Para que serve o editor, afinal?

O mundo de língua inglesa assiste, atualmente, a uma guerra entre cientistas e editores empresas editoras de publicações científicas. O estopim foi um projeto de lei, patrocinado por grandes grupos editoriais e em tramitação no Congresso americano, que se aprovado proibirá o governo dos EUA de exigir a divulgação gratuita de artigos científicos previamente publicados em revistas privadas.

Para entender melhor o imbróglio, precisamos de duas peças de contexto.

Uma: quando um cientista acredita ter algo de relevante para apresentar à humanidade em geral (e aos colegas, em particular) a etiqueta atual requer que ele não convoque uma entrevista coletiva, nem que se enrole num lençol e saia por aí pregando de porta em porta mas, em vez disso, articule suas ideias e descobertas num artigo; submeta o artigo a uma revista especializada, que se encarregará que passar o texto adiante a pares  ("peers") do autor.

Esses pares são outros cientistas, pessoas teoricamente capazes de entender do que o autor está falando e arbitrar a respeito do mérito do que ele diz no artigo. Os pares podem oferecer críticas e sugestões, e pedir esclarecimentos. Ao cabo desse processo dinâmico, interativo (e muitas vezes estressante) de revisão, e supondo-se que o artigo inicial não fosse uma bomba completa para começo de conversa, o trabalho é publicado e passa a fazer parte oficial da literatura científica da área.

(Com o advento da internet, um outro modelo, o de "revisão aberta" -- no qual o autor joga o artigo online e aguarda a reação dos colegas em tempo real -- surgiu, mas esse é um processo ainda altamente informal, que muitas vezes acaba apenas precedendo a revisão "oficial" pelos pares. Mesmo assim, a revisão aberta tem tido muito sucesso no campo da matemática, onde supostas provas de teoremas submetidas à apreciação da comunidade de matemáticos são rapidamente destroçadas sem jamais se materializarem em tinta e papel.)

A segunda peça de contexto de que precisamos falar são os NIH. Sigla em inglês de Institutos Nacionais de Saúde, os NIH são um coletivo de órgãos ligados ao governo federal americano que constitui, atualmente, o maior financiador de pesquisas médicas do mundo.

Uma pausa para assimilar as implicações disso, por favor: quer dizer que se algum dia a humanidade descobrir a cura da gripe, a vacina contra aids, a terapia universal contra o câncer, o repelente de pulgas definitivo, o soro da juventude e da vida eternas -- bem, se algum dia qualquer uma dessas coisas vier a ser encontrada, é extremamente provável que ao menos parte da pesquisa tenha sido feita com verbas dos NIH.

E os NIH têm uma norma muito simpática, a saber: qualquer artigo científico derivado de dados obtidos em um estudo feito com financiamento dos Institutos deve ser disponibilizado gratuitamente e online no máximo 12 meses após a publicação original.

A lei que tramita nos EUA tem o objetivo de tornar essa norma dos NIH (e quaisquer normas semelhantes que outros órgãos governamentais americanos venham a adotar) ilegal. Por quê? Bem, os editores de publicações científicas dizem que não é justo dar de graça algo que é, ao menos em parte, fruto do trabalho de empresas privadas. A revista incorreu em custos para contatar os pares (a revisão em si é feita gratuitamente), formatar o artigo, publicá-lo, mantê-lo indexado e arquivado.

O artigo é um produto da revista, e não cabe ao governo interferir com as prerrogativas implícitas no princípio da livre iniciativa e do livre mercado, dizem eles. Nós agregamos valor ao trabalho dos cientistas, e merecemos ser remunerados por isso! (A maioria das publicações oferece acesso online a artigos publicados em edições passadas, mas por um preço).

A resposta dos NIH é de que o prazo de 12 meses de exclusividade dado às revistas está aí exatamente para que recuperem o investimento feito. Já a resposta da comunidade científica foi muito menos comedida: em artigos publicados no New York Times e no Guardian, os editores que patrocinam o projeto foram chamados de "inimigos da ciência" e coisa pior. E um matemático iniciou um programa de boicote à Elsevier, uma grande editora de periódicos acadêmicos.

Pondo de lado o ranço ideológico da argumentação das editoras -- esbravejar como se qualquer regulamentação estatal fosse daninha por princípio não cola muito, ao menos não depois da crise dos subprimes -- ficam as questões: os periódicos agregam mesmo valor à pesquisa? E, em caso positivo, será que não são mesmo capazes de recuperar, com lucro, esse valor nos 12 meses de exclusividade a que têm direito?

Imagino que a resposta à primeira pergunta quem tem são os próprios cientistas, que contam com a prerrogativa de "votar com seus artigos", optando por enviá-los a publicações de livre acesso se considerarem os serviços prestados pelas grandes editoras tradicionais insuficientes ou irrelevantes.

Mas agora, pondo minha outra carapuça -- a de escritor de ficção -- pergunto-me se a questão de "qual o valor que o editor agrega" à obra não é hoje tão urgente para o literato quanto para o acadêmico. Imagino que, na seara da ficção, até alguns anos atrás o editor assumia tarefas que o autor, ressalvadas as exceções que só fazer chamar atenção para a prevalência da regra, não tinha meios de desempenhar: diagramar, imprimir, armazenar, distribuir, vender, cobrar. E outras que o autor talvez preferisse não fazer (por falta de saco, tempo ou de vocação), como revisar, lançar, promover e divulgar.

Hoje, no entanto, as questões de meios estão largamente superadas. Como resultado, os autores não precisam mais de editores embora possam, por motivos perfeitamente legítimos, desejar editores.

Assim como os editores de periódicos acadêmicos, as casas editoriais mais generalistas se beneficiam de um certo prestígio inercial (é mais legal sair na Cell do que na PLoS, assim como dá mais charme publicar pela Cia das Letras do que via PDF) e muitas delas, por conta disso, ainda se veem como imprescindíveis. Mas é preciso ter cuidado. Como já dizia o provérbio bíblico, a soberba precede a destruição, e a altivez do espírito precede a queda.

Comentários

  1. Carlos,

    esse é o ponto, os meios estão disponíveis, mas os editores querem vender a imagem de que eles próprios são quase "os meios". A sua reflexão deixou alguns pontos mais claros para mim sobre esta questão. Você tem mais informações sobre como funciona este processo de revisão aberta? Eu ouvi falar disso há um tempo atrás, por conta da proposta de novas revistas de livre acesso que publicariam as críticas aos trabalhos juntos com eles:

    http://www.hhmi.org/news/20110627.html

    Também escrevi sobre este tema no meu blog aqui:

    http://scienceblogs.com.br/socialmente/2012/02/a-primavera-academica-o-livre-acesso-ao-conhecimento-cientifico/

    Abraço!

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    1. Oi, André! A revisão aberta, até onde sei, ainda é altamente informal (entre os matemáticos, por exemplo, não é raro ela rolar nas caixas de comentários de blogs); também nas exatas, o ArXiv é uma plataforma que permite isso, na medida em que um pesquisador pode ler o pré-print do outro e encaminhar comentários. Mas há um grupo inglês tentando institucionalizar a coisa para as biológicas:

      http://f1000research.com/

      Abs!

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  2. Acredito que muito do ambiente de publicação acadêmica ainda vive do vapor de tempos pré-internet. Há uma grande demora em adotarem outras métricas além do fator de impacto, e ainda se baseiam muito no IF pra escolher a revista onde publicar.

    Curioso como o ambiente acadêmico aceitou a internet bem cedo, mas não faz vários dos usos mais modernos dela. Blogs de ciênca em PT ainda são raros, quase não vejo pirataria de material científico, e mal adotamos formatos de conteúdo que não o PDF. Talvez ainda demore uma geração pra vermos mais mudanças.

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  3. Carlos,

    Estou lendo o seu romance "Guerra Justa" no formato epub (vou no cap 6 e estou a gostar muito).

    O texto no entanto (pelo menos em epub) não foi convenientemente revisto. Tem gralhas que só se explicam por não ter havido uma revisão cuidada. Tenho por isso uma pergunta: foi revisto pelo editor/editora?

    De facto nos dias que correm o papel dos editores está cada vez mais a ser posto em causa. E eles também não sabem/não querem reagir à altura.

    Haverá sempre um papel para o 'editor'. Mas o advento dos eBooks veio deitar abaixo o modelo tradicional de negócio deles.
    Em Portugal por exemplo não é fácil encontrar livros electónicos a preços de... livros electrónicos. De autores recentes, que não sejam publicados na Leya, ainda mais complicado fica.

    Já para não falar do DRM. Mas isso é outra conversa...

    abç
    -Luis

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    1. Oi, Luís! O livro foi revisado mas, sim, sei de gralhas que escaparam à peneira. Sinto muito. O editor chegou a me perguntar se eu gostaria de repassar o texto uma segunda vez, após a 1a edição, mas confesso que me sento sem muito ânimo. Tendo a me desapegar muito rapidamente de meus textos, uma vez que os vejo publicados...

      Mas que bom que estás a gostar do livro, a despeito da gralhalândia. Quando terminar, compartilhe suas impressões, por favor!

      Abs!

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    2. Olá Carlos,

      Já terminei o livro (há algum tempo mas só agora pude comentar).

      Como tinha dito antes gostei de ler o livro. Talvez tenha um fim um pouco brusco (eu estava à espera de mais :)

      Contiue na senda da escrita.

      Abç,
      -Luis

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