quinta-feira, 7 de julho de 2011

E agora, Nasa?

Nesta sexta-feira pela manhã, salvo algum impedimento de última hora (com os ônibus espaciais, nunca se sabe), o Atlantis partirá na última missão a ser realizada por um tipo muito específico de nave tripulada, o ônibus espacial.

Em uso há 30 anos, os ônibus espaciais representaram duas mudanças drásticas -- e, pelo que o julgamento da história indica até agora, erradas -- no conceito de nave espacial existente no mundo real, aproximando os veículos de verdade de seus correspondentes no mundo da ficção científica.

Assim como as naves criadas pelo Professor Zarkov para Flash Gordon (ou como a Millenium Falcon de Guerra nas Estrelas), os ônibus unem carga e tripulação num mesmo veículo, e são reutilizáveis. A ideia básica era reduzir custos, mas o efeito final foi o de multiplicar riscos, pondo vidas humanas na linha de fogo a cada lançamento de satélite. Isso não seria um problema se as naves fossem realmente seguras -- o que provou não ser o caso.

Além disso, os ônibus espaciais são extremamente limitados, já que conseguem atingir, apenas, a órbita baixa da Terra. São, a bem da verdade, naves para parte alguma: se não fosse a Estação Espacial Internacional, não teriam outro destino além do de dar voltas em torno da Terra. Ou, como diz a anedota: os ônibus espaciais existem para ligar a Terra à ISS. Já a ISS existe para os ônibus espaciais terem para onde ir.

Quando o presidente George W. Bush ordenou a aposentadoria dos ônibus espaciais, a primeira coisa que a Nasa fez, ao propor uma nova arquitetura de voo espacial, foi separar a carga das pessoas: o Projeto Constellation previa uma cápsula tripulada, a Orion, que transportaria apenas astronautas; e um foguete pesado, o Ares V, capaz de lançar carga ao espaço, ou de propelir a Orion para destinos além da órbita da Terra.

O plano era bom, mas Bush -- e o Congresso -- não o apoiaram com as verbas necessárias, o que levou o governo seguinte, de Barack Obama, a cancelar o Constellation. A ideia de Obama era entregar o acesso à órbita terrestre à iniciativa privada, e ordenar à Nasa a criação de um novo sistema capaz de levar astronautas para destinos distantes -- asteroides, ou mesmo Marte -- dentro de duas décadas.

Pressões no Congresso americano, no entanto, acabaram produzindo uma espécie de "plano Frankenstein", no qual o Constellation ganhava uma espécie de versão reduzida: a cápsula Orion foi reconvertida no MPCV,   mais uma vez um veículo capaz de levar astronautas para além da órbita terrestre; e o design do sucedâneo do Ares V, denominado pela sigla SLS ficou para ser anunciado "em breve".

O Congresso dos EUA determinou que o novo foguete e o MPCV devem fazer um voo inaugural em 2016, mas a Nasa diz que, com a verba disponível, isso é "improvável".

O MPCV terá capacidade de manter quatro astronautas vivos no espaço por 21 dias. Isso não é suficiente para chegar a nenhum lugar realmente interessante (descontando-se a Lua ou talvez um ponto lagrangiano, mas qual a graça de voar até um pedaço de espaço vazio?), mas em entrevista à BBC, funcionários da agência espacial disseram que, em missões prolongadas, o módulo seria apenas parte de uma configuração maior.

De qualquer forma, a divisão de trabalho proposta por Obama se mantém: o acesso à órbita terrestre passa a ser problema da iniciativa privada (e, até que as empresas tenham suas cápsulas prontas e operando, do governo russo) enquanto a Nasa se concentra em destinações mais "visionárias".

Vai dar certo? A questão é, como sempre, dinheiro. Como disse um dos primeiros astronautas americanos, "No bucks, no Buck Rogers". Quando teve um cheque em branco, a Nasa pôs homens na Lua em menos de dez anos.

De lá para cá, só viu seus planos sofrerem downsizings radicais no caminho entre o discurso presidencial e a planilha de gastos: nos últimos 20 anos, nada menos que dois presidentes americanos ordenaram a realização de viagens tripuladas a Marte, diante das câmeras, somente para puxar o tapete orçamentário de debaixo dos pés da agência, em seguida.

O risco de o MPCV acabar sendo outro beco sem-saída, mais uma nave para parte alguma, não deve ser subestimado. Mas o jeito é esperar para ver.

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Outdoors ateus em Porto Alegre, graças a Deus!


Depois de uma longa série de rejeições em várias cidades brasileiras, a campanha de outdoors da ATEA finalmente encontrou uma capital civilizada o suficiente para acolhê-la: Porto Alegre. Aí os gaúchos ficam se sentindo superiores ao resto do Bananão, e ninguém entende o motivo. Olha ele aí em cima.

Sei que muita gente torce o nariz para esse ateísmo, digamos, "in your face", exibicionista, loquaz -- estridente, diriam alguns. Amigos cuja opinião respeito queixam-se de que esse "novo ateísmo", ou "ateísmo afirmativo", acaba sendo tão chato, inoportuno, pentelho, etc., quanto o proselitismo religioso. Será que as pessoas não seriam mais felizes se, simplesmente, parássemos de encher o saco uns dos outros com metafísica?

Por mais que eu possa simpatizar com a opinião expressa no parágrafo acima, ela deixa de levar em conta dois fatores -- talvez os fatores -- fundamentais: primeiro, a religião é estruturalmente incapaz de respeitar uma trégua do tipo; ela é invasiva, pervasiva e não tem o menor senso de ridículo ou de boas maneiras (se duvida, dê uma olhada neste tumblr). Segundo, encher o saco funciona. Pergunte ao pentelho-mór do Novo Testamento, São Paulo.

Não se engane: nenhum ateu parte para o ativismo sem prévia provocação. Isso geralmente toma a forma de um momento em que o ateu olha em volta e diz: "Peraí, esses caras estão atrapalhando a minha vida por causa de umas merdas em que eles acreditam".

Ao se dar conta de que essas "umas merdas" são passivamente toleradas, quando não abertamente promovidas, pela sociedade que ajuda a sustentar com os impostos que paga, o ateu pode ser perdoado se decidir entrar em campanha para explicar a seus concidadãos que elas são, ora bolas, merdas.

No caso dos new atheists anlgo-saxões, a gota d'água foi o 11 de Setembro, seguido pela boçalidade da reação cristã conservadora. No meu caso pessoal, foi a decisão da prefeitura de Jundiaí de parar de fornecer um tipo de anticoncepcional nos postos de saúde, depois que o bispo católico local passou um pito no prefeito.

(Se a ideia de ter dogmas medievais ditando políticas públicas de saúde a autoridades eleitas não o assusta, então você está pronto para viver sob o Taleban.)

Resumindo: os ateus teriam mantido suas opiniões no nível do discurso filosófico-acadêmico se a CNBB, o Edir Macedo, a Myriam Rios, o Datena e o Silas Malafaia tivessem feito o mesmo. Pois, para citar um aforismo que já tem lá seus 2.000 anos, "todos aqueles que vivem pela espada, por ela perecerão".

terça-feira, 5 de julho de 2011

Infinito em todas as direções

Estou terminando o primeiro quinto do livro de Sean Carroll sobre a natureza do tempo,From Eternity to Here: The Quest for the Ultimate Theory of Time (adquirido por indicação do físico Daniel Bezerra). Além de estar me divertindo com o estilo do autor e -- ao menos por enquanto -- discordando de algumas ideias dele sobre a entropia no instante do Big Bang, acabei me identificando com uma dificuldade que ele diz ter, a de enfrentar o preconceito das pessoas em aceitar a possibilidade de um passado infinito.

Existem dois argumentos clássicos contra a ideia de que o tempo passado possa se prolongar indefinidamente. Esses não são necessariamente argumentos teístas, mas como eles levam à conclusão de que o passado tem de ter começado num determinado ponto, deixando em aberto a questão de o que teria causado esse começo, a turma do "Deus das Lacunas" adora se agarrar a eles.

O primeiro, que é o que Carroll encara no livro, é o de que, se o passado é infinito, então um tempo infinito deve ter se desenrolado entre a origem do Universo e o presente. Mas o infinito não tem fim (dã). Logo, teria sido impossível chegar ao presente. Mas, olha nóis aqui. Ergo, um passado infinito é absurdo.

O que me surpreende é que esse argumento ainda seja levado a sério por qualquer pessoa maior de 13 anos, que é a idade em que (ao menos no meu tempo) aprendíamos sobre números negativos. Para refrescar a memória, veja abaixo a reta dos Números Reais:


Ela é infinita nas duas direções. Imaginemos que o zero é o presente, os números negativos representam os momentos do passado e os positivos, os do futuro; e que a passagem de um momento para o outro ocorra com a soma de uma unidade ao momento anterior (assim, passamos do instante -5 ao -4 fazendo "+1", a mesma operação que nos leva do 7 ao 8, por exemplo).

Se essa correspondência entre instantes e números é válida (e temos relógios para mostrar que ela, no mínimo, funciona muito bem) o argumento contra a infinidade do passado equivale a um argumento dizendo que os números negativos não podem ser infinitos, porque seria preciso realizar um número infinito de somas para chegar do primeiro deles até o zero.

O que há de errado nesse raciocínio é que não existe o primeiro número negativo, da mesma forma que não existe o último número positivo. Afirmar que o passado é infinito significa negar a existência de um ponto de origem, e não que a origem está infinitamente distante de nós.

Assim, da próxima vez que alguém lhe disser que um passado infinito torna impossível passar da origem ao presente, saiba que essa pessoa está simplesmente tentando contrabandear de volta para a conversa uma entidade -- a origem -- que a própria ideia de infinitude nega. Não é de espantar que a reintrodução leve a contradições.

(Acrescentando mais um ponto que deve ter ficado evidente a partir da apresentação da reta dos números: embora os instantes possam se prolongar ao infinito tanto no passado quanto no futuro, todos os intervalos entre instantes são perfeitamente finitos: em outras apalavras, a partir do momento em que dois instantes são identificados -- digamos, o ano 4004 AEC e o ano 2899 -- sempre haverá um tempo finito transcorrido entre eles.)

O segundo argumento contra o passado infinito é o do encadeamento de causas contingentes, de Tomás de Aquino. Eu pessoalmente tenho alguma dificuldade em levar a sério o tipo de prestidigitação semântica que faz o deleite dos fãs de Santo Tomás, mas vou incluí-lo por completude.

É assim:

Aquino diferenciava coisas necessárias -- que têm de ser do jeito que são por necessidade lógica, tipo 2 tomates mais 2 tomates perfazem 4 tomates -- de coisas contingentes, que poderiam ser de outro jeito ou, mesmo, nem sequer existir, como os 4 tomates que comprei na feira hoje.

Em termos de probabilidade, podemos dizer que a chance de um evento necessário acontecer é sempre 1; já a de eventos contingentes flutua entre 0 e, digamos, 0,999999....

Tendo essa distinção em mente, acompanhe este raciocínio: se todo efeito tem uma causa; e a cadeia de causa e efeito se prolonga até o infinito; e se nessa cadeia há um infinito número de causas contingentes, então o presente estado do Universo é impossível.

Por quê? Simples: uma cadeia infinita de causas contingentes significa um número infinito de coisas que poderiam não ter acontecido. Mas, numa sequência infinita de coisas que têm alguma chance de não acontecer, pela lei das probabilidades alguma delas com certeza não acontecerá. Mas se uma delas não ocorre, a que vem depois não tem como ocorrer também, e toda a sequência desmorona como -- olha o clichê -- uma fileira de dominós.

Em resumo, o argumento diz que uma sequência infinita de causas contingentes em si, mas necessárias para o que vem depois, é insustentável. O que ele ignora é a possibilidade de uma cadeia infinita de causas contingentes em si e também para o que vem depois. Assim, o evento X não aconteceu? Beleza. No espaço das probabilidades ainda temos os eventos Z, K, M, T e R, todos desembocando no efeito Y (ou em seus similares A, L, N, U, S).

Um bom exemplo desse tipo de situação é um torneio de xadrez com, digamos, 1.000 participantes. Supondo que o talento dos jogadores seja razoavelmente uniforme, cada um deles tem apenas 0,1% de chance de ganhar -- mas, depois de todas as etapas, um deles certamente será o campeão. Da mesma forma, o presente atual pode ser extremamente improvável, mas não é menos provável que qualquer alternativa.

Numa última nota sobre o passado infinito, gostaria de relembrar um dos ditos de Epicuro sobre por que é uma tolice temer a morte: O fato de haver um passado infinito no qual você não estava presente não o incomoda, dizia o filósofo. Por que, então, a ideia de um futuro no qual você não estará presente deveria ser tão desagradável?