sábado, 11 de fevereiro de 2012

Darwin e a questão de Fermi

Feliz aniversário, Charlie!

Neste domingo, faz 203 anos que nasceu Charles Darwin, codescobridor, com Alfred Russel Wallace, do processo de evolução das espécies. Como não dava para deixar passar a data em branco, resolvi registrar aqui uma reflexão que me ocorreu há algum tempo -- e que já li, de uma forma ou de outra, alhures, também.

Essa reflexão aplica o princípio de "sobrevivência do mais apto" a um dos problemas candentes do século 20, a Questão de Fermi. Formulada pelo físico italiano Enrico Fermi, a questão pergunta: "Onde está todo mundo?" Sendo "todo mundo", no caso, as outras civilizações inteligentes da galáxia.

Fermi fez a pergunta depois de estimar, de um modo meio grosseiro, o número esperado de espécies racionais que deveria haver na Via Láctea, e concluir que, ora bolas, já deveríamos ter sido visitados, aqui na Terra, por pelo menos uma.

Cálculos posteriores confirmaram a intuição do italiano: pelo que sabemos, nossa galáxia já teve tempo e condições de produzir outras civilizações além da nossa e, crucialmente, qualquer civilização com inclinações semelhantes às que temos para a pesquisa científica e o desenvolvimento tecnológico já teria tido tempo de visitar todas as estrelas da Via Láctea.

Por "visitar", veja bem, não se entende necessariamente o envio de missões tripuladas, mas também de sondas, como as que hoje temos em Marte, Vênus e Saturno.

O fato, porém, é que não vemos sinais disso no nosso sistema solar -- não há sucata alienígena boiando no cinturão de asteroides (eu tenho a esperança de que de fato haja algo assim por lá, esperando para ser encontrado, mas até agora a ausência de evidência é melhor entendida como evidência de ausência).

Há várias explicações propostas para a questão de Fermi, mas a que me parece mais interessante é a darwiniana: quem disse, afinal, que civilizações tecnológicas têm valor adaptativo no longo prazo?

A aplicação da "sobrevivência do mais apto" nesse contexto tem ainda o valor de dissipar uma confusão muito comum que tende a se associar ao conceito de "mais apto": ser mais apto, evolutivamente, não é ser melhor, mais bonito, mais inteligente, mais meritório, etc., em nenhum sentido objetivo dessas expressões. Significa, apenas, estar mais capacitado a navegar os obstáculos do momento à sobrevivência e à reprodução. Este é, aliás, o erro fundamental dos "darwinistas sociais": sim, um ambiente social cruel e impiedoso estimula nas pessoas as características que as tornam "mais aptas" a se virar nele, mas essas características traduzem o tipo de valor humano que queremos? Por que isso seria desejável?

Enfim. Aplicado à questão de Fermi, esse mesmo raciocínio sugere a seguinte explicação: de todas as estratégias abertas aos seres vivos, inteligência e tecnologia não estão entre as mais eficientes. Pensando aqui mesmo, no caso da Terra: pernas e olhos, por exemplo, evoluíram várias vezes, mas inteligência, imagino, no máximo duas (entre os mamíferos e os pássaros)  muito poucas. E inteligência sofisticada o bastante para explorar o espaço, apenas uma vez!

Parafraseando JBS Haldane, se existe uma preferência especial na árvore da vida, ela está mais voltada para ops besouros do que para os seres inteligentes.

Um erro comum entre as pessoas que se veem confrontadas com esse argumento pela primeira vez é vê-lo como um sinal de menosprezo pelos dons da inteligência.

Mas não se trata disso, e sim de reconhecer que o "valor" de uma característica depende do fim a que ela é aplicada: uma linda voz de soprano é muito valiosa em vários contextos, mas não ajuda a consertar cadeiras quebradas. A inteligência, então, funcionaria da mesma forma: muito útil e interessante para os indivíduos que a possuem, mas talvez não uma boa estratégia de longo prazo para a espécie como um todo.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Aquecimento global: números e argumentos

A revista Skeptic lançou na internet um ótimo artigo do geólogo Donald Prothero sobre o aquecimento global e a desonestidade dos argumentos usados pelos negacionistas climáticos. Minha recomendação é que todas as pessoas interessadas no assunto leiam o texto, mas como ele é longo e está em inglês, resolvi produzir uma versão "digest", capturando alguns dos gráficos usados pelo cientista. O primeiro deles é uma versão atualizada do "hockey stick", o gráfico que mostra a elevação acentuada da temperatura média nos últimos cento e poucos anos:


O segundo é o que registra as concentrações de CO2 na atmosfera da Terra ao longo das eras (as concentrações passadas foram medidas em amostras congeladas extraídas da Antártida).


Como dá para ver, as temperaturas nunca foram tão altas e as concentrações de CO2 também são recorde. Até aí, dá para dizer que "correlação não é causação", e que a coisa toda pode ser uma simples coincidência. Esse argumento ignora, no entanto, o mecanismo químico-físico sobejamente conhecido pelo qual o CO2 aprisiona calor na atmosfera. E também há o gráfico abaixo:


Cujas curvas cruzam a atividade solar e as temperaturas globais nos últimos 120 anos. Como se vê, a fonte primária de calor para a Terra -- a emanação do Sol-- entrou em queda mais ou menos na mesma época em que as temperaturas começaram a disparar. Não dá, portanto, para debitar o aquecimento global na conta do Sol.

Por fim, há quem diga que as temperaturas não têm aumentado tanto nos últimos anos. Esse argumento confunde tendências de longo prazo com variações de curto prazo: uma curva pode oscilar um pouco para cima ou para baixo em intervalos pequenos, ao mesmo tempo em que mantém uma tendência geral de alta (ou de baixa). O gráfico abaixo mostra isso:


A faixa vermelha mostra um trecho da curva escolhido, desonestamente, para sugerir queda, ignorando-se assim a tendência geral.

Antes de encerrar, queria comentar um argumento que volta e meia ouço da boca de esquerdistas da velha guarda, ode que o aquecimento global é uma fraude criada pelos países centrais para retardar o desenvolvimento de nós hermanos pobrecitos.

Essa ideia ainda pode acabar levando a uma aliança entre stalinistas e patrimonialistas muito parecida à que assistimos na questão do código florestal, então fica o aviso: não é só porque o seu esquema ideológico favorito fornece uma determinada interpretação desfavorável dos fatos que os fatos são, magicamente, feitos falsos.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Para que serve o editor, afinal?

O mundo de língua inglesa assiste, atualmente, a uma guerra entre cientistas e editores empresas editoras de publicações científicas. O estopim foi um projeto de lei, patrocinado por grandes grupos editoriais e em tramitação no Congresso americano, que se aprovado proibirá o governo dos EUA de exigir a divulgação gratuita de artigos científicos previamente publicados em revistas privadas.

Para entender melhor o imbróglio, precisamos de duas peças de contexto.

Uma: quando um cientista acredita ter algo de relevante para apresentar à humanidade em geral (e aos colegas, em particular) a etiqueta atual requer que ele não convoque uma entrevista coletiva, nem que se enrole num lençol e saia por aí pregando de porta em porta mas, em vez disso, articule suas ideias e descobertas num artigo; submeta o artigo a uma revista especializada, que se encarregará que passar o texto adiante a pares  ("peers") do autor.

Esses pares são outros cientistas, pessoas teoricamente capazes de entender do que o autor está falando e arbitrar a respeito do mérito do que ele diz no artigo. Os pares podem oferecer críticas e sugestões, e pedir esclarecimentos. Ao cabo desse processo dinâmico, interativo (e muitas vezes estressante) de revisão, e supondo-se que o artigo inicial não fosse uma bomba completa para começo de conversa, o trabalho é publicado e passa a fazer parte oficial da literatura científica da área.

(Com o advento da internet, um outro modelo, o de "revisão aberta" -- no qual o autor joga o artigo online e aguarda a reação dos colegas em tempo real -- surgiu, mas esse é um processo ainda altamente informal, que muitas vezes acaba apenas precedendo a revisão "oficial" pelos pares. Mesmo assim, a revisão aberta tem tido muito sucesso no campo da matemática, onde supostas provas de teoremas submetidas à apreciação da comunidade de matemáticos são rapidamente destroçadas sem jamais se materializarem em tinta e papel.)

A segunda peça de contexto de que precisamos falar são os NIH. Sigla em inglês de Institutos Nacionais de Saúde, os NIH são um coletivo de órgãos ligados ao governo federal americano que constitui, atualmente, o maior financiador de pesquisas médicas do mundo.

Uma pausa para assimilar as implicações disso, por favor: quer dizer que se algum dia a humanidade descobrir a cura da gripe, a vacina contra aids, a terapia universal contra o câncer, o repelente de pulgas definitivo, o soro da juventude e da vida eternas -- bem, se algum dia qualquer uma dessas coisas vier a ser encontrada, é extremamente provável que ao menos parte da pesquisa tenha sido feita com verbas dos NIH.

E os NIH têm uma norma muito simpática, a saber: qualquer artigo científico derivado de dados obtidos em um estudo feito com financiamento dos Institutos deve ser disponibilizado gratuitamente e online no máximo 12 meses após a publicação original.

A lei que tramita nos EUA tem o objetivo de tornar essa norma dos NIH (e quaisquer normas semelhantes que outros órgãos governamentais americanos venham a adotar) ilegal. Por quê? Bem, os editores de publicações científicas dizem que não é justo dar de graça algo que é, ao menos em parte, fruto do trabalho de empresas privadas. A revista incorreu em custos para contatar os pares (a revisão em si é feita gratuitamente), formatar o artigo, publicá-lo, mantê-lo indexado e arquivado.

O artigo é um produto da revista, e não cabe ao governo interferir com as prerrogativas implícitas no princípio da livre iniciativa e do livre mercado, dizem eles. Nós agregamos valor ao trabalho dos cientistas, e merecemos ser remunerados por isso! (A maioria das publicações oferece acesso online a artigos publicados em edições passadas, mas por um preço).

A resposta dos NIH é de que o prazo de 12 meses de exclusividade dado às revistas está aí exatamente para que recuperem o investimento feito. Já a resposta da comunidade científica foi muito menos comedida: em artigos publicados no New York Times e no Guardian, os editores que patrocinam o projeto foram chamados de "inimigos da ciência" e coisa pior. E um matemático iniciou um programa de boicote à Elsevier, uma grande editora de periódicos acadêmicos.

Pondo de lado o ranço ideológico da argumentação das editoras -- esbravejar como se qualquer regulamentação estatal fosse daninha por princípio não cola muito, ao menos não depois da crise dos subprimes -- ficam as questões: os periódicos agregam mesmo valor à pesquisa? E, em caso positivo, será que não são mesmo capazes de recuperar, com lucro, esse valor nos 12 meses de exclusividade a que têm direito?

Imagino que a resposta à primeira pergunta quem tem são os próprios cientistas, que contam com a prerrogativa de "votar com seus artigos", optando por enviá-los a publicações de livre acesso se considerarem os serviços prestados pelas grandes editoras tradicionais insuficientes ou irrelevantes.

Mas agora, pondo minha outra carapuça -- a de escritor de ficção -- pergunto-me se a questão de "qual o valor que o editor agrega" à obra não é hoje tão urgente para o literato quanto para o acadêmico. Imagino que, na seara da ficção, até alguns anos atrás o editor assumia tarefas que o autor, ressalvadas as exceções que só fazer chamar atenção para a prevalência da regra, não tinha meios de desempenhar: diagramar, imprimir, armazenar, distribuir, vender, cobrar. E outras que o autor talvez preferisse não fazer (por falta de saco, tempo ou de vocação), como revisar, lançar, promover e divulgar.

Hoje, no entanto, as questões de meios estão largamente superadas. Como resultado, os autores não precisam mais de editores embora possam, por motivos perfeitamente legítimos, desejar editores.

Assim como os editores de periódicos acadêmicos, as casas editoriais mais generalistas se beneficiam de um certo prestígio inercial (é mais legal sair na Cell do que na PLoS, assim como dá mais charme publicar pela Cia das Letras do que via PDF) e muitas delas, por conta disso, ainda se veem como imprescindíveis. Mas é preciso ter cuidado. Como já dizia o provérbio bíblico, a soberba precede a destruição, e a altivez do espírito precede a queda.