sábado, 8 de dezembro de 2012

O mistério do Santo Prepúcio

Circuncisão do Cristo, detalhe de pintura de Friedrich Herlin de Nördlingen, 1466

Esta é mais uma postagem  da minha série sazonal sobre a mitologia da natividade de Jesus, cujos capítulos anteriores, ambos do ano passado, podem ser lidos aqui e aqui. Desta vez, vou tratar de um tema especialmente delicado: o que terá acontecido com o prepúcio de Jesus?

O filho de Maria e José era, acho que todo mundo se lembra, judeu. Daí, presume-se que tenha sido circuncidado, de acordo com a lei mosaica. O Evangelho de Lucas, na verdade, afirma que foi exatamente isso que aconteceu:

"Completados que foram os oito dias para ser circuncidado o menino, foi-lhe posto o nome de Jesus, como lhe tinha chamado o anjo, antes de ser concebido no seio materno." (Lc 2:21).

A trama se complica quando levamos em consideração estes outros versos, do Evangelho de João:

Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna; e eu o ressuscitarei no último dia. / Pois a minha carne é verdadeiramente uma comida e o meu sangue, verdadeiramente uma bebida. (Jo 6:54-55)

Não é preciso ter muita imaginação para ver um romance de Dan Brown, aí, pedindo para ser escrito: se a carne de Jesus é o elixir da vida eterna, e se o prepúcio ficou para trás quando o corpo ressuscitado do messias foi arrebatado ao céu, então...

É certo que, de acordo com o dogma católico, toda hóstia consagrada é, na verdade e em essência, um pedaço da carne de Jesus, mas para que se fiar numa peça de teologia abstrusa e sutil se o artigo legítimo ainda se encontra disponível? Outras possibilidades interessantes logo surgem -- se há células de Jesus por aí, que tal um clone? Em seu romance Choke, Chuck Palahniuk, mesmo autor de Clube da Luta, brinca com a ideia.

Mesmo pondo as considerações indigestas ou por demais rebuscadas lado: num ambiente mental onde se admite  que o mero contato com um retalho da capa de um santo morto pode curar doenças, de que maravilhas o toque de um pedaço da pele de uma das Pessoas da Trindade não seria capaz?

Questão: mas será que o prepúcio se encontra na Terra, mesmo? Um problema teológico candente, durante a Idade Média, era a de o que teria acontecido com as partes "perdidas" do corpo de Jesus -- não apenas o prepúcio, mas aparas de unha, fios de cabelo, sangue, saliva, suor -- no instante da ressurreição?

O dogma de que, no fim dos tempos, todas as pessoas serão ressuscitadas, mesmo aquelas cujos corpos já tiverem sido completamente decompostos, traz algumas dificuldades, filosóficas e práticas, interessantes.

Hoje em dia, por exemplo, sabemos que toda a matéria do universo é reciclada -- que nossos corpos contêm átomos que já foram usados em outros lugares, em outras formas, inúmeras vezes. Então, se há uma célula no meu corpo feita com átomos que estavam originalmente no corpo de Átila, o Huno, quem terá prioridade de acesso a eles na ressurreição?

Os sábios medievais ainda não conheciam a lei da conservação da matéria, nem tinham a prova de que a teoria atômica dos gregos representava uma melhor aproximação da realidade, mas ainda assim Tomás de Aquino passa um bom tempo, em sua Summa Contra Gentiles, escrita no século 13, argumentando que o corpo ressuscitado é o mesmo corpo, e não apenas uma cópia muito bem feita.

Trata-se de uma questão delicada: se a pessoa que vai passar a eternidade no fogo do inferno (ou nas delícias do Paraíso) não for mesmo eu, mas apenas um impostor -- digamos, um androide ou clone -- que partilha de todas as minhas memórias, então, de repente, minhas preocupações (ou esperanças) sofrem uma revisão radical.

Ao fim e ao cabo, Aquino joga a toalha e diz que, como a Deus tudo é possível, os paradoxos não se aplicam e, sim, os corpos ressuscitados são os mesmos corpos originais, e as personalidades são exatamente as mesmas, não meras cópias.

Nesse contexto, a questão dos restos mortais de figuras arrebatadas em carne e osso ao Paraíso, como Jesus e Maria, tornava-se espinhosa. Como explica o historiador Charles Freeman em seu livro pioneiro sobre o papel cultural das relíquias na Idade Média, Holy Bones, Holy Dust,"se cada parte do corpo vai se reerguer para o Juízo Final, então aqueles que foram antes, como Cristo e Maria, devem ter seus corpos completos consigo. Então não poderia haver relíquias do sangue do Cristo ou do leite da Virgem (...) No entanto, o próprio Vaticano alegava possuir relíquias de Cristo, incluindo um de vários exemplares do Santo Prepúcio".

Vários exemplares. Havia um em Roma, presente do imperador Carlos Magno ao papa Leão III. Havia outro em Antuérpia, obtido pelo rei Balduíno I de Jerusalém (que não deve ser confundido com o imperador Balduíno I de Constantinopla, este último um notório traficante de relíquias de Jesus, que distribuía para comprar ajuda militar na Europa); entre outros: os números vão de oito a dezoito.

De acordo com a Wikipedia, a maior parte dos supostos Santos Prepúcios foi destruída na Reforma ou na Revolução Francesa. Mas, até 1983, a diocese católica de uma cidade italiana, Calcata, realizava procissões anuais com um relicário que conteria o precioso fragmento do Pênis do Filho.

As procissões deixaram de ocorrer na década de 80 não por uma questão de compostura eclesiástica (o Vaticano, talvez constrangido pelas piadas infames, já havia decidido, em 1900, sob o papado de Leão XIII, que apenas tocar no assunto do prepúcio divino seria motivo para excomunhão, e a Festa da Circuncisão do Senhor acabou abolida do calendário oficial pelo Concílio Vaticano II) ou desinteresse popular, mas porque o relicário e seu conteúdo haviam sido roubados. Nem a peça, nem os autores do crime jamais foram encontrados -- um jornalista, David Farley, escreveu um livro, An Irreverent Curiosity, a respeito das buscas, infrutíferas, pelo suposto último vestígio material do Rei dos Reis sobre a Terra.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

É hora de aventura!

Já está à venda o quinto volume da coleção Ficção de Polpa, da gaúcha Não Editora, e que tem como tema Aventura. Este é o terceiro volume da série a contar com uma colaboração minha. Os demais de que participo são o segundo, de histórias de ficção científica, e o quarto, Crime!. Não tomei parte no primeiro, de contos de terror, nem no terceiro, de obras de fantasia. Fico imaginando quais serão os temas dos próximos livros -- guerra? romance? western? suspense? espionagem?

A aventura é, provavelmente, a mãe de todos os gêneros literários narrativos. O primeiro babilônio a pôr estilete na tabuinha não estava lá muito interessado em descrever as frustrações sexuais de um pobre jovem de Ur em busca de si mesmo nas movimentadas e cruéis ruas da Babilônia, mas sim a expedição do rei Gilgamesh em busca da imortalidade, incluindo a morte do dragão Humbaba e outras peripécias.

Sendo um gênero que está, enfim, na raiz de todos os gêneros, a proposta de escrever "uma história de aventura" pode até soar aberta demais. O Big Book of Adventure Stories, por exemplo, traz desde Tarzan a Cisco Kid, passando por ilhas desertas y otras cositas más. Para minha sorte, o editor Samir Machado de Machado sabia exatamente o que queria de mim: uma história de sobrevivência na Antártida.

Daqui a alguns dias faz três anos que voltei de lá. Fiquei quase um mês -- entre meados de novembro e o fim de dezembro -- de 2009 na Estação Antártica Comandante Ferraz, mantida pelo governo brasileiro (principalmente, pela Marinha) nas Ilhas Shetland do Sul, ao largo da Península Antártica. Ferraz sofreu um incêndio há algum tempo, sobre o qual escrevi aqui.

A estadia foi tranquila, e a despeito de alguns sustos e momentos de tensão -- como quando, correndo atrás de uma foca para fotografar, pisei num banco de neve fofa e afundei até a cintura, ou na hora de descer do navio Almirante Maximiano para um bote, por uma escada de corda, enquanto caía uma neve fraquinha -- nunca estive realmente em perigo.

(Descer uma escada de corda com as mãos enluvadas é uma experiência enervante: a luva amortece o tato, então como você sabe que está segurando firme o bastante?)

Mas, bolas, a imaginação está aí para isso mesmo, certo? O título do conto, Melhor Servido Frio, provavelmente já diz tudo o que você precisa saber sobre o tema central da história.

A ilustração ao lado retrata uma cena da narrativa, e embora a personagem criada pela artista não esteja usando um macacão de sobrevivência Mustang como o que descrevo em minha história, o espírito do desenho reflete o momento anterior a uma das cenas principais da aventura que inventei.

Talvez o fato de ele o conto ter sido escrito por alguém com alguma experiência direta do ambiente exótico envolvido funcione como argumento de venda. É o que esperamos. E por falar em vendas, o livro não só já está disponível (como os links do primeiro parágrafo desta postagem demonstram), como haverá festa de lançamento em Porto Alegre! Gaúchos, basta seguir as instruções do convite abaixo:




segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

É oficial: a Antártida também está derretendo

Variação da massa de gelo da Antártida, usando 2007 como base
Saiu, na Science da semana passada, o mais completo estudo sobre as massas de gelo nas duas regiões polares da Terra, norte e sul. A evidência de degelo no norte já era bastante conclusiva, mas ainda havia dúvidas sobre o sul -- os dados do relatório do IPCC de 2007 indicavam que a massa de gelo na Antártida poderia, até, estar aumentando, para gáudio dos negacionistas da mudança climática.

Agora, no entanto, a situação ficou bem clara: as duas zonas polares estão derretendo. A perda no norte é bem mais impressionante, com o degelo na Groenlândia tendo acelerado num fator de cinco -- isso é um aumento de 400% -- desde meados da década de 90, enquanto que, na Antártida, a perda cresceu "apenas" 50% na década passada. De acordo com a Nasa, as estimativas atuais são duas vezes mais precisas que as usadas pelo IPCC em 2007, por conta de um aumento no volume de dados disponível.

O derretimento do gelo que flutua sobre o mar, além de afetar o hábitat de animais marinhos, também tem o efeito de acelerar o aquecimento (a luz do sol, em vez de ser refletida de volta para o espaço pelo gelo branco, é absorvida pelo mar escuro). Já o derretimento do gelo sobre ilhas e continentes eleva o nível do mar. Os autores do estudo dizem que o gelo que derreteu na Antártida e na Groenlândia já causou um aumento de 1,1 centímetro desde 1992.

O nível do mar de fato subiu mais do que isso, por conta da contribuição do aquecimento global, porque a água mais quente se expande, e o gelo também derrete no alto das montanhas, levando mais água aos rios e, daí, ao oceano. Correr para as colinas ainda não é exatamente necessário, mas talvez faça sentido manter a opção em mente.

O gráfico acima é apenas mais um a se somar à massa de evidência do aquecimento global de origem humana, como por exemplo este da variação da temperatura global, segundo várias fontes:


Ou este aqui, sobre a concentração de CO2 na atmosfera, que explode nos tempos atuais:


E ainda este, comparando temperatura e atividade solar, demonstrando que, não, não é por causa do sol que o clima está mudando -- dá para ver que, de 1980 a 2000, o mundo esquentou enquanto o sol foi ficando cada vez mais calmo:


Todas imagens, acima e abaixo, com exceção do gráfico da Nasa sobre o gelo da Antártida, vêm do site Skeptical Science, que não me canso de recomendar. Mas meu dado favorito sobre o efeito estufa é o das leituras de radiação infravermelha feitas por satélites e estações em terra.

Explicando: o que chamamos de calor é, em larga medida, luz infravermelha. A teoria por trás do efeito estufa diz que, aquecida pelo sol, a superfície da Terra emite radiação infravermelha de volta ao espaço. Parte dessa radiação, no entanto, é absorvida pelo CO2 presente no ar, e reemitida, de modo preponderante, de volta ao solo.

Bem, se essa teoria estiver correta, então cada vez menos luz infravermelha da Terra deve estar chegando ao espaço, e cada vez mais, sendo captada por instrumentos no solo. E é exatamente isso que acontece! De fato, dados de satélite vêm registrando que, nos últimos 40 anos, cada vez menos energia emitida da Terra, na faixa de absorção do CO2, chega ao espaço.

O gráfico abaixo mostra uma comparação entre a radiação de origem terrestre captada no espaço pelo satélite americano IRIS, em 1970, e pelo japonês IMG, em 1996. Há queda nas faixas correspondentes à absorção pelo CO2 e pelo CH4, ambos gases do efeito estufa:



Enfim, o dado do satélite sugere que, nesse período de 26 anos, menos radiação vinculada ao CO2 conseguiu chegar ao espaço, sendo que o ano de  1970 foi de baixa atividade solar, que voltou a subir nos anos 80 -- ou seja, não dá para dizer que menos calor saiu porque menos calor entrou, muito pelo contrário: menos calor saiu e mais calor entrou. Como energia não pode ser criada nem destruída, esse superávit de infravermelho deve estar tendo algum efeito por aqui.

Esse efeito, bem como suas causas, foi estimado num artigo publicado ano passado na Nature Geoscience. A conclusão é -- mais uma vez -- a de que a Terra está esquentado e que a causa, preponderantemente, é a  atividade humana.