Happy Lovecraft Day!

Howard Phillips (H.P.) Lovecraft foi um desbravador: chegando à terra incógnita localizada na encruzilhada da fantasia com a ficção científica e o terror, transformou-a, de um deserto pontilhado por alguns notáveis oásis – o assombrado Frankenstein de Shelley, o amaldiçoado Moreau de Wells, o infeliz Valdemar de Poe – num continente fértil e luxuriante, que produz frutos em abundância até os dias de hoje seja no cinema na TV, nos quadrinhos, nos games e, para sempre, na literatura. Como o autor nasceu em 20 de agosto de 1890, a data acabou sendo marcada, por seus fãs e leitores, como "Lovecraft day".

Sua imaginação era a fornalha onde se fundiam as influências mais díspares, da Teoria da Relatividade Geral de Albert Einstein, com suas deformações do espaço-tempo e estranhas dimensões, à delirante teosofia de Helena Petrovna Blavatsky, com seus mitos de continentes perdidos e raças pré-humanas, passando pelas observações desconcertantes de Charles Fort, o jornalista que colecionava relatos de “anomalias” como chuvas de sangue e de óvnis antes do nascimento da ufologia.

Uma nota típica de Fort, extraída de seu “Livros dos Malditos”, relata como “uma novem triangular que apareceu numa tempestade, em 17 de dezembro de 1852; um núcleo vermelho com metade do diâmetro aparente da lua, e uma longa cauda; visível por 13 minutos; explosão do núcleo”.

Desses materiais, somados à leitura obsessiva das Mil e Uma Noites, das fantasias de Lord Dunsany, dos trabalhos de Edgar Allan Poe e dos clássicos do romance gótico, Lovecraft viria a forjar uma das obras mais originais da história da literatura universal, em que feitiços são, “na verdade”, fórmulas de uma ciência alienígena avançadíssima, em que deuses e demônios se revelam formas de vida de outros espaços e outras dimensões.

Adotando o ponto de vista do antigo historiador grego Evêmero, que buscava reinterpretar as fábulas mitológicas de deuses e heróis como versões distorcidas de histórias reais sobre seres humanos comuns, Lovecraft construiu um universo ficcional que consegue ser materialista, mecanicista, determinista, ateu – até mesmo blasfemo, já que mais de um crítico lê seu conto “The Dunwich Horror” como uma narrativa velada da Segunda Vinda de Cristo – e, ainda assim, cheio de espanto, mistério e horror. O verdadeiro terror lovecraftiano não trata de deuses e demônios disputando a alma humana, mas reside na constatação de que, para os seres que reverenciamos como deuses e demônios, a alma humana vale menos que nada.

Que Lovecraft tenha feito tudo isso é assombroso: sua vida foi curta e miserável. Os pais morreram, ambos, enlouquecidos, provavelmente de sífilis (adquirida pelo pais e transmitida à mãe). Em sua lenta desintegração mental, a mãe de Lovecraft submeteu-o a várias formas de abuso psicológico. O escritor passou boa parte de sua vida adulta em uma pobreza abjeta; por fim, um câncer intestinal o matou, após meses de dor, aos 47 anos de idade, sem atingir nenhum grande reconhecimento por sua obra.

A despeito disso tudo, sua vida talvez não tenha sido infeliz: a monumental correspondência que mantinha com amigos, fãs e outros escritores revela um homem generoso e atencioso, bem-humorado, capaz de rir de si mesmo e de dedicar genuína afeição a pessoas distantes que só conhecia pelo correio, um homem que apreciava longas caminhadas e tinha prazer genuíno em receber visitas.


Muito se falou, em tempos recentes, sobre o racismo de Lovecraft. Seus papéis particulares sugerem que o preconceito foi especialmente forte na juventude – anos 15 anos ele se orgulhava de ser o “maior antissemita” da escola, e aos 22 escreveu um par de poemas (nunca publicados) sórdidos, incluindo o infame “Sobre a Criação dos Negros”. Seu breve contato com a vida metropolitana em Nova York, mais tarde, estimulou uma veia xenófoba. Mas a única mulher com quem teve alguma intimidade foi uma judia, Sonia Greene, e quando o casamento finalmente acabou, foi de forma amigável.

O racismo do homem deixou sinais na obra, como seria inevitável, mas não é correto afirmar, como às vezes se faz, que a essência do horror lovecraftiano é a xenofobia, a aversão pelo outro. Não é: suas obras principais – os contos “O Chamado de Cthulhu” e “A Cor que Caiu do Céu”, as novelas “Sombras Perdidas no Tempo” e “Nas Montanhas da Loucura” – assombram pela escala cósmica, que põe em perspectiva a finitude humana. Em “Montanhas da Loucura” (escrita em 1931, quando Lovecraft já tinha mais de 40 anos), os alienígenas, nada antropomórficos, são finalmente reconhecidos “homens como nós”, tão insignificantes para o esquema geral do Universo – e tão valiosos para si mesmos – quanto nós.

Esse apelo cósmico teve uma influência profunda em meu trabalho como ficcionsita. Gosto de dizer que já era lovecraftiano "antes de virar modinha", tendo publicado meu primeiro livro -- um volume de contos inspirados no trabalho de Lovecraft e, também, no RPG "Call of Cthuhlu" -- há exatos vinte anos, em 1996. Traduzido para o inglês, um desses contos, "Noite de Samhain",  saiu no clássico fanzine americano "Crypt of Cthulhu".  E, como os leitopres deste blog já devem estar cansados de saber, neste ano tenho um original em inglês na antologia britânica "Swords v. Cthulhu".

Meu material original de 1996, mais um monte de outras coisas que andavam disponíveis apenas em sebos e bibliotecas, está reunido no volume Mistérios do Mal, que terá lançamento oficial na Bienal do Livro de São Paulo. Estarei lá para autografar no sábado, 3 de setembro. Apareçam!

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