sábado, 3 de dezembro de 2016

Espíritos e ETs

Pouco lembrada hoje em dia, a médium francesa, de origem húngara, Catherine-Elise Müller (1861-1929) ficou famosa no início do século 20, sob o pseudônimo de Hélène Smith, por conta de sua comunicação espiritual com o planeta Marte, onde encontrou almas transmigradas da Terra vivendo românticas aventuras. Müller/Smith chegou a psicografar um alfabeto marciano completo, que reproduzo abaixo, a partir do livro Error and Eccentricity in Human Belief, de Joseph Jastrow:


O estudo clássico do fenômeno Hélène Smith foi realizado pelo psicólogo suíço Théodore Flournoy, uma figura que chegou a influenciar o pensamento de C.G. Jung. Flournoy demonstrou que a "língua marciana" psicografada tinha a mesma estrutura do francês, e atribuiu os transes marcianos da médium a uma mistura de imaginação e criptomnésia -- o fenômeno que ocorre quando demonstramos ter um conhecimento mas não nos lembramos de onde ou como o adquirimos.

Quando Flournoy publicou seu livro sobre Smith, Da Índia ao Planeta Marte (outros transes da médium davam conta de encarnações no subcontinente indiano), em 1899, os dois temas -- Índia e Marte -- estavam na moda.

O romance A Guera dos Mundos, de HG Wells, havia sido publicado em 1897, inspirado nas notícias sobre os "canais" de Marte que teriam sido avistados por astrônomos na Europa e nos Estados Unidos. A possibilidade de comunicação com seres inteligentes em Marte era seriamente considerada no meio científico.

Já a Índia, vista como uma terra "exótica" e "mística" era alvo de intenso interesse ocidental, seja por conta da obra de autores como Rudyard Kipling ou do apelo de doutrinas como a teosofia, que prometia fundir a sabedoria do Ocidente à do Oriente e cujos líderes diziam receber revelações de mestres hindus.Em seu livro A Doutrina Secreta, de 1888, a fundadora da teosofia, Helena Blavatsky afirmava que seres espirituais originários do planeta Vênus haviam interferido na evolução da vida terrestre.

O sincretismo entre espiritualidade e ufologia, portanto, vem de longa data. Há também versões no espiritismo brasileiro, como a história dos Exilados de Capela, descrita em livro publicado em 1949, em que bilhões de espíritos de habitantes da estrela Capela teriam sido exilados para a Terra.


Curiosamente, essa narrativa tem pontos de contato com a história de Xenu, parte da doutrina da Cientologia, segundo a qual as almas de rebeldes da Federação Galáctica foram banidas para o nosso planeta. É curioso notar que a versão brasileira, publicada por Edgard Armond (1894-1982) antecede em mais de uma década a cientológica, que teria sido elaborada por L. Ron Hubbard nos anos 60.

Mais uma vez, como no caso das comunicações mediúnicas de Müller/Smith, a revelação espiritual vem a reboque do zeitgeist: o livro de Armond aparece dois anos depois do início da febre ufológica, desencadeada pelos discos voadores supostamente avistados pelo piloto americano Kenneth Arnold em 1947; e a versão de Hubbard teria sido composta em 1966, quando os tropos da transmigração de almas e vida alienígena já faziam parte do imaginário pop há décadas.Eram os Deuses Astronautas, o livro de Erich von Däniken sobre alienígenas interferindo na história humana, sairia em 1968.

Esses episódios não são únicos: o primeiro caso de "abdução alienígena" a ganhar a mídia, envolvendo o casal Betty e Barney Hill, em 1961 -- o casal descreveu suas experiências em detalhe após ser hipnotizado em 1964 -- costuma ser comparado a episódios da série de TV The Outer Limits, que ia ao ar na mesma época e que apresenta extraterrestres de cabeça inchada e olhos puxados, protótipos dos clássicos "cinzentos" da mitologia ufológica (abaixo, imagens dos episódios The Bellero Shield e The Children of Spider Country, ambos apresentados em 1964, semanas antes da sessão de hipnose do casal Hill):



Há mais de um século, Flournoy já via com desconfiança "revelações" que pareciam se encaixar bem demais no espírito dos tempos, preferindo atribuí-las à criptomnésia e à imaginação. Não são só as histórias que não fazem sentido que devem ser recebidas com ceticismo: as que parecem fazer sentido demais, segundo as crenças e preconceitos da época, também merecem escrutínio especial.

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Princípios darwinianos inspiram algoritmos

Mecanismos que atuam na evolução por seleção natural dos seres vivos podem ajudar a descobrir soluções para problemas de diversos tipos, incluindo questões sobre a estrutura de redes de telecomunicação e, até, um problema eminentemente econômico: como otimizar o resultado de um leilão de concessão pública. É o que mostra a tese de doutorado “Algoritmos evolutivos para alguns problemas em telecomunicações”, defendida por Carlos Eduardo de Andrade no Instituto de Computação (IC) da Unicamp, e orientada pelo professor Flávio Keidi Miyazawa, do mesmo instituto, e Mauricio G. C. Resende, do Departamento de Planejamento e Otimização Matemática, da Amazon.com, nos Estados Unidos.

“Um algoritmo evolutivo é um método de resolução de problemas inspirado nos princípios darwinianos de evolução”, disse Andrade. “Em geral, um algoritmo evolutivo utiliza, como metáforas, os mecanismos biológicos de reprodução, mutação, recombinação e seleção natural através da aptidão. Tais mecanismos são simulados pelo algoritmo evolutivo, com o objetivo de resolver um problema específico. Existem diversas variações desses algoritmos, e nem sempre todos mecanismos evolutivos são usados. Algoritmos genéticos, em geral, fazem o uso completo das metáforas”.

A tese explica como possíveis soluções para um problema podem ser codificadas em “cromossomos” virtuais, cada um deles dotado de uma função de aptidão, uma medida de sua qualidade em relação ao problema tratado – por exemplo, qual a forma mais eficiente de conectar uma série de pontos numa rede. Assim como os cromossomos dos seres vivos, os virtuais contêm “alelos”, isto é, diferentes versões de um mesmo gene – ou, no caso, de uma mesma parte da solução.

“O passo evolutivo consiste em construir uma nova população, combinando os indivíduos da população atual, selecionando alelos deles para criar prole”, escreve Andrade em seu trabalho. “Um passo adicional, chamado ‘mutação’, é aplicado com baixa probabilidade, quando um alelo é escolhido e modificado ao acaso. A grande vantagem do algoritmo genético é combinar duas ou mais diferentes soluções”. Mais adiante, acrescenta: “Usando o conceito de operadores genéticos e hereditariedade, algoritmos genéticos são capazes de combinar partes de boas soluções mantê-las ‘vivas’”. [Leia a entrevista completa no Jornal da Unicamp]

terça-feira, 29 de novembro de 2016

Estudando sob estresse

Que pessoas submetidas a situações de estresse – como provas decisivas – tendem a ter mais dificuldade em lembrar informação decorada, todo vestibulando sabe. Mas uma pesquisa publicada na revista Science sugere que uma técnica especial de estudo facilita a rememoração, mesmo em condições estressantes: depois de estudar um assunto, esforçar-se em relembrar os pontos vistos, mas em princípio sem rever ou reler material original.

O trabalho, de autoria de pesquisadores da Universidade Tufts, em Boston (EUA), comparou o desempenho, sob estresse, de voluntários que se dispuseram a tentar decorar listas de palavras e imagens por meio de uma estratégia comum – relendo-as ou revendo-as seguidas vezes – ou pelo método de “treino de memória”, esforçando-se para lembrar o conteúdo, numa espécie de sequência de testes simulados. O segundo grupo se saiu melhor.

“Participantes que aprenderam por estudo repetido demonstraram o típico prejuízo causado na memória pelo estresse”, diz o artigo. “Já os que aprenderam pelo treino de rememoração ficaram imunes aos efeitos deletérios do estresse. Estes resultados sugerem que os efeitos do estresse no acesso à memória podem ser contingentes à força das representações de memória em si”. O estudo está publicado em http://science.sciencemag.org/content/354/6315/1046 , e esta nota faz parte do Telescópio do Jornal da Unicamp.

domingo, 27 de novembro de 2016

E o jornalismo que era bom virou marketing ruim

O caderno Fovest, da Folha de S. Paulo, publicou matéria neste domingo sobre os hábitos de consumo de informação dos vestibulandos mais bem-sucedidos no exame mais concorrido do Brasil, a Fuvest, que seleciona estudantes para a Universidade de São Paulo (USP), não só geralmente considerada a melhor do país como a que aparece, na maioria dos rankings internacionais, de modo consistente, com a primeira ou segunda melhor da América Latina, e também para a Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa.

O produto final, tal como editado e publicado, representa uma das mais desesperadas tentativas de transformar limão em limonada e maquiar o virtual desaparecimento da mídia impressa do radar de relevância da juventude jamais vistas. Sério, é de dar pena. Olhando o modo como os dados foram apresentados, é difícil decidir qual o alvo da manobra de marketing -- se o veículo, afinal, esconde a verdade de seus leitores ou de si mesmo.

Aos números. Eles mostram que maioria esmagadora dos candidatos à Fuvest consome notícias online (85% dos aprovados, ante 78% dos reprovados, dentro da margem de erro declarada de 4 pontos), que 45% dos aprovados na Fuvest leem a Folha, especificamente (ante 43% dos reprovados), e que apenas 2% dos aprovados não leem jornal nenhum, mesma taxa dos reprovados e dos não-vestibulandos. Outro dado curioso é que, na classe C, 90% dos aprovados consomem noticiário online. Entre os não-vestibulandos, apenas 37% dos jovens disseram ler a FSP.

Então, 98% dos entrevistados disseram ler algum tipo de jornal. Uma maioria impressionante dos vestibulandos bem-sucedidos (17 de cada 20) consome informação via internet; e tanto a maioria dos aprovados (55%) quando dos reprovados (58%) não leem a Folha, sendo que a diferença entre os dois grupos, nesse quesito, está bem dentro da margem de erro declarada, de 4 pontos.

Esses dados, somados ao fato de apenas 37% dos jovens não-vestibulandos consumirem o jornal, apontam duas conclusões: que a leitura (ou não) da Folha é irrelevante para o desempenho no vestibular -- já que tanto a maioria dos que passam quanto a maioria dos que não passam ignoram o jornal --, mas que ser vestibulando estimula a leitura da Folha. Enfim, o mantra "leia jornal para se informar para o vestibular" fica reduzido a mera superstição.

Conclusões fortes demais para poucos dados, você diz? Mas então, que tal a chamada que a FSP fez na capa, acima da manchete da morte de Fidel Castro -- acima da notícia da morte de Fidel Castro! --  sobre o assunto?


Uma primeira leitura apressada (olhe o colorido "Leia & Passe" aí em cima ) sugere que o jornal está afirmando que basta ler a Folha para ser aprovado no vestibular. Não, em nenhum momento isso é dito com todas as letras, como em nenhum momento dos comerciais cerveja é dito com todas as letras que o barrigudo que bebe as marca "X" vai ficar com a morena de biquíni dourado. Mas é o que o mise-en-scène sugere.

Aliás, afirmação contida na chamada ("Datafolha mostra que acompanhar noticiário aumenta chance de ser aprovado no vestibular da USP") é, se não negada, pelo menos fatalmente enfraquecida no corpo do texto: se os editores cederam à musa do marketing de desespero, o autor da matéria (não assinada) pelo menos preservou algum brio. O texto interno do jornal ouve especialistas que apontam, corretamente, que não é impossível inferir causação a partir da (alegada, suposta) correlação entre leitura de jornais/aprovação no vestibular. Para ficar em dois trechos, o primeiro da fala de uma economista da USP:



O segundo, de uma educadora do Instituto Inspirare, ainda tenta puxar um pouco a brasa para a sardinha do jornal, ao concluir que "estar bem informado ajuda na vida". Mas isso é uma platitude, um truísmo, do tipo "comer bem ajuda a manter a saúde":


Enfim, a edição vende uma tese marqueteira -- a de que ler jornal (a FSP, especificamente) ajuda a passar no vestibular -- que os números, mesmo torturados até o ponto da agonia, não sustentam. Mas talvez o verdadeiro alvo da reportagem sejam não os leitores,e sim os anunciantes? Porque também somos brindados com este gráfico, a respeito dos hábitos dos aprovados na USP:


Que é mais um recado para o mercado publicitário do que para o pobre assinante, que põe a mão no bolso para ler uma página de cabotinismo marqueteiro em plena manhã de domingo.

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Racionalidade é dever moral?

Ética da Crença é o título de um ensaio escrito no século 19 pelo filósofo e matemático britânico William Clifford, em que ele afirma que "é errado, sempre e em qualquer lugar, acreditar em alguma coisa com base em evidência insuficiente". Um dos pontos centrais do argumento de Clifford era a parábola (por assim dizer) do barqueiro devoto: um homem que acredita, com tamanha fé, que Deus protege seu barco que se recusa a realizar os trabalhos mínimos de manutenção (afinal, o que é o talento de um mero barqueiro diante da mão protetora da Onipotência?). Mas um belo dia o barco afunda, matando todos a bordo.

O senso-comum  diria que a culpa foi da negligência do barqueiro, mas Clifford insiste que a culpa foi da crença: o barqueiro acreditava, do fundo do coração, que Deus protegia seu barco, e sua negligência foia penas uma consequência lógica disso. Ele só foi negligente porque foi coerente com sua fé. A tragédia foi o fim inevitável de uma cadeia lógica iniciada pela crença sem base em evidências.



Ética da Crença atraiu uma crítica furiosa de outro filósofo, o americano William James -- não só um dos pais da psicologia moderna como campo de estudo independente, mas também um ardente patrocinador de estudos de mediunidade -- que ponderou, entre outras coisas, que todo mundo age com base em crenças sustentadas em evidência insuficiente: toda vez que abre uma porta e entra numa sala, por exemplo, você age com base na crença de que não há um assassino esperando-o ali de emboscada, mas qual sua evidência para isso?

O debate Clifford-James constitui, de certa forma, o pano de fundo do debate entre céticos e crentes, racionalistas e esotéricos, ateus e devotos, positivistas-cientificistas e relativistas pós-modernos que se desdobra desde então. "Proporcionar a crença à evidência" soa como uma espécie de solução de compromisso, mas ainda assim a questão de o que conta como "evidência" e qual o termo de proporcionalidade a ser aplicado ainda consume muita tinta (e teclado, e cerveja, e fritas). 

Algo saliente na exposição de Clifford, no entanto, é sua insistência na ideia de que a crença sem prova é imoral. Não apenas errada -- no sentido de que 2+2=5 é errado -- ou contraproducente, mas uma violação de deveres éticas, como as obrigações de respeitar o próximo, de não roubar e matar. Isso não seria um exagero?

Se for, trata-se de uma hipérbole popular. Um conjunto de oito estudos, consolidado em artigo publicado no periódico online PLoS ONE, propõe exatamente uma Escala de Racionalidade Moralizada (MRS, na sigla em inglês), que avalia o quanto uma pessoa considera que usar lógica e evidência na formação de crenças é uma virtude -- e uma obrigação -- moral.

Os autores, psicólogos baseados nos Estados Unidos e Reino Unido, afirmam que seus resultados mostram que a MRS é estável, consistente e se liga estatisticamente a outras posturas – por exemplo, um algo grau de MRS tem correlação negativa com religiosidade ou crença no paranormal. Além disso, pessoas com alto MRS tendem a ver outros, que mantêm crenças consideradas irracionais, como menos morais, buscam se afastar deles, evitá-los ou, em certos casos, gostariam de vê-los punidos.

“A intensidade e persistência com que crenças tradicionais são defendidas contra conclusões científicas parte, acredita-se, da ligação íntima dessas crenças com os valores morais centrais das pessoas”, escrevem os autores. “No entanto, não são apenas os defensores moralmente motivados das crenças tradicionais que têm sido caracterizados como intolerantes nos debates. Defensores da ciência também foram chamados de estridentes, raivosos e intolerantes”.

"Os resultados atuais sugerem que não só os defensores de crenças tradicionais são impulsionados por sua convicção moral, mas que os motivos por trás dos defensores da ciência também podem ter natureza moral", ponderam os autores. "Estes resultados sugerem que eles podem ser motivados pela convicção de que é moralmente errado basear-se em crenças sem apoio em lógica ou evidência. Na medida em que esse é o caso, isso pode ajudar a explicar porque seu estilo argumentativo frequentemente soa raivoso e intolerante".

Pessoal com alta MRS, diz ainda o artigo, também se mostraram especialmente motivadas a doar dinheiro ou trabalho voluntário para organizações que combatem a disseminação de superstições e pseudociências. Os autores apontam ainda que a MRS é distinta de uma mera medição do grau de importância que o indivíduo dá à racionalidade. 

O artigo pode ser lido em http://journals.plos.org/plosone/article?id=10.1371/journal.pone.0166332 .


[Esta postagem incorpora e expande informações da Coluna Telescópio do Jornal da Unicamp]

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Congelado para o futuro: round 2016


"Criônica" é o nome dado à tecnologia/crença/negócio de congelar corpos humanos inteiros, ou pelo menos o cérebro, com vistas à ressuscitação futura. Como dispositivo de enredo em obras de ficção, o tema já foi usado em praticamente todo tipo de história, mas também há empresas que oferecem serviços criônicos atuando no mundo real (dado o estado atual da tecnologia e as regras de proteção ao consumidor, elas não podem prometer ressuscitação, assim, com todas as letras, mas apenas vender o "serviço de custódia" do cadáver congelado). Já tratei desse assunto em outras oportunidades, mas dois artigos publicados no fim da semana passada me convenceram a voltar a ele.

O primeiro é do site The Engineer, sobre o caso de uma menina britânica de 14 anos que ganhou, na Justiça, o direito de ser congelada após a morte. De acordo com a notícia (que, por algum motivo, escapou aos ávidos caçadores de sensacionalismo da mídia nacional), "o veredicto veio pouco antes de ela morrer de câncer". O custo do "tratamento" em si, para além do translado do corpo para os Estados Unidos (onde fica a firma criônica) é estimado em 37 mil libras, o que, no momento em que digito esta postagem, equivale a algo como R$ 155 mil.

O site ouviu especialistas sobre o assunto. As críticas à criônica são antigas e conhecidas: com o congelamento, formam-se cristais de gelo no interior das células -- esses cristais são cortantes e pontiagudos. Além disso, a água se expande quando congelada, o que também não deve ser um processo agradável quando você é uma membrana celular tentando segurar o citoplasma lá dentro (ou tentando não ser esmagada pelo gelo que se forma lá fora).


É verdade que existem anticongelantes que evitam a formação de cristais, fazendo o gelo assumir uma conformação amorfa, como a do vidro, e não o aspecto de facas e agulhas. Também é verdade que esperma e embriões são congelados e reutilizados rotineiramente. Mas as fontes ouvidas por The Engineer ajudam  a pôr esses casos em perspectiva: "A criopreservação ainda não foi aplicada com sucesso a estruturas grandes como o rim humano para transplante", disse Barry Fuller, professor de cirurgia e medicina de baixa temperatura do University College London.

O processo não é bom para salvar um rim. O que dizer do corpo inteiro? Ou do órgão mais complexo que existe, o cérebro humano? Esse é o ponto do segundo artigo a que me referi no início, publicado pela revista New Humanist. De autoria do neurocientista Clive Coen, do King's College de Londres, a peça trata, especificamente, das perspectivas da criônica para o cérebro humano. "Spoiler": não são nada boas.

Coen explica que o congelamento de um cérebro, de modo a preservar sua integridade funcional, é uma corrida contra o tempo: primeiro, o anticongelante que deve evitar os danos causados pelos cristais de gelo tem de se infiltrar pelos bilhões de neurônios ao mesmo tempo em que o frio extremo se espalha. Segundo, o frio e o anticongelante têm de fazer seu trabalho antes que a falta de oxigênio, trazida pela morte, cause danos graves a regiões fundamentais do órgão, como as responsáveis pela memória (quem gostaria de acordar amnésico em 2216?).

"As junções entre as células que revestem os vasos sanguíneos do cérebro são especialmente apertadas; formam a barreira hematoencefálica, que protege este órgão vital durante a vida e impedirá a entrada dos agentes criônicos após a morte", aponta o cientista. "Capilares rompidos ou bloqueados atrasarão a perfusão local desses agentes, até que a pressão da bomba os rompa. Mais barreiras são representadas pela mielina, a substância gordurosa que cerca as rotas neuronais no interior e, também, entre os hemisférios do cérebro".

Outras dificuldades aparecem no impacto do congelamento sobre os neurotransmissores. Coen diz que os proponentes da criônica gostam de citar estudos sobre a preservação quase perfeita de cérebros de animais usando certos conservantes, mas lembra que esses conversantes são tóxicos.

No fim, a solução para os problemas trazidos pela criônica acabam sendo jogados no colo de alguma "tecnologia futura" -- nanotecnologia, por exemplo, para consertar neurônios quebrados ou repor neurotransmissores. Mas se é para esperar alguma mágica tecnológica do futuro, por que não contar com a ressurreição de nossas consciências por aliens capazes de extrair a informação estocada por emaranhamento quântico no interior de buracos negros? (Bom, isso talvez demore um pouco mais, é verdade).

Coen aponta ainda outro problema: se você espera não ser um pária ao acordar no futuro, será preciso que seus parentes e amigos se congelem, também: "Não é um esquema de pirâmide, é mais um esquema de iceberg", escreve.

terça-feira, 22 de novembro de 2016

O tombo de Plutão

Dois artigos na edição da última semana da revista Nature exploram explicações para características da Planície Sputnik, uma área gelada que compõe parte do “coração” branco fotografado na superfície de Plutão pela sonda New Horizons. A planície é formada por gelo de nitrogênio, metano e monóxido de carbono, com vários quilômetros de espessura.

Um dos artigos, escrito em parceria por pesquisadores dos EUA e do Japão, nota que Sputnik está alinhada com o eixo que une Plutão a sua maior lua, Caronte, e propõe que essa localização pode ser explicada por um “rolamento” de Plutão – uma mudança de cerca de 60º no eixo do planeta-anão – causado pelo acúmulo da massa de gelo na planície ao longo do tempo. “A Planície Sputnik provavelmente formou-se ao noroeste de sua localização atual e foi carregada com materiais voláteis ao longo de milhões de anos”, diz o artigo.

O segundo trabalho, de autoria de pesquisadores baseados nos Estados Unidos, conclui que a reorientação da Sputnik implica a existência de um oceano sob a superfície de Plutão. Sem um oceano subterrâneo, argumentam os autores, a anomalia gravitacional necessária para “tombar” o planeta, reposicionando a planície, exigiria uma camada de nitrogênio inacreditavelmente espessa, com mais de 40 km.

“Se Plutão contém um oceano líquido gelado (provavelmente com amônia), diversas outras questões se apresentam”, aponta o artigo, incluindo a possibilidade de haver mais oceanos entre os corpos do Cinturão de Kuiper, a região do Sistema Solar localizada para além da órbita de Netuno. (Esta nota faz parte da Coluna Telescópio)