sábado, 3 de setembro de 2011

Livro dos Milagres: update!

Imagino que estava devendo aos fãs mais assíduos deste blog uma atualização sobre o estado de O Livro dos Milagres, minha reportagem/ensaio sobre o que a ciência revela a respeito de "eventos" como a abertura do Mar Vermelho, as chagas de Padre Pio, a ressurreição da carne, etc. etc.

Pois bem: acabo de repassar à editora Vieira & Lent uma versão revisada, com notas bibliográficas. Montar as notas foi um trabalhão, mas acho que valeu a pena: compensa facilitar o trabalho de pesquisa do leitor mais entusiasmado.

Além disso, esclareci uma dívida da revisora sobre o reinado do papa Clemente VII, o papa que, na Idade Média, deu sua bênção ao Sudário de Turim. De fato, o papa Clemente VII "oficial" só viria a reinar no Renascimento -- o Clemente VII medieval foi um "antipapa", que reinou em Avignon, não em Roma. No Vaticano tinha um outro cara na mesma época, Urbano VI. 

A autoridade de Clemente foi reconhecida por vários países, incluindo Portugal, mas no frigir dos ovos da história, acabou marcado como dissidente. O que não impediu que uma longa sucessão de papas "oficiais" referendasse sua política quanto ao sudário -- a saber, enquanto atrair turistas e dinheiro, finjamos que não há nada errado.

O livro tem lançamento previsto para outubro ou novembro. Ainda farei mais uma revisão antes da versão final. Fiquem ligados!

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Borges e a Mecânica Quântica

Redijo estas maltraçadas do quarto de um hotel de qualidade duvidosa em Fortaleza, Capita do Ceará. A única cadeira do apartamento é tão baixa que, para alcançar o teclado do laptop, tenho de empilhar os dois travesseiros da cama sobre a almofada da sobrecitada.

Estou aqui a serviço da Unicamp, onde comecei a trabalhar há cerca de um mês, mas não reclamo: além de estar visitando o Nordeste (ainda que com uma conta de despesas que não pagaria o cadarço do pé esquerdo do Sarney, daí o hotel), a redação onde fico na universidade é muito próxima a uma livraria da Editora da Unicamp.

Onde, é claro, acabo deixando parte significativa do salário -- eles estão com uma promoção de poesia clássica fantástica, já comprei um livro de poemas eróticos greco-romanos, uma tradução do Orlando Furioso e uma da Ilíada -- incluindo o livro que dá título a esta postagem, Borges e a Mecânica Quântica, do físico argentino Alberto Rojo.

Definir o trabalho de Rojo para o leitor brasileiro é complicado. Chamá-lo de Marcelo Gleiser argentino faz tanto sentido -- do ponto de vista da qualidade literária -- quanto dizer que Paulo Coelho é o Borges brasileiro. Se tivesse sido publicado por uma das editoras queridinhas do circuito dos cadernos culturais, Borges e a Mecânica Quântica teria sido capa, quiçá alvo de caderno temático; como saiu pela Editora da Unicamp, acaba ficando por aqui, mesmo.

(Eu mesmo só soube do livro porque o vi na livraria dentro do campus.)

À semelhança das obras de divulgação de Carl Sagan ou das saudsodas Antologias de Isaac Asimov, o livro de Rojo é composto de ensaios, mais ou menos organizados me torno de um eixo comum, a interface entre ciência e literatura. O ensaio inicial, da onde sai o título da coletânea, Rojo chama atenção para o fato de que a descrição do jardim de Tsui Pen, no conto O Jardim dos Caminhos que Se Bifurcam, de Jorge Luis Borges, antecipa, não só conceitualmente, mas também na própria escolha de palavras, a elaboração da teoria dos muitos mundos da mecânica quântica, proposta mais de uma década após a composição da peça ficcional. Informado do fato, diz Rojo, Borges teria reagido com a exclamação: "Como são criativos os físicos!".

Outro ponto de contato entre ciência e letras aparece na descrição de Rojo para o surgimento da hipótese de que a decomposição de cadáveres atrai insetos (em oposição à ideia clássica, aristotélica, de que os vermes são gerados pelo corpo morto). Ela teria nascido de um verso da Ilíada, em que o corpo de Pátroclo é coberto por um véu para evitar a contaminação por moscas e quetais.