quarta-feira, 18 de março de 2015

Sobre o debate político: "Don't be a dick"

Quem acompanha este blog há algum tempo sabe que tenho algum envolvimento com o que se poderia chamar de "movimento" cético, que fundamentalmente busca oferecer um pouco de racionalidade e senso crítico ao debate público sobre questões relacionadas a ciência e saúde. Ponho "movimento" assim, entre aspas, porque, ao menos no Brasil, a iniciativa é muito mais voluntarista e desorganizada do que a palavra sugere. Nos Estados Unidos, onde existe um movimento cético assim, sem aspas, que se organiza em comitês, associações, publica revistas e promove convenções, houve, há alguns anos, uma grande polêmica provocada por uma palestra dada pelo astrônomo Phil Plait. O título da intervenção foi Don't Be a Dick, algo que em português poderíamos traduzir como Não Seja Escroto.

Há algo de intrigante nesse título, mas para quem está dentro do movimento -- com ou sem aspas, agora tanto faz -- a questão é bem clara: depois de ouvir a bilionésima defesa apaixonada da homeopatia, depois da milésima manifestação de fé na astrologia, depois quaquilionésima argumentação falaciosa em prol do criacionsimo ou contra a vacina de sarampo, é muito fácil sucumbir à tentação de imaginar que todo mundo que está do outro lado da conversa é ou imbecil ou mal intencionado, e reagir de acordo.

O bônus é que há maneiras extremamente inteligentes de ser escroto, o que gratifica o ego -- ironia e sarcasmo podem ser finos como um florete ou brutais como um cutelo -- e, se você não estiver se sentindo especialmente inspirado, mesmo uma escrotice clássica, curta e grossa, haverá de atrair os aplausos dos colegas: é muito legal ver um colega dando aos charlatões e aos idiotas exatamente o que merecem.

Exceto que: talvez não mereçam. Talvez não sejam todos idiotas e charlatões. No mínimo, se o objetivo final do movimento é educar o público e trazer sanidade para o debate, fazer o público se sentir cretinizado e insultado pode não ser uma boa ideia.

Claro, existe o arquétipo do Velho Professor Britânico, o mestre irascível cujos insultos cuidadosamente calculados  e sarcasmos poético-filosóficos não só estimulam o desenvolvimento intelectual dos pupilos como conquistam seu amor e admiração. O Velho Professor Britânico é a versão escolástica do Sargento Durão, o militar de cara fechada e coração (secretamente) aberto que, por meio da aplicação judiciosa de bullying, ameaça, palavrões e tortura forja meninos assustados e egoístas em homens corajosos e solidários.

Veja bem, não digo que é impossível que ambos os arquétipos possam funcionar. Talvez haja situações em que pessoas que se enquadram neles sejam até mesmo necessárias e essenciais para a sobrevivência da civilização.  Mas me parece extremamente provável que funcionem muito menos, e sejam muito menos necessários, do que quem se identifica com eles gostaria de imaginar.

Bom, dei toda essa volta para falar sobre o debate poplítico brasileiro, principalmente da forma como é travado nas redes sociais. Em sua palestra, Plait em certo momento pergunta à plateia algo como, "quantos de vocês abandonaram uma crença falsa ao serem chamados de idiotas?" Traduzindo a questão para o universo do Facebook, ela poderia ser: "Quantos de vocês desistiram de apoiar um impeachment ao serem chamados de fascistas golpistas?" Ou, do outro lado: "Quantos de vocês passaram a criticar Dilma ao serem chamados de petralhas corruptos?"

Na palestra, algumas pessoas levantaram a mão em resposta à provocação de Plait -- e não nego que, de vez em quando, um tapa da orelha retórico pode levar alguém a prestar mais atenção nos argumentos e a rever suas posições, mas o número de pés-de-ouvido simbólicos distribuídos a torto e a direito por aí supera toda e qualquer necessidade real.

A esmagadora maioria das comunicações sobre política que flutuam na rede é escrota e reiterativa: faz pouco caso dos adversários, desestimula a interrogação, reforça dogmas. O que é ótimo para aquilo que os gringos chamam de shouting matches -- "campeonatos de gritaria" -- mas não serve para mais nada.

Mesmo quando tenta se revestir de um caráter argumentativo, a carga de condescendência e pressuposta superioridade ("precisamos conversar sobre" = "senta aí e me escuta, seu retardado"), somada à dose cavalar de premissas "óbvias" não examinadas -- afinal, por que o PT é "uma quadrilha"? Por que a mídia é "golpista"? -- simplesmente esmagam o propósito.

O pior é que isso não funciona nem mesmo se supusermos que os diferentes grupos estejam, não tentando travar um diálogo, mas apresentar seus pontos para a massa indecisa e perplexa. Cada vez mais, escreve-se para cortejar o aplauso de quem já está no coro, reforçar a fé dos convertidos e, eventualmente, destilar bile, não para validar posições e gerar clareza. O que é um enorme desperdício.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Seca e superpopulação urbana acabaram com o Império Assírio

Fiz a nota abaixo para a coluna Telescópio, do Jornal ad Unicamp, em novembro passado. Por alguma razão, achei que valia a pena destacá-la aqui, agora, chamando principalmente a atenção dos leitores paulistas:

Superpopulação e seca levaram ao fim do Império Assírio, no século 7 antes da era comum, argumenta artigo publicado no periódico Climate Change. O chamado Novo Império Assírio chegou a dominar praticamente todo o Oriente Médio, do Egito ao Golfo Pérsico, incluindo terras que hoje pertencem a Israel, Palestina, Turquia, Síria e Iraque, no início do século 7 AEC, mas décadas depois já se encontrava em desintegração, fraturado por guerras civis.

Os autores do novo artigo, baseados nos Estados Unidos e na Turquia, associaram informações sobre o clima da época ao conteúdo de uma carta escrita por um astrólogo ao rei, informando que “não houve colheitas” no ano de 657 AEC. Dados paleoclimáticos corroboram o informe do astrólogo, e análises dos padrões de clima da região indicam que a seca de 657 foi apenas uma em uma série que se estendeu por vários anos. Além disso, a população de cidades como a capital, Nínive, teria sobrecarregado ainda mais a economia.

“Não estamos dizendo que os assírios de repente morreram de fome ou foram forçados a fugir das cidades e vagar pelo deserto”, disse, em nota, um dos autores do artigo, Adam Schneider, da Universidade da Califórnia em San Diego. “Estamos dizendo que a seca e a superpopulação afetaram a economia e desestabilizaram o sistema político até o ponto em que o império não era mais capaz de conter a desordem interna e a agressão de outros povos”.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Os problemas da homeopatia

A celebração pelo Ministério da Saúde, com mensagem disseminada pelas redes sociais, do Dia da Homeopatia (21 de novembro) atraiu uma série de críticas por parte de cientistas – principalmente de químicos e biólogos. Não é de hoje que a homeopatia é criticada, quando não ridicularizada, por pesquisadores, inclusiva da própria área médica. Imagino, no entanto, que a causa dessa hostilidade seja, até certo ponto, um mistério para muita gente. Por quê, afinal? Não se trata de uma especialidade médica reconhecida, ensinada na faculdade? Qual o problema? (Leia o artigo completo na Galileu)

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

De Rushdie a Charlie

Se, como bem argumentam feministas de ambos os sexos, o que causa estupro não é a mulher, mas o estuprador, e a melhor forma de evitar estupros não é regular a vestimenta feminina, mas educar os homens para que não estuprem, por que diabos tem gente dizendo que o que causa terrorismo contra cartunistas são os cartuns, e que a melhor forma de evitar atentados é regular o humor? (Leia mais no Amálgama)

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Prever tragédias é um bom negócio

Prever tragédias é, apesar das aparências em contrário, um negócio relativamente seguro. Se elas se concretizam, você acertou; se não, foi porque as pessoas levaram seu aviso a sério e tomaram medidas preventivas. Medidas essas que podem ser qualquer coisa, de salvaguardas tecnológicas a círculos de oração, “energia positiva”, exorcismos. (Leia o artigo completo no Olhar Cético)

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Anuário de Literatura Fantástica: balanço da década

Saiu, ou está prestes a sair, a edição de 2014, referente a 2013, do Anuário Brasileiro de Literatura Fantástica. Dizem-me que esta edição será a derradeira, e que fará um balanço da última década da produção de literatura de fantasia, terror e ficção científica no Brasil. 

Os editores do Anuário, Marcello Simão Branco e César R.T. Silva, são velhos amigos da era pré-internet. Fomos durante algum tempo, parceiros numa empreitada editorial, a Editora Ano-Luz, e numa das primeiras edições do anuário ambos chegaram a me entrevistar como "personalidade do ano", por conta do lançamento da primeira edição de minha coletânea Tempos de Fúria, cujos contos estão hoje disponíveis em formato e-book.

Será uma pena se essa for mesmo a edição final, mas a ideia de um balanço da década é muito interessante -- em 2004 ainda estávamos longe, por exemplo, do boom mercadológico da fantasia "made in Brazil" e do advento do marketing agressivo do livro eletrônico (o Kindle data de 2007). As ferramentas de conectividade social que hoje são essenciais para dar (alguma) visibilidade a autores e obras nem existiam, ou ainda engatinhavam.

Este Anuário coleciona depoimentos de várias figuras que, no entendimento dos autores, teriam algo a dizer sobre o desenvolvimento do campo na última década. Fui um dos convidados a opinar. Não sou muito de dar palpite sobre questões estruturais, estéticas, sociais, etc., envolvendo o tipo de literatura que pratico -- quando acho que tenho algo interessante a dizer, prefiro trabalhar o assunto num conto -- então esse depoimento ao César e ao Marcello foi uma coisa meio rara. 

Ainda não sei quanto do que disse foi aproveitado, mas se fosse tirar uma pílula essencial de minhas impressões, seria esta frase: "o fantástico não pode se contentar em ser o Luan Santana da literatura brasileira, e deixar para o mainstream a tarefa de ser todo o resto, de Rita Lee a Villa-Lobos." Quem quiser saber mais do que eu disse, ou do que os outros disseram, está convidado a adquirir um exemplar.

terça-feira, 25 de novembro de 2014

Honestidade em teste

Três economistas da Universidade de Zurique publicam, na revista Nature, um experimento realizado para testar a hipótese de que os grandes bancos internacionais fomentam, entre seus funcionários, uma “cultura de desonestidade” que teria sido uma das causas da grave crise econômica desencadeada em 2008, e descobriram que os bancários de uma grande firma internacional não são mais desonestos que a população em geral – exceto quando se lembram de que são bancários. Leia a nota completa no Telescópio.