sábado, 20 de agosto de 2016

Happy Lovecraft Day!

Howard Phillips (H.P.) Lovecraft foi um desbravador: chegando à terra incógnita localizada na encruzilhada da fantasia com a ficção científica e o terror, transformou-a, de um deserto pontilhado por alguns notáveis oásis – o assombrado Frankenstein de Shelley, o amaldiçoado Moreau de Wells, o infeliz Valdemar de Poe – num continente fértil e luxuriante, que produz frutos em abundância até os dias de hoje seja no cinema na TV, nos quadrinhos, nos games e, para sempre, na literatura. Como o autor nasceu em 20 de agosto de 1890, a data acabou sendo marcada, por seus fãs e leitores, como "Lovecraft day".

Sua imaginação era a fornalha onde se fundiam as influências mais díspares, da Teoria da Relatividade Geral de Albert Einstein, com suas deformações do espaço-tempo e estranhas dimensões, à delirante teosofia de Helena Petrovna Blavatsky, com seus mitos de continentes perdidos e raças pré-humanas, passando pelas observações desconcertantes de Charles Fort, o jornalista que colecionava relatos de “anomalias” como chuvas de sangue e de óvnis antes do nascimento da ufologia.

Uma nota típica de Fort, extraída de seu “Livros dos Malditos”, relata como “uma novem triangular que apareceu numa tempestade, em 17 de dezembro de 1852; um núcleo vermelho com metade do diâmetro aparente da lua, e uma longa cauda; visível por 13 minutos; explosão do núcleo”.

Desses materiais, somados à leitura obsessiva das Mil e Uma Noites, das fantasias de Lord Dunsany, dos trabalhos de Edgar Allan Poe e dos clássicos do romance gótico, Lovecraft viria a forjar uma das obras mais originais da história da literatura universal, em que feitiços são, “na verdade”, fórmulas de uma ciência alienígena avançadíssima, em que deuses e demônios se revelam formas de vida de outros espaços e outras dimensões.

Adotando o ponto de vista do antigo historiador grego Evêmero, que buscava reinterpretar as fábulas mitológicas de deuses e heróis como versões distorcidas de histórias reais sobre seres humanos comuns, Lovecraft construiu um universo ficcional que consegue ser materialista, mecanicista, determinista, ateu – até mesmo blasfemo, já que mais de um crítico lê seu conto “The Dunwich Horror” como uma narrativa velada da Segunda Vinda de Cristo – e, ainda assim, cheio de espanto, mistério e horror. O verdadeiro terror lovecraftiano não trata de deuses e demônios disputando a alma humana, mas reside na constatação de que, para os seres que reverenciamos como deuses e demônios, a alma humana vale menos que nada.

Que Lovecraft tenha feito tudo isso é assombroso: sua vida foi curta e miserável. Os pais morreram, ambos, enlouquecidos, provavelmente de sífilis (adquirida pelo pais e transmitida à mãe). Em sua lenta desintegração mental, a mãe de Lovecraft submeteu-o a várias formas de abuso psicológico. O escritor passou boa parte de sua vida adulta em uma pobreza abjeta; por fim, um câncer intestinal o matou, após meses de dor, aos 47 anos de idade, sem atingir nenhum grande reconhecimento por sua obra.

A despeito disso tudo, sua vida talvez não tenha sido infeliz: a monumental correspondência que mantinha com amigos, fãs e outros escritores revela um homem generoso e atencioso, bem-humorado, capaz de rir de si mesmo e de dedicar genuína afeição a pessoas distantes que só conhecia pelo correio, um homem que apreciava longas caminhadas e tinha prazer genuíno em receber visitas.


Muito se falou, em tempos recentes, sobre o racismo de Lovecraft. Seus papéis particulares sugerem que o preconceito foi especialmente forte na juventude – anos 15 anos ele se orgulhava de ser o “maior antissemita” da escola, e aos 22 escreveu um par de poemas (nunca publicados) sórdidos, incluindo o infame “Sobre a Criação dos Negros”. Seu breve contato com a vida metropolitana em Nova York, mais tarde, estimulou uma veia xenófoba. Mas a única mulher com quem teve alguma intimidade foi uma judia, Sonia Greene, e quando o casamento finalmente acabou, foi de forma amigável.

O racismo do homem deixou sinais na obra, como seria inevitável, mas não é correto afirmar, como às vezes se faz, que a essência do horror lovecraftiano é a xenofobia, a aversão pelo outro. Não é: suas obras principais – os contos “O Chamado de Cthulhu” e “A Cor que Caiu do Céu”, as novelas “Sombras Perdidas no Tempo” e “Nas Montanhas da Loucura” – assombram pela escala cósmica, que põe em perspectiva a finitude humana. Em “Montanhas da Loucura” (escrita em 1931, quando Lovecraft já tinha mais de 40 anos), os alienígenas, nada antropomórficos, são finalmente reconhecidos “homens como nós”, tão insignificantes para o esquema geral do Universo – e tão valiosos para si mesmos – quanto nós.

Esse apelo cósmico teve uma influência profunda em meu trabalho como ficcionsita. Gosto de dizer que já era lovecraftiano "antes de virar modinha", tendo publicado meu primeiro livro -- um volume de contos inspirados no trabalho de Lovecraft e, também, no RPG "Call of Cthuhlu" -- há exatos vinte anos, em 1996. Traduzido para o inglês, um desses contos, "Noite de Samhain",  saiu no clássico fanzine americano "Crypt of Cthulhu".  E, como os leitopres deste blog já devem estar cansados de saber, neste ano tenho um original em inglês na antologia britânica "Swords v. Cthulhu".

Meu material original de 1996, mais um monte de outras coisas que andavam disponíveis apenas em sebos e bibliotecas, está reunido no volume Mistérios do Mal, que terá lançamento oficial na Bienal do Livro de São Paulo. Estarei lá para autografar no sábado, 3 de setembro. Apareçam!

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Pseudismo olímpico



Ao longo da última semana, parte da imprensa brasileira envolveu-se numa campanha para convencer o público nacional de que algo chamado "ventosaterapia" -- a aplicação de uma forte sucção sobre pontos específicos da pele, rompendo vasos capilares e causando hematomas -- seria o segredo por trás do desempenho espetacular do americano Michael Phelps nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro. Phelps é, claro, um fenômeno extarordinário na história do esporte; o único outro atleta tão bem-sucedido quanto ele em eventos olímpicos foi um corredor grego que competiu mais de dois mil anos atrás. A questão é: ventosas tiveram algo a ver com isso?

A curiosidade em torno do papel da "ventosaterapia" no sucesso de Phelps surgiu a partir de imagens do corpo do nadador exibindo os hematomas produzidos pela prática. Trata-se de uma curiosidade legítima, que foi explorada pela mídia do mundo todo. Nos Estados Unidos, órgãos de imprensa tidos como tradicionais e responsáveis, como a revista The Atlantic, reagiram com artigos como este, assinado pelo médico James Hamblin, pedindo a Phelps que pare de promover bobagens. No mundo das mídias alternativas, o blog Respectful Insolence, mantido pelo oncologista e professor universitário David Gorski, ironicamente agradeceu a Phelps por "glamurizar o charlatanismo".

Já no Brasil, a Folha de S. Paulo, que tanto gosta de dizer que faz "jornalismo crítico", mais uma vez deixou o tal "senso crítico" bem trancado lá no armário e engoliu gostosamente a história do poder das ventosas com isca, anzol, linha e chumbada, oferecendo a seus leitores até mesmo uma preleção sobre os efeitos da sucção sobre o "ki", a "energia vital" preconizada pela "medicina tradicional chinesa". Dois dias depois, o jornalão ofereceu a seus leitores uma espécie de semidesmentido envergonhado, e que ainda assim punha a "garantia" de que a técnica é útil, dada por médicos que narravam casos pontuais, em pé de igualdade com estudos clínicos apontando contrário. O UOL, do mesmo grupo, foi ainda mais longe na glamurização, vinculando diretamente as manchas deixadas pelo "tratamento" às vitórias de Phelps.

 Mas, afinal, qual o raciocínio por trás da ventosaterapia? Qual a lógica que liga uma sucção intensa da pele -- forte o suficiente para romper vasos sanguíneos -- à melhora na performance atlética, redução da dor e outros efeitos benéficos atribuídos à prática? A resposta curta é: nenhuma. Mas existem algumas tentativas de resposta longa. A mais comumente citada é a de que a sucção estimula a circulação do sangue.

O médico Hamblin, escrevendo para a Atlantic, expõe o absurdo por trás dessa hipótese, ao pontar que as manchas roxas deixadas pela sucção são hematomas: "hematoma é um coágulo sanguíneo e sangue coagulado, por definição, não está circulando".  

A segunda linha de argumentação mais usada em defesa das ventosas é a de que se trata de uma "prática milenar chinesa". Esse tipo de retórica me lembra o poema de Millôr Fernandes:

Tudo que eu digo, acreditem,
Teria mais solidez
Se, em vez de carioquinha,
Eu fosse um velho chinês


Em outras palavras, qualquer bobagem tem uma grande chance de ser levada a sério quando colamos nela um par de longos bigodes negros e a vestimos em seda colorida. No caso específico do uso de ventosas, no entanto, a alegação não é exatamente verdadeira: de acordo com o livro Truque ou Tratamento, a prática aparece ao longo dos séculos na história da medicina de diversas culturas; na Europa, por exemplo, era associada às sangrias. No caso específico chinês, "segue a mesma filosofia subjacente da acupuntura".

escrevi sobre acupuntura em outras oportunidades, mas resumindo: não há nada que a distinga de um placebo, e a história mostra que toda a mítica em torno da suposta eficácia preternatural da "medicina tradicional chinesa" nasceu de um golpe de marketing de Mao Zedong, que tentou transformar uma mistura de folclore e superstição em produto de exportação. Por exemplo, os tais "meridianos principais" por onde flui o "ki" são doze porque doze eram os rios que cortavam o Império Chinês: trata-se de uma analogia, típica do pensamento mágico, entre terra e povo. Pelo mesmo princípio, os brasileiros deveriam ter tantos meridianos quantos são os afluentes do São Francisco (ou talvez o "ki" dos paulistanos só flua por dois, Pinheiros e Tietê?).

 Truque ou Tratamento chama atenção para a possibilidade de os aspectos mais espetaculares da ventosaterapia, como a visão da pele sendo "magicamente" sugada para dentro das ventosas, desencadearem um efeito placebo "acima da média". 

Esse efeito pode ser útil para atletas de alta performance? Talvez. Quando todos os fatores objetivos -- da predisposição genética aos anos de treino duro -- já estão lançados no tabuleiro, talvez uma vantagem imaginária ofereça um mínimo extra de tranquilidade e confiança. Mas o fato de ser imaginária significa que ela poderia vir de qualquer outro lugar: uma massagem, uma palavra mágica, uma oração ou uma sunga favorita. Os hematomas de Phelps não são marcas de um tratamento de saúde bem-sucedido. São amuletos da sorte.