sexta-feira, 15 de março de 2013

Breve, em abril...



"Espada e Magia" é uma boa tradução de sword & sorcery (S&S), meu subgênero favorito de fantasia, no qual já me aventurei algumas vezes (leitores de e-book podem encontrar exemplos aqui e aqui).A diferenciação mais comum citada entre S&S e a chamada "Alta Fantasia" -- Tolkien e quejandos -- costuma ser a de que a Espada e Magia se interessa mais pelas lutas pessoais de indivíduos, enquanto que a Alta Fantasia lida com os destinos de povos, continentes, mundos.

Esta não é, no entanto, minha forma favorita de distinguir uma coisa da outra -- mesmo porque não se trata de uma distinção muito clara: no romance The Hour of the Dragon , vemos a luta pessoal de Conan para recuperar a coroa da Aquilônia, ao mesmo tempo em que sabemos que o destino da Era Hiboriana está em jogo.

Para mim, o que separa os gêneros é uma diferença fundamental de tom: num mundo de Alta Fantasia é possível sobreviver sendo uma coisinha lindinha e fofinha, cantando musiquinhas bonitinhas no bosquezinho verdinho. Na S&S, nunca. A menos que seja um disfarce. Disfarçando algo extremamente desagradável. Mesmo.

Foi, portanto, com muito orgulho que recebi o convite do editor Cesar Alcázar para participar da antologia Crônicas de Espada e Magia, cuja belíssima capa você vê aí no alto. O livro inclui, além do conto de "lançamento" do meu anti-herói Anror Murd (protagonista de um romance empacado há meses, Anror está se saindo melhor na forma curta), trabalhos de Robert E. Howard (com um conto de fora da série do Conan, aliás), Fritz Leiber (o pai da expressão "sword & sorcery"), Karl Edward Wagner (sua primeira publicação no Brasil, até onde sei) e de outros brasileiros que militam na seara fantástica.

Esta é minha primeira publicação em livro neste ano, na esteira do Ficção de Polpa que saiu no fim de 2012. Assim como o FdP, é um lançamento que vem do sul do Brasil. Mais coisas ainda devem aparecer ao longo de 2013 -- fiquem ligados!

quinta-feira, 14 de março de 2013

Ratos e Reiki

Você talvez já tenha visto, em alguma rede social, um texto proclamando que um estudo brasileiro envolvendo camundongos "provou" a validade do uso da imposição das mãos, ou do reiki, ou do toque terapêutico -- todas modalidades em que o praticante gesticula sobre o corpo do paciente, sem tocá-lo, na tentativa de diagnosticar ou curar doenças, supostamente por meio de algum tipo de transferência de energia.

O estudo citado é uma dissertação de mestrado realizada na USP, em 2003, e que foi tema de uma matéria da Revista Galileu. O trabalho chegou a ser discutido na seção de comentários deste blog, no ano passado, mas eu nunca havia escrito nada a respeito, confesso, por profunda preguiça. Mas, vendo o assunto voltar à baila, senti que era hora de tratar dele para, como dizia Arthur Conan Doyle, não deixar a coisa passar como verdade apenas "por default".

Reproduzo, abaixo, o resumo do estudo apresentado pela Galileu:

No experimento, a equipe de pesquisadores dividiu 60 camundongos com tumores em três grupos. O grupo controle não recebeu nenhum tipo de tratamento; o grupo “controle-luva” recebeu imposição com um par de luvas preso a cabos de madeira; e o grupo “impostação” teve o tratamento tradicional sempre pelas mãos da mesma pessoa.

Depois de sacrificados, os animais foram avaliados quanto a sua resposta imunológica, ou seja, a capacidade do organismo de destruir tumores. Os resultados mostraram que, nos animais do grupo “impostação”, os glóbulos brancos e células imunológicas tinham dobrado sua capacidade de reconhecer e destruir as células cancerígenas.

É um bom resumo. Cabe apenas acrescentar que as luvas, cheias de algodão, tinham o papel de simular uma condição-placebo -- isto é, produzir nos camundongos um efeito psicológico e emocional igual, ou ao menos bem semelhante, ao da presença de um par de mãos humanas, numa tentativa de isolar os efeitos desses fatores, digamos, "naturais", do poder das "energias sutis" a que o autor do trabalho gostaria de atribuir os resultados obtidos. Esses resultados imunológicos positivos saíram de quatro de seis testes estatísticos realizados (dois deles não produziram resultados significativos). Citando a dissertação, constatou-se que:

Elevação na contagem do número de monócitos (p<0,05);
Diminuição na contagem do número de plaquetas (p<0,05);
Elevação da citotoxicidade de células não-aderentes com atividade NK e LAK (p<0,005).

Neste ponto, parecem ficar claros alguns problemas metodológicos, que enumero a seguir:

1. Quem disse que luvas cheias de algodão são um bom placebo para imposição das mãos?

A questão de qual o placebo adequado para testes de reiki é discutida na literatura científica internacional, e luvas não parecem a melhor solução. Luvas, afinal, não têm o cheiro das mãos, não suam como as mãos, não têm a temperatura das mãos. Aliás, as luvas usadas, neste experimento específico, sequer se parecem com mãos! (A imagem abaixo foi copiada do corpo da dissertação).


2. A análise das amostras foi feita de modo cego?

A matéria da Galileu não diz, e a dissertação, também não. Num teste cego, a análise das amostras dos camundongos "tratados" e dos animais dos dois grupos de controle (com ou sem placebo) seria feita por profissionais ignorantes quanto à origem do material. A longa experiência humana em estudos de tratamentos médicos e, também, de fenômenos paranormais mostra que "cegar" o estudo é a única forma de garantir que os preconceitos, crenças, desejos e expectativas dos experimentadores não contaminem o resultado. 

3. Os níveis de significância estatística são adequados?

Quando se diz que o resultado de um teste estatístico é significativo com "p<0.05", isso quer dizer que a chance de o resultado obtido ser fruto de mero acaso -- e não do fenômeno que você está investigando -- é menor que 5%. Esse número mágico, 5%, é usado por questões de conveniência e tradição histórica, embora algumas ciências, como a física de partículas, já tenham assumido que valores de "p" muito menores que 0,05 são necessários para comprovar determinados fenômenos. Um problema comumente ignorado é o de que, quantos mais testes se realizam numa amostra, menor deve ser o valor de "p" considerado significativo.

O motivo é fácil de entender: imagine que cada teste realizado na base de dados corresponda a um sorteio. A diferença, aqui, é que ser "sorteado", no caso, é sinal de azar: você está obtendo um resultado que parece confirmar sua hipótese, mas que na verdade não passa de ruído. Bem, cada novo teste representa um novo sorteio. Isto é, uma nova oportunidade de ser enganado pelo acaso. Ao realizar seis testes com "p" de 0,05, a chance de se obter pelo menos um resultado falso positivo sobe de 0,05 para 0,26. Passa de 5% para 26%. Em outras palavras, sua chance de estar certo ao afirmar que evento é real cai de 95% para 74%.

A dissertação não informa se alguma correção foi aplicada para dar conta dessa possibilidade.

Suponhamos, porém, que a alteração fisiológica nos camundongos tratados seja real, estatisticamente significativa e não tenha sido causada pelo cheiro do sabonete com que o aplicador de reiki lavou as mãos: resumindo, que nenhuma das armadilhas metodológicas tenha afetado o resultado final. Ainda assim, há problemas conceituais que permeiam todo o trabalho, e que surgem, de modo mais grave, na reportagem da Galileu

O trabalho acadêmico ainda menciona algumas possíveis causas alternativas -- para além da interação de um suposto "campo de energia" do corpo humano com o organismo dos roedores -- para o resultado, como estresse ou variações hormonais. A investigação da questão hormonal, no entanto, é postergada (o texto diz que amostras foram preservadas para análise posterior) e o estresse é posto de lado por não terem sido encontrados outros marcadores desse tipo de condição. 

O que nos traz a uma questão curiosa: o que é mais provável -- que animais estressados não apresentem todos os marcadores bioquímicos da condição, mas apenas alguns, ou que os marcadores tenham surgido por influência de um campo energético misterioso, desconhecido pela ciência?

A dissertação não responde diretamente à pergunta, mas a opção do autor é clara. O texto fala, de passagem, em Einstein e mecânica quântica, mas a referência dada é um livro popular de divulgação científica (O Universo Elegante, de Brian Greene), cujo autor provavelmente ficaria roxo de vergonha -- ou raiva -- ao ver seu trabalho invocado dessa forma. 

Menciona ainda "energias sutis, que seriam um conjunto de energias que ainda não foram exatamente esclarecidas pela ciência", como se fosse uma categoria científica estabelecida, e não um conceito altamente polêmico, quando não francamente marginal e associado a charlatanismos de todo tipo. Também insiste em tratar o eletromagnetismo -- talvez a força mais longamente conhecida a estudada pelos físicos -- como se fosse algo misterioso e vagamente místico, numa espécie de regressão atávica aos tempos de Mesmer

É sintomático que o livro citado como referência para escorar essa associação entre eletromagnetismo e "energias sutis", Energy Medicine: The Scientific Basis, tenha sido impiedosamente demolido numa crítica publicada na revista Skeptic, assinada pela médica Harriet Hall. E, ao mesmo tempo em que cita Energy Medicine, a dissertação se esquiva de mencionar o artigo de Emily Rosa, publicado no periódico com revisão pelos pares JAMA, em 1998, demonstrando que praticantes de "toque terapêutico" são incapazes de detectar o suposto "campo de energia" do corpo humano.

Mas eu ia dizendo que a dissertação é menos problemática que a reportagem. Isso porque a peça acadêmica, em suas conclusões, é de um tímido conservadorismo: 

"A diferença dos resultados obtidos entre os grupos Controles e o grupo Impostação não sugerem que as alterações fisiológicas encontradas sejam decorrentes de condicionamento dos animais ou efeito placebo. Novos estudos experimentais devem ser realizados para melhor avaliar os efeitos dessa prática, investigando a função plaquetária e os diversos fatores que podem estar envolvidos nessa resposta e na regulação das respostas imunológicas e endócrinas."

Nada de campos eletromagnéticos biológicos ou energias sutis, veja só. Nenhuma palavra, nas conclusões, dando a entender que o reiki ou o toque terapêutico foram "provados cientificamente" (lembre-se disso da próxima vez que encontrar essa alegação no Facebook). 

Já na revista, livre das amarras da prudência acadêmica, o pesquisador é mais explícito: “Não sabemos ainda distinguir se a energia que o reiki trabalha é magnética, elétrica ou eletromagnética. Os artigos descrevem- na como ‘energia sutil’, de natureza não esclarecida pela física atual”.

"Energia (...) de natureza não esclarecida pela física atual", até onde eu sabia, era a energia escura que está afastando as galáxias. Será a mesma coisa?  

segunda-feira, 11 de março de 2013

A mensagem final de Deus para sua Criação

Leitores de Douglas Adams (que faria 62 anos hoje) talvez se lembrem de que, em Até Mais, Valeu o Peixe, ao final de uma longa jornada pelos recônditos do cosmo, seus protagonistas encontram a Mensagem Final de Deus para Sua Criação. Não vou dar spoiler aqui -- quem quiser saber qual a mensagem sem ler o livro só precisa de um pouco de paciência com o Google -- mas uma imagem de 2000, feita pelo Telescópio Espacial Hubble, parece ter matado a charada.

A foto é definida pela Nasa como "detalhe de uma estrutura complexa no interior da Nebulosa de Carina". A foto inteira é esta aqui, bela e majestosa como quase tudo o que o Hubble faz:


Mas o detalhe relevante para o título da postagem encontra-se no canto superior esquerdo, devidamente embalado numa auréola beatífica:


O fato de a foto ter sido divulgada no ano 2000 só faz aumentar a convicção de que ela tem um significado especial. Como o monolito alienígena do filme 2001: Uma Odisseia no Espaço, a mensagem foi deixada lá para que a descobríssemos quando nossa tecnologia fosse capaz -- e, ao contrário dos astutos protagonistas de Arthur C. Clarke, passamos batidos por ela.

Não duvido nada de que as últimas guerras, enchentes, furacões, o sertanejo universitário, a renúncia do papa e o Marcos Feliciano só aconteceram para chamar nossa atenção para o fato que insistimos em ignorar.