O sinal alienígena que não era



Os cientistas russos responsáveis pelo radiotelescópio Ratan-600 (na imagem acima), do observatório de Zelenchukskaya, que detectou um pulso que chegou a ser considerado um possível sinal de inteligência alienígena, declararam que a verdadeira fonte do pulso foi uma "perturbação terrestre", informa a agência de notícias Tass. Citada pela Tass, a pesquisadora Yulia Sotnikova disse que "um sinal incomum foi recebido, mas a análise posterior mostrou que ele é muito provavelmente uma perturbação terrestre". No momento da entrevista, a instituição preparava um desmentido oficial da hipótese alienígena, acrescentou ela.

A nota oficial, divulgada posteriormente, confirma que o Ratan-600 está envolvido na busca por inteligência extraterrestre, mas que "pode-se dizer, com confiança, que o tão buscado sinal ainda não foi encontrado".

A ideia de que o sinal captado em Zelenchukskaya poderia ter origem numa civilização extraterrestre -- mais precisamente, uma civilização baseada na estrela HD 164595, um astro semelhante ao Sol, localizado a 94 anos-luz daqui, na direção da constelação de Hércules -- foi popularizada na internet, no início desta semana, depois da publicação de uma nota no blog de astronomia Centauri Dreams, seguido de uma manifestação do Instituto SETI.

É importante notar que tanto o Centaury Dreams quanto o SETI foram extremamente sóbios e cautelosos em suas publicações. Além disso, o SETI não se furtou a divulgar, de imediato, os resultados negativos de observações posteriores realizadas com outros radiotelescópios apontados para HD 164595. Seth Shostak, o astrônomo sênior do Instituto, escreveu que "a despeito do fato de que seria emocionante e instigante dizer que o sinal veio mesmo de alienígenas habitantes de HD 164595, esta seria uma alegação injustificada, dada a incapacidade de confirmar o sinal. No negócio de SETI, um telescópio não basta e um conjunto é ainda melhor".

Do ponto de vista da ciência, então, tudo transcorreu de acordo com os ditames do mais careta e conservador dos manuais de método científico: observação (sinal estranho), hipótese (fonte alienígena), previsão (novos sinais), teste (novas observações), rejeição (nada de novos sinais). Mas, e do ponto de vista da comunicação da ciência? Afinal, como uma hipótese que não sobrevive a três ou quatro dias de checagem vira febre mundial?

A parte da comunicação que coube aos cientistas -- os pesquisadores russos, o Instituto SETI, mesmo o Centaury Dreams -- me parece irretocável. Foram usados títulos sóbrios e textos ponderados, ainda que a nota do SETI tenha caído na tentação de usar uma fórmula interrogativa ("Um Sinal SETI?"), o que a transformou mais uma vítima da Lei de Coyne (segundo a observação irônica do biólogo Jerry Coyne, quando um texto de divulgação científica tem uma pergunta no título, você não precisa se dar ao trabalho de ler o artigo inteiro: a resposta é sempre "não").

A chamada grande imprensa internacional também mostrou sobriedade -- até certo ponto. O Guardian, por exemplo, entrevistou um monte de gente, e apontou as limitações do Ratan-600, que tem uma resolução de frequência ruim, como um rádio mal sintonizado, que pega várias estações ao mesmo tempo.

A CNN foi um pouco além, encaixando a expressão "desencadeia especulação sobre aliens" no título, e o Telegraph soltou um "Caçadores de alienígenas detectam forte sinal". Em todos esses casos, os textos são essencialmente sóbrios e corretos (o do Telegraph é o que força um pouco mais a barra), mas os títulos vão se tornando cada vez mais apelativos.

Já a "nova mídia" acabou sendo mais superficial e, também, mais apelativa. O Gizmodo não só usou uma foto de Jodie Foster no filme Contato para ilustrar a história como ainda se saiu com um título que se traduz mais ou menos como "Caçadores de Aliens Acham Sinal Bizarro Vindo de Estrela Próxima", numa nota que  destaca as especulações mais fantásticas do blog Centaury Dreams, ignorando o tom cauteloso geral da publicação original. Um "update" apensado, mais tarde, ao rodapé da nota original chama atenção para as limitações do Radan-600, mas até aí a história já tinha caído nas redes sociais.

Então, basicamente, enquanto os cientistas estavam testando a hipótese alienígena e descobriam-na inadequada, setores amplos da internet vibravam com discussões sobre a Escala Kardashev das Civilizações. Isso é bom? É ruim?

Por um lado é bom ver a web falando em Kardashev e não em Kardassian, só pra variar; por outro, não dá pra negar que o "hype" acaba criando uma visão distorcida de como a ciência funciona. Há quem defenda a ideia de que uma dose inicial de sensacionalismo bem-intencionado ajuda a abrir o apetite para temas científicos.

Já concordei com isso no passado, mas hoje em dia fico me perguntando se uma parcela importante do público atraído por esse tipo de subterfúgio não acaba se sentindo fraudada e, no fim, vai se afastando da ciência e mergulhando de vez em áreas pseudocientíficas, onde o sensacionalismo tem passe livre. Para que perder tempo com radiotelescópios, se dá para ler sobre deuses astronautas?

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