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Mostrando postagens com o rótulo lógica

Cantor e o problema da onisciência

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Semana passada, eu mencionei aqui a análise feita pelo filósofo Patrick Grim sobre o "Paradoxo da Pedra", um raciocínio que indica que a onipotência, como normalmente entendida, é uma noção contraditória e incoerente. Grim, no entanto, é mais famoso -- na medida em que um filósofo contemporâneo pode ser "famoso", claro -- por ter descoberto o que ele acredita ser uma prova de que outra propriedade normalmente associada à figura de Deus, a onisciência, é impossível. A prova de Grim é chamada de "argumento cantoriano", porque deriva de resultados obtidos originalmente pelo matemático Georg Cantor. Simplificando bastante a coisa, e evitando uma linguagem excessivamente enrolada (com coisas do tipo, "o conjunto de subconjuntos de um conjunto é um conjunto..."), poderíamos dizer que Cantor demonstrou, muito tempo atrás, que todo conjunto pode ser usado para criar outro conjunto com mais elementos do que si mesmo. Por exemplo, a partir de {1,2,3} é...

Paradoxo da pedra, revisitado

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Acho que todo mundo que já se meteu numa discussão sobre a existência de Deus conhece o "Paradoxo da Pedra": Seria Deus capaz de criar uma pedra tão pesada que nem mesmo Ele conseguiria levantar? O propósito explícito do paradoxo é expor o conceito de Deus como incoerente e, portanto, demonstrar que uma coisa que se enquadre nesse conceito não pode existir. (Há muita confusão em torno da batida máxima de que "não se pode provar que algo não existe". Na verdade, negativas são provadas o tempo todo, por exemplo, na matemática: entre outras coisas, é possível provar que não existe um número par maior que 2 e menor que 4.) A defesa clássica contra o Paradoxo da Pedra é a de que não se deve esperar que Deus viole as leis fundamentais da lógica. A linguagem geralmente usada é a de "tarefas": não se deve esperar de Deus a realização de tarefas intrinsecamente contraditórias (como, digamos, criar um número par maior que 2 e menor que 4), porque, sendo contradi...

Que tal trocar o véu por um escorredor de macarrão?

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Muita gente torce o nariz, mas eu realmente acho que as religiões de paródia, como a Igreja do Monstro de Espaguete Voador e o Discordianismo dizem algo de muito importante sobre a natureza do conhecimento humano. Digo, qual a diferença epistemológica entre se afirmar que o Universo foi criado por uma voz desencarnada que, 14 bilhões de anos depois, resolveu engravidar uma virgem, ou por uma bola gigante de espaguete à bolonhesa? O fato de que a segunda versão parece intrinsecamente ridícula não conta: o que deveríamos nos perguntar é por que a primeira não parece, também. (Pode-se argumentar que espaguete à bolonhesa é algo que surgiu dentro do Universo, e portanto não poderia pré-existir a ele, mas até aí vozes, vontades, personalidades, etc., também estão sujeitas à mesmíssima restrição. E quem garante que os nossos espaguetes à bolonhesa não são apenas imitações baratas do verdadeiro ideal platônico que transcende o devir?) Ambas, afinal, são alegações impossíveis de co...

WTF é Corpus Christi?

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Esta quinta-feira é feriado de Corpus Christi (ou "Porcos Tristes", para quem acompanha o futebol paulista), mas aposto que poucas pessoas sabem exatamente do que esse negócio se trata. Não é preciso ser um gênio para sacar que o nome em latim, Corpus Christi , significa "corpo de Cristo", mas e daí? Bom, se você teve sua infância marcada pela experiência -- provavelmente não traumática, mas certamente tediosa -- de passar pela suíte católica catecismo-primeira comunhão, há-de lembrar-se de que "corpo de Cristo" é o que o padre (ou diácono, ou ministro) diz antes de oferecer a hóstia. Então: "Corpus Christi" é uma festa católica criada para celebrar a instituição do sacramento da eucaristia -- o consumo do corpo e do sangue de Cristo sob a forma de pão e vinho -- . pelo próprio Jesus, durante a Última Ceia. (A historicidade dos eventos relativos à Última Ceia é questionável, para dizer o mínimo. A primeira menção à instituição da eucarist...

Falácias jurídicas e probabilidade condicional

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Dizem que O.J. Simpson tinha um advogado tão bom que conseguiu usar o fato de que o ator e ex-jogador de futebol espancava a mulher para convencer o júri de que era improvável que ele a tivesse matado. Como? Bem, o defensor citou uma estatística dizendo que, dos maridos que espancam as esposas, apenas 1 em 1.000 se tornam assassinos. Logo, a chance de seu cliente ser culpado era de 0,1%! Em outro ponto do julgamento, a defesa atacou a evidência do exame de sangue que ligava Simpson à cena do crime, dizendo que seria possível "encher um estádio" com pessoas que também dessem positivo no mesmo teste. Ambos os argumentos são exemplos da chamada "falácia do advogado de defesa" ou "falácia do promotor" (dependendo do lado do argumento a que serve), e que basicamente representa o truque de expor estatísticas e probabilidades sem oferecer o contexto necessário para sua interpretação.  Essa descontextualização costuma acontecer quando se confundem probab...