Pseudismo olímpico



Ao longo da última semana, parte da imprensa brasileira envolveu-se numa campanha para convencer o público nacional de que algo chamado "ventosaterapia" -- a aplicação de uma forte sucção sobre pontos específicos da pele, rompendo vasos capilares e causando hematomas -- seria o segredo por trás do desempenho espetacular do americano Michael Phelps nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro. Phelps é, claro, um fenômeno extarordinário na história do esporte; o único outro atleta tão bem-sucedido quanto ele em eventos olímpicos foi um corredor grego que competiu mais de dois mil anos atrás. A questão é: ventosas tiveram algo a ver com isso?

A curiosidade em torno do papel da "ventosaterapia" no sucesso de Phelps surgiu a partir de imagens do corpo do nadador exibindo os hematomas produzidos pela prática. Trata-se de uma curiosidade legítima, que foi explorada pela mídia do mundo todo. Nos Estados Unidos, órgãos de imprensa tidos como tradicionais e responsáveis, como a revista The Atlantic, reagiram com artigos como este, assinado pelo médico James Hamblin, pedindo a Phelps que pare de promover bobagens. No mundo das mídias alternativas, o blog Respectful Insolence, mantido pelo oncologista e professor universitário David Gorski, ironicamente agradeceu a Phelps por "glamurizar o charlatanismo".

Já no Brasil, a Folha de S. Paulo, que tanto gosta de dizer que faz "jornalismo crítico", mais uma vez deixou o tal "senso crítico" bem trancado lá no armário e engoliu gostosamente a história do poder das ventosas com isca, anzol, linha e chumbada, oferecendo a seus leitores até mesmo uma preleção sobre os efeitos da sucção sobre o "ki", a "energia vital" preconizada pela "medicina tradicional chinesa". Dois dias depois, o jornalão ofereceu a seus leitores uma espécie de semidesmentido envergonhado, e que ainda assim punha a "garantia" de que a técnica é útil, dada por médicos que narravam casos pontuais, em pé de igualdade com estudos clínicos apontando contrário. O UOL, do mesmo grupo, foi ainda mais longe na glamurização, vinculando diretamente as manchas deixadas pelo "tratamento" às vitórias de Phelps.

 Mas, afinal, qual o raciocínio por trás da ventosaterapia? Qual a lógica que liga uma sucção intensa da pele -- forte o suficiente para romper vasos sanguíneos -- à melhora na performance atlética, redução da dor e outros efeitos benéficos atribuídos à prática? A resposta curta é: nenhuma. Mas existem algumas tentativas de resposta longa. A mais comumente citada é a de que a sucção estimula a circulação do sangue.

O médico Hamblin, escrevendo para a Atlantic, expõe o absurdo por trás dessa hipótese, ao pontar que as manchas roxas deixadas pela sucção são hematomas: "hematoma é um coágulo sanguíneo e sangue coagulado, por definição, não está circulando".  

A segunda linha de argumentação mais usada em defesa das ventosas é a de que se trata de uma "prática milenar chinesa". Esse tipo de retórica me lembra o poema de Millôr Fernandes:

Tudo que eu digo, acreditem,
Teria mais solidez
Se, em vez de carioquinha,
Eu fosse um velho chinês


Em outras palavras, qualquer bobagem tem uma grande chance de ser levada a sério quando colamos nela um par de longos bigodes negros e a vestimos em seda colorida. No caso específico do uso de ventosas, no entanto, a alegação não é exatamente verdadeira: de acordo com o livro Truque ou Tratamento, a prática aparece ao longo dos séculos na história da medicina de diversas culturas; na Europa, por exemplo, era associada às sangrias. No caso específico chinês, "segue a mesma filosofia subjacente da acupuntura".

escrevi sobre acupuntura em outras oportunidades, mas resumindo: não há nada que a distinga de um placebo, e a história mostra que toda a mítica em torno da suposta eficácia preternatural da "medicina tradicional chinesa" nasceu de um golpe de marketing de Mao Zedong, que tentou transformar uma mistura de folclore e superstição em produto de exportação. Por exemplo, os tais "meridianos principais" por onde flui o "ki" são doze porque doze eram os rios que cortavam o Império Chinês: trata-se de uma analogia, típica do pensamento mágico, entre terra e povo. Pelo mesmo princípio, os brasileiros deveriam ter tantos meridianos quantos são os afluentes do São Francisco (ou talvez o "ki" dos paulistanos só flua por dois, Pinheiros e Tietê?).

 Truque ou Tratamento chama atenção para a possibilidade de os aspectos mais espetaculares da ventosaterapia, como a visão da pele sendo "magicamente" sugada para dentro das ventosas, desencadearem um efeito placebo "acima da média". 

Esse efeito pode ser útil para atletas de alta performance? Talvez. Quando todos os fatores objetivos -- da predisposição genética aos anos de treino duro -- já estão lançados no tabuleiro, talvez uma vantagem imaginária ofereça um mínimo extra de tranquilidade e confiança. Mas o fato de ser imaginária significa que ela poderia vir de qualquer outro lugar: uma massagem, uma palavra mágica, uma oração ou uma sunga favorita. Os hematomas de Phelps não são marcas de um tratamento de saúde bem-sucedido. São amuletos da sorte. 

Comentários

  1. Para o burro a grama é! uma vez que foi apresentado ao publico o charlatanismo, que sofra as consequências de persistir na ignorância.

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