quarta-feira, 28 de março de 2012

O último dos bons

Os mais novos não vão se lembrar, mas houve uma época em que o humor, no Brasil, era o último refúgio, não do preconceito e da escrotidão, mas da lucidez. Nos anos finais da ditadura, Luís Fernando Veríssimo, Millôr, Ziraldo e Henfil, entre outros, mostravam-nos, com arte e alegria, aquilo que repórteres e editorialistas não podiam, ou não conseguiam -- que o rei estava nu.

Com a redemocratização, no entanto, o espírito pareceu, por um momento, arrefecer. Millôr foi o primeiro a soar o alerta: "Um espectro assombra o Brasil", escreveu ele, após a vitória de Tancredo Neves no colégio eleitoral. "O espectro do humorismo a favor".

A assombração, no entanto, ainda precisaria de algum tempo para se manifestar: ela só nos alcançou, de vez, com a chegada do PT ao poder. A partir daí, Ziraldo sumiu da cena da crítica política, transformando-se no Walt Disney do Menino Maluquinho; Veríssimo emasculou-se (alguém se lembra da última vez que ele escreveu algo que tivesse um pingo de graça?); quanto a Henfil, morto vítima da aids, é difícil saber qual teria sido sua trajetória -- mas, dada sua adesão entusiástica ao PT, as possibilidades não são das mais alentadoras.

 Millôr, por sua vez, manteve-se firme na prática de seu credo de ceticismo e crítica. Seu chiste definitivo sobre Lula -- "a ignorância subiu-lhe à cabeça" -- é tão certeiro quanto impensável na boca de qualquer um de seus colegas dos tempos de combate à "redentora". Embora, suponho, nenhum deles tivesse hesitado em usá-lo contra, digamos, o general Figueiredo.

Eu me lembro, quando estava na faculdade, fazendo o Jornal do Campus, de uma discussão que tivemos a respeito de uma pauta sobre os "supersalários da USP" -- uma minoria de professores que, por manobras diversas, acumulavam vencimentos espantosos. Um professor foi contra a cobertura do assunto, porque seria "fazer o jogo do Quércia" (então governador do Estado). Mesmo moleque, pensei: "Como assim, 'fazer o jogo'? Qual a relevância disso? O que importa é se é verdade ou não".

Millôr Fernandes estava cabeça e ombros acima daquele professor. Ele não se preocupava em "fazer o jogo" de quem quer que fosse. Num país onde o debate de ideias muitas vezes se reduz a uma espécie de Fla-Flu -- petistas vs. tucanos; comunistas vs. reaças; ateus vs. evangélicos -- e onde nenhuma jogada "dos nossos" é suja demais que não possa ser apoiada, onde nenhuma jogada do adversário jamais é legítima, por mais que se enquadre nas regras -- ele se mantinha, supremamente, fiel a si mesmo, expondo ao ridículo quem merecesse ser ridicularizado (como em "FhC é o superlativo de PhD"). Agora que Millôr se foi, contemplo a planície e não vejo mais ninguém com a mesma estatura.

Millôr certa vez se declarara "candidato perpétuo" a uma vaga na Academia Brasileira de Letras -- desde que pudesse escolher a cadeira. Ele queria a de José Sarney.

Que merda, mestre. Pena, mas não deu.

2 comentários:

  1. Apoiado. Para usar uma frase de "Chatô", seu texto não diz mais porque já diz tudo.

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  2. Olá, Carlos:
    Parabéns pelo texto.
    Sou de Piracicaba, e aqui, não sei se você sabe, nasceu o Salão Internacional de Humor, no qual estes que você citou puderam expressar as suas artes no auge da ditadura, que não teve nada de branda como alguns órgãos de imprensa querem agora nos fazer acreditar.
    Concordo com você. Depois que terminaram os anos de repressão e censura, esta turma perdeu o foco, não só eles, mas também músicos como Chico Buarque e outros. Parece que agora o inimigo do povo não está bem definido, ou, digamos, se misturou e se dispersou no meio dos outros para não aparecer como alvo fácil. E o Salão de Piracicaba? Agora parece que perdeu a graça.
    Abraço

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