sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

A(s) história(s) Rei Davi

Parece que vem aí uma minissérie nacional sobre a figura bíblica de Davi, rei que sucedeu a Saul no trono de Israel, de acordo com o relato do Velho Testamento. Saul, para quem não sabe, perdeu o favor de YHWH para seguir à frente do povo eleito por se recusar a perpetrar um genocídio contra os amalequitas. Pois o Senhor lhe ordenara:

Vai, pois, agora e fere a Amaleque; e destrói totalmente a tudo o que tiver, e não lhe perdoes; porém matarás desde o homem até à mulher, desde os meninos até aos de peito, desde os bois até às ovelhas, e desde os camelos até aos jumentos. (1 Samuel 15:3)

Mas o rei malandrão, em vez de seguir o mandamento à risca, optou por:

E Saul e o povo pouparam a Agague, e ao melhor das ovelhas e das vacas, e as da segunda ordem, e aos cordeiros e ao melhor que havia, e não os quiseram destruir totalmente; porém a toda a coisa vil e desprezível destruíram totalmente. (1 Samuel 15:9)

 O que acabou levando YHWH a mandar o profeta Samuel buscar um novo rei para substituir o monarca desobediente, busca que culminou em Davi.

A escolha dessa figura como protagonista de teledramaturgia não é má: já li comentaristas que consideram que a narrativa sobre Davi, na Bíblia (principalmente o relato de sua vida e de seus feitos na corte, já como rei, em 2 Samuel e 1 Reis), é a precursora de um gênero literário, o do "romance histórico": uma versão ficcionalizada da história, que usa um período idealizado do passado como pano de fundo para as aventuras imaginárias de personagens históricos e fictícios.

Do que pouca gente se dá conta, no entanto, é que o relato costurado no primeiro livro de Samuel sobre as origens do futuro rei (a chamada "história da ascensão de Davi") é formado por versões contraditórias.

Como explico melhor no meu Livro dos Milagres, a Bíblia em geral, e o Velho Testamento, em particular, é uma colcha de retalhos de emendas, interpolações, contradições e anacronismos -- a ponto de o estudioso Randel Helms, por exemplo, referir-se ao livro como um "campo de batalha", onde diferentes autores interferem nos textos uns dos outros, sem escrúpulos.

Vejamos: na primeira vez em que Davi aparece, ele é um menino, um mero pastor de ovelhas:

Disse mais Samuel a Jessé: Acabaram-se os moços? E disse: Ainda falta o menor, que está apascentando as ovelhas. Disse, pois, Samuel a Jessé: Manda chamá-lo, porquanto não nos assentaremos até que ele venha aqui. (1 Samuel 16:11)


Na menção seguinte, porém, ele já parece ser um adulto (ou ao menos um jovem bem desenvolvido), com boa reputação como músico e soldado:

Então respondeu um dos moços, e disse: Eis que tenho visto a um filho de Jessé, o belemita, que sabe tocar e é valente e vigoroso, e homem de guerra, e prudente em palavras, e de gentil presença; o SENHOR é com ele. (1 Samuel 16:18)


De fato, Davi chega a ser feito escudeiro do rei:

Assim Davi veio a Saul, e esteve perante ele, e o amou muito, e foi seu pajem de armas. (1 Samuel 16:21)


Mas no capítulo seguinte, Davi inexplicavelmente reverte ao papel de menino pastor de ovelhas, jovem demais para ser um guerreiro:

E Davi era filho de um homem efrateu, de Belém de Judá, cujo nome era Jessé, que tinha oito filhos; e nos dias de Saul era este homem já velho e adiantado em idade entre os homens.

Foram-se os três filhos mais velhos de Jessé, e seguiram a Saul à guerra; e eram os nomes de seus três filhos, que se foram à guerra, Eliabe, o primogênito, e o segundo Abinadabe, e o terceiro Sama.


E Davi era o menor; e os três maiores seguiram a Saul.


Davi, porém, ia e voltava de Saul, para apascentar as ovelhas de seu pai em Belém. 


(1 Samuel 17:12-15)

As duas versões voltam a se cruzar na história da morte do gigante Golias. Inicialmente, depois de Golias ameaçar o exército de Saul, Davi se mantém no papel de menino, interrogando o irmão sobre o bully filisteu. Ao que o irmão responde, acusando Davi de ser um pirralho metido:

E, ouvindo Eliabe, seu irmão mais velho, falar àqueles homens, acendeu-se a ira de Eliabe contra Davi, e disse: Por que desceste aqui? Com quem deixaste aquelas poucas ovelhas no deserto? Bem conheço a tua presunção, e a maldade do teu coração, que desceste para ver a peleja. (1 Samuel 17:28)


Em seguida, ele volta a ser o "valente homem de guerra" e escudeiro do rei (o versículo 15, citado acima, dá a entender que ele se dividia entre as duas tarefas, a de pastor pobre das ovelhas do velho pai e a de escudeiro e seresteiro particular do monarca na corte. A plausibilidade desse tipo de acumulação de tarefas, deixo ao julgamento do leitor):

E Davi disse a Saul: Não desfaleça o coração de ninguém por causa dele; teu servo irá, e pelejará contra este filisteu. (1 Samuel 17:32)


Em seguida, Saul empresta a Davi a própria armadura. Da qual, no entanto, o jovem se despe, por não estar acostumado com ela e considerá-la pesada (retornando ao papel de pastor imberbe) e, com a funda em mãos, vai fazer o que todo mundo já o viu fazer no cinema e na TV, abatendo o gigante.

Enquanto Davi caminhava para dar cabo de Golias, no entanto, Saul foi acometido por amnésia:

Vendo, porém, Saul, sair Davi a encontrar-se com o filisteu, disse a Abner, o capitão do exército: De quem é filho este moço, Abner? E disse Abner: Vive a tua alma, ó rei, que o não sei.

Disse então o rei: Pergunta, pois, de quem é filho este moço.


Voltando, pois, Davi de ferir o filisteu, Abner o tomou consigo, e o trouxe à presença de Saul, trazendo ele na mão a cabeça do filisteu. 

E disse-lhe Saul: De quem és filho, jovem? E disse Davi: Filho de teu servo Jessé, belemita. 


(1 Samuel 17:55-58)


Isso, a despeito de Davi ter sido apresentado a Saul como filho de Jessé e, mais ainda, estar dividindo seus dias entre a corte e os rebanhos do pai já há algum tempo. E note que o rei não se refere a Davi pelo nome, mas como "jovem". Apagou-se toda a convivência pregressa entre ambos?

O que parece ter havido foi uma tentativa de amarrar duas tradições a respeito da entrada de Davi no círculo íntimo do rei que ele está destinado a substituir -- uma na qual ele chega à corte já com a reputação de intrépido guerreiro estabelecida, antes de matar Golias, e outra na qual ele é um menino pastor que só chama a atenção do rei Saul depois de derrubar o gigante.

A própria autoria da morte de Golias está envolta em contradições. Pois, mais adiante, já depois da morte de Saul e com Davi à frente das tropas de Israel, lemos:

Houve mais outra peleja contra os filisteus em Gobe; e El-Hanã, filho de Jaaré-Oregim, o belemita, feriu Golias, o giteu, de cuja lança era a haste como órgão de tecelão. (2 Samuel 21:19)


A comparação da lança com uma "haste de tecelão" mostra que esse Golias é um homem descomunal. Aqui, novamente, há um cruzamento de tradições: em uma delas, a morte do gigante Golias foi causada por Davi, enquanto Saul ainda vivia; em outra, por El-Hanã, quando Saul já estava morto. É bem possível que a tradição mais antiga seja a de El-Hanã, e que o feito tenha sido retroativamente atribuído a Davi para embelezar sua biografia -- e pelo fato de que El-Hanã também era um belemita, assim como o novo rei. Em vez de ter dois heróis nascidos na mesma cidade, a narrativa fica mais "limpa" se tivermos um só.

Falando em limpeza, houve uma tentativa posterior de "limpar" a contradição de Samuel quanto à morte de Golias:

E tornou a haver guerra com os filisteus; e El-Hanã, filho de Jair, feriu a Lami, irmão de Golias, o giteu, cuja haste da lança era como órgão de tecelão. (1 Crônicas 20:5)

Aaaahhh, então não era mais o cara. Mas o irmão. Só que 1 Crônicas é uma obra muito posterior a 1 e 2 Samuel, e fica difícil entender como um autor, escrevendo tanto tempo mais tarde, poderia estar tão melhor informado. De qualquer modo, a "correção" é uma tábua de salvação um tanto quanto incômoda para os inerrantistas, já que sugere que alguns versos da Bíblia podem mesmo conter informação incorreta.

Quanto à historicidade da figura de Davi -- existiu mesmo? foi mesmo rei? fundou mesmo uma dinastia? -- o júri de historiadores e arqueólogos ainda não chegou a um consenso. O arqueólogo Israel Finkelstein sugere que o Davi bíblico é baseado num líder de um bando de mercenários e bandidos que teria tomado a cidade de Jerusalém, talvez não muito diferente dos "senhores da guerra" que ainda hoje infestam o Oriente Médio e a Ásia Ocidental. 

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Tentando entender a questão do aborto

A discussão em torno dos direitos reprodutivos da mulher às vezes atinge níveis de estridência ensurdecedores (por exemplo, neste ataque aos Médicos Sem Fronteiras),  com um bocado de histeria e gritaria de parte a parte, embora eu seja forçado a reconhecer que a hidrofobia mais profunda vem da oposição religiosa à interrupção voluntária da gravidez. Que é tão, ou mais, incivilizada e irracional que a oposição feita, por essas mesmas forças, aos direitos civis dos homossexuais.

Seria interessante realizar um estudo psicológico/sociológico para entender por que as mesmas pessoas que parecem dispostas a derrubar governos, reformar constituições e até criar um Dops para gestantes por amor a um punhado de células, in vitro ou in utero, depois sentem que é seu dever divino condenar a uma vida de cidadania fraturada o homem a que essas células deram origem, só porque ele ama outro homem.

Enfim.

O fato, no entanto, é que nem toda oposição ao aborto é irracional e estridente. O arcebispo apoplético que baba e perdigoteja aos berros de "abortista!" é um mero estereótipo (embora pareça frequentar as páginas de opinião dos jornalões com certa regularidade), mas por trás de tanto furor há ideias -- ou é de se supor que haja. E que ideias, afinal, são essas?

A principal, creio, pode ser resumida na seguinte sentença: o aborto é o homicídio injustificado de um inocente. "Homicídio" é, nesse caso, entendido como a morte, artificialmente provocada, de um ser humano. Para o silogismo da proibição fechar, portanto, é necessário estabelecer que o blastocisto, o embrião e o feto são seres humanos; que estão vivos; que são inocentes; e que o aborto não se justifica (por exemplo, em virtude de uma ameaça à vida da mãe, ou de um apelo a seus direitos pessoais).

É claro que cada elo dessa cadeia é passível de análise (da questão da justificativa com base no direito da mulher, por exemplo, já tratei na segunda remissão do parágrafo acima), mas agora queria abordar a divergência em torno do que geralmente se considera o aspecto mais "cabeludo" da questão: o que define um ser humano vivo?

Como muitas outras perguntas do tipo, a resposta pode parecer óbvia 99% das vezes (digamos, "um membro da espécie humana que esteja respirando"), mas sempre há o 1% de casos extremos que parece não caber na definição "evidente".

Pessoas em morte cerebral cujo organismo é mantido vivo por aparelhos, por exemplo, respiram, embora não estejam vivas; mergulhadores pescadores de pérolas não respiram durante seus mergulhos, mas não são cadáveres.

E blastocistos sequer têm narizes ou pulmões. De fato, a maioria das definições clássicas ou intuitivas de "ser humano vivo"  excluem os primeiros estágios do desenvolvimento intrauterino -- o blastocisto e o embrião: eles não são racionais e políticos; não são bípedes sem plumas; não são agentes morais; etc. De fato, a atividade cerebral começa a surgir entre a 5ª e a 6ª semanas de gravidez, mas nesse estágio ainda é menos coerente que a de um camarão. O cérebro só é capaz de existir de modo viável a partir da 23ª semana.

Eu (e muita gente além de mim) dou destaque especial ao desenvolvimento do cérebro porque é desse órgão que dependem, de modo crucial, as capacidades e potencialidades que são mais reconhecidas como "humanas". Da mesma forma que, após a morte cerebral, podemos afirmar que "não há mais ninguém lá", também poderíamos argumentar que, antes do cérebro surgir, "ainda não há ninguém aqui".

Essa formulação cai, no entanto, caso se adote uma postura idealista e se aceite que o que define a identidade essencial da pessoa humana não é o ponto de vista peculiar de cada um de nós, gerado pela interação entre meio ambiente, atividade cerebral e feitio genético, mas uma "alma" implantada diretamente na fecundação. Só que essa postura é pura mitologia, e não deveria ter lugar num debate sobre leis e políticas públicas.

Ela também cai caso se considere que a essência humana é fixada pela genética -- se se têm os genes certos, e se as células estão funcionando, então trata-se de um ser humano vivo, automaticamente portador de certos direitos fundamentais. O problema com o argumento genético é que ele é inclusivo demais: tumores malignos, culturas celulares em laboratório e até mesmo as placentas se encaixam em seu escopo!

Neste momento, alguém chama a atenção para o fato de que um embrião se distingue de sua placenta (ou de um câncer) pelo fato de que pode, naturalmente, desenvolver-se num bebê. Constatação que nos traz ao fulcro da questão: o argumento da continuidade e o argumento do potencial.

Em sua forma mais tosca, o argumento da continuidade é o que diz: "Se o aborto fosse permitido no tempo da sua mãe, você não estaria aqui". Para além da cretinice metafísica -- nunca ter nascido não é um problema ou um prejuízo para ninguém, já que vir a existir é uma precondição necessária para se ter problemas ou prejuízos (e alegrias e lucros, por evidente) -- há algo de estúpido e repugnante aí, nessa identificação do instinto maternal com o medo de polícia e na subordinação da vontade da mulher à função reprodutiva.

É de se considerar se quem lança mão da frase grosseira realmente imagina que pessoas como ele mesmo só existem porque suas mães foram coagidas a parir pelo Estado. Eu realmente gostaria de poder imaginar que o mundo é habitado por pessoas que surgiram das decisões livres de uma vontade espontânea.

Em sua forma sofisticada, o argumento da continuidade afirma que a linha de causalidade que vai do encontro entre óvulo e espermatozoide ao nascimento é contínua, e portanto não se pode impor um ponto arbitrário até onde seria moralmente aceitável interrompê-la.

Essa modalidade admite (pelo menos) duas respostas: a primeira é a de que ligar o início da existência humana ao início da viabilidade cerebral não é nada arbitrário; há uma racionalidade articulada por trás dessa escolha, já que tudo o que mais distingue o ser humano do restante da natureza depende, crucialmente, disso. Essa racionalidade tem encontrado resguardo até mesmo em decisões judiciais, como as que autorizam a interrupção da gestação de anencéfalos.

A segunda, que deve parecer evidente para qualquer um que já tenha assistido a De Volta para o Futuro, é a de que escolher o instante da concepção para marcar o início da cadeia causal que leva ao ser humano pleno é que é, aí sim, arbitrário.

Afinal, por que não o momento da ejaculação, ou da ovulação, ou o primeiro encontro do casal de futuros pais? Ou dos pais dos pais? A concepção pode ser vista como apenas mais um ponto numa sequência de causas necessárias que se prolonga indefinidamente rumo ao passado.

O argumento do potencial é parecido, mas tem sutilezas próprias. Uma vez que o óvulo e o espermatozoide tenham se fundido, vai o raciocínio, e mesmo considerando que, sim, a plenitude da pessoa humana depende da presença de um cérebro minimamente funcional, as condições estão dadas para que uma pessoa humana se desenvolva, bastando para isso que deixemos o processo seguir seu curso natural. Daí, interromper o processo significa matar essa pessoa.

É meio difícil saber o que fazer com essa linha de pensamento, já que o que ela diz, em resumo, é que é possível cometer homicídio preventivo -- matar alguém antes que a pessoa venha a existir. De Volta para o Futuro, outra vez.

Uma reformulação mais caridosa poderia ser: É condenável que, uma vez consumadas as condições necessárias e largamente suficientes para que uma nova pessoa venha ao mundo, tais condições sejam deliberadamente destruídas. Não tenho nenhuma objeção a esse princípio, ainda que não consiga encará-lo como algo absoluto, ainda mais como algo capaz de se sobrepor à vontade soberana da mulher sobre seu corpo. Não vejo, enfim, como impô-lo a toda a sociedade por meio de lei e, pior, igualá-lo ao bom e velho Não matarás.