segunda-feira, 2 de maio de 2016

Cérebro semântico

A elaboração de um mapa que localiza as regiões do cérebro que reagem ao significado de conceitos semânticos é descrita na edição mais recente da revista Nature. Esse “atlas narrativo” foi criado submetendo um grupo de voluntários a ressonância magnética funcional do cérebro, enquanto ouviam histórias que giravam em torno de grupos semânticos diversos, como “comida” ou “números”. A ressonância acompanhou o fluxo sanguíneo para cada parte do cérebro à medida que as histórias progrediam, detectando que partes do órgão reagiam com maior intensidade a cada palavra.

Um algoritmo foi usado para modelar os resultados, revelando um padrão comum às diversas leituras individuais. O resultado mostrou que o processamento semântico se espalha por mais de 100 regiões do cérebro, e que há associações tanto anatomicamente próximas – uma região estimulada pelas palavras “mãe” e “gravidez” é contígua a outra estimulada também por “mãe”, mas ainda por “casa” – quanto distantes: a palavra da língua inglesa “top” – que pode significar alto, elevado, e também é o nome de uma peça de roupa – ativou áreas ligadas a números, mas também outras, mais distantes, que respondem a termos de vestuário e de arquitetura. Também foram encontradas conexões funcionais: uma palavra visualmente descritiva, como “listrado”, ativou uma área bem próxima ao córtex visual. No geral, as representações se distribuíram por ambos os hemisférios cerebrais.

“Nossos resultados sugerem que a maioria das áreas dentro do sistema semântico representa informação sobre domínios semânticos específicos, ou grupos de conceitos relacionados, e nosso atlas mostra quais domínios são representados em cada área”, escrevem os autores, vinculados ao laboratório do pesquisador Jack Gallant, da Universidade da Califórnia, Berkeley. “Este estudo demonstra que métodos de uso intensivo de dados – comuns em estudos de neuroanatomia e conectividade funcional em humanos – oferecem meios poderosos e eficientes para mapear representações funcionais no cérebro”. (Leia esta e outras notas -- incluindo novidades sobre o sono dos dragões e a memória das plantas -- no Telescópio do Jornal da Unicamp.)

quinta-feira, 28 de abril de 2016

Equação "arqueológica" de Drake

Dois pesquisadores dos Estados Unidos publicam, numa edição recente do periódico Astrobiology, uma nova versão da Equação de Drake -- que eles chamam de versão "arqueológica" -- cujo cálculo produz a estimativa de que, se a chance de um planeta abrigar vida inteligente for maior do que o número estupidamente pequeno de 10-24,então nós, primatas terrestres, não somos a primeira e única civilização a emergir no Universo.

A Equação de Drake original, elaborada em 1961 por Frank Drake, multiplica uma série de fatores -- como a taxa de formação de estrelas no Universo, a proporção dessas estrelas que contém planetas, a proporção de planetas que são habitáveis, a proporção de planetas habitáveis que contém vida, etc., etc, para gerar uma estimativa do número de outras civilizações presentes no cosmo.

Como a preocupação principal de Drake era a SETI -- busca por inteligências extraterrestres -- sua equação incluía ainda um fator que tentava levar em conta a durabilidade de uma civilização: afinal, não dá para entabular conversa com um povo que se autodestruiu (via holocausto nuclear ou aquecimento global, digamos).

Em seu paper, os autores Adam Frank e Woodruff Sullivan notam que, primeiro, muitos dos fatores que, na época de Drake, eram altamente especulativos e precisavam ter seus valores chutados -- taxa de estrelas com planetas, taxa de planetas em zona habitável -- hoje em dia podem ser fixados numa precisão maior: com cerca de 2000 planetas descobertos desde 1988, hoje essas estimativas foram promovidas da categoria de "chute desesperado" para a de "chute calculado". Frank e Sullivan fixam essas proporções em aproximadamente 1 (ou seja, praticamente um planeta por estrela) e 0,2 (20% dos planetas em zona habitável). Para quem acha exagerada a estimativa de haver tantos planetas quanto estrelas no Universo, os autores se respaldam com um trabalho publicado na Nature.

Em segundo lugar, eles propõem uma versão da equação que seja independente do fator tempo, trocando a taxa de formação de estrelas pelo número total de estrelas no Universo observável (2x1022) e eliminando o fator de durabilidade das civilizações. O resultado é a tal "equação arqueológica": o número, não de civilizações contemporâneas à nossa, mas de civilizações na totalidade do espaço-tempo observável.

Se esse número for ajustado para 1 -- uma única civilização (a nossa) em toda a história do Universo -- então a chance de outros planetas habitáveis desenvolverem vida inteligente tem de ser menor que 2,5x10-24. E esse número é pequeno? Muito. A chance de acertar a Mega-Sena, por exemplo, é da ordem de 2x10-8.

Os autores chamam o valor calculado de "limite do pessimismo" quanto à existência de outras civilizações no cosmo. Eles então recalculam esse "limite" para volumes de espaço menores que a totalidade do Universo observável, chegando ao número de 1,7x10-11 para a Via -Láctea. Sobre isso, escrevem: "O significado é que outra espécie tecnológica provavelmente ocorreu na história da Via-Láctea se a probabilidade de uma espécie tecnológica emergir num dado planeta de uma zona habitável for maior que uma em 60 bilhões" (grifo no original).

O que isso tudo quer dizer? Na prática, para além do exercício imaginativo, muito pouco: a "Equação Arqueológica de Drake", por mais que busque fixar alguns dos termos da "velha" equação que dependiam de intuições subjetivas, acaba introduzindo uma nova intuição subjetiva que precisa ser chutada ao gosto do freguês: a da probabilidade de emergência de civilizações tecnológicas em planetas habitáveis. Há algum motivo concreto para imaginar que, na Via-Láctea, ela seja menor, ou maior, que o "limite do pessimismo" de 1,7x10-11? Isto é "apenas" mil vezes mais difícil do que ganhar na Mega-Sena, mas e daí?

E não estou dizendo que exercícios imaginativos sejam inúteis. Não escreveria ficção científica se fossem -- e a ideia de artefatos arqueológicos alienígenas boiando pelo espaço (ou enterrados nas areias de outros mundos) é uma das que mais me fascina (ganhei meu primeiro Prêmio Argos com um conto a respeito disso, aliás).

Além disso, esse exercício põe uma questão curiosa em foco, a do papel da inteligência tecnológica na evolução da vida. Há uma ideia ingênua de que a inteligência do tipo humano seria uma espécie de "ponto de chegada" da evolução, mas não há nenhum motivo para se supor isso. Se a biosfera terrestre servir de exemplo, a evolução de olhos, asas e nadadeiras é muito mais comum, e sob diversos aspectos muito mais útil, que a de cérebros capazes projetar naves espaciais.

sexta-feira, 22 de abril de 2016

Algoritmo Big Brother

Estudo realizado em conjunto por pesquisadores do Google e da Universidade Columbia mostram que bastam duas postagens georreferenciadas, em redes sociais diferentes, para que se possa descobrir a identidade de um usuário da internet. O trabalho foi publicado na plataforma ACM Digital Library e apresentado na Conferência World Wide Web, realizada em meados de abril em Montreal.

Os autores criaram um algoritmo que compara postagens georreferenciadas feitas no Twitter a publicações no Instagram e no Foursquare, tentando identificar contas mantidas pela mesma pessoa. O sistema desenvolvido calcula a probabilidade de uma pessoa, postando na rede “A” num determinado local e horário, também postar na rede “B” em outro local e horário.

Os pesquisadores descobriram que o mesmo algoritmo pode identificar consumidores, ao sobrepor registros anônimos de uso de cartão de crédito à localização de telefones celulares individuais em relação às torres de transmissão. 

O sucesso do algoritmo mostra que a mera remoção dos dados explicitamente pessoais, como o nome, da chamada metadata – informações genéricas, como origem geográfica e horário de uma operação digital – não basta para garantir a privacidade dos usuários de sistemas eletrônicos. (Leia outras notas sobre novidades científicas no Telescópio).

quarta-feira, 20 de abril de 2016

Compreensão gera atração

Sermos capaz de compreender, facilmente, como uma pessoa se sente aumenta a atração que sentimos por ela, diz estudo publicado no periódico PNAS. “Seres humanos interagindo com outros seres humanos precisam ser capazes de entender as motivações e afetos do parceiro de interação, frequentemente sem troca de palavras”, escrevem os autores, de instituições alemãs.

Na realização da pesquisa, pediu-se a 92 voluntários do sexo masculino que assistissem a clipes de vídeo representando mulheres em diferentes manifestações de emoção. Os voluntários deveriam descrever qual a emoção representada, e qual o nível de confiança que tinham na descrição feita. Para determinar o nível de atração, pediu-se aos homens que ajustassem o “zoom” de uma foto de cada mulher até uma distância que lhes parecesse “confortável”. Houve correlação entre o grau de confiança na descrição da emoção e o índice atratividade.

Além disso, os pesquisadores submeteram os voluntários à ressonância magnética funcional do cérebro, e descobriram que os níveis elevados de certeza quanto à descrição emocional e o alto índice de atração correlacionavam-se também à ativação de áreas de recompensa do cérebro.

(Nota extraída da coluna "Telescópio", do Jornal da Unicamp, em homenagem aos tempos bicudos em que vivemos)

sexta-feira, 15 de abril de 2016

Este blog não vai curar seu câncer

Uma objeção que encontro com frequência cada vez maior, toda vez que me posiciono sobre a histeria da fosfoetanolamina/"pílula do câncer" que vem se propagando com a cumplicidade irresponsável de parte da mídia e, agora, do próprio governo, é a de que "não se deve negar nenhuma esperança de saúde a pacientes de câncer".

A frase, e variações que dizem em essência  a mesma coisa, é postada em redes sociais e aparece em caixas de comentário, muitas vezes acompanhada da insinuação -- ou a acusação direta -- de que só um monstro insensível ou um tecnocrata arrogante com uma planilha Excel no lugar do coração poderia pensar em negar a um doente "uma chance de cura".

O que há de errado nesses apelos ao sentimento? Duas coisas.

Primeiro, ele deixa em aberto o ponto crucial de quem decide o que é "esperança de saúde" ou "chance de cura". Basta dar na EPTV? Se eu sair por aí falando que as romãs do meu jardim curam câncer, isso vira uma "esperança de saúde" para os pobres coitados que acreditarem em mim? Como separamos "esperanças" e "chances" verdadeiras de fraudes, mentiras, enganos?

Segundo: o apelo ao sentimento faz vistas grossas ao mal que certas falsas esperanças e chances impossíveis trazem, não só ao paciente, mas à sociedade em geral.

O título desta postagem é inspirado no da obra This Book Won't Cure Your Cancer, autobiografia do jornalista britânico Gideon Burrows. Diagnosticado com um câncer inoperável no cérebro que vai crescer inexoravelmente atá matá-lo, Burrows relata, no livro, como foi pressionado por amigos e parentes a tentar "qualquer coisa" contra a doença porque, afinal, "uma esperança é melhor que nada".

Primeiro, Burrows menciona como algumas pessoas insistiram para que ele procurasse um cirurgião que aceitasse operar seu cérebro, mesmo depois de três outros -- o médico do sistema público de saúde, depois um especialista particular e, por fim, um professor universitário -- terem declarado que o câncer era inoperável. Não seria melhor continuar em busca de alguém que lhe desse esperança?

A resposta do autor: dada a unanimidade dos diagnósticos e prognósticos anteriores, qualquer médico que olhasse para os exames e chegasse a uma conclusão diferente seria, muito provavelmente, um charlatão ou um incompetente. Melhor ficar longe desse tipo de gente.

Em seguida, ele fala dos amigos e colegas que vinham sugerir "qualquer coisa" -- mudanças de dieta, ervas, o curandeiro que ajudou a tia Petúnia -- e filosofa sobre como essa ideia de que, no desespero, "qualquer coisa" é válida não faz o menor sentido: e se me dissessem que estourar cem balões vermelhos vai curar meu câncer, eu deveria estourá-los?, pergunta-se. Claro que não, responde, porque é absurdo. Aqui vale a pena citar suas palavras literais:

"Não posso culpar as famílias que sofrem, os pacientes que estão morrendo, aqueles que quando perdem tudo, buscarão qualquer coisa que lhes seja oferecida (...) Mas quem nos oferece aquela qualquer coisa sem um fundamento preciso, correto e responsável tira vantagem de nosso desespero e de nossas esperanças. A vulnerabilidade dos pacientes de câncer e de seus entes queridos dá um poder enorme a quem se propõe a oferecer uma cura ou um tratamento. Quem tem esse poder deve ser obrigado a prestar contas de como o obteve e de como o utiliza". 
 Mais adiante, no que soa quase como uma prefiguração do "caso fosfo" brasileiro, com o incrível investimento de R$ 10 milhões liberados para a pesquisa da substância num momento de intensa restrição orçamentária para a ciência nacional, escreve:

"Quanto da pesquisa legítima sobre câncer é desacelerada por causa da presunção imerecida de poder daqueles que tomam para si os pacientes e o dinheiro de que a pesquisa legítima tão desesperadamente necessita?"
E este outro trecho, que parece sob medida para descrever os efeitos dos "20 anos de distribuição gratuita" da "fosfo" e o impacto dos depoimentos de pacientes satisfeitos, colhidos nesse tempo:

"Em vez de provar que terapias alternativas funcionam, depoimentos pessoais são os inimigos da prova. Primeiro, oferecem aos pacientes de câncer uma visão enviesada da eficácia do tratamento alternativo, escondendo possíveis falhas e fraquezas da terapia. Depois, a publicação exclusiva de depoimentos pessoais rouba da ciência estatísticas e informações que permitiriam aos médicos avaliar como todos os pacientes (e não apenas os que deixam testemunhos) reagem e tratam o câncer. Isso impede que pesquisadores tenham uma visão mais correta do que funciona e do que não funciona".

Enfim, o problema fundamental com a afirmação de que "qualquer esperança de saúde" é válida é que é quase impossível separá-la de uma espécie de salvo-conduto para que gente mal intencionada, vaidosa ou que simplesmente não sabe do que está falando saia por aí vendendo ou empurrando esperanças falsas e, no limite, destruindo a saúde e o patrimônio de vidas fragilizadas.

Repetindo as palavras de Burrows: "quem nos oferece aquela qualquer coisa sem um fundamento preciso, correto e responsável tira vantagem de nosso desespero e de nossas esperanças". E a "fosfo" carece, exatamente, de "um fundamento preciso, correto e responsável". Só o que se tem são meia dúzia de estudos em linhagens celulares e em camundongos, com dados insuficientes, até mesmo, para que se iniciem testes eticamente responsáveis em seres humanos.

Para o senso-comum que defende a "crença na crença" -- a ideia de que acreditar em alguma coisa, mesmo que seja bobagem, é melhor do que encarar fatos dolorosos -- isso talvez não seja, em princípio, um problema. Fazendo um rápido mea-culpa, eu mesmo nunca escrevi uma palavra contra a garrafada de babosa do frei Romano Zago, por exemplo, embora seu livro Câncer Tem Cura! seja um compêndio bastante didático de falácias lógicas e embaraços pseudocientíficos.

Sobre a "crença na crença", Edzard Ernst, um pesquisador especializado em terapias alternativas,
resume a situação numa equação: A+B > A. Com isso, ele quer dizer que uma terapia convencional ("A") somada a uma terapia alternativa ("B") quase sempre tem um impacto na saúde do paciente um pouco superior ao da terapia convencional sozinha, mesmo se a terapia "B" for objetivamente inútil, só por causa do efeito placebo -- o conforto psicológico de estar recebendo algo "especial".

Esse sistema, no entanto, depende de um equilíbrio hierárquico bastante preciso entre "A" e "B". O caso da "fosfo" -- insuflado por uma mídia irresponsável, abraçado por políticos ignorantes e desesperados -- quebrou esse equilíbrio de modo perigoso. De repente, muita gente começa a acreditar que "B" é melhor, vale mais, é superior a "A". Sugere-se que as pessoas abandonem "A", para que "B" possa funcionar. Indícios de que a "B" é inútil ou prejudicial são ignorados. E, no lance vexaminoso dessa semana, o próprio sistema legal de controle sanitário se vê sabotado, bem como os protocolos científicos, que existem por um bom motivo.

Voltando ao texto de Burrows:

"Se existe uma linha entre qualquer coisa que devemos tentar e as quaisquer coisas que não devemos, se existe uma linha entre quaisquer coisas que são ridículas e quaisquer coisas que não são ridículas, quem traça a linha? Quem decide? (...) Existe algo que traça uma linha mais clara: chama-se pesquisa científica".

Antes, no início do livro, ele escreve: "Descobri rapidamente que o mundo do câncer é um lugar vulnerável. É preciso força de vontade para resistir a pérolas de informação que presumem a própria validade, quando na verdade não têm nenhuma". Em minha humilde opinião, o governo, a mídia e a sociedade em geral deveriam estar somando suas forças a esse esforço de resistência, e não trabalhando de modo tão ativo contra ele.

quinta-feira, 14 de abril de 2016

"Fosfo" sancionada: golpe nos outros é refresco

O Estado brasileiro -- e este é um ato de Estado, já que contou com a cumplicidade das duas Casas Legislativas, da Presidência da República e, anteriormente, de setores expressivos do Judiciário -- acaba de abraçar a aclamação popular como critério para a liberação de medicamentos. Com a canetada final da (ainda) presidente da República Dilma Rousseff, publicada no Diário Oficial da União, o Brasil volta aos tempos das sangrias, dos purgativos à base de metais tóxicos e dos calmantes para cólica infantil feitos de álcool e morfina: à época, enfim, em que a presença de um medicamento no mercado não era ditada por critérios de segurança e eficácia, mas pelo poder de marketing do fabricante e pela convicção popular.

A partir desta quinta-feira, 14 de abril de 2016, é legal " uso da substância fosfoetanolamina sintética por pacientes diagnosticados com neoplasia maligna", bem como "a produção, manufatura, importação, distribuição, prescrição, dispensação, posse ou uso da fosfoetanolamina sintética, direcionados aos usos de que trata esta Lei, independentemente de registro sanitário".

A lei passa por cima de 110 anos de regulamentação sanitária e controle de medicamentos, normas criadas inicialmente nos Estados Unidos para evitar que cidadãos desavisados fossem enganados, roubados e até mesmo envenenados por charlatões.

Foi um processo lento, combatido duramente pela indústria (e, em alguns casos, até mesmo por médicos e pacientes) a cada passo: primeiro, começou-se a exigir prova de segurança (que o medicamento não faria mal); depois, de eficácia (que realmente produz os benefícios que promete); bem mais recentemente, instituíram-se mecanismos de vigilância para controlar efeitos colaterais.

Claro, o sistema nunca foi perfeito. Testes de segurança e eficácia podem dar resultados falsos; cientistas vinculados a empresas interessadas podem ser tentados a esconder dados negativos. E uma intensa pressão política contrária às regulamentações foi, ao longo do tempo, fazendo surgir exceções, categorias de produtos mantidas à margem de uma ou mais dessas regras: terapias "alternativas", "vitaminas", suplementos alimentares, cosméticos, tratamentos estéticos. Toda uma linguagem melíflua, toda uma semântica enganosa foi criada para permitir que a publicidade de certos produtos prometa benefícios à saúde sem, de fato, prometê-los ao pé da letra, esquivando-se, assim, das regras.

Com a sanção da lei 13.269, o Brasil dá um passo além -- ou, melhor dizendo, aquém -- nessa histórica corrida armamentista entre defesa do consumidor, defesa da saúde pública, ética científica, ética da comunicação, ganância, ignorância e charlatanismo: nossos representantes eleitos não se limitaram a relaxar os critérios racionais para a aprovação de medicamentos: eles decidiram claramente contra esses critérios.

Em sua preocupação com a saúde e o bem-estar do povo brasileiro, por exemplo, o legislador e a cúpula planaltina se esqueceram de definir o que querem dizer com "fosfoetanolamina sintética": seria o pó branco preparado segundo a receita patenteada pelo grupo de São Carlos? Mas laudos do Instituto de Química da Unicamp provam que esse "pó" contém apenas 32% de fosfoetanolamina real.

Seria fosfoetanolamina produzida por meio de síntese química -- "sintética", portanto --, independentemente do processo? Mas laudos da Universidade Federal do Ceará e do Centro de Inovação e Ensaios Pré-Clínicos de Santa Catarina mostram que essa molécula, por si só, é inútil contra o câncer. E quem vai garantir a pureza e a qualidade da substância encapsulada, já que o sistema nacional de vigilância sanitária foi contornado?

A ciência é bem clara. Mesmo supondo a hipótese improvável que novos testes venham a dar resultados positivos, a verdade é que, diante da informação disponível até agora, só o que se tem a favor do uso da "fosfo" contra o câncer são depoimentos de sobreviventes (uma amostra enviesada, já que os mortos não falam) e os protestos de uma minoria de cientistas convictos, todos altamente investidos -- no sentido emocional ou, mesmo, comercial -- no sucesso da substância.

Por esses mesmos critérios, purgantes e sangrias deveriam curar febre amarela e morfina com conhaque é um sedativo leve e inofensivo. E são esses os critérios que o Congresso Nacional e a Presidência da República elegeram como fundamentais. Há, claro, o clamor popular, neste caso insuflado por desespero e desinformação: à autoridade responsável caberia oferecer informação correta e apontar as esperanças reais, não ceder covardemente.

E, até aí, também há clamor pelo impeachment. É, no mínimo, constrangedor ver um governo que, para sobreviver, se bate por uma interpretação estrita das leis estabelecidas e se levanta contra eventuais interpretações casuísticas de determinadas cláusulas decidir, de repente, relativizar leis estabelecidas e sancionar um projeto casuístico. Fica claro que o que importa não é a lei, mas a sobrevivência. E a sobrevivência do mandato, não a dos pacientes de câncer, as maiores vítimas desse desacerto federal.

segunda-feira, 11 de abril de 2016

Simulação produz ribose em gelo de cometa

Ribose, um açúcar essencial para a estrutura do RNA, pode ser produzido no espaço por meio da irradiação de pedaços de gelo cósmico com a luz das estrelas, afirma artigo publicado na revista Science

“A ribose é a subunidade molecular central do RNA, mas sua origem abiótica é desconhecida”, lembram os autores, vinculados a instituições da França, México e Dinamarca. O RNA é essencial para a vida como existe na Terra, e cientistas acreditam que essa molécula pode ter desempenhado um papel fundamental na própria origem de nossa biosfera. 

O artigo prossegue: “Observamos a formação de quantidades substanciais de ribose e de uma diversidade de açúcares estruturalmente relacionados” entre os resíduos orgânicos obtidos em um gelo, produzido em laboratório, análogo ao existente no espaço interestelar, depois de o material ter sido tratado com radiação ultravioleta e aquecido. Esses resultados, lembram os autores, são consistentes com análises da superfície glacial do cometa 67P/Churyumov–Gerasimenko (imagem), feitas pela sonda espacial Philae. (Leia o restante desta nota, e outras, no Telescópio da semana)