sexta-feira, 29 de julho de 2016

Nanotecnologia brasileira contra o câncer

Uma equipe multidisciplinar de cientistas, envolvendo pesquisadores da Unicamp e dos Laboratórios Nacionais de Luz Síncrotron (LNLS), Biociências (LNBio) e Nanotecnologia (LNNano) vem desenvolvendo uma tecnologia baseada em nanopartículas que pode fazer com que medicamentos quimioterápicos atinjam especificamente as células do câncer, causando um dano mínimo às células saudáveis do corpo. Os primeiros testes do modelo, em culturas celulares, já foram realizados e são descritos em artigo publicado no periódico internacional Langmuir. A íntegra da entrevista com os pesquisadores você encontra no Jornal da Unicamp.

terça-feira, 26 de julho de 2016

"Fosfolclore" em tempos de teste clínico

Com o início dos testes clínicos, devidamente controlados, da "fosfoetanolamina sintética" pelo governo do Estado de São Paulo, esta talvez seja uma boa oportunidade para tentar organizar um pouco as informações já disponíveis. Principalmente, esclarecer qual é, afinal, a relação entre a substância que o governo paulista passa a testar e o material que vinha sendo estudado pelos órgãos contratados pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), com resultados decepcionantes. As "fosfos", a despeito de terem todas o mesmo nome, não são todas criadas iguais.

Os defensores mais aguerridos da ideia de que a "fosfo" de São Carlos teria eficácia contra o câncer atribuem os seguidos resultados negativos publicados pelo MCTI ao fato de os ensaios do ministério terem sido feitos com "fosfo da Unicamp", e não com "fosfo da USP". Isso é uma uma meia-verdade -- que, como se sabe, é um estratagema muito melhor para enrolar os incautos que uma mentira completa.

A história começa com o envio, ao Laboratório de Química Orgânica Sintética (LQOS) do Instituto de Química da Unicamp, de cápsulas da suposta "fosfoetanolamina sintética" produzida em São Carlos, segundo o processo que o grupo do professor aposentado Gilberto Chierice tenta patentear.

A equipe do LQOS, encabeçada pelo professor Luiz Carlos Dias, pesa e analisa o conteúdo das cápsulas e descobre, para surpresa de todos, que elas não contêm "fosfoetanolamina com 90% de pureza", como apregoado, mas sim uma mixórdia de componentes, incluindo fosfoetanolamina, sim, mas também um veneno, a monoetanolamina, e outros contaminantes. A reação do grupo de Chierice à publicação desse resultado é apontar "degradação" das amostras durante o processo de análise, mas uma leitura atenta do relatório da Unicamp mostra que a técnica usada, baseada em ressonância magnética nuclear, não produz degradação.

A espectroscopia de ressonância magnética nuclear (RMN) é uma técnica que se vale das propriedades magnéticas de certos núcleos atômicos. Não há nenhuma decomposição química envolvida e, o que é ainda mais crucial, trata-se de uma técnica-padrão, amplamente utilizada para a caracterização da estrutura de compostos orgânicos.

Pedido de patente

Menos divulgado entre o público em geral foi o teste realizado, pelo mesmo laboratório, dos procedimentos descritos no pedido de patente de 2008, "Nova Metodologia de Síntese de Fosfoetanolamina". Esse ensaio consta da "Parte B" do relatório entregue pelo LQOS ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), cuja "Parte A" consiste da análise do conteúdo das pílulas de São Carlos.

O resultado: um rendimento de fosfoetanolamina da ordem de 30%-40%, bem abaixo dos 90% prometidos na patente, e um amplo cardápio de resíduos, incluindo fosfobisetanolamina e monoetanolamina, dois contaminantes também encontrados -- talvez não por acaso -- nas cápsulas originais. Para caraterizar o produto de sua reação e cravar os 90% de pureza, os autores do pedido de patente afirmam ter usado espectroscopia de infravermelho, uma técnica mais rudimentar e de menor definição que a RMN. O relatório da Unicamp se refere à espectroscopia de infravermelho como "uma técnica obsoleta no que diz respeito a (...) elucidação estrutural e grau de pureza de compostos orgânicos".

Comparação de espectrografia do conteúdo das cápsulas de São Carlos e da "fosfo"
 produzida na Unicamp segundo a receita do pedido de patente


Resumindo, a técnica usada pela Unicamp para afirmar que o pó de São Carlos é só 30% fosfoetanolamina é mais moderna e tem melhor poder definição do que a usada pelo grupo de São Carlos para dizer que se trata de 90% "fosfo". 

Há, portanto, duas linhas de evidência, a análise do material de São Carlos e a síntese do processo que se busca patentear, que convergem para a conclusão de que o que se produzia em São Carlos nunca foi "fosfoetanolamina sintética", e sim uma gororoba química potencialmente tóxica. Essa é uma contradição que, entre outras coisas, põe em dúvida o que seria, afinal, a suposta "fosfoetanolamina sintética" usada nos estudos publicados pelo grupo de Chierice em periódicos internacionais, mostrando diferentes graus de sucesso no controle de tumores in vitro e em animais de pequeno porte. 

Ignorância e Coca-Cola

Os resultados obtidos no LQOS levaram o professor Dias a afirmar, em entrevista à RTV Unicamp, que o grupo de São Carlos "não sabe o que tem nas cápsulas", e que os criadores da "fosfo" na verdade apenas "pensam" que estão fazendo fosfoetanolamina sintética. A reação descrita na patente "não ocorre", afirma o pesquisador, que tem reputação internacional. "Eles estão apenas degradando o material", garante. 

A resposta dos defensores Chierice a essas duas constatações do grupo da Unicamp também é dupla: primeiro, insistem que algo foi feito de errado na análise das cápsulas -- aferram-se ao dado de que a análise revelou a presença de traços de bário na amostra, o que consideram absurdo. O próprio Chierice afirma ter um laudo independente que contesta os resultados da Unicamp, mas até onde sei esse documento nunca veio a público: apenas alguns trechos foram citados num episódio do Programa do Ratinho, que está longe de ser um veículo de peer-review.



Em segundo lugar, acusam os químicos da Unicamp de não terem sido capazes de executar a receita corretamente, daí a discrepância. O "fosfo-folclore", ou "fosfolclore", reúne algumas pérolas a respeito -- uma delas é de que o erro de execução dos químicos da Unicamp produziu a contaminação por bário detectada na RMN. Deixando de lado o fato de que essa contaminação foi encontrada nas cápsulas encaminhadas por São Carlos, não no produto da tentativa de executar as instruções da patente, o bário é um elemento químico, que para ser "produzido" requer reações nucleares, não meras reações de síntese química. Outro folclore é o de que o pedido de patente tem um "pulo do gato" secreto, "como o da Coca-Cola", para evitar que o "segredo" seja roubado. 

Há dois problemas com essa hipótese: o primeiro é que não faz sentido omitir informações num pedido de patente. Se você patenteia uma receita sem sal, mas a receita verdadeira tem sal, você não patenteou a sua receita, e sim uma versão defeituosa dela: na prática, quem fizer a sua receita e, aí, acrescentar sal não vai estar violando a sua patente, porque não foi isso que você registrou. O segundo problema é que a Coca-Cola realmente preserva o segredo de sua receita -- e a forma que encontrou de fazer isso foi não patenteá-la

"Fosfo" da Unicamp e "fosfo" de Cravinhos

Já que a análise do conteúdo das cápsulas pelo LQOS mostrou que elas continham uma mistura de componentes diversos, e não fosfoetanolamina pura, como anunciado, o passo seguinte do grupo de trabalho do MCTI foi pedir à Unicamp que produzisse cada um dos materiais detectados separadamente, para que pudessem ser testados, um a um, contra o câncer.

Essa fosfoetanolamina pura é a tal "fosfo da Unicamp" cujos testes, in vitro, os defensores do pó de São Carlos consideram inválidos, por não se tratar do "produto legítimo". De acordo com o "fosfolclore", todos os testes com resultados ruins podem ser atribuídos ao uso da fosfo purificada, em oposição à mixórdia original. Como escrevi acima, é uma meia-verdade. Há resultados negativos obtidos com a "fosfo" pura da Unicamp, e há resultados bem decepcionantes obtidos com o material original de São Carlos, também, como mostra este relatório, por exemplo.

A diferença fundamental entre os testes realizados com a fosfoetanolamina purificada da Unicamp  e com a fosfoetanolamina "suja" originária de São Carlos é que, no segundo caso, detecta-se alguma atividade antitumoral, mas apenas em concentrações absurdamente elevadas e, ainda assim, com um efeito muito inferior ao dos quimioterápicos tradicionais. Parece haver um consenso entre os cientistas responsáveis pelos testes que esse efeito pode ser atribuído à presença do veneno monoetanolamina na mistura.

E quanto aos testes clínicos patrocinados pelo Estado de São Paulo? Eles estão utilizando "fosfoetanolamina" produzida por um laboratório de Cravinhos (SP) segundo a receita de São Carlos, e sob a supervisão de membros do grupo de São Carlos.

Dadas as incertezas quanto à eficácia da receita registrada no pedido e patente -- se produz, afinal, a fosfoetanolamina 90% alegada pelos inventores ou se a gororoba levemente tóxica obtida pela Unicamp --, seria interessante que houvesse um laudo independente apontando o que, exatamente, foi produzido e encapsulado, a fim de dirimir a dúvida de uma vez por todas. Mas nada nesse sentido foi apresentado ao público até agora, e é de se imaginar o por quê. Esperemos que os pacientes, pelo menos, saibam o que estão tomando.

Para completar o imbróglio, temos ainda a fosfoetanolamina paraguaia, contrabandeada e vendida para pessoas desesperadas. No fim, o substantivo "fosfoetanolamina" deixou de designar uma molécula orgânica específica e virou uma espécie de "abracadabra", uma palavra mágica lançada não sobre amuletos, como a invocação medieval, mas sobre cápsulas azuis e brancas. E, como no caso dos amuletos, cada vez mais se torna uma província de cultistas e espertalhões.

quinta-feira, 21 de julho de 2016

De partidos e escolas



Essa conversa toda sobre “Escola Sem Partido”, que acabou virando uma gritaria em que um lado berra “doutrinação!” e o outro, “pensamento crítico!”, me trouxe algumas lembranças. A escola do SESI em que fiz o primário – creio que é o que hoje chamam de “fundamental” – tinha um partido claro: o catolicismo romano.

A data da Primeira Missa no Brasil era quase tão importante quando a do descobrimento, José de Anchieta tinha sido um herói civilizador e a dilatação da fé estivera entre os mais nobres empreendimentos do Império Português. Havia festa de São João. Mas a subversão evangélica já estava começando: certa vez, um professor de Matemática interrompeu a aula para que seu irmão, membro dos Gideões Internacionais, pudesse falar com a turma e distribuir bíblias de bolso.

Criança de família católica, tudo era perfeitamente normal, até que meio transparente, para mim: aquele negócio do peixe que não se dá conta de que vive na água, etc. Que eu saiba, havia um menino mórmon e um testemunha de Jeová na turma, e não faço a menor ideia de como eles se viravam com isso. Estavam quietos na maior parte do tempo.

Já no meu tempo de secundário (“ensino médio”), tinha um professor de Geografia cuja principal missão na Terra era convencer os alunos de que mapa não tem "em cima" e "em baixo", mas "norte" e "sul", "em cima" e "em baixo" era lavagem cerebral ideológica pra fazer nosotros hermanos latinos nos sentirmos "por baixo".

Professores de História havia dois: uma professora de História do Brasil, para quem tudo que acontecera de errado na América do Sul, em geral, e em Pindorama, em particular, desde a chegada de Cabral, era culpa das maquinações do Império Britânico (o Paraguai, por exemplo, era o paraíso socialista na Terra até a Inglaterra engabelar o cretino do D. Pedro II, que foi lá acabar com a festa). Depois, claro, a culpa passou para aquele novo Satanás, os ianques. Um colega meu, filho de um advogado conservador, vivia discutindo com ela.

O outro, professor de história do mundo, comunicava à classe algumas opiniões contundentes a respeito da ideia de programas estatais de assistência social, principalmente às mães solteiras pobres – “não me pediu ajuda na hora de gozar, agora vai me pedir ajuda na hora de criar?” era uma de suas frases mais características. Hoje em dia, teria ido parar no pelourinho, suponho.

Havia o professor de Química que achava que criticar o governo Sarney era sabotar o Brasil, num momento tão delicado de transição pós-ditadura; hoje, imagino, é tucano. Já um dos professores de Física era petista roxo. Andava num Fiat Uno detonado, cheio adesivos de campanha política, e proclamou “Fora do socialismo não há salvação!” na entrada da escola, em alto e bom som, por ocasião do Plano Cruzado. Era tão comprometido, na verdade, que chegou a ser candidato a vice-prefeito numa campanha quixotesca numa cidade vizinha. Imagino se não terá migrado para o PSOL.

Falando em candidato, tive ainda, nessa mesma escola, um professor de Matemática que foi candidato a vereador, por uma dessas legendas de aluguel que ainda pululam por aí, e se elegeu! Muitos alunos se engajaram, como voluntários, em sua campanha, mas desde já digo que os que não participaram (como eu) não foram perseguidos ou prejudicados. Era uma escola particular (não pública) mas, como o quadro acima mostra, bem pluripartidária. O que é bem o oposto de uma Escola “Sem” Partido.

Só vim a encontrar a tão propalada hegemonia ideológica de esquerda na educação, que parece assustar tanto os proponentes do “Escola Sem Partido”, quando cheguei à faculdade. Ser de direita – ou, ao menos, liberal, no sentido de contemplar a possibilidade de que uma economia de mercado talvez não fosse uma ideia tão má assim – na Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP, no início da década de 90, era mais ou menos como ser ateu no Vaticano. Desconfortável, sem dúvida, mas, como os críticos (muitos deles, mas não só, aliás, à direita) da multiplicação de “safe spaces” e “trigger warnings” no ensino superior vivem repetindo, a universidade não foi feita para ser confortável.

Além disso, havia nuances relevantes, cruciais: os melhores professores expunham seus pressupostos e mostravam a construção de seus pontos de vista; era possível acompanhar o raciocínio e, para quem sentisse a inclinação, desconfiar das premissas, discordar da conclusão. Os piores simplesmente assumiam que seus pressupostos eram verdades universais, axiomas que não precisavam ser articulados, verdades morais tão óbvias que só poderiam discordar delas os canalhas, os agentes da CIA ou os idiotas. Enfim, havia os que viam a água ideológica em que nadavam e, mesmo gostando do meio, sabiam abstrair-se dele quando necessário, e os que estavam confortáveis demais no fluxo para se importar.

O que isso tudo quer dizer? Bom, sou uma amostra de um único “data point”, mas gostaria de notar que os dois momentos em que vivi em escolas “com partido” monocrático – o católico da infância e o esquerdista do início da vida adulta – se foram momentos de “doutrinação”, não deixaram sequelas muito notáveis. Por outro lado, é um pouco preocupante imaginar que o que passa por “pensamento crítico”, para muitos dos opositores do projeto, é a caricatural cruzada “sul não é pra baixo” do professor de Geografia de olho rútilo.

Talvez fosse mais produtivo, nessa briga toda, substituir a noção de “ideologia” pela de “água”, como na metáfora que usei acima: um ambiente (no caso, cultural, intelectual) que nos cerca, nos envolve e nos penetra, que dá forma às verdades autoevidentes de nossas vidas e da sociedade em que estamos.

É aí que o “Escola Sem Partido” erra, tanto no diagnóstico quanto no tratamento: o problema não é haver água, é ela ser tão transparente, invisível, para quem está imerso nela. Isso vale tanto para o tal "pensamento crítico" quanto para o senso comum conservador: porque o que é senso comum varia com o ambiente, e imagino que não haja nada mais "conservador" e conformista, no meio acadêmico de humanas, do que ser de esquerda, por exemplo. 

A solução, enfim, não é trocar uma água por outra e, aí, fingir que essa nova água não existe. Alguma água sempre vai existir, de um modo ou de outro, enquanto houver cultura. A melhor educação não é a que ocorre num vácuo, porque vácuos não existem nos espaços da mente. A melhor educação é a que dá às pessoas instrumentos para que elas finalmente percebam e analisem a água em que se encontram, e decidam se querem fazer algo a respeito.

quarta-feira, 20 de julho de 2016

Aviso preventivo

Oi, gente, só por precaução: nas últimas 24 horas, este blog teve dois picos expressivos e extremamente atípicos de audiência (cada um deles equivalente a um ou dois dias de tráfego normal), separados por um intervalo de 12 horas, o primeiro às 23h00 de ontem e oo utro, às 11h00 desta manhã -- ambos originados, segundo o sistema do blogger.com, na Rússia.

Como desconheço qualquer comunidade de fãs russos do meu trabalho, há a possibilidade de esses picos serem sintoma de algum tipo de ataque virtual ao blog (por que alguém haveria de atacá-lo é algo que me escapa, mas enfim...). Então deixo esta nota aqui só para alertar que, se de repente começarem a aparecer fotos de gente pelada ou correntes de oração vindas daqui, não sou eu, ok? Até mais!

segunda-feira, 18 de julho de 2016

Livros! Livros!

Foi lançada oficialmente, no início do mês, a coletânea de contos Swords v. Cthulhu, publicada no Reino Unido pela editora independente Stone Skin Press. Como o título sugerem trata-se de uma coleção de histórias lovecraftianas passadas em cenários de capa-e-espada, incluindo o universo das Dreamlands (o mundo de fantasia criado pelo próprio Lovecraft) a períodos históricos, digamos "reais" do nosso universo.

O livro contém um conto meu, The Argonaut, que foi basicamente inspirado na sequência das viagens de Simbad das Mil e Uma Noites. O blog Soft Disturbances vem realizando uma "maratona de leitura" do livro, resenhando-o, praticamente, conto a conto.

E no início desta semana publiquei, pela plataforma de print-on-demand da Amazon.com, a Create Space, a esperada (oi? alguém?) edição em papel do meu Livro da Astrologia, que já estava disponível em versão e-book desde o fim do ano passado. O site nacional da livraria, Amazon.com.br, deve passar a oferecer a versão em papel em breve (e com o preço em reais, não dólares), também. 

Aqui, imagino, seria o momento de eu me lançar num longo rant sobre por que diabos é tão mais fácil um escritor brasileiro (eu, no caso) conseguir ser publicado -- com perspectiva realista de remuneração!-- por uma editora nanica inglesa ou por megacorporação americana, apontada por muita gente que vive de livros no Brasil como a maior ameaça à cultura nacional(r) desde que Carmen Miranda passou a cantar em inglês, do que por alguma editora brasileira. 

Basicamente, somando as vendas do Livro da Astrologia como e-book para Kindle ao adiantamento que a Stone Skin me pagou por Argonaut, no último semestre ganhei mais, como escritor, do que em toda minha década pregressa de carreira literária. Mas, enfim. O melhor que podemos fazer, pessoas e empresas, é nos virar de acordo com as circunstâncias. Espero que quem lê inglês e curte meu trabalho como ficcionista dê uma chance para Sword, e quem tinha curiosidade com Astrologia, mas relutava em aderir ao e-book, possa se arriscar nessa edição em papel.

domingo, 17 de julho de 2016

Videntes de São Paulo

Já escrevi pelo menos uma vez neste blog criticando a tendência da grande imprensa brasileira de tratar as pautas que poderiam ser chamadas de paranormais -- da astrologia à ufologia, passando por temas como profecias, êxtases religiosos, tarô, curas milagrosas -- com um viés meio etnográfico, limitando-se a descrever os fenômenos num tipo de texto que às vezes se esforça um pouco demais para soar "literário" e com um tom que vai da condescendência metida a besta (geralmente reservada para os fãs de disco voador) à reverência servil (qualquer "milagre" que venha da Igreja Católica). Um enfoque crítico e objetivo parece, sempre, fora de questão.

Mas, veja só, nem tudo está perdido. Neste domingo o jornal O Estado de S. Paulo publicou uma reportagem especial de uma página, intitulada Dos postes às mesas dos videntes de São Paulo que, se repete muitos dos cacoetes da velha abordagem etnográfica -- incluindo o tom "espertinho", a forçada de barra literária, a preferência por fontes "especialistas" crédulas -- pelo menos não tem medo de mostrar a cara feia do mercado de videntes e "amarrações para o amor", e nem tenta relevar a feiura intrínseca dessas práticas com um verniz de relativismo cultural, conforto psicológico ou o que seja. É um avanço.

O que a imprensa brasileira segue devendo a seus leitores é um esforço de reportagem que vá realmente fundo nessas práticas, apontando com números e histórias humanas --  para além da experiência subjetiva da repórter -- o mal que esse tipo de fraude causa, e a crueldade implícita na exploração que faz do desespero e do desamparo de suas vítimas.

O que estou propondo não é, aliás, nenhuma novidade: The New York Times já relegou as narrativas sobre videntes e cartomantes a sua página policial há tempos (por exemplo, aqui e aqui) e o site CNN Money fez uma longa série a respeito de uma fraude internacional de leitura da sorte, aqui. Assim como aconteceu nos Estados Unidos, algum dia, aqui no Brasil, esse tipo de assunto vai ter de sair da crônica de costumes e virar reportagem séria. O texto recente do Estadão é um passo na direção certa. Que tal percorrer o resto do caminho?

sábado, 16 de julho de 2016

Besteirol corporativo: eu no Zero Hora

Até hoje me lembro de como fiquei chocado quando, no fim do século passado, tive em mãos um jornalzinho produzido pelo setor de marketing da agência de notícias em que trabalhava, para ser divulgado entre executivos de grandes empresas -- na época, antes do boom da internet, o principal mercado da agência eram empresas que precisavam de serviços de informação em tempo real.

O primeiro impacto foi notar como o texto era ruim, mal escrito, mal ajambrado. O segundo foi decifrar, debaixo da massa ignara de anglicismos toscos e mal resolvidos (antes da esquerda nos trazer o "empoderamento", o capitalismo gerou a "monetização") e da sintaxe confusa de quem pensa em inglês ruim e escreve em português pior ainda, os significados pobres, as promessas vazias, o otimismo imbecil e a absoluta ausência de lógica.

Foi ali que comecei a desconfiar que a fronteira final a ser conquista pelo pensamento crítico racional não seria a medicina alternativa, a crença na vida após a morte ou os feitiços para trazer a pessoa amada em três dias, mas o mundo corporativo. Meu breve convívio (alguns anos depois) com um processo de "reestruturação corporativa", a recente crise global desencadeada pela "exuberância irracional" dos mercados e a atual cultura do "empreendedorismo" só fizeram transformar essa desconfiança em certeza.

Basta passar dois ou três minutos assistindo aos vídeos de "coaching" ou de "consultores de marketing" que pululam nas redes sociais para ver que hoje vivemos num mundo onde as pessoas parecem convencidas todas as desgraças apontadas por Arthur Miller em sua peça A Morte do Caixeiro Viajante -- a subserviência abjeta, a aterradora vacuidade espiritual, a manipulação fria e egoísta dos afetos -- são abertamente recomendadas, elogiadas e ensinadas como virtudes. A sinceridade de quem receita esses comportamentos é fantástica. Estamos numa era para além da hipocrisia.

Foram reflexões assim que me levaram a escrever o artigo A Superstição Empreendedora, publicado na edição deste sábado do jornal Zero Hora, de Porto Alegre.