Paradoxo da pedra, revisitado

Acho que todo mundo que já se meteu numa discussão sobre a existência de Deus conhece o "Paradoxo da Pedra": Seria Deus capaz de criar uma pedra tão pesada que nem mesmo Ele conseguiria levantar? O propósito explícito do paradoxo é expor o conceito de Deus como incoerente e, portanto, demonstrar que uma coisa que se enquadre nesse conceito não pode existir.

(Há muita confusão em torno da batida máxima de que "não se pode provar que algo não existe". Na verdade, negativas são provadas o tempo todo, por exemplo, na matemática: entre outras coisas, é possível provar que não existe um número par maior que 2 e menor que 4.)

A defesa clássica contra o Paradoxo da Pedra é a de que não se deve esperar que Deus viole as leis fundamentais da lógica. A linguagem geralmente usada é a de "tarefas": não se deve esperar de Deus a realização de tarefas intrinsecamente contraditórias (como, digamos, criar um número par maior que 2 e menor que 4), porque, sendo contraditória, a tarefa falha em especificar, de modo válido, um objeto ou resultado final.

De minha parte, sempre achei essa defesa um pouco difícil de engolir, já que ela coloca as leis da lógica acima do poder de Deus -- o mesmo Cara que, de acordo com a doutrina da Trindade, tem uma identidade onde 3=1.



Mas, enfim. Sou um tipo meio obtuso, e filósofos ateus de altíssima categoria, como JL Mackie, aceitam a alegação de que "não é justo esperar feitos paradoxais de Deus" numa boa.

Recentemente, no entanto, percorrendo o Cambridge Companion to Atheism , encontrei um artigo de Patrick Grim que apresenta uma ponderação um pouco mais sofisticada do paradoxo. Ele nota que a tarefa de "criar uma massa grande demais para carregar" não é intrinsecamente contraditória (como seria, digamos, a de criar um círculo quadrado). A massa total de livros na minha casa é grande demais para eu carregar, por exemplo, e é bem possível dizer que eu a "criei". A tarefa em questão só é paradoxal se o ente envolvido nela for tido como onipotente. Isto é, capaz de fazer qualquer coisa.

O que o Paradoxo da Pedra parece evidenciar então, é que o conceito de "onipotência", e não o de "Deus", é incoerente, já que tarefas perfeitamente factíveis em termos normais transformam-se em paradoxos quando a onipotência entra na jogada. Mas a onipotência, para fazer sentido, deveria ampliar o escopo das tarefas realizáveis por seus detentores, não reduzi-lo. Certo?

Grim cita algumas tentativas de redefinir "onipotência" de forma a escapar dessa roubada (reflexos da falácia do verdadeiro escocês?). Uma dessas definições diz que um ser é onipotente se ele é capaz de "fazer todas as coisas que não contradigam sua essência". Isso evita paradoxos, na medida em que embute, logo de cara, a exclusão de contradições, e ainda elimina outro problema de se considerar Deus onipotente, a saber: sendo onipotente, Deus é capaz de fazer o mal? Resposta: não, porque o mal contradiz sua essência.

O problema com essa definição, diz Grim, é que ela cria uma infinidade de seres onipotentes. Uma pedra, por exemplo, não sendo, essencialmente, capaz de fazer nada, certamente é capaz de "tudo" que não contradiz sua essência. Ergo, é onipotente.

E nem precisa ser muito pesada...

Comentários

  1. Muito bom este artigo. Eu sempre utilizei o que chamo de "Paradoxo de Vargas Llosa", pois foi esse autor peruano quem colocou na boca de um de seus personagens, no livro "Batismo de fogo": Se deus é onipotente, e é imortal: poderá deus suicidar-se? Neste caso, teria-se que adicionar que não contradiz sua essência. Mas deus poderia ter um motivo bom para suicidar-se, deus não é humano, o suicídio é algo ruim para os humanos, mas não se pode dizer isso, necessáriamente, de deus. Fica então a questão da imortalidade: se é imortal, poderá suicidar-se? Não, portanto, não seria onipotente. O argumento da "não contradição da essência" não me convence, já que não se pode conhecer a infinita essência de deus. A discussão acaba sem se resolver.

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  2. Genial! Eu estive discutindo com teístas um dia desses numa comunidade do orkut. Confesso que a explicação deles me deixou sem resposta por um período. Obrigado por este post. Não gosto nem um pouco de perder debates com teístas.

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  3. A capacidade para fazer algo (a possibilidade lógica de acontecer) não significa que algo irá ocorrer. Isto é, você pode ter a capacidade de atear fogo a todos os seus livros, para transformá-los em cinzas e conseguir movê-las de uma só vez para fora da sua casa. Mas por que iria fazê-lo? A preocupação com a essência divina a ponto de debater se ele pode fazer algo mal é bastante pretensiosa para quem pretende crer que ele existe e é onipotente. É na tentativa de "impedir que se cogite certos atos da parte de Deus" que atraem este suposto paradoxo. Para mim, não há paradoxo algum aspecto. É uma pergunta conveniente, especialmente quando ocorrem tragédias. "Por que Deus fez/deixou que acontecesse isto?", mas dizer que ele não pode fazer porque não é assim é carente de fonte. O apropriado ao crente seria dizer que "ele não fez por mal porque percebo que ele nos faz bem e acredito que é esta a sua intenção", ou simplesmente se declarar indiferente aos eventos e dizer que fia na promessa. Uma outra atitude, menos humilde e mais razoável, seria investigar se há coerência de eventos e do propósito acreditado. Mas aí... Enfim, paradoxo meramente formal este, criado na proposição, não por uma indução válida de contradições.

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  4. Gödel já demonstrou alguns limites da lógica (ou pelo menos de sistemas lógicos formais que contenham a aritmética), bem como a questão da inequação de Bell e o resultado do experimento de Aspect.

    Fora os avanços com lógicas paraconsistentes e outras não-aristotélicas.

    O máximo que se pode concluir é que "dentro de certa classe de sistemas lógicos axiomáticos" e "certos postulados" algumas coisas "não se seguem".

    Diante de elétrons que estão em vários pontos ao mesmo tempo, podemos: negar a existência de elétrons, mudar a concepção que temos de elétrons, reformular a base lógica usada ou outra coisa...

    []s,

    Roberto Takata

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  5. Todas as teorias do Oni(qualquer coisa) vão para o lago-a- baixo quando analisadas de perto.
    Vejam a Onipotência já foi desvendada no post e comentários acima. O que falam mais de deus? Que ele é Onipresente (esta em todos os lugares) e Onisciente (sabe de tudo).
    Começando com o Onipresente e usando a mesma lógica dos textos acima temos que deus esta em todos os lugares, inclusive no inferno e como o inferno é um lugar destinado apenas para o mal então deus pode fazer/ser o mal (simples assim).
    Mas a questão do Onisciente ou seja, deus sabe de tudo é a que eu mais gosto de debater pois nos leva a questão do livre arbítrio.
    Porque deus perguntou a Adão porque ele se escondia, logo após ter comida do fruto proibido e ter percebido que estava nú? Lembrem-se deus sabe TUDO e se ele sabe tudo não precisaria ter perguntado. Mas ai vêm o religioso e diz: "-Ele queria testar Adão para saber se ele mentiria ou não". Mas se ele sabe a resposta (pois ele sabe tudo) porque perguntaria?
    O maior paradoxo do livre arbítrio é exatamente a onisciência de deus, já que ele sabe tudo (e se fizemos uma única exceção já não sera TUDO) quando o indivíduo nasce deus já sabe se o mesmo vai para o céu ou para o inferno, todas as escolhas que o homem fizer deus sabe de antemão então quer dizer que não temos livre arbítrio, pois quem nasceu para ir para o céu vai para lá e vai encontrar deus e quem nasceu para ir para o inferno vai encontrar deus lá também.

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  6. O exemplo dado de que é possível se provar a inexistência de algo não se aplica para o mundo natural (ou em um eventual mundo extranatural). Em matemática é possível se definir os postulados e se ater ferrenhamente a eles - todo o mais decorre desses postulados. Não existem pares entre 2 e 4 por causas desses postulados.

    No mundo natural não temos controle sobre os postulados. Elegemos alguns que parecem descrever o mundo, mas eles devem ser abandonados ou reformulados sempre que as observações contradisserem-nos.

    []s,

    Roberto Takata

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  7. Certo, Takata. Mas, quando o mundo nos obriga a redesenhar nossos postulados, isso geralmente se dá por meio da redefinição dos predicados que damos às coisas (por exemplo, o caráter de "partícula" ou "onda", no campo quântico).

    As propostas filosóficas que argumentam para a impossibilidade de Deus se valem disso: tentam encontrar, no conjunto de propriedades "divinas", contradições que não possam ser sanadas sem que o conceito de "Deus" se esvazie ou se transforme em algo que nenhum crente intelectualmente honesto reconheceria como o "Deus" de que se fala nas igrejas, sinagogas ou mesquitas.

    Uma vez que se tenha definido precisamente quais as propriedades que a entidade hipotética E deve ter, é possível analisar esse conjunto de propriedades em relação à consistência interna e, assim, definir se algo como E pode, ao menos em princípio, existir, tendo em mente o conteúdo semântico da descrição, no momento em que ela é dada.

    Por exemplo, um "solteiro casado" é impossível, assim como um "cego que vê".

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  8. (apesar disso estar parecendo uma perda de tempo, vou escrever pela diversão)

    vou de opção C
    (ou neste caso convenientemente não se aplica?)

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  9. Um milagre não é o equivalente biológico/físico/químico a encontrar um número par maior que 2 e menor que 4?

    Se você compreender a impossibilidade bioquímica de determinado evento acontecer (curas impossíveis, andar em cima d'água, atrair os peixes...), ele fatalmente vai cair num paradoxo igual ao matemático. E se não cair, é porque não era impossível, logo não é um milagre.

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  10. Oi, Flávio! Acho que a equivalência não se aplica, porque a impossibilidade de haver um número par entre 2 e 4 é um fato analítico -- isto é, ele deriva diretamente das leis da aritmética e das definições de "2", "4", "entre" e "par". Já as leis da física e da biologia são contingentes -- em tese, poderiam ser outras.

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  11. Caro Carlos,

    Tenho acompanhado seu blog há algum tempo com bastante entusiasmo, embora não possa me gabar de comentar seus posts, sempre os compartilho.

    Sei que meu comentário não é foco do presente post mas, se pudesse responder minha dúvida ficaria imensamente grato. É a respeito da falácia do escocês. Qual sua opinião sobre a seguinte "variação" do raciocínio:

    - Angus NÃO nasceu na escócia e NÃO se autoproclama escocês.

    - McDonald afirma que Angus É escocês.

    - Rob Roy corrige McDonald dizendo, "Angus NÃO é escocês!"

    - McDonald se defende dizendo que a correção de Rob Roy é uma falácia, justamente a falácia do verdadeiro escocês.

    Pergunto isso pois, em recentes discussões uma autoproclamada autoridade em falácias (ele não é autoridade de verdade?) tem feito tal cálculo, tal qual o McDonald.

    Abraços,

    Fernando.

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  12. Oi, Fernando!

    Se entendi bem sua questão, ela parece representar uma má aplicação da ideia da "falácia do verdadeiro escocês" -- a falácia ocorre quando se tenta redefinir um termo da discussão no meio da conversa, para salvar uma premissa desmentida pelos fatos. Como em:

    "Todo membro do partido FDP é honesto"
    "Chico é filiado ao FDP e foi pego roubando"
    "Ah, mas esse Chico não é um verdadeiro membro do FDP!"

    Onde os conceitos de "membro" e o de "filiado" são inesperadamente separados, numa tentativa de salvar a premissa.

    No caso de Angus, a menos que haja uma definição prévia de "escocês" que, para os debatedores, supere a de "pessoa nascida na Escócia" -- por exemplo, ser um cidadão naturalizado, ou morar no país há muitos anos, ou ter um nome escocês -- a objeção, como apresentada, não parece fazer sentido...

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  13. Oi Carlos, obrigado pela resposta! esse é o meu ponto. Mas sou bastante hesitante, principalmente ao descobrir que estava lidando com uma "autoridade em falácias" que as cita, todas, de cor a cada 5 min. numa discussão. Porém, pode ser que eu é quem esteja me equivocando já que a primeira definição, a que tomaria lugar na definição de escocês, é alvo de tanta desinformação. Se não lhe incomodar muito, posso lhe enviar um e-mail com esses detalhes? (não tenho o seu, o meu é meu nome e sobrenome seguido de @gmail.com) Não peço resposta imediata.

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  14. Oi, Fernando! Pode mandar o e-mail como comentário aqui -- eu não libero pra publicação, então ele fica sem aparecer para o público, mas consigo l~e-lo.

    (e inclua o seu e-mail para resposta! Seu sobrenome é Salvaterra?)

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  15. Esse texto (http://problemasfilosoficos.blogspot.com/2009/06/onipotencia-e-tarefas-possiveis.html) e seu "sequel" (http://problemasfilosoficos.blogspot.com/2009/07/impossibiidade-de-uma-contradicao-e.html) deixam bem claro que o paradoxo da pedra, mesmo revisitado, não nega a possibilidade da onipotência.

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  16. Como não pode haver limitações na Onipotência, a "onipotência" de Deus seria uma impossibilidade.
    E o “Paradoxo da pedra” prova que a Onipotência de Deus é só uma crendice.

    Deus consegue criar uma pedra tão pesada que NUNCA, nem mesmo ele consiga ERGUER?

    Se SIM, então ele não seria onipotente, pois não conseguiria levantar uma pedra que ele mesmo criou.
    Se NÃO, então ele não é onipotente, pois não consegue criar uma pedra tão pesada que nem ele possa ergue-lá"
    Se Deus Não consegue criar a pedra, ou não consegue ERGUER a pedra, ele deixa de ser omnipotente.
    Outra coisa que Deus não consegue fazer é algo que implique numa contradição, por exemplo:
    Deus NÂO consegue modificar o passado, para que o passado deixe de já ter acontecido...
    Como Deus está privado de tornar o feito não feito, está submisso ao Tempo, e não tem poder sobre o tempo, então Deus NÃO é onipotente.
    Seguindo a linha da onipotência, será que Deus tem o poder de criar um Deus mais poderoso que ele?
    Caso Deus consiga criar outro Deus mais poderoso que ele; Deus poderia depois destruir o Deus ainda poderoso do que ele?
    Será que Deus poderia deixar de existir, caso ele quiser?
    O problema é que, por definição, não pode haver limitação na Onipotência.
    Embora a Onisciência e a Onipotência de Deus se excluem mutuamente, pois a partir do momento que Deus sabe tudo o que acontecerá, mas não impede algo de acontecer, isso entra em conflito com a Onipotência que significa poder absoluto.

    Se Deus sabe tudo então ele NÃO PODE ALTERAR SUA OPINIÃO, logo não é onipotente, o que torna o ato de rezar uma inutilidade. Já se Deus pode acatar as solicitações dos fieis, e dessa forma alterar o curso da história, então ele pode mudar de opinião e, por conseguinte, não é onisciente.

    No desespero de impedir que o seu Deus vire uma crendice os religiosos usam tanto a “Falácia do Acidente” que é uma retórica usada quando as circunstâncias sugerem que se deve aplicar uma exceção à regra geral...
    Como a Petitio Principii ("Petição de princípio"), que é uma é uma retórica onde se usa argumentos falaciosos para encerrar um diálogo por hierarquia ou pela persistência do locutor.

    Gênesis 6:6 afirma que: “Então, se arrependeu o SENHOR de ter feito o homem na Terra.
    Se Deus se arrependeu...
    Se houver necessidade de Deus realizar algum milagre...
    Se Deus precisou fazer alguma intervenção...
    Se Deus teria criado algo imperfeito...
    Ou se Deus “corrigiu” algo que ele havia feito...
    Ele estaria admitindo que a sua realização inicial NÃO FOI PERFEITA, pois o perfeito só é perfeito caso ele não precise corrigir o que produziu. Deus não pode fazer milagres porque o perfeito não intervêm no que realizou...
    Mas o pior é que se Deus não pude realizar algo, ele deixa de ser Deus...

    Até porque o Deus dos religiosos é só um “Amigo imaginário” que é incapaz de fazer com que o tempo ande para trás, que não tem capacidade de trazer algo do futuro; que não consegue fazer com que partes amputadas regenerem; que não consegue transformar idiotas em superdotados; que não consegue fazer com que idosos volte a ser jovem; que não consegue acabar com o sofrimento, e que nem mesmo consegue aparecer...
     Lisandro Hubris

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