sexta-feira, 30 de março de 2012

Bendito quem semeia livros, livros à mancheia...


A postagem abaixo é uma reprodução de uma crônica autobiográfica (e automarketeira) que produzi para o blog da Draco, a casa editorial preferencial de minhas obras de ficção. Como suspeito que o público deste blog não seja exatamente o mesmo de lá, resolvi trazer o texto para cá pra fechar a semana.

Abaixo, a postagem original para a Draco, com apenas um ou dois retoques:


Os leitores da Draco correm o risco de enjoar da minha cara (ou, bem, do meu texto) neste ano: estou confirmado (até agora) nas antologias Space Opera 2,Erótica FantásticaBrinquedos Mortais e  Fantasias Urbanas; além disso, tenho três títulos-solo alinhavados: a novela de fantasia As Dez Torres de Sangue, a coletânea de contos de ficção científica Campo Total e uma segunda edição de Tempos de Fúria – que estou chamando, cá comigo, de Tempos de Fúria Redux (quero ver o Erick, meu editor, enfiar isso numa capa e fazer ficar bom...). Ah, tem também o meu romance Guerra Justa em e-book disponível na Amazon, Saraiva, Gato Sabido e muitas outras livrarias virtuais. O preço é bem justo, também, R$ 9,90 nas nacionais e US$ 4,99 na Amazon.

Dos três títulos-solo, Tempos de Fúria Redux  é talvez o que mais me surpreendeu em ter a oportunidade de publicar. O Tempos de Fúria original foi (mais uma) prova de minha absoluta falta de tino comercial: publicado numa espécie de “contrato de risco”, dependia do esgotamento da primeira edição para que eu começasse a receber direitos autorais.

Mesmo tendo sido adotado como leitura obrigatória numa escola de ensino médio, ele nunca chegou perto de esgotar, e a alegria dos frequentadores de sebos tornou-se um travo amargo em meu bolso (e é por isso que ele não aparece na lista de "livros que escrevi" da coluna da direita aqui do blog).

Quando a Draco me ofereceu a chance de relançá-lo num esquema profissional digno, fiquei tão feliz que até assumi a tarefa de revisar os textos, um a um (detesto reler coisas minhas!) e de acrescentar dois contos que, se não exatamente inéditos, são certamente difíceis de achar. Um deles é uma homenagem (não muito) velada à Intempol de Octavio Aragão e o outro, uma aventura de viagem interdimensional.

O livro marcou uma mudança importante em minha forma de encarar a escrita e o relacionamento com editores em geral: nele me conscientizei de que o autor, afinal, já paga para escrever – paga em tempo, pesquisa, concentração, bibliografia, qualidade de vida – e que não faz sentido, portanto, pagar também para publicar; a menos que se tenha uma vocação empresarial apurada, o que, definitivamente, nunca foi o meu caso.

Daí, Campo Total. É uma coletânea que reúne contos posteriores aos deTempos de Fúria e, se me permitem dizer, também melhores. Tempos de Fúria foi pensada como uma coletânea mais “mercadológica”, com histórias de apelo mais facilmente reconhecível.

Campo Total é mais solta. A maioria dos textos reunidos ali viu a luz pela primeira vez no velho fanzine/semiprozine Scarium, outros pipocaram aqui e ali na internet. São, no geral, histórias que cabem claramente dentro do gênero da ficção científica, mesmo quando têm uma roupagem que lembra a fantasia, como no caso de Visitante, vista anteriormente numa antologia do Museu Imperial de Petrópolis.


As Dez Torres de Sangue, por sua vez, é fantasia desbragada. Em mais uma prova de meu descompasso com o mundo best-seller, hoje convulsionado pela chamada high-fantasy e pelos derivativos de RPG,  meu coração sempre bateu mais forte pela sword&sorcery, com seus anti-herois solitários, mundos brutais, enredos sórdidos e só uma raça na jogada, a humana (que já dá problema bastante).

Essa novela saiu pela primeira vez em 1999 (ou teria sido 2000?), numa edição de bolso superbembolada pelo César Silva, e que hoje talvez seja uma raridade. Algumas pessoas que geralmente não curtem muito o que escrevo já me disseram ter gostado dela, o que indica que deve ser bem melhor  que minha produção média (ou bem pior, supondo que essas “algumas pessoas” tenham muito mau gosto, mas não acredito nisso).

É curioso que as Dez Torres estejam saindo de novo agora, porque venho sentindo uma coceira para voltar a escrever fantasia. Em parte por conta de meu mergulho nas mitologias judaica, cristã e helênica (necessário para a composição do Livro dos Milagres, minha recente obra de não-ficção), acabei ficando com algumas ideias para um mundo mágico, sórdido e brutal inspirado na situação do Mediterrâneo por volta do ano 1. Vai sair alguma coisa? Só o tempo dirá.

Confesso que escrever ficção, para mim, meio que chegou ao famoso ponto dos retornos decrescentes (cada vez mais esforço para cada vez menos satisfação), mas esse é o tipo de coisa que pode mudar de uma hora para a outra.

O que espero é que a avalanche de obras deste seu criado que se aproxima não jogue você, leitor, nessa mesma situação de retornos decrescentes, mas o contrário: que se leia cada vez mais, com cada vez mais gosto. Se isso acontecer, este meu estágio de 20 anos como escritor da literatura fantástica/especulativa – iniciado em 1992, nas páginas da Isaac Asimov Magazine – não terá sido de todo em vão.

quarta-feira, 28 de março de 2012

O último dos bons

Os mais novos não vão se lembrar, mas houve uma época em que o humor, no Brasil, era o último refúgio, não do preconceito e da escrotidão, mas da lucidez. Nos anos finais da ditadura, Luís Fernando Veríssimo, Millôr, Ziraldo e Henfil, entre outros, mostravam-nos, com arte e alegria, aquilo que repórteres e editorialistas não podiam, ou não conseguiam -- que o rei estava nu.

Com a redemocratização, no entanto, o espírito pareceu, por um momento, arrefecer. Millôr foi o primeiro a soar o alerta: "Um espectro assombra o Brasil", escreveu ele, após a vitória de Tancredo Neves no colégio eleitoral. "O espectro do humorismo a favor".

A assombração, no entanto, ainda precisaria de algum tempo para se manifestar: ela só nos alcançou, de vez, com a chegada do PT ao poder. A partir daí, Ziraldo sumiu da cena da crítica política, transformando-se no Walt Disney do Menino Maluquinho; Veríssimo emasculou-se (alguém se lembra da última vez que ele escreveu algo que tivesse um pingo de graça?); quanto a Henfil, morto vítima da aids, é difícil saber qual teria sido sua trajetória -- mas, dada sua adesão entusiástica ao PT, as possibilidades não são das mais alentadoras.

 Millôr, por sua vez, manteve-se firme na prática de seu credo de ceticismo e crítica. Seu chiste definitivo sobre Lula -- "a ignorância subiu-lhe à cabeça" -- é tão certeiro quanto impensável na boca de qualquer um de seus colegas dos tempos de combate à "redentora". Embora, suponho, nenhum deles tivesse hesitado em usá-lo contra, digamos, o general Figueiredo.

Eu me lembro, quando estava na faculdade, fazendo o Jornal do Campus, de uma discussão que tivemos a respeito de uma pauta sobre os "supersalários da USP" -- uma minoria de professores que, por manobras diversas, acumulavam vencimentos espantosos. Um professor foi contra a cobertura do assunto, porque seria "fazer o jogo do Quércia" (então governador do Estado). Mesmo moleque, pensei: "Como assim, 'fazer o jogo'? Qual a relevância disso? O que importa é se é verdade ou não".

Millôr Fernandes estava cabeça e ombros acima daquele professor. Ele não se preocupava em "fazer o jogo" de quem quer que fosse. Num país onde o debate de ideias muitas vezes se reduz a uma espécie de Fla-Flu -- petistas vs. tucanos; comunistas vs. reaças; ateus vs. evangélicos -- e onde nenhuma jogada "dos nossos" é suja demais que não possa ser apoiada, onde nenhuma jogada do adversário jamais é legítima, por mais que se enquadre nas regras -- ele se mantinha, supremamente, fiel a si mesmo, expondo ao ridículo quem merecesse ser ridicularizado (como em "FhC é o superlativo de PhD"). Agora que Millôr se foi, contemplo a planície e não vejo mais ninguém com a mesma estatura.

Millôr certa vez se declarara "candidato perpétuo" a uma vaga na Academia Brasileira de Letras -- desde que pudesse escolher a cadeira. Ele queria a de José Sarney.

Que merda, mestre. Pena, mas não deu.

segunda-feira, 26 de março de 2012

Têmis, a Justiça cega, viola a laicidade do Estado?


Na linha "desculpas esfarrapadas para não desfazer uma flagrante bobagem", alguns defensores da permanência dos crucifixos em repartições públicas (e, mais especialmente, nos plenários dos tribunais) resolveram se lembrar de que a imagem tradicional da Justiça, que aparece em estátuas e pinturas em diversas cortes -- uma senhora de olhos vendados e com uma balança na mão e uma espada na outra -- reflete, na verdade, a iconografia da deusa grega Têmis, e ninguém parece se incomodar com isso. 

Então, se Têmis não incomoda, por que o Crucificado incomodaria? É óbvio que esses laicistas-militantes-assassinos-terroristas estão só de implicância e sacanagem! 


Devo dizer que não me oponho, em princípio, à retirada dessas estátuas, caso alguém realmente insista que deve haver algum tipo de isonomia in extremis. Muitas delas são realmente feiosas. Mas aí o critério é estético, não jurídico. Na esperança de que a tentativa de se criar uma "questão Têmis" seja provocada mais por confusão e ignorância do que má-fé, explico.

Assim como Hermes (cujo capacete de asinhas virou o símbolo do comércio) ou Atena (coruja, elmo, égide  = sabedoria), sua figura virou uma abstração, um símbolo puro; não é mais objeto de culto, não tem caráter sectário, representando uma facção da sociedade em exclusão às demais; é apenas uma metáfora visual.

O caso do crucifixo, claro, é outro. Os defensores da permanência dele nos tribunais tentam argumentar nessa linha, que a imagem é apenas uma "metáfora visual" de alguma coisa (perdão, misericórdia, whatever), mas qual foi a última vez que você viu alguém ser processado e exilado depois de chutar uma imagem de Têmis na TV, como aconteceu com o pastor que chutou a santa?

Há que se considerar o que os teólogos chamam de Sitz im Leben, o "contexto vivo" do símbolo. 

A ligação entre a imagem atual da Justiça e o culto pagão greco-romano é uma curiosidade histórica, uma nota de rodapé em livros de mitologia. E o símbolo em si é repleto de significados: os olhos vendados, indicando que a Justiça deve julgar igualmente a todos, sem fazer distinções; a balança, sugerindo equilíbrio e justa medida.

Já a ligação do crucifixo com o culto cristão é da própria essência do símbolo, e define todos os significados que se possa ou queira extrair dali. Se a imagem de Têmis representa um ideal universal de Justiça, a imagem de Jesus crucificado representa Jesus crucificado. Figura que, para os cristãos, pode até ter outros significados mais sublimes. Mas nem todo mundo é cristão. O que nos traz de volta à origem do problema, afinal.