É oficial: a Antártida também está derretendo

Variação da massa de gelo da Antártida, usando 2007 como base
Saiu, na Science da semana passada, o mais completo estudo sobre as massas de gelo nas duas regiões polares da Terra, norte e sul. A evidência de degelo no norte já era bastante conclusiva, mas ainda havia dúvidas sobre o sul -- os dados do relatório do IPCC de 2007 indicavam que a massa de gelo na Antártida poderia, até, estar aumentando, para gáudio dos negacionistas da mudança climática.

Agora, no entanto, a situação ficou bem clara: as duas zonas polares estão derretendo. A perda no norte é bem mais impressionante, com o degelo na Groenlândia tendo acelerado num fator de cinco -- isso é um aumento de 400% -- desde meados da década de 90, enquanto que, na Antártida, a perda cresceu "apenas" 50% na década passada. De acordo com a Nasa, as estimativas atuais são duas vezes mais precisas que as usadas pelo IPCC em 2007, por conta de um aumento no volume de dados disponível.

O derretimento do gelo que flutua sobre o mar, além de afetar o hábitat de animais marinhos, também tem o efeito de acelerar o aquecimento (a luz do sol, em vez de ser refletida de volta para o espaço pelo gelo branco, é absorvida pelo mar escuro). Já o derretimento do gelo sobre ilhas e continentes eleva o nível do mar. Os autores do estudo dizem que o gelo que derreteu na Antártida e na Groenlândia já causou um aumento de 1,1 centímetro desde 1992.

O nível do mar de fato subiu mais do que isso, por conta da contribuição do aquecimento global, porque a água mais quente se expande, e o gelo também derrete no alto das montanhas, levando mais água aos rios e, daí, ao oceano. Correr para as colinas ainda não é exatamente necessário, mas talvez faça sentido manter a opção em mente.

O gráfico acima é apenas mais um a se somar à massa de evidência do aquecimento global de origem humana, como por exemplo este da variação da temperatura global, segundo várias fontes:


Ou este aqui, sobre a concentração de CO2 na atmosfera, que explode nos tempos atuais:


E ainda este, comparando temperatura e atividade solar, demonstrando que, não, não é por causa do sol que o clima está mudando -- dá para ver que, de 1980 a 2000, o mundo esquentou enquanto o sol foi ficando cada vez mais calmo:


Todas imagens, acima e abaixo, com exceção do gráfico da Nasa sobre o gelo da Antártida, vêm do site Skeptical Science, que não me canso de recomendar. Mas meu dado favorito sobre o efeito estufa é o das leituras de radiação infravermelha feitas por satélites e estações em terra.

Explicando: o que chamamos de calor é, em larga medida, luz infravermelha. A teoria por trás do efeito estufa diz que, aquecida pelo sol, a superfície da Terra emite radiação infravermelha de volta ao espaço. Parte dessa radiação, no entanto, é absorvida pelo CO2 presente no ar, e reemitida, de modo preponderante, de volta ao solo.

Bem, se essa teoria estiver correta, então cada vez menos luz infravermelha da Terra deve estar chegando ao espaço, e cada vez mais, sendo captada por instrumentos no solo. E é exatamente isso que acontece! De fato, dados de satélite vêm registrando que, nos últimos 40 anos, cada vez menos energia emitida da Terra, na faixa de absorção do CO2, chega ao espaço.

O gráfico abaixo mostra uma comparação entre a radiação de origem terrestre captada no espaço pelo satélite americano IRIS, em 1970, e pelo japonês IMG, em 1996. Há queda nas faixas correspondentes à absorção pelo CO2 e pelo CH4, ambos gases do efeito estufa:



Enfim, o dado do satélite sugere que, nesse período de 26 anos, menos radiação vinculada ao CO2 conseguiu chegar ao espaço, sendo que o ano de  1970 foi de baixa atividade solar, que voltou a subir nos anos 80 -- ou seja, não dá para dizer que menos calor saiu porque menos calor entrou, muito pelo contrário: menos calor saiu e mais calor entrou. Como energia não pode ser criada nem destruída, esse superávit de infravermelho deve estar tendo algum efeito por aqui.

Esse efeito, bem como suas causas, foi estimado num artigo publicado ano passado na Nature Geoscience. A conclusão é -- mais uma vez -- a de que a Terra está esquentado e que a causa, preponderantemente, é a  atividade humana.

Comentários

  1. Se a Terra esquentar vai ser bom para todos, pois, muito mais áreas habitáveis e agricultáveis existirão para dividir com a população humana que cresce desordenadamente.
    Eu quero que você me aqueça neste inverno e que tudo mais ... vá para o inferno! Já dizia Roberto Carlos nos anos 60.

    Vou começar uma fábrica de geladeira, ar condicionado e ventiladores, e tomara que esquente bastante!!!


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  2. Negacionista do tipo 3a: "Ok, há aquecimento e talvez seja influenciado por humanos, mas isso é bom".

    Alterações climáticas podem até abrir novas áreas agricultáveis, mas também fechar outras por desertificação ou simplesmente por elevação da temperatura - as regiões mais férteis são as de clima temperado e as principais culturas: soja, trigo e arroz são de clima temperado (embora o Brasil tenha desenvolvido variedade tropical de soja). Em outras áreas, o aumento da incidência de chuvas, tende a ocasionar inundações e também perdas de safra (excesso de chuva também atrapalha produção). Deve também aumentar a incidência de doenças tropicais. E como grande parte da humanidade vive em regiões litorâneas, o aumento do nível do mar tende a causar um senhor estrago.

    Pode-se listar alguns potenciais benefícios do aumento da temperatura média em 3 a 6 graus Celsius; mas a lista de prejuízos é bem maior. E a conta final do prejuízo - em dólares, por exemplo - também tende a ser bem maior do que dos ganhos.

    -----------
    Aquecimento global pode prejudicar a agricultura
    http://www.inpa.gov.br/noticias/noticia_sgno2.php?codigo=910

    Efeitos do aquecimento global na agricultura brasileira serão dramáticos
    http://g1.globo.com/bomdiabrasil/0,,MUL1391373-16020,00-EFEITOS+DO+AQUECIMENTO+NA+AGRICULTURA+BRASILEIRA+SERAO+DRAMATICOS.html
    (Menos a manchete. Mais os dados apresentados.)
    -----------

    []s,

    Roberto Takata

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