sexta-feira, 23 de março de 2012

Maratona da Lua: não perca

No início da semana que vem -- entre domingo e segunda-feira, para ser preciso -- a Lua, em fase crescente, vai correr uma maratona: estará junto a Júpiter na noite de domingo, mas na segunda vai tirar uma fina de Vênus. Uma corrida e tanto: os dois planetas estão separados por 700 milhões de quilômetros, e...

Tá. Brincadeirinha. A Lua não vai sair da órbita da Terra, como fez no seriado Espaço: 1999. O movimento será aparente, causado pelo fato de o céu parecer uma tela plana, encurvada, onde as estrelas e planetas desfilam como pontinhos incrustados de luz. Mas isso não diminui em nada o espetáculo: quem se dispuser a olhar para noroeste, logo que escurecer, nos dois dias verá, no primeiro, o crescente bem perto de uma luz meio fraca, Júpiter; e no segundo, a Lua junto à segunda luz mais intensa do céu noturno, Vênus.

Júpiter é o maior planeta do Sistema Solar e Vênus é até menor que a Terra (85% do volume da nossa bola de lama natal), mas a distância que separa os dois planetas de nós faz a diferença no tanto de luz solar que cada um deles reflete de volta para a gente.

Como Vênus está ridiculamente mais perto (a 110 milhões de quilômetros de nós, contra 858 milhões de Júpiter), seu brilho no nosso céu é superado, apenas, pelo da Lua.

O mapinha abaixo, que montei meio nas coxas com base em imagens do sempre amigo Heavens Above, dá uma ideia das duas conjunções, como deverão ser vistas às 19h (acho que clicando dá para ampliar; o trio de interesse está no canto direito dos discos):




Aproveite, então, para levar a(o) namorada(o) lá fora por alguns minutos para olhar para o céu.

Calculando o número de 'encontros alinígenas reais'


Do xkcd, genial como de costume. Também daria para chamar de "Equação de Fox Moulder" ou "Lei de Bilu".

quinta-feira, 22 de março de 2012

Por que a evolução é verdade?

Graças à magia do Kindle, terminei de ler por estes dias Why Evolution Is True, do biólogo americano Jerry Coyne, que há cerca de três anos mantém também um blog muito interessante com o mesmo nome do livro. Foi um respiro muito bem-vindo em meio às toneladas de religião e mitologia que ando digerindo ultimamente, numa espécie de ressaca bibliográfica do Livro dos Milagres (pesquisa-se uma coisa, surge uma referência a outra, e quando se nota você está lendo os evangelhos gnósticos de Nag Hammadi e especulando sobre a relação entre Dositheus e Simão Mago).

O livro de Coyne é uma exposição cuidadosa, para leigos, do estado atual da teoria da evolução e uma longa argumentação contra o criacionismo em geral. Funciona muito bem nas duas frentes.

Claro, no meu caso o autor está pregando para os convertidos, mas mesmo assim encontrei muitas informações interessantes ali, incluindo alguns casos de (aparente) seleção sexual que complementam muito bem a linha de argumentação de Jared Diamond em O Terceiro Chimpanzé e uma bela narrativa sobre
ilhas oceânicas, os tentilhões de Galápagos e os pobres pássaros sem voo da Oceania, hoje extintos.

Mas o principal mérito do livro, ao menos a meu ver, é mostrar como a evolução pode ser usada para fazer previsões -- exorcizando de vez um velho espantalho criacionista, o de que a ideia de evolução das espécies é tautológica e estéril, não-popperiana. Eu não sabia, por exemplo, que Darwin já havia  previsto, com base no princípio da descendência de ancestrais comuns, que as origens da espécie humana seriam encontradas na África.

Para quem compartilha da minha ignorância: décadas antes da descoberta do primeiro australopiteco, Charlie deduzira a origem africana da humanidade ao ponderar que o ancestral comum do homem, do chimpanzé e do gorila deveria ter sido um animal africano, já que chimpanzés e gorilas são animais africanos. Subtraia-se a noção de "ancestral comum" e o raciocínio, cuja conclusão se viu confirmada pelos fatos, se desmancha.

Outras previsões confirmadas são o ordenamento do registro fóssil (formas mais simples por baixo, mais complexas por cima), a descoberta de fósseis de transição -- que abundam, a despeito da propaganda contrária -- e a confirmação, por meio da biologia molecular, do parentesco entre espécies, oras, aparentadas.

Falando em  espécies, Coyne também conta como o famoso biólogo Ernst Mayr encontrou 137 espécies de pássaros na Nova Guiné, definidas de acordo com os critérios taxonômicos da ciência ocidental -- sendo que os nativos tinham 136 nomes diferentes para distinguir entre os tipos de aves da área. "Essa concordância entre dois grupos culturais com contextos muito diferentes convenceu Mayr, bem como deveria convencer-nos, de que as descontinuidades da natureza não são arbitrárias, mas um fato objetivo".

(Lendo esse trecho, não pude deixar de pensar no que diriam a respeito os meus amigos "das humanas" que se quedam embevecidos com a "enciclopédia chinesa" de Jorge Luis Borges, supostamente a prova de que "toda classificação do universo é arbitrária".)

É uma pena que o livro de Coyne não esteja disponível em português (ao menos, não o encontrei no catálogo da Livraria Cultura), enquanto que bobagens desacreditadas como A Caixa-Preta de Darwin saltitam por aí. Sei que há muita coisa legal de Richard Dawkins sobre evolução disponível no Brasil, incluindo o belo A Magia da Realidade, mas a apresentação de Coyne é, no geral, mais compacta e concisa do que, por exemplo, a de O Maior Espetáculo da Terra. Com perdão pelo trocadilho, Why Evolution Is True poderia muito bem encontrar um nicho nas estantes nacionais.

segunda-feira, 19 de março de 2012

'Secularismo militante', lá vamos nós de novo

Por uma daquelas ótimas coincidências que fazem por merecer no nobre título de serendipidade, nesta segunda-feira temos disponíveis, online, dois artigos sobre a, ahn, "ameaça do secularismo militante", um de Carlos Alberto Di Franco, no Estadão, e outro de Nick Cohen, no Spectator

Ambos têm algo a acrescentar ao "debate" em torno a remoção dos crucifixos dos tribunais determinada pela Justiça gaúcha, ainda que o de Cohen só o faça por vias transversas, já que seu principal foco é a situação britânica. Ah, sim: uso a palavra "debate" entre aspas porque a inadequação da presença de cruzes em cortes de Justiça deveria ser autoevidente, como bem expôs Helio Schwartsman, na Folha, dias atrás.

Mas, voltando à dupla principal: o texto de Cohen é praticamente uma refutação, ponto a ponto, do (pouco) que há de substantivo na diatribe de DiFranco, que começa a empilhar falácias logo de cara, ao declarar "chata" a preocupação secularista do Judiciário gaúcho. 

"Chato", nota-se, virou uma espécie de senha para a desqualificação de posições difíceis de atacar racionalmente. Trata-se de uma tecnologia retórica exercitada ad nauseam pelo (cripto)apologista cristão Luiz Felipe Pondé e que, ao que parece, está sendo abraçada pelos colegas. 

Depois disso, o preclaro articulista se sai com o diagnóstico de que a ordem de remoção dos crucifixos reflete "um Judiciário ocupado com o crucifixo e despreocupado com processos que se acumulam no limbo da inoperância e do descaso com a prestação da justiça à cidadania". Como se defender um princípio constitucional -- o que proíbe alianças entre o Estado e as religiões -- não fosse uma forma de fazer "prestação da justiça à cidadania".

Pelo mesmo raciocínio, diríamos que DiFranco está ocupado com o Judiciário e despreocupado com o ensino da Ética Jornalística -- que, de acordo com o rodapé do artigo, é sua área de especialização e o que, supõe-se, legitima sua presença na página de opinião do centenário matutino. A falácia, que consiste em assumir, a priori, que duas atividades nominalmente diversas são também efetivamente incompatívies, é tão óbvia que deve ter até um altissonante nome latino. Só não sei qual é.

Escrevi acima que há algo de substantivo no texto do articulista. Não é lá muito fácil de achar -- está enterrado em meio a ominosas e ecumênicas alusões a fenômenos como a inquisição e o nazismo -- mas pode ser encontrado na seguinte passagem:

"[O laicismo militante] alegará que [os pensamentos de quem discorda dele] são interferências do pensamento religioso ou de igrejas, quando um democrata deveria pensar apenas que são outros modos de pensar de outros cidadãos, que têm tantos direitos como eles (...)"

Aqui, primeiro, vou citar Nick Cohen: 

"Secularismo ou ateísmo militantes têm um significado específico. Dos jacobinos aos comunistas, militantes assassinaram padres ou os mandaram para campos, destruíram igrejas, sinagogas, mesquitas e templos. Secularismo militante ainda existe na China comunista e na Coreia do Norte. Eu e todos os demais secularistas britânicos que conheço se opõem a ele, porque acreditam tanto em liberdade de religião quanto em ser livre da religião." 

Trocando "britânicos" por "brasileiros", a passagem descreve, e bem, tanto a situação atual por aqui quanto expõe o descalabro retórico do artigo publicado no Estadão. Cohen acrescenta, mais adiante, que "pedir para ser livre da religião faz a sociedade esquecer as poucas boas maneiras que tem"

E, mais uma vez, acerta em cheio o que há de errado no argumento de DiFranco: não conheço nenhum secularista brasileiro, "militante" ou não,  que negue ao religioso o direito de subir num banquinho e pregar, de escrever artigos para jornais, de fazer seus sermões ou publicar seus panfletos, desde que, num limite que o próprio DiFranco reconhece, "não atentem contra as leis" e a ordem pública. 

Enfim, tenham as opiniões que quiserem, e defendam-nas como acharem melhor. Mas o ponto crucial é, não tentem impô-las a quem não concorda com elas, nem usá-las para suprimir os direitos dos outros

Uma coisa é escrever um artigo argumentando que a vida do feto vale mais que a da mãe. Outra, muito diferente, é usar recursos e cargos públicos, bem como meios de pressão política, incluindo cabresto eleitoral, para tentar impedir o sistema de saúde pública de realizar abortos, mesmo em adolescentes à beira da morte. 

Uma coisa é reverenciar o crucifixo na intimidade do lar, ou em templos preparados e consagrados para este fim. Outra é enfiá-lo compulsoriamente na cara de todo cidadão, seja ele ateu, judeu, muçulmano ou animista que busque reparação nos suntuosos tribunais sustentados pelos nossos suados impostos.

É realmente tão difícil assim ver a diferença? Mais: o mero fato de haver gente que prefere viver "livre da religião" e que, na intimidade de suas consciências, considera os argumentos de natureza religiosa irrelevantes é assim tão ofensivo? Por que essas pessoas são classificadas como "chatas" e "autoritárias", e não apenas como "outros cidadãos" com "outros modos de pensar", tão ciosos de seus direitos quanto os demais?

Vou fechar com mais uma citação de Cohen (mais uma vez, basta trocar "Grã-Bretanha" por "Brasil" para ter o diagnóstico certeiro):

"Isso significa que há um espectro assombrando a Grã-Bretanha -- o espectro do secularismo militante?

"Se você ainda acha que sim, posso tentar persuadi-lo a mudar de ideia com uma previsão. Se você ligar nos telejornais esta noite e ouvir de um terrorista massacrando civis em qualquer lugar, da Nigéria ao metrô de Londres, posso garantir uma coisa: os terroristas não serão leitores de Richard Dawkins."