quinta-feira, 12 de maio de 2011

E agora, para uma previsão científica do fim do mundo...

Todo mundo deve estar, suponho, cansado de ouvir a respeito da previsão de que o mundo acabará em 21 de maio, daqui a umas duas semanas (minha mulher até me trouxe um panfleto a respeito, que recebeu de alguém na Praça da Sé). Para variar um pouco, resolvi ressuscitar aqui uma previsão de Juízo Final publicada, nada mais e nada menos, na revista Science, lá se vão 50 anos: 13de novembro de 2026:


O PDF original pode ser encontrado aqui.

O trabalho, uma bela peça de raciocínio lógico empreendida pelo trio de autores, começa distinguindo entre dois tipos de população -- um, o mais natural, que é limitado pela natureza; nesse caso, o aumento da população acaba gerando escassez de recursos, aumento da competição por alimento e parceiros sexuais e, no fim, acaba sendo auto-limitante.

O segundo tipo é formado por indivíduos capazes de cooperar ou, nas palavras dos autores, de, em vez de lutar entre si pelo acesso à natureza, desenvolver estratégias comuns para lutar contra a natureza, extraindo cada vez mais recursos dela, e usando esses recursos de modos cada vez mais eficientes.

A raça humana, prossegue o argumento, tem, a despeito de todos seus defeitos, se comportado mais como o segundo tipo. Isso tem evitado o colapso malthusiano, mas aí os autores se perguntam: tá, até onde essa estratégia pode nos levar?

Depois de derivar algumas equações -- crucialmente, uma equação de crescimento populacional que reflete o caráter cooperativo da empreitada humana -- os autores determinam que, se a capacidade humana de extrair cada vez mais do ambiente puder ser extrapolada ao infinito, e a população continuar a crescer como vinha crescendo até 1958, então haverá um número infinito de pessoas sobre a terra em 2026.

É evidente que o raciocínio é apenas isso, um exercício de lógica, não uma previsão concreta (a projeção da população mundial para 2050 é de 9 bilhões, um número sem dúvida grande, mas não infinito), mas o ponto feito por Foerster e colegas é outro: eles mostram que, mesmo em condições absolutamente perfeitas, de onde a sombra da ameaça malthusiana -- fome, guerra, peste -- tenha sido varrida, o crescimento populacional da humanidade, nas taxas praticadas até meados do século passado, é insustentável.

A taxa de crescimento, no entanto, tem caído desde que o trabalho foi publicado na Science:


O valor mais duradouro da análise de Foerster é expor a falácia de uma certa linha argumentativa -- muito cara a certas ideologias políticas e também religiosas -- de que a população não é um problema, que o problema é a injustiça social, a falta de solidariedade, o consumismo desenfreado: a ideia de que se todos fôssemos, digamos, caridosos como (supostamente) eram os cristãos do século I, ou se os porcos capitalistas fossem todos ao paredón, ou se todos topássemos vestir roupas de algodão cru e só comer soja orgânica, então a partir daí haveria o suficiente para todos, não importa quantos fossem, e para os séculos dos séculos amém.

O fato, porém, é que sem pílula e camisinha, até o paraíso teria data para acabar.

quarta-feira, 11 de maio de 2011

No espaço, ninguém pode ouvir sua galáxia gritar


Imagine um vento forte o bastante para desbastar todo o solo de uma região, deixando para trás apenas o leito rochoso estéril. O Observatório Espacial Herschel, da Agência Espacial Europeia (ESA), encontrou uma tempestade semelhante no espaço, e em escala galáctica: fluxps de moléculas deslocando-se a mais de 100 km por segundo, a partir no núcleo de galáxias em processo de fusão.

De acordo com nota divulgada pela ESA, esses vemntos são intensos o bastante para eliminar todo o suprimento de gás e poeira, levando à interrupção dos processos de formação de estrelas e de crescimento do buraco negro central de cada galáxia. Como a pressão responsável pelos ventos é gerada, exatamente, pela explosão de estrelas e pelo crescimento do buraco negro, o processo todo opera como um ciclo de feedback, onde a atividade galáctica intensa contribui parao próprio fim.

A imagem acima é uma ilustração dos fluxos de gás e poeira partindo de uma galáxia.

terça-feira, 10 de maio de 2011

Vamos tirar uma comissão para analisar a sua proposta...

Sabe a velha piada sobre como a melhor forma de impedir que um problema seja resolvido é marcar uma reunião e montar uma comissão? Pois é, não é uma piada. É um fato científico.

E nem se trata de um fato novo, na verdade: sua primeira demonstração ocorreu na década de 1880, quando o engenheiro francês Max Ringelmann mediu o esforço feito por trabalhadores que tinham de puxar cordas para erguer pesos.

O resultado, descrito no livro 59 Seconds, do psicólogo Richrad Wiseman, foi o seguinte: puxando a corda sozinho, cada trabalhador erguia, em média, 90 quilos; puxando a corda em grupo, o peso médio sustentado individualmente caiu para 70 kg.

Wiseman compara esse efeito de "vadiagem coletiva" à difusão de responsabilidade que comumente afeta multidões: outras pesquisas já demonstraram que, se uma pessoa está sozinha um ambiente onde uma emergência tem início -- um incêndio, um ataque epilético -- esse indivíduo solitário se apressa em fazer o melhor possível para contornar o problema. Já se a emergência ocorre numa sala lotada, todo mundo fica parado, esperando alguém tomar a iniciativa.

(A dica, por falar nisso, é, quando precisar de ajuda numa emegência, não gritar "socorro" genericamente, mas, sempre que possível, olhar bem nos olhos de alguém e pedir ajuda diretamente para aquela pessoa.)

Outros experimentos citados pelo psicólogo de como a difusão da responsabilidade prejudica o desempenho:


  • Peça a pessoas que facam o máximo de barulho possível, e um indivíduo, sozinho, será mais barulhento do que a mesma pessoa dentro de um grupo;
  • Peça a um grupo de pessoas que some uma coluna de cifras e, quanto maior o número de envolvidos, menor será a eficiência da operação;
  • Peça que pessoas ofereçam ideias originais e elas serão mais criativas sozinhas do que num "brainstorming" coletivo.
Outro fator que torna reuniões e comissões especialmente ineficientes é o poder da conformidade. Em um experimento descrito por Wiseman em outro livro, Paranormality, voluntários foram integrados a grupos compostos, majoritariamente, de "cúmplices" do experimentador. Aos grupos foram mostrados dois cartões, um contendo uma única linha traçada e o outro, com três linhas desenhadas, sendo uma delas do mesmo comprimento que a linha solitária  do primeiro cartão.

Em seguida, pediu-se aos membros do grupo que apontassem qual das três linhas do segundo cartão era igual, em comprimento, à linha única do primeiro. O voluntário legítimo era sempre o último a responder.

Resultado: quando os cúmplices do cientista davam todos, deliberadamente, uma resposta unânime e errada à questão, o voluntário legítimo, falando por último, concordava com eles em 75% das vezes.

Por fim, reuniões e comissões tendem a reforçar o fenômeno que os americanos chamam de "groupthink", ou "pensamento grupal". Isso ocorre quando pessoas com os mesmos preconceitos, valores e preconcepções se põem a discutir um problema. Nesse contexto, a concordância geral do grupo quanto às premissas subjacentes ao problema impede que elas sejam desafiadas, ou avaliadas de modo objetivo.

"Groupthink" é um problema especialmente grave em igrejas, partidos políticos, governos e no meio acadêmico. No mundo ocidental, os dois casos mais desastrosos provavelmente foram os processos que levaram ao envolvimento dos EUA no Vietnã e no Iraque.

"Groupthink" é um problema para o qual existem alertas, até mesmo, na mitologia: de que outra forma, afinal, poderíamos classificar a decisão dos troianos de levar o cavalo de madeira para dentro da cidade?

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Da faixa de pedestres ao homem-bomba

Uma pequena joia psicológica é a reportagem desta segunda-feira, no Estadão, sobre o comportamento dos motoristas de São Paulo em relação às faixas de pedestres. O título já dá uma boa ideia do que se vai encontrar no texto: 89% dos paulistanos desrespeitam faixa de pedestre. Mas acreditam estar certos.

O assunto prossegue em outro texto da mesma edição, 4 em cada 10 temem batida se pararem na faixa, cujo teor me fez lembrar de um conceito de psicologia social que encontrei pela primeira vez lendo The Psychology of Terrorism, de John Horgan: o erro fundamental de atribuição.

Basicamente, esse é um viés psicológico que tende a levar as pessoas a atribuir seus próprios erros às circunstâncias, e os erros dos outros a defeitos pessoais deles. Em outras palavras: quando eu tropeço, é porque as calçadas são mal conservadas; já quando vejo outra pessoa tropeçando, é porque ela é uma desajeitada que não olha por onde anda.

O "erro fundamental", diz Hogan, ocorre dos dois lados da questão do terrorismo: tanto do lado dos terroristas e simpatizantes (que veem os ataques como resultado de"provocações") quanto do lado das vítimas e adversários (que muitas vezes encaram os terroristas como "anormais", "loucos", etc.).

Em um grau diferente, não é difícil encontrar a mesma coisa no trânsito. Qual foi a última vez que alguém que você conhece, ao comentar um acidente em que se viu envolvido, reconheceu algum tipo de culpa -- ou deu um "desconto" para a outra parte?

 Exceto em casos envolvendo objetos inanimados -- árvores, postes -- onde a, digamos, neutralidade moral da outra parte é impossível de contestar, é extremamente raro ver um motorista reconhecer o próprio erro.

Ligada ao erro fundamental de atribuição, muitas vezes aparece a falácia do mundo justo. Essa é a ideia de que pessoas que se dão mal na vida mereceram se dar mal.

Agora, é preciso distinguir a falácia da mera constatação de que ações têm consequências, e de que decisões ruins tendem a gerar resultados ruins. A falácia surge quando, primeiro, o fator sorte é ignorado; e, segundo e até mais importante, quando se veem implicações morais nos resultados. O ponto-chave é a noção de merecimento: o multimilionário, a supercelebridade, a mulher estuprada, a vítima do terremoto, os passageiros do avião que caiu, os viciados em drogas têm exatamente o que merecem.

A falácia do mundo justo pode ser reconfortante -- se eu não fiz nada errado, não vou sofrer ou, se estou sofrendo, é para meu próprio bem -- mas também ajuda a justificar crueldade e injustiça -- se o sofrimento daquela pessoa é um castigo justo, não há motivo para ajudá-la.

A ideia tem um evidente apelo religioso, também, sendo praticamente um corolário da premissa de que o mundo é regido por uma justa providência. Mas seu caráter falacioso foi reconhecido há séculos pelos teólogos, que trataram de empurrar o mundo justo para depois da morte.

domingo, 8 de maio de 2011

O pai perfeito

Em homenagem ao Dia das Mães, ofereço, como presente, o pai perfeito para constituir família e ter filhos:


O pai perfeito

Em homenagem ao Dia das Mães, ofereço, como presente, o pai perfeito para constituir família e ter filhos: