acima deve causar um efeito semelhante ao que ler um livro de Erich von Däniken produz num historiador ou arqueólogo: fascínio -- ou exasperação, dependendo do estado de ânimo -- diante do amontoado de ideias fora de lugar, de meias-verdades, da reciclagem inepta de teorias desacreditadas, da mistura de fantasia, erros crassos e cara de pau.

No entanto, para o cidadão desavisado -- para quem a palavra "mitocôndria" talvez evoque apenas uma ou duas lembranças vagas das aulas de biologia do ensino médio, e "fermentação" signifique um modo de produzir cerveja -- a coisa pode até soar lógica, mais ou menos como a hipótese dos deuses astronautas parece razoável para muita gente: afinal, há tantos planetas lá fora e, ora bolas, quem construiu as pirâmides?

Como o caso dos deuses astronautas mostra, porém, plausibilidade superficial aos olhos do público não significa plausibilidade científica. E, assim como um pouco de pesquisa logo revelou o fio da meada seguido por Von Däniken na elaboração de seu mito, a hipótese de São Carlos para a origem do câncer também tem antecedentes, e são antecedentes que em certo momento desempenharam um papel importante na história da ciência. A eles, então.

O principal é Otto Heinrich Warburg (1883-1970), biólogo alemão, ganhador do Prêmio Nobel de Fisiologia ou Medicina de 1931. Warburg ganhou seu Nobel por ter identificado a enzima que permite às células vivas queimar carboidratos com oxigênio, para obter energia, sem irromper em chamas -- afinal, no mundo extracelular, "queimar com oxigênio" significa "botar fogo". Mas ele é mais lembrado, no universo da pesquisa do câncer, por outra descoberta, o "efeito Warburg", e por ter formulado, com base nele, a "hipótese de Warburg", ambos na década de 20.

O "efeito Wargburg" é a constatação de que a maioria das células de câncer -- uma estimativa recente falava em algo entre 60% e 90% -- apresenta altas taxas de glicólise, mesmo na presença de oxigênio. Isso era (e é) estranho, porque, havendo oxigênio disponível, seria muito mais eficiente queimar o açúcar na mitocôndria, em vez de fermentá-lo no citoplasma (a meleca que preenche a célula). Já a "hipótese de Warburg" é a ideia de que o câncer é desencadeado por um defeito na mitocôndria.

Do ponto de vista da biologia conhecida em 1926 (isso são noventa anos atrás, nota bene), tinha lógica: havia a correlação forte entre célula maligna e fermentação; fermentação só parecia fazer sentido se a mitocôndria estivesse defeituosa. Dois fenômenos -- fermentação e câncer -- uma só causa, a mitocôndria coxa. Como dizem os tenistas, game, set, match. Certo?

Errado. Em ciência uma boa ideia, por melhor que seja, nunca ganha dos fatos, e as pesquisas realizadas nas décadas seguintes mostraram que os fatos não estavam ao lado dessa hipótese. Isso não é culpa de Warburg: ele formulou sua explicação para o câncer quase 20 anos antes que se estabelecesse que o DNA era a molécula da hereditariedade.

Em 1976, um artigo de revisão intitulado "The Warburg Hypothesis Fifty Years Later", anunciava que "o conceito de que o início ou a sobrevivência do câncer se dá por conta de uma respiração 'defeituosa' ou pela alta taxa de glicólise parece simplista demais para merecer séria consideração". Isso foi publicado 40 anos antes da apresentação do grupo de São Carlos no Hotel Excelsior. Talvez não tenham recebido o memorando.

Falando sério: é claro que, da mesma forma que a ciência sobre o assunto mudou de 1926 para 1976, ela também poderia ter mudado de novo entre 1976 e 2016. Mas não foi o que aconteceu. O efeito Warburg ainda é muito estudado, porque representa um marcador importante para o câncer e uma alteração metabólica significativa de parte das células tumorais: entre as hipóteses para explicá-lo estão a de  que ele permite que as células de câncer sobrevivam mesmo no interior de tumores sólidos, onde o oxigênio quase não chega, ou que, ao acidificar o microambiente no entorno do tumor, prejudica as células saudáveis. Mas, o efeito Warburg como causa do tumor? Nada feito.

Outra revisão, publicada em Nature Reviews em 2004, afirma: "Embora a 'hipótese de Warburg' tenha se provado incorreta [grifo meu], as observações experimentais de aumento da glicólise nos tumores, mesmo na presença de oxigênio, têm sido repetidamente confirmadas". Já dois outros artigos, um de 2006 na Science e outro de 2013 em Nature Communications implicam mutações no gene p53 na regulagem da respiração celular e na intensificação da glicólise. Ah, sim: o p53 é um dos mais conhecidos genes envolvidos na inibição (ou produção, dependendo de seu estado) de tumores. O título da Nature Communications são poderia ser mais claro: "Tumour-associated mutant p53 drives the Warburg effect".

Enfim, o estado atual da ciência sobre o assunto é claro: a cadeia causal vai da disfunção no DNA para a glicólise e a mitocôndria, não o contrário, como se supunha na Alemanha em 1926 (e em São Carlos em 2016, pelo jeito).

Tendo dito tudo isso, gostaria de fazer duas ressalvas.

A primeira é que o fato de não haver uma explicação competente para o funcionamento de uma droga não implica, logicamente, que ela, a droga, não pode funcionar. A história da Medicina está repleta de medicamentos e intervenções úteis que entraram em uso muito antes de alguém ser capaz de explicar por que eles davam certo. A vacinação é um caso clássico. O veredicto final sobre a FOS não virá de argumentos teóricos ou de exposição histórica,  mas dos ensaios clínicos. No entanto, é forçoso reconhecer que a evidência disponível até agora -- que inclui a distribuição irresponsável das pílulas, a explicação mal-ajambrada de seus efeitos, os resultados pré-clínicos decepcionantes -- não recomenda otimismo.

A segunda é que nenhuma "verdade científica" está gravada em pedra. Do mesmo modo que a hipótese de Warburg passou de respeitável em 1926 para "simplista demais" em 1976, chegando a "incorreta" em 2006, é concebível que algum dia ela venha a ser reabilitada. Mas essa reabilitação, caso ocorra, terá de vir apoiada em observações contundentes e experimentos sólidos, capazes de reverter praticamente todo o conhecimento sobre câncer e genética acumulado pela Bilogia e pela Medicina ao longo dos últimos 90 anos. Até que essas provas sejam apresentadas, falar em câncer causado por mitocôndrias merece o mesmo crédito que falar que deuses astronautas esculpiram a Face de Marte.

domingo, 12 de junho de 2016

Alice no País da Fosfoetanolamina

No último sábado, visitei uma realidade alternativa. Cheguei lá não caindo pela toca de um coelho, mas subindo no elevador de um hotel no centro da cidade de São Paulo, a dois quarteirões da Praça da República: foi no 23º andar do Hotel Excelsior que aconteceu o Seminário Fosfoetanolamina em Debate, patrocinado pelo Sindicado dos Farmacêuticos do Estado de São Paulo.

Neste mundo paralelo, onde as leis mais fundamentais da biologia e da fisiologia divergem das do nosso Universo, o câncer não é causado por mutações genéticas, mas pela mudança na acidez do citoplasma; as células cancerosas são anaeróbicas, mas precisam de oxigênio para viver; e uma só molécula, fosfoetanolamina sintética de São Carlos -- e só a de São Carlos -- , é capaz de levar essas células ácidas que não respiram, mas precisam de oxigênio, ao suicídio.

Esta, ao menos, é a biologia fundamental do câncer de acordo com as apresentações feitas pelos professores Gilberto Chierice e Salvador Claro Neto. Abaixo, alguns slides da apresentação de Claro Neto, explicitando as regras do mundo em que vive:







Ainda neste País da Fosfoetanolamina, uma conspiração sinistra, envolvendo a indústria farmacêutica, oncologistas, a mídia e os setores técnico-científicos do governo federal, atua arduamente para impedir que os pacientes de câncer tenham acesso à cápsula mágica, mas Deus trabalha para que lideranças iluminadas -- incluindo pré-candidatos á Presidência da República -- quebrem essas correntes de opressão. Professores aposentados são os novos messias, e advogados, seus profetas.

Em mais de um momento, o evento no Hotel Excelsior assumiu ares de culto neopentecostal televisivo -- o mesmo tom do discurso, a mesma linguagem corporal, os testemunhos de curas milagrosas operadas por meios maravilhosos, o mesmo apelo à submersão da consciência individual na fé da massa. Em outros momentos, lembrava as reuniões da franja mais paranoica do movimento ufológico: as insinuações que não chegam a se consolidar em acusações, a citação seletiva, desonesta e distorcida de documentos oficiais, o sugerido mas não dito. A Verdade sobre a Fosfoetanolamina vista como a nossa Área 51.

Bateu-se muito na tecla de que todo doente tem o direito de buscar a cura, que as pessoas podem optar por terapias alternativas, podem até escolher fumar e beber -- comportamentos danosos à saúde -- mas estão sendo "proibidas", pelas maquinações de forças ocultas, de ter acesso à fosfoetanolamina.

Esse discurso todo, no entanto, não passa de uma distorção: questões éticas e científicas à parte, o problema do acesso à "fosfo" não foi criado pelo Estado. Ele nasce do monopólio da oferta e da insistência para que a molécula seja vista como medicamento válido. Afinal, qualquer um pode plantar babosa no jardim, e há marcas de cigarro para todos os gostos, mas ninguém espera que o governo licencie a babosa como medicamento, forneça tabaco no sistema público de saúde ou que médicos receitem uísque.

Mas nem tudo é paz no País da Fosfoetanolamina. A sequência de apresentações durante o evento no Hotel Excelsior -- depois de Claro Neto falou o pesquisador Durvanei Maria, do Instituto Butantã -- mostrou que há fissuras sob a superfície: de fato, existem duas narrativas, ambas pretensamente científicas mas mutuamente excludentes, a respeito da eficácia da molécula contra o câncer, a versão de São Carlos e a versão do Butantã. A apresentação de Durvanei foi tratada como um aprofundamento, ou reiteração, da de Claro Neto, mas isso não passou de uma manobra para tentar ofuscar o público leigo com jargão científico. Biólogos presentes ao evento captaram rapidamente as contradições.

Na narrativa de São Carlos, o que atua contra o câncer é a fosfoetanolamina sintética(R) produzida segundo a receita que a equipe de Chierice tenta patentear desde 2008, que é eficaz quando consumida sob a forma de cápsulas, que torna desnecessários os tratamentos tradicionais, como quimioterapia e radioterapia e que age de acordo com os princípios fisiológicos da realidade alternativa estabelecida no 23º do andar do Hotel Excelsior .

Já na narrativa do Butantã, mais coerente com a realidade do nosso Universo, a fosfoetanolamina é apenas mais uma molécula de uma categoria maior, a dos fosfolipídios,  que vem sendo estudados em diversas partes do mundo como possíveis adjuvantes para o tratamento do câncer, aumentando a sensibilidade das células tumorais à radiação e à quimioterapia -- não substituindo a radiação ou a quimioterapia -- ou como veículos para a inserção de quimioterápicos nas células.

À luz da ciência, não há como conciliar São Carlos e Butantã. É curioso imaginar quais os interesses -- se comerciais, políticos ou ideológicos, é impossível dizer neste momento -- estão por trás da cuidadosa ocultação deste fato.