'Secularismo militante', lá vamos nós de novo

Por uma daquelas ótimas coincidências que fazem por merecer no nobre título de serendipidade, nesta segunda-feira temos disponíveis, online, dois artigos sobre a, ahn, "ameaça do secularismo militante", um de Carlos Alberto Di Franco, no Estadão, e outro de Nick Cohen, no Spectator

Ambos têm algo a acrescentar ao "debate" em torno a remoção dos crucifixos dos tribunais determinada pela Justiça gaúcha, ainda que o de Cohen só o faça por vias transversas, já que seu principal foco é a situação britânica. Ah, sim: uso a palavra "debate" entre aspas porque a inadequação da presença de cruzes em cortes de Justiça deveria ser autoevidente, como bem expôs Helio Schwartsman, na Folha, dias atrás.

Mas, voltando à dupla principal: o texto de Cohen é praticamente uma refutação, ponto a ponto, do (pouco) que há de substantivo na diatribe de DiFranco, que começa a empilhar falácias logo de cara, ao declarar "chata" a preocupação secularista do Judiciário gaúcho. 

"Chato", nota-se, virou uma espécie de senha para a desqualificação de posições difíceis de atacar racionalmente. Trata-se de uma tecnologia retórica exercitada ad nauseam pelo (cripto)apologista cristão Luiz Felipe Pondé e que, ao que parece, está sendo abraçada pelos colegas. 

Depois disso, o preclaro articulista se sai com o diagnóstico de que a ordem de remoção dos crucifixos reflete "um Judiciário ocupado com o crucifixo e despreocupado com processos que se acumulam no limbo da inoperância e do descaso com a prestação da justiça à cidadania". Como se defender um princípio constitucional -- o que proíbe alianças entre o Estado e as religiões -- não fosse uma forma de fazer "prestação da justiça à cidadania".

Pelo mesmo raciocínio, diríamos que DiFranco está ocupado com o Judiciário e despreocupado com o ensino da Ética Jornalística -- que, de acordo com o rodapé do artigo, é sua área de especialização e o que, supõe-se, legitima sua presença na página de opinião do centenário matutino. A falácia, que consiste em assumir, a priori, que duas atividades nominalmente diversas são também efetivamente incompatívies, é tão óbvia que deve ter até um altissonante nome latino. Só não sei qual é.

Escrevi acima que há algo de substantivo no texto do articulista. Não é lá muito fácil de achar -- está enterrado em meio a ominosas e ecumênicas alusões a fenômenos como a inquisição e o nazismo -- mas pode ser encontrado na seguinte passagem:

"[O laicismo militante] alegará que [os pensamentos de quem discorda dele] são interferências do pensamento religioso ou de igrejas, quando um democrata deveria pensar apenas que são outros modos de pensar de outros cidadãos, que têm tantos direitos como eles (...)"

Aqui, primeiro, vou citar Nick Cohen: 

"Secularismo ou ateísmo militantes têm um significado específico. Dos jacobinos aos comunistas, militantes assassinaram padres ou os mandaram para campos, destruíram igrejas, sinagogas, mesquitas e templos. Secularismo militante ainda existe na China comunista e na Coreia do Norte. Eu e todos os demais secularistas britânicos que conheço se opõem a ele, porque acreditam tanto em liberdade de religião quanto em ser livre da religião." 

Trocando "britânicos" por "brasileiros", a passagem descreve, e bem, tanto a situação atual por aqui quanto expõe o descalabro retórico do artigo publicado no Estadão. Cohen acrescenta, mais adiante, que "pedir para ser livre da religião faz a sociedade esquecer as poucas boas maneiras que tem"

E, mais uma vez, acerta em cheio o que há de errado no argumento de DiFranco: não conheço nenhum secularista brasileiro, "militante" ou não,  que negue ao religioso o direito de subir num banquinho e pregar, de escrever artigos para jornais, de fazer seus sermões ou publicar seus panfletos, desde que, num limite que o próprio DiFranco reconhece, "não atentem contra as leis" e a ordem pública. 

Enfim, tenham as opiniões que quiserem, e defendam-nas como acharem melhor. Mas o ponto crucial é, não tentem impô-las a quem não concorda com elas, nem usá-las para suprimir os direitos dos outros

Uma coisa é escrever um artigo argumentando que a vida do feto vale mais que a da mãe. Outra, muito diferente, é usar recursos e cargos públicos, bem como meios de pressão política, incluindo cabresto eleitoral, para tentar impedir o sistema de saúde pública de realizar abortos, mesmo em adolescentes à beira da morte. 

Uma coisa é reverenciar o crucifixo na intimidade do lar, ou em templos preparados e consagrados para este fim. Outra é enfiá-lo compulsoriamente na cara de todo cidadão, seja ele ateu, judeu, muçulmano ou animista que busque reparação nos suntuosos tribunais sustentados pelos nossos suados impostos.

É realmente tão difícil assim ver a diferença? Mais: o mero fato de haver gente que prefere viver "livre da religião" e que, na intimidade de suas consciências, considera os argumentos de natureza religiosa irrelevantes é assim tão ofensivo? Por que essas pessoas são classificadas como "chatas" e "autoritárias", e não apenas como "outros cidadãos" com "outros modos de pensar", tão ciosos de seus direitos quanto os demais?

Vou fechar com mais uma citação de Cohen (mais uma vez, basta trocar "Grã-Bretanha" por "Brasil" para ter o diagnóstico certeiro):

"Isso significa que há um espectro assombrando a Grã-Bretanha -- o espectro do secularismo militante?

"Se você ainda acha que sim, posso tentar persuadi-lo a mudar de ideia com uma previsão. Se você ligar nos telejornais esta noite e ouvir de um terrorista massacrando civis em qualquer lugar, da Nigéria ao metrô de Londres, posso garantir uma coisa: os terroristas não serão leitores de Richard Dawkins."

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