Exploração do espaço: homem ou máquina?

Muita coisa se escreveu sobre o fim da era dos ônibus espaciais, mas -- talvez seguindo a linha de que dos mortos não se fala mal -- poucos comentaristas se esforçaram em pôr os frutos da exploração espacial tripulada em contraste com os resultados das sondas robóticas. Eu resolvi, então, elaborar um breve ranking:

Maior distância viajada


Astronautas: Missão Apollo 13, que chegou 254 km de altitude sobre o lado oculto da Lua, ou 400.171 km da Terra.

Sondas: Voyager 1, que está a mais de 17 bilhões de km da Terra.

Corpos celestes visitados


Astronautas: Lua.


Sondas: Todos os planetas do Sistema Solar, incluindo diversos pousos bem-sucedidos na Lua, em Marte e em Vênus, o Sol, asteroides e cometas.

Descobertas científicas 

Astronautas: rochas lunares; várias descobertas sobre o funcionamento do corpo humano, principalmente em condições de microgravidade; "spin-offs" tecnológicos para a Medicina e os esportes, derivados dos trajes espaciais e dos sistemas de monitoramento e suporte de vida; o "travesseiro da Nasa".

Sondas: Expansão acelerada do Universo, matéria escura, anéis de Júpiter, luas de Urano e Netuno, água em Marte, matéria orgânica no espaço, novos planetas, etc., etc., etc.

O que deve estar claro, a esta altura, é que os progressos feitos  com os robôs foram muito maiores que os obtidos com seres humanos.

De fato, ao mesmo tempo em que a exploração robótica avançava, com sondas visitando rincões cada vez mais distantes do espaço, a exploração tripulada recuava, deixando a Lua e acomodando-se na órbita baixa da Terra.

As causas disso não são difíceis de entender. Em duas palavras: custo e risco. As sondas são mais baratas e, mesmo que explodam no lançamento ou falhem a caminho, o que se perde é dinheiro, não vidas.

Alguém, então, poderia perguntar: para quê insistir na exploração tripulada? Que tal, a partir de 2020 -- a data final de validade da Estação Espacial Internacional -- acabar com a coisa toda e deixar que máquinas sejam nossos olhos e mãos no espaço?

Defensores da exploração tripulada -- entre os quais me incluo! -- argumentam que sondas e astronautas servem a objetivos diferentes. Sondas são muito boas para levantar dados científicos de forma rápida e econômica, é verdade, mas só astronautas são capazes de expandir a presença humana no espaço. E isso não é ciência, é outra coisa; de fato, em tempos de aperto orçamentário, cientistas e astronautas, não raro, se estranham.

O que leva à questão, para quê deveríamos expandir a presença humana no espaço? O mundo já não tem problemas suficientes? Não estamos desperdiçando dólares e talentos, amarrando-os na ponta de torres de hidrogênio líquido e explodindo-os para fora da atmosfera?

Essas são todas questões pertinentes, para as quais são oferecidas as seguintes respostas:

1. Sobrevivência: esse é o argumento de Stephen Hawking -- a humanidade não vai durar mais um milênio se não nos espalharmos pelo espaço. É, fundamentalmente, um corolário da sabedoria de não se deixar todos os ovos num mesmo cesto.

2. Ecologia: muita gente torce o nariz para a possibilidade de colonização de outros mundos, dizendo que se trata de um sonho de gente irresponsável, que acha que dá para sugar um planeta atrás do outro, deixando os cadáveres de ecossistemas para trás. A verdade é bem o contrário: nenhum outro mundo jamais substituirá a Terra (ao menos, não no Sistema Solar), mas Marte, ou as luas de Júpiter, ou o cinturão de asteroides podem muito bem complementá-la: em vez de destruir metade do Pará para extrair ouro ou ferro, que tal desmanchar asteroides? Ou plantar alimentos em estufas orbitais (onde é possível ter fotossíntese 24 horas), reduzindo a pressão por terra arável que ameaça os ecossistemas nativos?

3. Crescimento com qualidade: na Terra, o crescimento populacional atingiu -- ou atingirá em breve -- um ponto de retornos reduzidos, onde novos seres humanos só poderão ser trazidos ao mundo em condições de baixa expectativa de vida, má nutrição, baixa qualidade educacional. Simplesmente, não há, na Terra, recursos para garantir uma vida civilizada -- no padrão de civilização deste início de século 21 -- a dezenas de bilhões de pessoas. Com os recursos do espaço, talentos (para a música, a literatura, a ciência) que talvez fossem esmagados na luta bruta pela sobrevivência, por aqui, poderiam ter a oportunidade de florescer.

4. Diversidade: novas culturas, novos sistemas políticos, novas religiões, novos códigos de conduta. Onde, no mundo de hoje, é possível testar algo assim? Até 200 anos atrás, era possível semear utopias nas Américas ou no Oceano Pacífico e esperar para ver no que iriam dar, mas hoje os assentos, poderíamos dizer, estão todos ocupados. Já em Marte...

5. Porque o espaço está lá: Vamos lá, gente. Somos seres humanos, não baratas. Há paisagens para ver, coisas para fazer, lugares para visitar, e este planeta, simplesmente, está ficando pequeno demais. Ou, parafraseando Velikovsky: quem quer viver para sempre no berço?

Comentários

  1. O problema é realmente o dinheiro. Não existem fundos pra tudo, e a exploração humana do espaço vai tirar o dinheiro da ciência espacial. Não precisamos enviar o homem pra marte. Os estudos com humanos podem ficar aqui na órbita da Terra mesmo. Ganhamos muito mais mandando robôs pra marte e mantendo o fundo pra pesquisa científica. Mas claro, esse é o ponto de vista do cientista. :)

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  2. Carlos:

    Você pulou o item (resposta) 3.
    Esse gibi dos 3 Rocketeers é de que ano? Quam são os autores?

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  3. Obrigad, Rafael! Corrigi lá. Quanto ao gibi, não tenho a data exata... mas ele está à venda no eBay:

    http://cgi.ebay.com/BLAST-OFF-1-THREE-ROCKETEERS-JACK-KIRBY-AL-WILLIAMSON-/160614696760

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  4. Concordo contigo em gênero, número e grau!

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  5. Concordo ocm as premissas de Mr. Orsi. E acho também que a longo prazo a questão da sobrevivência fala mais alto que qualquer razão econômica ou aventuresca.

    Mas me horrorizei mesmo foi quando meu colega bielorusso me contou que, quando estudante de física, assistiu uma palestra de um ex-cosmonauta (acho que foi da Mir) na qual ele desaconselhava veementemente a carreira dele devido ao estado de decrepitude que via acometer invariavelmente a todos os seus colegas que participavam de missões prolongadas no espaço.

    Nas palavras do cosmonauta desiludido: "O espaço não foi feito para o homem...".

    Nem tanto ao mar espacial nem tanto à terra planetária, pois acho que poderíamos começar a investir pesado em soluções que viabilizem a permanência prolongada fora da biosfera terrestre mesmo que economicamente custosas (já que existem investimentos por aí em causas bem mais irracionais e em volumes muito maiores).

    Acho que faltam ainda também estudos em vivendas subaquáticas prolongadas e autônomas, pois esta pode ser uma saída rápida e de baixo custo que permita uma sobrevida da humanidade em caso de catástrofes naturais maciças que nos cheguem antes da consolidação de colõnias em planetas terraformados ou em bases artificiais (sem contar na possibilidade de serem beta-testes para ambientes similares no espaço).

    Só penso que devemos ser bem mais realistas quanto à duração de tempo aceita para uma colônia alo-terrestre ser considerada viável. O mal é querer resultados rápidos nisto como em todo o resto.

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  6. Se o motivo é usar um espaço adjacente para pessoas, sugiro umas centenas de O'Neill cylinders. Muito + fácil, rápido e barato do q qualquer base em Marte.

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