Festa em Vesta!

Neste fim de semana, a sonda Dawn, da Nasa, entrou em órbita do asteroide (ou "protoplaneta") Vesta. A partir do início do mês que vem, a Dawn inicia um ano de estudos de Vesta, antes de partir para examinar o planeta-anão Ceres. Tanto Vesta quanto Ceres ficam no cinturão de asteroides ente Marte e Júpiter. O aparelho já obteve algumas imagens de seu alvo atual:


Parece uma pedra meio sem-graça, eu sei, mas Vesta, com 530 km de diâmetro, é considerado um protoplaneta -- a semente a partir da qual um planeta legítimo poderia ter crescido, se algumas coisas tivessem ocorrido de forma diferente nos primórdios do Sistema Solar.

A Nasa acredita que o pleno desenvolvimento de Vesta foi "abortado" pela presença de Júpiter na vizinhança.

Em seu estado atual, Vesta oferece uma janela para o passado -- é uma espécie de embrião planetário fossilizado.  Não é à toa que a sonda criada para estudar esse asateroide/protoplaneta se chame "Dawn", inglês para "alvorada".

Vesta foi descoberto pelo alemão Heinrich Olbers em 1807. Durante um bom período do século XIX, os maiores asteroides do cinturão eram considerados planetas. Como se vê na página histórica abaixo:


A coisa era tão levada a sério que muitos asteroides chegaram a ter símbolos próprios, como os conhecidos símbolos planetários que hoje em dia se veem em mapas astrais. Uma tabela com alguns signos de asteroides pode ser vista à direita.

Vesta teve uma segunda chance de ser alçado ao status de planeta pleno em 2006, quando a União Astronômica Internacional realizou seu histórico debate sobre a definição de "planeta".

A proposta final, vencedora, incluiu a polêmica exigência de que um astro, para ser considerado um planeta, precisa ter "limpado sua órbita" -- isto é, ser a influência gravitacional dominante no espaço que percorre --  envolveu o rebaixamento de Plutão e a criação da categoria de planeta-anão, e a exclusão definitiva dos corpos do cinturão de asteroides, cujas órbitas certamente não são nada "limpas".

Antes da adoção dessa resolução, no entanto, uma definição mais ampla havia sido proposta, que excluía o critério da "órbita limpa". Essa definição alternativa, em vez de reduzir o total de planetas do Sistema Solar a oito, na verdade ampliava-o a 12, e ainda dava a outros 12 corpos (incluindo Vesta!) a oportunidade de tornarem-se planetas, quando suas propriedades fossem  melhor estudadas.

O três planetas extras seriam Ceres (próxima parada da Dawn, em 2012), Caronte -- uma lua de Plutão; o sistema Plutão-Caronte passaria a ser considerado um planeta duplo -- e o que eu considero o planeta-regente dos céticos e ateus, Eris (um objeto localizado além da órbita de Plutão, descoberto em tempos recentes e batizado com o nome da deusa grega da discórdia, famosa por desencadear a Guerra de Troia).

Os demais 12 candidatos à "planetatura plena" são os que aparecem no quadro abaixo:



Eris, de fato, foi o principal motivador da redefinição: sendo um astro maior que Plutão (a Wikipedia diz que tem 27% mais massa que o ex-nono planeta) ele teria de ser promovido a planeta, ou Plutão, rebaixado. O nome escolhido para o planeta-anão reflete seu papel da polêmica; antes de receber denominação oficial, Eris era conhecido pelo apelido "Xena". Ele tem uma lua, Disnomia.

Na mitologia, Disnomia é um demônio, filho de Eris, que encarna os princípios da arbitrariedade, do caos social e da anarquia. (Quando Eris ainda era Xena, Dysnomia era Gabrielle.)

Em 2010, o descobridor de Eris, Mike Brown, publicou um livro intitulado How I Killed Pluto and Why It Had It Coming.

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