sábado, 5 de novembro de 2011

Mr. Pond e a PM na USP

The Paradoxes of Mr. Pond é um livrinho de contos de mistério escrito pelo britânico G.K. Chesterton e publicado originalmente há quase 100 anos. Hoje em dia, a figura de Chesterton -- um ateu convertido ao catolicismo que até criou um sacerdote-herói para uma série de contos policiais, o Padre Brown -- foi meio que sequestrada pela ala mais intelectualizada direita católica, que o usa como garoto-propaganda póstumo.

Isso de certa forma é uma pena, já que joga uma sombra sobre sua obra literária, que embora resvale para o proselitismo aqui e ali, é muito mais rica, anárquica e divertida do que se poderia esperar de um sujeito que atualmente só é conhecido como o autor de uma apologia religiosa chamada Orthodoxy (Ortodoxia).

Além do Padre Brown, Chesterton criou diversos outros detetives, como Horne Fisher, O Homem que Sabia Demais; ou Gabriel Gale, o poeta no asilo de lunáticos; e Mr. Pond, o homem que vê o mundo com clareza -- através de paradoxos. No primeiro conto de Mr. Pond, o clássico Os Três Cavaleiros do Apocalipse, excesso de competência leva a um trágico fracasso.

Um dos paradoxos de Mr. Pond diz que "uma coisa que merece ser feita merece ser mal feita". Esta matéria do Jornal do Campus da USP, sobre a presença da PM na cidade universitária, trouxe-me esse paradoxo (um de meus favoritos) à mente.

(Eu me lembro vagamente de alguns fechamentos do Jornal do Campus. Uma vez, durante uma greve de professores, a foto da capa saiu em alto contraste, como as camisetas do Che. Um professor achou a solução interessante, mas na verdade tinha sido um defeito na gráfica. Também me lembro que toda noite, antes de prova na FFLCH, recebíamos ligações anônimas com ameaças de bomba na faculdade.)

Mas, voltando à matéria atual: nela, surge o seguinte questionamento: “Será que polícia é a única saída? Por que a gente vai se enganar, achar que a polícia por si só vai garantir a segurança aqui dentro?”.

A falácia não é muito clara, então vale a pena explicitá-la: é óbvio que a polícia por si só não garante nada, mas até aí, o acesso a recursos médicos de última geração, por si só, não garante a saúde de ninguém, mas então qual a alternativa? Voltar aos chás de rabo de lagartixa?

Este é o insight embutido no paradoxo da "coisa mal feita": basicamente, se uma coisa é necessária, é melhor fazê-la, ainda que não sejamos capazes de fazê-la muito bem, do que ficar sem ela. Uma refeição sem-graça é preferível a morrer de fome; um ônibus lotado é melhor do que atravessar São Paulo a pé; um posto de saúde mequetrefe é melhor do que agonizar até a morte.

Enfim, é óbvio que a polícia paulista está longe de ser a força investigativa que gostaríamos que fosse (com a taxa de solução de homicídios ficando por volta de 40%, o crime quase chega a ser uma opção atraente), e o tratamento "mão na cabeça vagabundo" não é exatamente uma forma cortês de se dirigir a cidadãos que pagam impostos e são inocentes até prova em contrário, mas polícia ruim ainda é melhor que polícia nenhuma.

E desde a redemocratização, em 1985 -- quando a garotada que está hoje na USP ainda nem tinha nascido, suponho -- a polícia responde a autoridades legitimamente eleitas; policiais não são mais "agentes da ditadura", portanto. E a Cidade Universitária ainda é parte do território do Estado de São Paulo, dentro da jurisdição de suas autoridades.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Máquina a vapor feita de vidro

Para todos aqueles que sempre acharam que física e engenharia são coisas sem graça ou poesia:


quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Falando em Marte: russos pedem ajuda!

Além do robô americano Curiosity, outra missão audaciosa a Marte será lançada neste mês -- a russa Phobos-Grunt, que tentará trazer uma amostra do solo de Fobos, uma das luas marcianas, apar análise por cientistas aqui na Terra. O lançamento está previsto para o próximo dia 8. 

O blog da missão publicou há pouco um pedido para que observadores na América do Sul tentem acompanhar duas ativações dos motores dos foguetes que levarão a sonda a Fobos. Uma dessas queimas vai acontecer diretamente sobre o Brasil, de Curitiba a Fortaleza, como se vê no mapa abaixo (a linha vermelha marca a trajetória):


O momento previsto para o início da queima é às 20h55min48seg do dia 8, com o fim da operação às 21h05min18seg. Os detalhes completos de trajetória e horários podem ser acessados aqui

Os russos pedem que, quem puder, tente observar o brilho da pluma de gases da queima de combustível com telescópios, já que a agência espacial russa não tem estações de rastreamento na América do Sul.

Mais um robô deve partir para Marte neste mês

Eis uma coisa que me dá saudade de editar ciência num grande veículo de comunicação: estou perdendo a oportunidade de ter os recursos para produzir um material fantástico a respeito do lançamento do robô Curiosity a Marte. A janela para a partida da missão se abre neste mês.

(Se bem que, dependendo do veículo, eu não ia ter tempo de elaborar nada porque a chefia ia querer fotos de piranhas hemafroditas ou galinhas de duas cabeças, além de uma "repercussão com especialistas" da mais recente fórmula maluca da BBC.)

Para quem andou hibernando nos últimos anos: o Curiosity, também conhecido como Mars Science Laboratory, é um robô do tamanho aproximado de um jipe, dotado de um gerador nuclear de eletricidade (ele é pesado e complexo demais para rodar apenas com energia solar), tem uma arma laser  para vaporizar rochas (e depois analisar os gases produzidos) e, como se tudo isso já não fosse legal o bastante, vai pousar em Marte usando um guindaste voador -- ilustrado abaixo:



O objetivo científico geral da missão é determinar a habitabilidade de Marte -- se o planeta já foi capaz, ou ainda é, de suportar vida. Para fazer essa determinação, o Curiosity vai gerar dados que incluem uma lista, a completa possível, dos materiais orgânicos existentes no planeta; um inventário dos elementos químicos presentes em Marte e que, pelo que sabemos, entram na composição dos seres vivos; e  identificar características que possam representem sinais de atividade biológica.

A duração prevista da missão é um ano marciano completo, ou 687 dias "terrestres". O período de trânsito até marte é de nove meses. Haverá uma dose razoável de suspense envolvida, também: desde a década de 60, nada menos que uma dúzia de missões enviadas ao planeta vermelho por EUA, Japão, Rússia ou Agência Espacial Europeia fracassaram, ou não chegando ao destino, ou sofrendo algum tipo de desastre na hora do pouso ou da ativação.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

O robô-lagartixa

O vídeo abaixo mostra um robô capaz de escalar paredes lisas:




As lagartas do robô são revestidas com um adesivo biomimético -- isto é, que imita as propriedades adesivas de animais capazes de escalar paredes, como lagartos. O artigo que descreve a tecnologia está qui.

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Halloween? Esta é a noite de Harry Houdini!

Já que estamos importando várias das tradições da cultura americana para a noite de 31 de dezembro, que tal esta: tentar entrar em contato com a alma desencarnada de Harry Houdini?

Houdini, para quem talvez não esteja ligando o nome à pessoa, foi um dos maiores mágicos do início do século passado, e também um proeminente caçador de falsos médiuns. Onde outras pessoas viam comunicação com os mortos, Harry via truques de mágica sendo usados para manipular as emoções (e esvaziar as carteiras) de vítimas indefesas. 

Ele se envolveu em vários casos, escreveu livros sobre detecção de fraude -- A Magician among the Spirits é um clássico -- e acabou perdendo a amizade de Sir Arthur Conan Doyle quando não acreditou que uma carta psicografada pela esposa do grande escritor tivesse mesmo vindo do além. E foi épico seu duelo com a médium e femme-fatale (de acordo com o biógarfo de Houdini Milbourne Christopher, ela teria seduzido pelo menos um dos investigadores encarregados de avaliá-la), a misteriosa Margery.

A despeito do que algumas pessoas pensam a respeito do estereótipo do cético  empedernido, Houdini reconhecia a possibilidade de estar errado: afinal, ao desmascarar um charlatão ele só provava que aquele médium específico era um picareta, e não um mensageiro dos mortos. Mas e o próximo?

Por conta disso, Houdini e sua mulher, Bess, combinaram um código secreto que ele usaria para se comunicar com ela, depois de morto, se tal comunicação fosse possível. De 1927 a 1936, Bess realizou sessões espíritas a cada noite de Halloween -- Houdini morrera em 31 de outubro de 1926 -- mas a mensagem nunca veio.

(Um médium, Arthur Ford, alegou em 1929 ter recebido a mensagem, mas o fato é que Bess não havia protegido a mensagem tão bem quanto deveria; a história completa da fraude você encontra aqui, em inglês.)

Em 1936, Bess abandonou as esperanças de entrar em contato com o marido, mas outras pessoas decidiram levar a tradição adiante, entre elas os mágicos Walter B. Gobson (mais conhecido como criador do Sombra)  e Sidney Radner. Radner estabeleceu a Sessão Espírita Oficial de Houdini, que neste ano contará com a presença de Teller, da dupla Penn & Teller.

Mas não é porque a sessão oficial ocorre nos EUA que pessoas de outras partes do mundo não podem participar. Ei, até o William Shatner agitou uma:




E agora você sabe que existe uma tradição cética de Halloween! Aliás, creio que deve ter sido dentro dessa tradição que a médium britânica Sally Morgan se viu desafiada a provar seus poderes -- neste dia. E, no fim, acabou se recusando a seguir com o teste.