sábado, 11 de janeiro de 2014

"Intolerância" não é isso não, é outra coisa

Em seu livro The Myth of Persecution: How Early Christians Invented a Story of Martyrdom, a historiadora Candida Moss não só desmonta a narrativa de que centenas, quiçá milhares, de cristãos foram mortos pelo Estado romano, apenas pelo fato de serem cristãos, nos 300 anos entre a crucificação de Jesus e a ascensão de Constantino -- a conta mais exata é de meia dúzia de mártires, e de um período ativo de caça aos cristãos que teria durado cerca de uma década, não séculos -- como ainda expõe o contexto histórico em que o mito do "sangue de mártires é a semente da igreja" foi construído: depois da chegada dos cristãos ao poder com Constantino, como pretexto para a perseguição a hereges e pagãos.

"A consequência da história de Eusébio de uma igreja perseguida", escreve a autora, "é a divisão da igreja em dois grupos: a ortodoxia, representada pelos bispos e mártires, e seus oponentes: hereges, cismáticos, perseguidores". Mais adiante, ela acrescenta: "Antes da ascensão do imperador Constantino, essa visão polarizada do mundo havia existido entre cristãos que se viam como forasteiros lutando contar Satanás no fim dos tempos; com Eusébio, a ideia institucionaliza-se. O 'nós' perseguidos agora somos o establishment."

Candida Moss chama a atenção para o que há de perverso nesse construto retórico, que faz com que um grupo se considere vítima de perseguição e de intolerância ao mesmo tempo em que está, de fato, no exercício do poder: a manobra ideológica permite mobilizar todos os meios de opressão massacrantes disponíveis ao establishment, ao mesmo tempo em que se invoca um grau de licença moral normalmente só concedido ao oprimido que luta, em desespero, pela própria vida. Tiranias constroem-se assim.

O livro da historiadora americana me veio à memória depois que até mesmo o arcebispo católico de de São Paulo acusou o especial de natal do grupo humorístico Porta dos Fundos de "intolerância religiosa". Outros grupos cristãos já vinham numa escala retórica contra o vídeo -- onde, entre outras coisas, o carpinteiro José reage como um típico corno de anedota ao saber da gravidez de Maria -- mas ouvir a palavra "intolerância" aplicada ao caso por um sujeito formado em filosofia e que fala latim é algo espantoso.

Ou a aura de superioridade intelectual -- especialmente em relação aos evangélicos mais estridentes -- que a hierarquia católica gosta de ostentar é puro blefe, ou uma manobra autoritária do tipo atribuído por Moss aos pais da igreja, cevados no seio da Roma Imperial, está em curso.

Só para pôr as coisas em perspectiva: "intolerância" é o que sofrem os ateus na Indonésia, os coptas no Egito, os muçulmanos em Mianmar, os católicos na China (para onde, aliás, o arcebispo poderia se transferir, caso realmente deseje lutar contra a opressão de seus irmãos de fé). Ver seus dogmas favoritos virarem alvo de piada, enquanto você continua livre para acreditar neles, praticá-los, propagá-los e, até, para fazer piada com quem fez a piada, é outra coisa: chama-se democracia.


quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Jornalismo não é ciência, mas...

Há algum tempo, uma reportagem – não um trabalho científico – publicada na revista Science causou furor ao mostrar que mais da metade dos mais de 300 periódicos de ciência que adotam o modelo de negócio de cobrar dos pesquisadores para publicar seus artigos aceitaram veicular um estudo que apresentava sinais claros de ser fraudulento. A implicação sugerida foi a de que, ao cobrar para publicar, esses periódicos cedem à tentação de privilegiar a quantidade e a fazer vista grossa à qualidade. (Leia mais em minha coluna no site da Revista Galileu)