segunda-feira, 17 de novembro de 2014

A volta do Telescópio!

Depois de um mês de férias, minha coluna Telescópio volta a sair no Jornal da Unicamp. A desta semana tem, entre outras, a seguinte nota:

Análise da Wikipedia prevê epidemias

Cada vez mais pessoas buscam informações sobre doenças na internet antes de procurar ou obter atendimento médico, o que faz com que uma análise das estatísticas de acesso à Wikipedia possa detectar uma epidemia antes que ela seja registrada pelas autoridades sanitárias, diz artigo publicado no periódico "PLoS Computational Biology". (Leia o restante da nota, e as demais, neste link)

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Tocamos um cometa

Hoje, ma espécie humana, por meio de um robô construído na Europa, tocou, suavemente, a superfície de um cometa. Não foi uma colisão: foi um carinho. Durante milênios os cometas foram vistos como presságio de catástrofe, mas hoje nossa espécie, talvez tentando demonstrar uma maturidade ainda incipiente, se aproximou de um deles com ternura.

Não vou me estender aqui sobre o colossal esforço técnico, científico e intelectual por trás disso; nem vou gastar muito tempo lembrando que foi nossa ciência, tão assumidamente falível e, por isso mesmo, tão poderosa, que fez com que, após uma viagem de mais de dez anos, uma partícula de matéria em movimento chegasse exatamente onde deveria, sem intervenção humana direta, na superfície de outra partícula, viajando ao redor do Sol numa velocidade estonteante.

Em vez disso, deixo aqui uma foto -- a imagem da superfície de um cometa -- e alguns versos de Jorge Luis Borges, compostos a respeito de um feito semelhante:

Dos hombres caminaron por la luna.
Otros después. ¿Qué puede la palabra,
Que puede lo que el arte sueña y labra,
Ante su real e casi irreal fortuna?
Ebrios de horror divino y de aventura, 
Esos hijos de Whitman han pisado
El páramo lunar, el inviolado
Orbe que, antes de Adán, pasa y perdura.  

Hoje, graças à internet, os "ébrios de horror divino e de aventura" somos todos nós. Abaixo, o orbe inviolado que, desde antes de Adão, passa e perdura, e que tocamos neste dia:




Programação Neurolinguística vs. Ciência

É difícil definir “Programação Neurolinguística” (PNL). O sistema original de terapia e autoajuda a adotar o nome foi criado, na década de 70, pelo linguista John Grinder e pelo psicólogo Richard Blander, nos Estados Unidos. Eles propunham que deveria ser possível reproduzir o sucesso de figuras eminentes a partir da imitação do modo de falar, pensar e agir dessas pessoas. Indo um pouco mais fundo, Grinder e Blander acreditavam ter descoberto uma espécie de “linguagem de programação” mental: de acordo com eles, certos modos de comunicação permitiriam ajustar a mente para a obtenção de resultados desejados, sejam eles terapêuticos, econômicos, etc. Em outras palavras, a linguagem – oral, corporal, etc. – “programa” o cérebro. Leia o artigo completo no Olhar Cético.

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Bruxaria para fazer chover

Até algum tempo atrás, o escritor Paulo Coelho volta e meia dizia que, entre seus poderes mágicos, estava o de fazer chover. No entanto, em entrevista concedida à revista Veja, em 2001, o esotérico da Academia Brasileira de Letras mostrava-se bem mais blasé quanto à habilidade de manipular do clima: “Esse negócio de fazer chover, por exemplo. Pô, o que que isso vai me ajudar?”, disse ele, conforme registrado aqui. Imagino que seria de se esperar que, diante da atual crise hídrica que assola São Paulo – e que vai tomando conta do país – Coelho adotasse uma postura menos egocêntrica em mais afinada com o espírito público. Leia o artigo completo no Olhar Cético.

terça-feira, 28 de outubro de 2014

Afinal, faz diferença dizer "presidenta"?

Você acha que chamar uma mulher que exerce um cargo de presidência de “presidenta” ajuda a combater o machismo? Ou que o fato de o português usar a forma masculina de modo inclusivo (“todos” pode se referir a um grupo de homens ou a um grupo de homens e mulheres; “todas” refere-se apenas a mulheres) torna, de algum modo, a cultura lusófona especialmente discriminatória contra o sexo feminino? Se for esse o caso, você talvez esteja sofrendo de “whorfianismo”, nome dado à hipótese defendida pelo linguista Benjamin Lee Whorf (1897-1941). Leia mais no Olhar Cético.

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Lovecraft, uma vida

Consumidos quase dois terços de minhas férias, finalmente chego ao fim de HP Lovecraft: A Life, catatau de mais de 600 páginas em letra miúda e entrelinha mínima, escrito pelo crítico literário S.T. Joshi e considerado o melhor livro disponível sobre a vida e o trabalho do escritor americano Howard Philips Lovecraft (1890-1937). Joshi tem sido, nas últimas décadas, o principal campeão do resgate do valor literário da obra de Lovevraft, em oposição ao valor meramente histórico -- como pai do terror moderno, ou inventor do tropo do "deus alienígena" --, que parece ser o único que boa parte da crítica, depois das análises demolidoras produzidas por figuras como Edmund Wilson e Colin Wilson, estava disposta a reconhecer, pelo menos até os anos 70 do século passado.

Joshi não se furta a reconhecer que muito da obra de Lovecraft sofre da doença "pulp"da "prosa púrpura" -- texto melodramático, excessivamente adjetivado -- mas insiste que Lovecraft era "senhor de seu estilo, não escravo dele" e cita um núcleo de contos e novelas -- especialmente, Os Ratos nas Paredes, A Cor que Caiu do Céu, O Chamado de Cthulhu, Nas Montanhas da Loucura, Uma Sombra Perdida no Tempo -- que são literatura de primeira qualidade e deveriam bastar para garantir ao autor um lugar no panteão das letras de expressão anglófona ao lado de Edgar Allan Poe.

Aos poucos, Joshi parece estar vencendo esta batalha: já há um volume de contos de Lovecraft na coleção Penguin Classics, o que possivelmente representa a coisa mais próxima de uma canonização formal a que um autor de língua inglesa pode aspirar, nos dias de hoje.

Isso tudo quanto à obra. Mas, e o homem? É para isso que servem biografias, certo?

Os contornos gerais da vida de Lovecraft são trágicos: da morte do pai, enlouquecido por sífilis, à progressiva degradação mental da mãe -- talvez contaminada pelo marido com a mesma doença --, à pobreza extrema de boa parte de sua vida adulta (Joshi deduz, a partir de cartas enviadas por Lovecraft a parentes, que em pelo menos uma oportunidade ele deve ter passado meses sem fazer uma só refeição quente, vivendo de sanduíches de pão velho recheado com enlatados vencidos) e à morte agonizante de câncer intestinal, não parece ter havido muita coisa para ele fazer, além de se lamentar e escrever fantasias macabras.

O azar também parece tê-lo perseguido na vida literária: duas de suas maiores obras, Nas Montanhas da Loucura e Uma Sombra Perdida no Tempo, foram publicadas originalmente com inúmeros erros e cortes arbitrários; dois de seus contos chegaram a ser citados nas "menções honrosas" de antologias de melhores histórias do ano, mas nunca chegaram a entrar nessas antologias; e vários projetos para a publicação de sua obra em livro fracassaram ao longo de sua vida.

Mas esses são os contornos. O que preenche esses contornos é fascinante: uma correspondência voluptuosa, com a troca efusiva de cartas, algumas com mais de 70 páginas, com mais de 90 diferentes amigos espalhados pelos Estados Unidos, o ativismo no mundo da "imprensa amadora" -- onde revistas e jornais produzidos artesanalmente circulavam entre grupos de correspondentes -- às frequentes viagens, que fazia em ônibus noturnos (para economizar dinheiro de hotel), hospedando-se muitas vezes na casa de correspondentes que o recebiam de braços abertos,às vezes por semanas a fio, e que o levaram da Flórida a Quebec.

Se há algo que brilha na biografia escrita por Joshi é a imensa generosidade de Lovecraft: ele era incapaz de deixar uma carta sem resposta, e de oferecer uma resposta que não fosse pensada e considerada. Os primeiros fanzines -- revistas amadoras de fãs -- de fantasia e terror surgiram praticamente ao seu redor e com seu apoio. Jovens talentos como Robert Bloch, Fritz Leiber e James Blish receberam dele orientações no início de suas carreiras. E o casal C.L. Moore e Henry Kuttner, que viria a escrever diversas obras importantes de ficção científica em conjunto, se conheceu por meio dele: ambos eram correspondentes de Lovecraft, e foi ele que os pôs em contato um com o outro. É de se imaginar como ele atuaria neste nosso mundo moderno de redes sociais. O círculo de correspondentes de Lovecraft era virtualmente um Facebook de papel e tinta, no qual ele fazia as vezes de nó central, ou servidor.

Imagino que o World Fantasy Award seja um busto de Lovecraft não só pela importância de sua obra no desenvolvimento do gênero, mas também pelo seu papel como uma das figuras estruturantes do "fandom" -- a comunidade de fãs que, no fim, acabou dando origem ao prêmio. Em tempos recentes, o uso de sua figura na estatueta tem sido criticado, por conta do que certamente foi a pior faceta de seu caráter, o racismo.

Joshi não se vale de meias palavras ao tratar do assunto: Lovecraft era um racista. Especialmente virulento na adolescência, quando escreveu poemas "odiosos" e "constrangedores" -- nas palavras do biógrafo -- louvando a segregação racial, até a idade adulta, onde, embora com menos violência retórica, continuou a defender a inferioridade biológica dos povos de pele escura e a ideia de que, mesmo entre os povos de pele clara, o melhor seria que as culturas fossem segregadas, evitando "contaminação" e "decadência".


Joshi se mostra intrigado com esse ponto fixo no pensamento de Lovecraft. Ele registra, por exemplo, como as ideias sociais do escritor evoluíram em sua última década de vida -- de conservador empedernido, ele se tornou um apoiador direto do New Deal de Roosevelt e um socialista,
condenando explicitamente seu conservadorismo anterior como uma forma de romantismo anticientífico e irrealista -- mas, na questão racial, embora tenha havido uma suavização de retórica, o fundo ideológico permaneceu o mesmo.

O biógrafo especula que o que Lovecraft realmente temia era mudança -- muitas de suas viagens foram feitas para visitar prédios antigos, cidades históricas, lugares onde, em suas palavras o tempo "tinha sido derrotado" -- e que a visão de pessoas de aparência diferente, língua diferente, costumes diferentes era, para ele, um lembrete desagradável de transformação e de passagem do tempo.

Joshi discorda, no entanto, de quem vê no racismo um componente fundamental da obra lovecraftiana, como uma nódoa odiosa e indissociável. Seus dois melhores trabalhos -- Nas Montanhas da Loucura e Sombra Perdida no Tempo -- não giram em torno da questão de raça. No fim, a forma de pesar as diferentes facetas de Lovecraft -- figura trágica, amigo generoso, escritor visionário, homem preconceituoso -- deve variar de acordo com a visão pessoal de cada um.

No caso da polêmica do World Fantasy Award, se fosse chamado a palpitar eu diria que críticos e escritores que estão sempre prontos a celebrar e compreender personagens ficcionais complexos e contraditórios, dotados de defeitos e qualidades, poderiam estender a mesma generosidade a pessoas de carne e osso.

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Conversa ao redor da fogueira

O domínio do fogo abriu espaço para novos tipos de interação social, permitindo que os membros de comunidades pré-históricas contassem histórias e conversassem sobre assuntos não relacionados às necessidades imediatas do grupo, sugere estudo feito por uma antropóloga americana entre bosquímanos do Kalahari, na África, e publicado no periódico PNAS. Além de analisar os hábitos dos bosquímanos, o artigo traz uma provocação para as sociedades industrializadas: “Fica aberta a questão de o que acontece quando o tempo economicamente improdutivo, à luz da fogueira, se transforma em tempo produtivo, sob luz artificial”. Leia mais sobre este assunto, e outros, no Telescópio.