Postagens

Jornada dupla no Pint of Science!

Imagem
Neste ano, participei duas vezes do festival Pint of Science, em Campinas e São Paulo, falando no interior sobre fake news e, na capital, sobre fale news e jornalismo de saúde (esta última participação apareceu de última hora). Esses eventos ao vivo sempre me deixam com a impressão de que fui menos claro e coerente do que deveria, em parte porque certamente me comunico melhor por escrito, em parte porque provavelmente sou mesmo meio incoerente e obscuro, ainda mais com três chopes na cabeça.

Então, para quem assistiu e talvez tenha ficado curioso, já discorri mais longamente (e, espero, com maior propriedade e coerência) sobre os assuntos de que falei no Pint nestes textos, sobre notícias falsas (aqui e aqui e neste vídeo) e cobertura de saúde (aqui, aqui e, de modo indireto, aqui). Felizmente, minhas duas participações no festival não foram solo, e os colegas Angela Pimenta (em Campinas) e  Ruth Helena Bellinghini, Álvaro Pereira Júnior e Lúcia Helena de Oliveira (em São Paulo) segu…

Faz sentido noticiar pesquisa pré-clínica?

Imagem
Há mais ou menos um mês, assisti em São Paulo a uma apresentação do pesquisador Samuel Cohen, do Centro Médico da Universidade de Nebraska, sobre a crise de reprodutibilidade nas ciências. O que isso quer dizer?

A ideia é que, se a ciência se pretende produtora de conhecimento com validade universal -- e, por isso, tem em seus métodos uma forma de acesso ao conhecimento superior às alternativas (revelação divina, interpretação de sonhos, tradição familiar, etc) -- então seus resultados têm de ser reprodutíveis: a mesma equação que descreve a trajetória de uma maçã jogada para o alto aqui deve descrever a trajetória de uma maçã jogada para o alto na China. As leis da termodinâmica que regem o motor do meu carro (se eu tivesse um carro) regem o motor do jipe lunar.  E assim por diante.

Falei em motores. Além de seu papel epistemológico, a reprodutibilidade é, no fim, a grande fiadora da tecnologia. Se os resultados da física quântica, por mais malucos que sejam, não fossem reprodutívei…

Capas reveladas!

Imagem
Depois de um primeiro semestre em que contos meus foram publicados duas vezes em revistas no exterior -- em janeiro na Mystery Weeklye agora, em maio, na Ellery Queen -- a segunda metade do ano, aparentemente, será dos livros. Nas últimas semanas foram reveladas as capas de duas antologias de que participo, e as datas previstas de publicação: agosto e setembro deste ano.

Seguindo a ordem cronológica, então, começamos pela edição internacional de Solapunk:


Trata-se da tradução para o inglês da Solarpunk originalmente publicada aqui no Brasil pela Editora Draco. O livro original é de 2012 e, até onde se sabe, representou a primeira antologia do mundo a reunir escritores para especular sobre como seria um futuro movido a energias sustentáveis. Num caso clássico de "Efeito Tom Jobim", tanto o pioneirismo quanto a ousadia foram reconhecidos lá fora, e seguem largamente ignorados aqui no Brasil. Meu conto, Soylent Green is People!, é um mistério de assassinato. Gosto muito do enre…

Psicologia aplicada à pseudociência

Imagem
A bibliografia brasileira crítica sobre pseudociências é criminosamente escassa. Para cada dúzia de livros prometendo a cura quântica das hemorroidas ou a fórmula secreta da neurociência para pegar mulher e ganhar na loteria, saem -- um? dois? -- títulos tentando explicar que as coisas não são bem assim. Quase sempre, são traduções, como dos livros de Michael Shermer, Edzard Ernst ou Ben Goldacre. Quando um cientista brasileiro, portanto, decide separar parte de seu tempo para fazer algo a respeito do Febeapá (pseudo)científico em que vivemos, é hora de soltar rojão.
Foi com enorme alegria, então, que recebi o livro Ciência e Pseudociência, de Ronaldo Pilati, professor do Instituto de Psicologia da Universidade de Brasília (UnB). Vou confessar logo de cara que tenho algumas críticas: acho que o autor, nos capítulos introdutórios, poderia ter tratado a questão do falsificacionismo popperiano de maneira um pouco mais clara; e que foi muito caridoso com os envolvidos no caso da "pí…

Explicando o impossível na ficção

Imagem
Saiu! Já tinha anunciado isso nas redes sociais, mas para os amigos que só seguem o blog, isto pode (ainda) ser novidade: meu conto The Glass Floor está na mais recente edição da americana Ellery Queen's Mystery Magazine (EQMM), disponível para compra online, em ebook ou papel. E esta é uma história que tem uma história. Ei-la.

Tenho o hábito irritante de me interessar por mais coisas do que consigo fazer direito. Dois desses hobbies negligenciados são mágica (um dia, muito tempo atrás, eu fazia uns truques até passáveis com cartas) e xadrez (sou consistentemente derrotado pelo meu telefone celular, que só joga em modo "iniciante"). Para minha felicidade, no entanto, certo dia descobri um nicho literário que oferece estímulo e prazer muito semelhantes aos do xadrez e da mágica: a história de crime impossível.

O "crime impossível" prototípico é o assassinato cometido num quarto trancado por dentro, ou a vítima de homicídio à queima-roupa encontrada na areia da …

Divulgação científica: agenda cheia em maio

Imagem
"Divulgação científica" é uma daquelas expressões -- como "democracia" ou "justiça" -- que todo mundo concorda que se refere a algo essencial, mas cuja natureza exata tende a ser alvo de intensa disputa.

Há que se distinguir divulgação de educação, há que se decidir se a prioridade é divulgar conteúdos ou modos de pensar, há que se tomar cuidado para que a divulgação "WOW!" (pássaros lindos, estrelas fantásticas, gênios excêntricos) não sufoque a divulgação "de combate" (crítica a charlatanismos e raciocínios tortos, denúncia de fraudes, esclarecimentos sobre saúde ou meio ambiente).

Há que se pensar no público: na academia e no microcosmo das bolhas online, principalmente, é muito fácil cair na ilusão de que se está fazendo divulgação científica quando, na verdade, seu público é sempre aquela meia dúzia de fãs de Carl Sagan que são as pessoas que menos precisam ouvir o que você está dizendo (não é improvável que a carapuça sirva para…

Demônios e ETs em Fátima: erros instrutivos

Imagem
Se você, como eu, sofre de uma curiosidade patológica a respeito do que borbulha e fermenta na franja lunática da pseudociência -- clones ciborgues templários de Jesus e conspirações urdidas por demônios lovecraftianos do espaço, coisas perto das quais até homeopatia parece razoável -- uma boa ideia é assinar a newsletter de Jason Colativo, um antropólogo americano  que construiu uma carreira correndo atrás das besteiras que o History Channel empurra para seus telespectadores.

Nesta semana, Colavito chama atenção para  uma pequena indústria que vem sendo criada, tendo como alvo o público evangélico de língua inglesa, para vincular as aparições de Fátima a demônios e extraterrestres. A escolha de  nicho tem lá sua lógica: dizer que os milagres da religião dos outros é, na verdade, ilusão demoníaca representa uma estratégia antiga, mas bem-sucedida.

Para os leitores que não tiveram o duvidoso benefício de uma educação católica (e nem leram meu Livro dos Milagres): entre maio e outubro d…