quinta-feira, 1 de setembro de 2016

O sinal alienígena que não era



Os cientistas russos responsáveis pelo radiotelescópio Ratan-600 (na imagem acima), do observatório de Zelenchukskaya, que detectou um pulso que chegou a ser considerado um possível sinal de inteligência alienígena, declararam que a verdadeira fonte do pulso foi uma "perturbação terrestre", informa a agência de notícias Tass. Citada pela Tass, a pesquisadora Yulia Sotnikova disse que "um sinal incomum foi recebido, mas a análise posterior mostrou que ele é muito provavelmente uma perturbação terrestre". No momento da entrevista, a instituição preparava um desmentido oficial da hipótese alienígena, acrescentou ela.

A nota oficial, divulgada posteriormente, confirma que o Ratan-600 está envolvido na busca por inteligência extraterrestre, mas que "pode-se dizer, com confiança, que o tão buscado sinal ainda não foi encontrado".

A ideia de que o sinal captado em Zelenchukskaya poderia ter origem numa civilização extraterrestre -- mais precisamente, uma civilização baseada na estrela HD 164595, um astro semelhante ao Sol, localizado a 94 anos-luz daqui, na direção da constelação de Hércules -- foi popularizada na internet, no início desta semana, depois da publicação de uma nota no blog de astronomia Centauri Dreams, seguido de uma manifestação do Instituto SETI.

É importante notar que tanto o Centaury Dreams quanto o SETI foram extremamente sóbios e cautelosos em suas publicações. Além disso, o SETI não se furtou a divulgar, de imediato, os resultados negativos de observações posteriores realizadas com outros radiotelescópios apontados para HD 164595. Seth Shostak, o astrônomo sênior do Instituto, escreveu que "a despeito do fato de que seria emocionante e instigante dizer que o sinal veio mesmo de alienígenas habitantes de HD 164595, esta seria uma alegação injustificada, dada a incapacidade de confirmar o sinal. No negócio de SETI, um telescópio não basta e um conjunto é ainda melhor".

Do ponto de vista da ciência, então, tudo transcorreu de acordo com os ditames do mais careta e conservador dos manuais de método científico: observação (sinal estranho), hipótese (fonte alienígena), previsão (novos sinais), teste (novas observações), rejeição (nada de novos sinais). Mas, e do ponto de vista da comunicação da ciência? Afinal, como uma hipótese que não sobrevive a três ou quatro dias de checagem vira febre mundial?

A parte da comunicação que coube aos cientistas -- os pesquisadores russos, o Instituto SETI, mesmo o Centaury Dreams -- me parece irretocável. Foram usados títulos sóbrios e textos ponderados, ainda que a nota do SETI tenha caído na tentação de usar uma fórmula interrogativa ("Um Sinal SETI?"), o que a transformou mais uma vítima da Lei de Coyne (segundo a observação irônica do biólogo Jerry Coyne, quando um texto de divulgação científica tem uma pergunta no título, você não precisa se dar ao trabalho de ler o artigo inteiro: a resposta é sempre "não").

A chamada grande imprensa internacional também mostrou sobriedade -- até certo ponto. O Guardian, por exemplo, entrevistou um monte de gente, e apontou as limitações do Ratan-600, que tem uma resolução de frequência ruim, como um rádio mal sintonizado, que pega várias estações ao mesmo tempo.

A CNN foi um pouco além, encaixando a expressão "desencadeia especulação sobre aliens" no título, e o Telegraph soltou um "Caçadores de alienígenas detectam forte sinal". Em todos esses casos, os textos são essencialmente sóbrios e corretos (o do Telegraph é o que força um pouco mais a barra), mas os títulos vão se tornando cada vez mais apelativos.

Já a "nova mídia" acabou sendo mais superficial e, também, mais apelativa. O Gizmodo não só usou uma foto de Jodie Foster no filme Contato para ilustrar a história como ainda se saiu com um título que se traduz mais ou menos como "Caçadores de Aliens Acham Sinal Bizarro Vindo de Estrela Próxima", numa nota que  destaca as especulações mais fantásticas do blog Centaury Dreams, ignorando o tom cauteloso geral da publicação original. Um "update" apensado, mais tarde, ao rodapé da nota original chama atenção para as limitações do Radan-600, mas até aí a história já tinha caído nas redes sociais.

Então, basicamente, enquanto os cientistas estavam testando a hipótese alienígena e descobriam-na inadequada, setores amplos da internet vibravam com discussões sobre a Escala Kardashev das Civilizações. Isso é bom? É ruim?

Por um lado é bom ver a web falando em Kardashev e não em Kardassian, só pra variar; por outro, não dá pra negar que o "hype" acaba criando uma visão distorcida de como a ciência funciona. Há quem defenda a ideia de que uma dose inicial de sensacionalismo bem-intencionado ajuda a abrir o apetite para temas científicos.

Já concordei com isso no passado, mas hoje em dia fico me perguntando se uma parcela importante do público atraído por esse tipo de subterfúgio não acaba se sentindo fraudada e, no fim, vai se afastando da ciência e mergulhando de vez em áreas pseudocientíficas, onde o sensacionalismo tem passe livre. Para que perder tempo com radiotelescópios, se dá para ler sobre deuses astronautas?

terça-feira, 30 de agosto de 2016

A arte da da profecia, aplicada ao impeachment


Ofereço uma previsão a respeito do desfecho da tragicomédia nacional em andamento: qualquer que seja ele, algum perscrutador de horóscopos ou interrogador de baralhos será "bombado" pela ala mais irresponsável da mídia como tendo adivinhado, certeiro, o rumo atabalhoado do país. Uma busca no Google por "previsões para Dilma Rousseff" traz mais de 590 mil resultados e, surpreendendo ninguém, eles cobrem todo o mapa de possibilidades. O tema passou a crescer a partir de abril último, quando ficou claro que a abertura do processo de impeachment pela Câmara era uma possibilidade forte, e  explodiu em maio.

Começando pelas apostas dilmistas, há o registro, feito pelo iG em maio, da previsão de que Rousseff dará a volta por cima e retomará seus mandato. O autor, Yub Miranda, "bombou" (olha o verbo aí de novo) quando a súbita decisão do deputado Waldir Maranhão, de anular o processo de impeachment, pareceu validar um vaticínio seu. Acrescento que o iG não parece ter sentido necessidade de pedir a Miranda que comentasse a reversão dessa anulação, ocorrida, aliás, um dia antes da publicação da entrevista laudatória.

Sim, você leu corretamente: o portal deu ao astrólogo-tarólogo-numerólogo crédito por ter acertado uma previsão um dia depois de o efeito supostamente previsto ter sido cancelado. Mas, enfim, a palavra final de Miranda ao iG foi: "considero que ela continuará exercendo o seu direito de governar o país".

Escrevendo em outro site, logo após o pleito de 2014 que reconduziu Dilma ao Planalto -- e bem antes, portanto, da possibilidade de um impeachment se materializar --, Miranda previa que 2016 seria um ano marcado por questões financeiras (" provavelmente os maiores desafios de seu governo estarão na área da economia", escreveu ele). A grande crise do governo viria apenas em 2017, mas ainda sim Dilma estaria no poder, possivelmente reunindo "esforços de uma maneira mais enfática para cuidar dos pobres, dos doentes e dos idosos".



Na mesma época em que dava destaque a Miranda e a seu otimismo pró-Dilma, o iG publicava também as apostas mais catastróficas do médium Robério de Ogun. Dilma iria renunciar, ele disse em maio, mas Temer não governaria o país. "Não consigo ver o Michel como presidente. Isso é certeza absoluta, não erro essa previsão: ele não fica no poder muito tempo", disse. Alguns meses antes, em dezembro de 2015, ele afirmava à revista IstoÉ que "Dilma não será derrubada. Mas não deverá terminar o mandato", e que a renúncia da presidente ocorreria em agosto.

Ele se mostrou otimista com a economia, no entanto, dizendo que as "informações do plano espiritual" prometiam um 2016 "próspero para a economia e também para a sociedade brasileiras. O setor econômico deve retomar seu crescimento logo depois de passados os primeiros meses de 2016. O brasileiro de bem poderá usufruir de estabilidade em todos os campos. O pior já passou". Da onde se deduz que plano espiritual é mal informado pra caramba.

No que talvez seja um indício de influência de política editorial sobre as dimensões esotéricas, a revista Veja São Paulo publicou, em março, uma série de previsões catastróficas para Dilma e otimistas para o país -- e com quatro astrólogos se esforçando um bocado em apontar relações de causa e efeito entre uma coisa e outra.

Exemplos: "a saída dela [Dilma] antes do fim do mandato é inevitável. A partir daí, a crise econômica pode ser aliviada"; "após decisões muito importantes da Justiça, entra uma melhoria econômica bem agradável ao país"; "Baseado na astrologia horária, o mapa mostra uma oposição forte, como se ela tivesse indo na contramão dos interesses do próprio país, o que aumenta a tensão. Há uma dificuldade de manter o governo. Se ela ficar, a tendência é de um clima mais difícil, uma forte oposição que tende a aumentar". Astrólogos que buscam destaque nas publicações da família Veja, anotem a dica.



Adivinhos comprometem-se com previsões de todo tipo porque contam que as acertadas serão lembradas e as erradas, esquecidas. Como escreve o mágico Milbourne Christopher, em seu clássico ensaio sobre a matriarca e santa padroeira dos videntes midiáticos, a americana Jeane Dixon, "dispare tiros suficientes e um dia você acaba acertando na mosca".

Mas mesmo as previsões aparentemente firmes muitas vezes não são nada disso. Prestando atenção, vemos que vêm embaladas em termos evasivos, aqueles que na língua inglesa às vezes são chamados de "palavras-fuinha" -- "deve", "pode", "possível", "alguns", etc. -- que, se usados com habilidade, permitem transformar uma afirmação em seu próprio desmentido, ou vice-versa. Há ainda "frases fuinha", que parecem definitivas mas que, devidamente examinadas, querem dizer tudo, ou nada.

Por exemplo, a afirmação de que Michel Temer "não fica no poder por muito tempo". Parece uma previsão ousada, mas espere: o que "muito tempo" quer dizer, nesse contexto? Dois anos (a duração restante de seu mandato como vice-presidente) certamente não é "muito tempo". Ou isso significa que ele será derrubado antes? Ou que não disputará a eleição de 2018? Ou que, disputando-a, vai perder? Ou que, ganhando, será derrubado? A resposta é que significa exatamente o que vai acontecer, seja lá o que for.