quinta-feira, 21 de julho de 2016

De partidos e escolas



Essa conversa toda sobre “Escola Sem Partido”, que acabou virando uma gritaria em que um lado berra “doutrinação!” e o outro, “pensamento crítico!”, me trouxe algumas lembranças. A escola do SESI em que fiz o primário – creio que é o que hoje chamam de “fundamental” – tinha um partido claro: o catolicismo romano.

A data da Primeira Missa no Brasil era quase tão importante quando a do descobrimento, José de Anchieta tinha sido um herói civilizador e a dilatação da fé estivera entre os mais nobres empreendimentos do Império Português. Havia festa de São João. Mas a subversão evangélica já estava começando: certa vez, um professor de Matemática interrompeu a aula para que seu irmão, membro dos Gideões Internacionais, pudesse falar com a turma e distribuir bíblias de bolso.

Criança de família católica, tudo era perfeitamente normal, até que meio transparente, para mim: aquele negócio do peixe que não se dá conta de que vive na água, etc. Que eu saiba, havia um menino mórmon e um testemunha de Jeová na turma, e não faço a menor ideia de como eles se viravam com isso. Estavam quietos na maior parte do tempo.

Já no meu tempo de secundário (“ensino médio”), tinha um professor de Geografia cuja principal missão na Terra era convencer os alunos de que mapa não tem "em cima" e "em baixo", mas "norte" e "sul", "em cima" e "em baixo" era lavagem cerebral ideológica pra fazer nosotros hermanos latinos nos sentirmos "por baixo".

Professores de História havia dois: uma professora de História do Brasil, para quem tudo que acontecera de errado na América do Sul, em geral, e em Pindorama, em particular, desde a chegada de Cabral, era culpa das maquinações do Império Britânico (o Paraguai, por exemplo, era o paraíso socialista na Terra até a Inglaterra engabelar o cretino do D. Pedro II, que foi lá acabar com a festa). Depois, claro, a culpa passou para aquele novo Satanás, os ianques. Um colega meu, filho de um advogado conservador, vivia discutindo com ela.

O outro, professor de história do mundo, comunicava à classe algumas opiniões contundentes a respeito da ideia de programas estatais de assistência social, principalmente às mães solteiras pobres – “não me pediu ajuda na hora de gozar, agora vai me pedir ajuda na hora de criar?” era uma de suas frases mais características. Hoje em dia, teria ido parar no pelourinho, suponho.

Havia o professor de Química que achava que criticar o governo Sarney era sabotar o Brasil, num momento tão delicado de transição pós-ditadura; hoje, imagino, é tucano. Já um dos professores de Física era petista roxo. Andava num Fiat Uno detonado, cheio adesivos de campanha política, e proclamou “Fora do socialismo não há salvação!” na entrada da escola, em alto e bom som, por ocasião do Plano Cruzado. Era tão comprometido, na verdade, que chegou a ser candidato a vice-prefeito numa campanha quixotesca numa cidade vizinha. Imagino se não terá migrado para o PSOL.

Falando em candidato, tive ainda, nessa mesma escola, um professor de Matemática que foi candidato a vereador, por uma dessas legendas de aluguel que ainda pululam por aí, e se elegeu! Muitos alunos se engajaram, como voluntários, em sua campanha, mas desde já digo que os que não participaram (como eu) não foram perseguidos ou prejudicados. Era uma escola particular (não pública) mas, como o quadro acima mostra, bem pluripartidária. O que é bem o oposto de uma Escola “Sem” Partido.

Só vim a encontrar a tão propalada hegemonia ideológica de esquerda na educação, que parece assustar tanto os proponentes do “Escola Sem Partido”, quando cheguei à faculdade. Ser de direita – ou, ao menos, liberal, no sentido de contemplar a possibilidade de que uma economia de mercado talvez não fosse uma ideia tão má assim – na Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP, no início da década de 90, era mais ou menos como ser ateu no Vaticano. Desconfortável, sem dúvida, mas, como os críticos (muitos deles, mas não só, aliás, à direita) da multiplicação de “safe spaces” e “trigger warnings” no ensino superior vivem repetindo, a universidade não foi feita para ser confortável.

Além disso, havia nuances relevantes, cruciais: os melhores professores expunham seus pressupostos e mostravam a construção de seus pontos de vista; era possível acompanhar o raciocínio e, para quem sentisse a inclinação, desconfiar das premissas, discordar da conclusão. Os piores simplesmente assumiam que seus pressupostos eram verdades universais, axiomas que não precisavam ser articulados, verdades morais tão óbvias que só poderiam discordar delas os canalhas, os agentes da CIA ou os idiotas. Enfim, havia os que viam a água ideológica em que nadavam e, mesmo gostando do meio, sabiam abstrair-se dele quando necessário, e os que estavam confortáveis demais no fluxo para se importar.

O que isso tudo quer dizer? Bom, sou uma amostra de um único “data point”, mas gostaria de notar que os dois momentos em que vivi em escolas “com partido” monocrático – o católico da infância e o esquerdista do início da vida adulta – se foram momentos de “doutrinação”, não deixaram sequelas muito notáveis. Por outro lado, é um pouco preocupante imaginar que o que passa por “pensamento crítico”, para muitos dos opositores do projeto, é a caricatural cruzada “sul não é pra baixo” do professor de Geografia de olho rútilo.

Talvez fosse mais produtivo, nessa briga toda, substituir a noção de “ideologia” pela de “água”, como na metáfora que usei acima: um ambiente (no caso, cultural, intelectual) que nos cerca, nos envolve e nos penetra, que dá forma às verdades autoevidentes de nossas vidas e da sociedade em que estamos.

É aí que o “Escola Sem Partido” erra, tanto no diagnóstico quanto no tratamento: o problema não é haver água, é ela ser tão transparente, invisível, para quem está imerso nela. Isso vale tanto para o tal "pensamento crítico" quanto para o senso comum conservador: porque o que é senso comum varia com o ambiente, e imagino que não haja nada mais "conservador" e conformista, no meio acadêmico de humanas, do que ser de esquerda, por exemplo. 

A solução, enfim, não é trocar uma água por outra e, aí, fingir que essa nova água não existe. Alguma água sempre vai existir, de um modo ou de outro, enquanto houver cultura. A melhor educação não é a que ocorre num vácuo, porque vácuos não existem nos espaços da mente. A melhor educação é a que dá às pessoas instrumentos para que elas finalmente percebam e analisem a água em que se encontram, e decidam se querem fazer algo a respeito.

quarta-feira, 20 de julho de 2016

Aviso preventivo

Oi, gente, só por precaução: nas últimas 24 horas, este blog teve dois picos expressivos e extremamente atípicos de audiência (cada um deles equivalente a um ou dois dias de tráfego normal), separados por um intervalo de 12 horas, o primeiro às 23h00 de ontem e oo utro, às 11h00 desta manhã -- ambos originados, segundo o sistema do blogger.com, na Rússia.

Como desconheço qualquer comunidade de fãs russos do meu trabalho, há a possibilidade de esses picos serem sintoma de algum tipo de ataque virtual ao blog (por que alguém haveria de atacá-lo é algo que me escapa, mas enfim...). Então deixo esta nota aqui só para alertar que, se de repente começarem a aparecer fotos de gente pelada ou correntes de oração vindas daqui, não sou eu, ok? Até mais!

segunda-feira, 18 de julho de 2016

Livros! Livros!

Foi lançada oficialmente, no início do mês, a coletânea de contos Swords v. Cthulhu, publicada no Reino Unido pela editora independente Stone Skin Press. Como o título sugerem trata-se de uma coleção de histórias lovecraftianas passadas em cenários de capa-e-espada, incluindo o universo das Dreamlands (o mundo de fantasia criado pelo próprio Lovecraft) a períodos históricos, digamos "reais" do nosso universo.

O livro contém um conto meu, The Argonaut, que foi basicamente inspirado na sequência das viagens de Simbad das Mil e Uma Noites. O blog Soft Disturbances vem realizando uma "maratona de leitura" do livro, resenhando-o, praticamente, conto a conto.

E no início desta semana publiquei, pela plataforma de print-on-demand da Amazon.com, a Create Space, a esperada (oi? alguém?) edição em papel do meu Livro da Astrologia, que já estava disponível em versão e-book desde o fim do ano passado. O site nacional da livraria, Amazon.com.br, deve passar a oferecer a versão em papel em breve (e com o preço em reais, não dólares), também. 

Aqui, imagino, seria o momento de eu me lançar num longo rant sobre por que diabos é tão mais fácil um escritor brasileiro (eu, no caso) conseguir ser publicado -- com perspectiva realista de remuneração!-- por uma editora nanica inglesa ou por megacorporação americana, apontada por muita gente que vive de livros no Brasil como a maior ameaça à cultura nacional(r) desde que Carmen Miranda passou a cantar em inglês, do que por alguma editora brasileira. 

Basicamente, somando as vendas do Livro da Astrologia como e-book para Kindle ao adiantamento que a Stone Skin me pagou por Argonaut, no último semestre ganhei mais, como escritor, do que em toda minha década pregressa de carreira literária. Mas, enfim. O melhor que podemos fazer, pessoas e empresas, é nos virar de acordo com as circunstâncias. Espero que quem lê inglês e curte meu trabalho como ficcionista dê uma chance para Sword, e quem tinha curiosidade com Astrologia, mas relutava em aderir ao e-book, possa se arriscar nessa edição em papel.

domingo, 17 de julho de 2016

Videntes de São Paulo

Já escrevi pelo menos uma vez neste blog criticando a tendência da grande imprensa brasileira de tratar as pautas que poderiam ser chamadas de paranormais -- da astrologia à ufologia, passando por temas como profecias, êxtases religiosos, tarô, curas milagrosas -- com um viés meio etnográfico, limitando-se a descrever os fenômenos num tipo de texto que às vezes se esforça um pouco demais para soar "literário" e com um tom que vai da condescendência metida a besta (geralmente reservada para os fãs de disco voador) à reverência servil (qualquer "milagre" que venha da Igreja Católica). Um enfoque crítico e objetivo parece, sempre, fora de questão.

Mas, veja só, nem tudo está perdido. Neste domingo o jornal O Estado de S. Paulo publicou uma reportagem especial de uma página, intitulada Dos postes às mesas dos videntes de São Paulo que, se repete muitos dos cacoetes da velha abordagem etnográfica -- incluindo o tom "espertinho", a forçada de barra literária, a preferência por fontes "especialistas" crédulas -- pelo menos não tem medo de mostrar a cara feia do mercado de videntes e "amarrações para o amor", e nem tenta relevar a feiura intrínseca dessas práticas com um verniz de relativismo cultural, conforto psicológico ou o que seja. É um avanço.

O que a imprensa brasileira segue devendo a seus leitores é um esforço de reportagem que vá realmente fundo nessas práticas, apontando com números e histórias humanas --  para além da experiência subjetiva da repórter -- o mal que esse tipo de fraude causa, e a crueldade implícita na exploração que faz do desespero e do desamparo de suas vítimas.

O que estou propondo não é, aliás, nenhuma novidade: The New York Times já relegou as narrativas sobre videntes e cartomantes a sua página policial há tempos (por exemplo, aqui e aqui) e o site CNN Money fez uma longa série a respeito de uma fraude internacional de leitura da sorte, aqui. Assim como aconteceu nos Estados Unidos, algum dia, aqui no Brasil, esse tipo de assunto vai ter de sair da crônica de costumes e virar reportagem séria. O texto recente do Estadão é um passo na direção certa. Que tal percorrer o resto do caminho?