quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

Teorias da conspiração: zika, rubéola, microcefalia

Nos últimos tempos, as redes sociais -- ou, ao menos, as minhas timelines -- andam virtualmente entupidas de notas, notícias e insinuações a respeito do surto de microcefalia no Brasil, sua ligação com o vírus zika e supostas manobras do governo para esconder as "verdadeiras causas" do problema, que iram desde "vacinas cubanas vencidas" a um plano maligno de ONGs internacionais para... Bom, ninguém parece saber para quê, mesmo.

A questão das vacinas é a que surge em mais versões, e a que mais seduz os incautos que buscam motivos para culpar o governo federal (como se ele já não tivesse culpas reais suficientes, mas deixa pra lá). Ela toma, pelo menos, duas formas, a saber: (a) teria havido uma campanha de vacinação contra rubéola usando vacinas vencidas, que foram aplicadas a mulheres grávidas ou que engravidaram logo depois da dose;  (b) a campanha contra sarampo, realizada no Nordeste em 2015, e que usou as vacinas dupla (que também contém o vírus da rubéola) e tríplice (sarampo, rubéola e caxumba), teria inadvertidamente atingido gestantes ou mulheres que viram a engravidar logo em seguida.

O vírus da rubéola é considerado um importante suspeito, nesse contexto, porque se sabe que mulheres que contraem a doença durante a gestação podem vir a dar à luz filhos com vários tipos de malformação, incluindo microcefalia.

Mas, enfim: quanto à primeira hipótese, das "vacinas vencidas", especialistas ouvidos pelo jornal Zero Hora lembram que o Brasil não realiza campanhas de vacinação específica contra rubéola há anos, sendo considerado um país livre da doença; e que vacinas de rubéola vencidas perdem seu poder imunizador, mas não passam a causar a doença. As informações dadas ao periódico gaúcho depois foram ampliadas num depoimento detalhado de Lavínia Schüler-Faccini, presidente da Sociedade Brasileira de Genética Médica, no site da Associação Médica Brasileira, (AMB).

Vacinas vencidas poderiam estar ligadas ao surto se, por serem ineficazes, tivessem aberto o caminho para uma epidemia de rubéola entre mulheres grávidas, mas não há registros disso na história recente do Brasil.

E quanto à campanha de vacinação contra sarampo no Nordeste? No fim de janeiro começou a circular na internet um gráfico que aponta uma suposta coincidência entre a campanha de vacinação do final de 2014 e o início do pico nas comunicações de microcefalia, nove meses mais tarde, no segundo semestre de 2015. Mas essa associação ignora o fato de que campanhas agressivas de vacinação contra sarampo já vinham acontecendo na região desde 2013.

Ainda mais importante, o risco para o feto trazido pela presença do vírus da rubéola na vacina é apenas teórico. Como disse Lavínia Schüler-Faccini à AMB,  "na época da campanha de vacinação para todas as mulheres em idade reprodutiva [contra rubéola], em 2002, acompanhamos em parceria com a Secretaria de Saúde do Rio Grande do Sul mulheres em Porto Alegre que não sabiam que estavam grávidas quando tomaram vacina, e em mais de cem gestantes acompanhadas, nenhuma teve bebê com microcefalia ou com síndrome de rubéola fetal."

Esse dado é corroborado por números dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC), órgão do governo dos Estados Unidos encarregado de monitorar e controlar epidemias. Os CDC recomendam que mulheres grávidas não devem receber vacinas contendo o vírus da rubéola, porque "por razões teóricas, não se pode excluir o risco para o feto", sugerindo um intervalo mínimo de 28 dias entre a data da vacinação e o início de uma gravidez. No entanto, acrescenta que um registro de 226 mulheres que receberam vacina de rubéola de 3 meses antes a até 3 meses após a concepção "não encontrou evidências de complicações" para as crianças. A conclusão é de que "a vacinação tríplice viral ou contra rubéola durante a gestação não deve ser considerada motivo para interrupção da gravidez".

E, por fim, o zika vírus. A relação de causa-e-efeito entre esse vírus e a microcefalia ainda não foi estabelecida cientificamente, embora a associação, sim. Há vários websites fazendo um cavalo de batalha da alegação de que a Fundação Rockefeller seria a "dona" do vírus, e que há empresas fornecedoras de material biológico que vendem amostras de zika. Daí, tira-se algum tipo de ilação sobre plutocratas causando doenças de propósito para auferir mais e maiores lucros.

A verdade é que o zika foi descoberto, na África, por pesquisadores da Fundação Rockefeller. Que é uma ONG internacional, que concede bolsas de estudo a um bocado de gente, já fez muita bobagem (como financiar centros de estudo que promoviam a eugenia) e também muita coisa boa (como financiar o desenvolvimento da vacina contra a febre amarela). Quanto à venda de amostras, ora bolas, os cientistas que trabalham com vírus -- seja como modelos para estudos teóricos, seja buscando novas vacinas -- precisam obtê-los em algum lugar, certo?

Teorias de conspiração se beneficiam bastante de um fenômeno psicológico chamado validação subjetiva -- a tendência que todos temos de interpretar dados díspares e não-relacionados como parte de um padrão que confirma nossos preconceitos.

Meu esforço pessoal para escapar dessa tentação passa por três critérios heurísticos. Os dois primeiros são as chamadas "navalhas", a de Occam -- "se duas hipóteses se encaixam igualmente bem nos fatos, prefira a mais simples" -- e a de Hanlon -- "nunca atribua a malícia o que pode ser adequadamente explicado por estupidez".

O terceiro é uma invenção minha, que chamo de Escala de Plausibilidade AIV. Proponho que, diante de um desastre, as explicações, na ausência de fatos ou evidências em contrário, são, da mais para a menos plausível, Azar (deu merda), Incompetência (alguém deixou dar merda) e, apenas então, Vilania (alguém se esforçou para que desse merda).

Nenhum desses critérios substitui uma investigação rigorosa, com certeza, mas são um bom modo de calibrar as expectativas e evitar sangue nos olhos antes de se ter todos os dados relevantes à mão.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Editando embriões humanos: a era biopunk?

Pesquisadores do Instituto Francis Crick, no Reino Unido, obtiveram autorização oficial para aplicar uma técnica de edição genética em embriões humanos saudáveis. A técnica, chamada CRISPR/Cas9, envolve basicamente o uso de um "robô" bioquímico para realizar operações de "copy-paste" no material genético do núcleo celular, não só eliminando sequências indesejadas, como também permitindo que elas sejam substituídas por versões escolhidas pelos pesquisadores.

Adaptada por cientistas a partir do arsenal imunológico de certas bactérias, que usam ferramentas naturais de edição genética para se livrar do DNA de parasitas, a CRISPR/Cas9 vem causando revolução tecnológica na área de manipulação genética, por causa de sua enorme precisão: ela permite que recortes e emendas sejam feitos no genoma com um controle de localização extremamente apurado. Em setembro do ano passado, a revista Science publicou artigo que relata a tentativa, bem-sucedida, de trocar um gene defeituoso, responsável por causar distrofia muscular em camundongos, por uma versão saudável, produzindo animais sem os sintomas associados à doença.

A autorização concedida agora pela Autoridade de Embriologia e Fertilização Humana (HFEA, na sigla em inglês) permite que os cientistas do Francis Crick usem a técnica para manipular o DNA de embriões humanos saudáveis, doados por casais que passaram por procedimentos de fertilização in vitro.

A pesquisa aprovada envolve a manipulação de genes implicados no desenvolvimento do embrião, com o objetivo de compreender como esses genes funcionam. Todos os experimentos serão interrompidos após uma semana de crescimento, quando o óvulo fertilizado tiver atingido o estágio de blastocisto, uma esfera de menos de 300 células, incluindo as que poderiam vir a dar origem à placenta e ao feto.

Os primeiros experimentos envolvendo a edição genética de embriões humanos por meio de CRISPR/Cas9 haviam sido descritos em abril do ano passado por pesquisadores chineses. Assim como previsto na pesquisa proposta pelos britânicos, os embriões manipulados na China não foram implantados em útero e não se desenvolveram para além dos estágios iniciais. O trabalho chinês foi mais uma prova de conceito -- ver se a técnica funcionava no genoma humano, e com que eficácia -- do que qualquer outra coisa.

O uso de edição genética em embriões humanos traz um pequeno imbróglio ético com, pelo menos, quatro vertentes: a primeira é a que questiona o uso de embriões humanos em pesquisa (qualquer pesquisa, envolvendo genes ou não). Esse é um debate que, cedo ou tarde, acaba se confundindo com o do direito da mulher ao aborto, embora o Supremo Tribunal Federal brasileiro tenha conseguido erguer uma espécie de barreira acolchoada entre as duas questões.

A segunda é da modificação deliberada do genoma humano, levada a termo -- isto é, a produção de uma criança geneticamente modificada, ou mesmo geneticamente montada em laboratório. Assim como no caso do uso de embriões em pesquisa, ela tem conotações místico-mítico-religiosas, envolvendo coisas como uma suposta Providência Divina com a qual o ser humano não deveria interferir, ou a alegação que a natureza é sábia e, mais uma vez, com ela não se deve mexer; e ainda o problema, bem mais palpável, de se já existiria conhecimento suficiente para que se faça esse tipo de manipulação de modo responsável.

A terceira questão deriva da segunda: modificações genéticas num embrião humano que venha a ser levado a termo, que gere um bebê que viva até a idade adulta, cedo ou tarde serão transmitidas para as gerações futuras e entrarão no patrimônio genético da espécie. Queremos isso? Será seguro?

Por fim, há o problema dos interesses e dos direitos do primeiro ser humano "CRISPR": como poderemos saber se essa criança nascerá sem deficiências ou outros problemas trazidos, indiretamente, pela modificação? Seria ético tentar criar esse bebê por tentativa e erro, destruindo os fetos malsucedidos até que um se saia bem? E se o procedimento for necessário para gerar um bebê saudável? Na adolescência e na idade adulta, essa pessoa sofreria discriminação? Pais se recusariam a permitir que seus filhos fossem à escola com ela, ou a impediriam de namorar seus filhos?

Para complicar um pouco mais a equação, a ferramenta CRISPR/Cas é tão fácil de usar que já tem gente tentando produzir kits, à semelhança dos antigos jogos de química juvenil, para quem quiser brincar de edição genética em casa -- por enquanto, mexendo apenas com bactérias.

"Biopunk" é um subgênero de ficção científica pouco divulgado, que especula sobre como seria o mundo se as ferramentas da biotecnologia se tornassem tão baratas e democráticas como são, hoje em dia, as da informática e da telecomunicação. Desconfio que, assim como aconteceu com o cyberpunk, ele em breve será ultrapassado pela realidade (momento comercial: tenho um conto meio biopunk, aqui).



segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

Divulgação científica: pequenos dilemas

Passei o último sábado reunido com algumas dezenas de divulgadores de ciência -- em sua maioria, blogueiros e vlogueiros (isto é "blogueiros de vídeo", para quem não está atualizado com o jargão) -- num evento promovido pelo Numina Labs. A troca de experiências é sempre fértil, e conversar com gente inteligente é sempre agradável, mas confesso que me senti um pouco deslocado, tanto pela faixa etária (eu era um dos dois caras mais velhos ali, e "mais velho" no sentido de que provavelmente sou contemporâneo dos pais de boa parte dos participantes), como pela questão midiática: sempre fui um cara "do impresso", então o foco principal do encontro, vídeo, estava bem fora da minha zona de expertise.

Ainda assim, foi interessante ver como aquele grupo -- jovens, em sua maioria com formação principal em ciência e apenas secundária em comunicação, ligados na linguagem do vídeo online -- reproduzia muitas das questões, confusões e dilemas que gente como eu -- velhos, com formação principal em comunicação e apenas secundária em ciência, analfabetos em vídeo online -- também encontra no cotidiano, ou já encontrou um dia. Nesse aspecto, a divulgação científica brasileira se parece muito com outra área em que também atuo, a ficção científica brasileira: cada nova geração parece entrar na arena com a impressão de que está desbravando território virgem.

Entre as questões recorrentes que vieram à tona, anotei uma que talvez mereça um pouco mais de esclarecimento, ou esmiuçamento, até para evitar armadilhas e becos sem saída já enfrentados em outros tempos e contextos: a de que a divulgação científica, para ter alcance e audiência, deveria, se possível, esconder seu nome. A de que a estratégia realmente eficaz é a de contrabandear, e não explicitar, a ciência.

Não é difícil distinguir as duas estratégias: contrabandear é tratar, ostensivamente, de um outro assunto (digamos, a moda de saltos altos para mulheres) e usá-lo como trampolim para falar de um ponto científico (anatomia humana, danos à coluna, etc.). Já explicitar é, bem, explicar na cara dura: "Nosso assunto de hoje é a coluna vertebral. Vamos ver como...", etc.

Parece óbvio que, numa ecologia saudável de divulgação científica, deve haver espaço para as duas coisas. A explicitação atende ao público que já tem alguma curiosidade fundamental sobre o assunto; o contrabando informa quem precisa da informação ou que gostaria de recebê-la, mas que por algum motivo não sabe dessa necessidade (ou ainda não descobriu o gosto). Livros costumam ser o veículo favorito dos grandes explicitadores, como Richard Dawkins ou Brian Greene. Já o contrabando tem um apelo maior em mídias mais efêmeras, como jornais, revistas e televisão. Parece, portanto, sob medida para blogs de vídeo -- "vlogs". O Nerdologia, por exemplo, talvez seja o maior contrabandista de ciência do Brasil, hoje.

O problema, que é recorrente em praticamente todas as mídias -- e digo isso porque a história registra inúmeros casos -- é que o sucesso de público da estratégia do contrabando tende a torná-la hegemônica, o que quebra o equilíbrio necessário entre contrabandistas e explicitadores. E, pior ainda, tende a hipertrofiar o "meio contrabandeante", em detrimento do "conteúdo contrabandeado".

Exemplos: a vergonhosa decadência de canais de documentário como o Discovery e o History; a disseminação de matérias de ciência que, à força de serem "engraçadinhas", descambam para a irrelevância ou a pseudociência, como na longa tradição da mídia britânica de divulgar equações cretinas, culminando na definição espúria do "dia mais triste do ano".

Claro, a explicitação também tem problemas que são, em parte, os responsáveis pelo sucesso às vezes desproporcional do contrabando: ela pode ser muito chata. Só atrai "convertidos". Assusta quem tem trauma ou medo de coisas "científicas". Dá menos audiência e, por tabela, menos dinheiro.

No entanto, nenhum desses deméritos da explicitação é realmente um mal necessário, assim como não é inevitável que os canais de contrabando acabem degenerando em buscas sensacionalistas pelo prepúcio perdido de Jesus. Isto aqui não é uma tentativa de demonizar uma ou outra estratégia (como escrevi acima, uma ecologia saudável requer ambas) mas de deixar um pequeno alerta.

Uma das explicações oferecidas para a crise atual do jornalismo é -- para além do impacto da internet nos modelos de negócio, etc. -- que, em algum momento do século passado, os empresários brasileiros de mídia tiveram a ideia brilhante de fazer jornal para quem não gosta de ler. Parecia fazer sentido: essa, afinal, sempre foi a fatia maior do público. Com isso, no entanto, alienaram quem curtia um texto mais elaborado e não conquistaram quem já estava seduzido pela TV. Deu no que deu. Que os divulgadores de ciência saibam escapar de armadilhas semelhantes.

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Livro ganha verbete na Wikipedia!

Minha primeira obra de divulgação científica, O Livro dos Milagres, virou verbete na Wikipedia em língua portuguesa. O artigo entrou no ar ontem, imagino que praticamente cinco anos após eu ter começado a escrever o livro. Milagres foi um trabalho de redação rápida -- iniciei em janeiro e terminei, se não me engano, em março de 2011. O processo editorial também foi bastante ágil, e o trabalho estava sendo lançado (mais uma vez, salvo engano) em outubro do mesmo ano.

A celeridade se explica pelo desemprego: demitido do posto de editor de Ciência do Portal Estadão em dezembro de 2010, de repente me vi com muito tempo nas mãos, e a velha ambição de "carreira solo" voltando a bater na porta.

Depois de quase 20 anos de carreira, meu nível de paciência para com as rotinas e demandas do jornalismo corporativo vinham diminuindo rapidamente, e há meses já que eu amolava minha pobre esposa com reclamações várias e mencionava, entre resmungos, a aspiração de desenvolver um trabalho semelhante ao realizado por Joe Nickell nos Estados Unidos. Então, bem, do desemprego nasceu a oportunidade.

Claro, se o livro foi escrito em três meses (fora o tempo investido nas revisões sugeridas pelos apontamentos do editor), o levantamento do material de pesquisa havia consumido anos, e a obra já vinha tomando forma em minha mente há tempos. O motivo disso era outra frustração minha com o jornalismo corporativo, a saber: a forma ingênua, reverente e desinformada com que alegações religiosas eram (e ainda hoje são) tratadas pela grande mídia.

Era meio exasperante, como jornalista de Ciência, ver colegas das editorias Cidades e Internacional, gente muito capacitada e perfeitamente capaz de detectar os altos teores de bullshit nos discursos de autoridades globais, nacionais, estaduais e municipais, engolindo e reproduzindo bovinamente bobagens crédulas e acríticas sobre "milagres de santos brasileiros reconhecidos pelo Vaticano", "o mistério do Santo Sudário" ou "a revelação do Terceiro Segredo de Fátima".

Então, fui juntando material, juntando material e, quando a oportunidade veio, o livro nasceu. O fim do seguro-desemprego, as duras realidades do mercado editorial e a conta do condomínio logo me convenceram de que esse negócio de carreira como autor/investigador independente não ia rolar, mas aí o segundo livro, Pura Picaretagem, em parceria com o Daniel Bezerra, já estava engatilhado. O terceiro, O Livro da Astrologia, saiu agora, em dezembro de 2015, e é o primeiro sem editora. Será que vou conseguir manter o ritmo de um a cada dois anos? A ver.

Entre 2011 e 2015, o que mais mudou foi a penetração das redes sociais, o que parece estar ajudando na divulgação das obras: o autor do verbete sobre o Milagres, por exemplo, me contatou via Facebook. Quem sabe, aos poucos, esses trabalhos vão ganhando tração? De repente começa a valer a pena pensar em algo novo para 2017.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Spotlight

Fui assistir a Spotlight, o filme sobre a investigação exaustiva realizada pelo jornal Boston Globe sobre os casos de pedofilia acobertados pela igreja católica nos Estados Unidos, onde bispos e cardeais limitavam-se a transferir padres acusados de abusar de crianças de uma paróquia para outra, efetivamente fazendo da dita Santa Madre uma espécie de grande cafetina a serviço dos pedófilos: as transferências garantiam que os predadores sexuais  sempre tivessem novas vítimas insuspeitas para atacar -- tudo em nome de "preservar a instituição" e "evitar o escândalo".

O trabalho do Globe no caso foi o que se poderia chamar de jornalismo explícito, arquetípico, quintessencial, o jornalismo-que-justifica-o-jornalismo: meses de apuração minuciosa, busca implacável de depoimentos e testemunhas, tudo para, no fim, contar uma história extremamente relevante e que forças poderosas prefeririam que não fosse contada. Acho que foi George Orwell que disse que jornalismo é publicar algo que alguém preferiria manter em segredo -- o resto é relações públicas.

Um dos pontos para que o filme chama atenção -- e que já foi destacado em várias críticas -- é o fato de que as informações fundamentais, suficientes e necessárias para lançar a investigação realizada pelo jornal entre 2001 e 2002, na verdade já estavam disponíveis há décadas. O próprio Boston Globe já havia recebido denúncias, e optado por ignorá-las. Foi preciso chegar à cidade um novo editor-chefe, vindo de fora (e judeu) para que a redação finalmente ligasse os pontos.

Há três lições importantes aí. A primeira é que nem toda decisão editorial jornalística -- para o bem ou para o mal -- é fruto de deliberações maquiavélicas. O Globe, quando decidiu não investigar a fundo as denúncias de pedofilia feitas nos anos 80 e 90,  não estava "mancomunado com a igreja católica" ou "comprado pelo Vaticano": estava, apenas, imerso num caldo de cultura em que a igreja era vista automaticamente respeitável, idônea e qualquer problema só poderia ser um caso isolado indigno de maior atenção.

O segundo é mostrar o quanto é estúpida a noção, muito popular nestes tempos de identity politics, de que só quem conhece/pode falar sobre/pode criticar/apontar problemas, com legitimidade e propriedade, dentro de uma certa comunidade ou cultura são os membros dessa comunidade ou cultura, e ninguém mais. Ora bolas, se não fosse o forasteiro judeu da Flórida Marty Baron apontar o ponto cego na cobertura do Globe para os católicos bostonianos, a reportagem nunca teria sido escrita.

O terceiro ponto, e é para este que eu gostaria de chamar atenção, é o de que o caso só demorou tanto tempo para vir a tona, o caldo de cultura só manteve a redação do Globe anestesiada por tanto tempo, por causa daquilo que costumo chamar de "deferência especial" concedida às religiões no discurso e no imaginário do público.

A deferência que faz com que instituições e pessoas religiosas sejam vistas, em princípio, como essencialmente boas e acima de qualquer suspeita. Que garante que tenham tratamento privilegiado em questões tributárias, trabalhistas e, até, na fiscalização da segurança das edificações. Que faz com que dizer que, por exemplo, o marxismo ou o liberalismo ou o fascismo são ideias cretinas defendidas por idiotas seja parte aceitável (ainda que vulgar e grosseira) do discurso público, mas que dizer o mesmo do judaísmo, do cristianismo ou do islã seja enquadrável como crime no código penal brasileiro (artigo 208).

Gostaria de propor que a civilização avançaria bastante se essa deferência especial fosse eliminada. Ela, no entanto, tende a se perpetuar, como fica claro, por exemplo, no caso da presença renitente de símbolos religiosos em espaços públicos e da frase "Deus seja louvado" nas notas do real. Políticos gostam dela: genuflexões trazem voto e não custam caro.

Para além da via política ou jurídica, no entanto, há outras formas de combatê-la, por exemplo pela blasfêmia, pela retórica acerba e pelo ridículo, caminhos que buscam eliminar, pelo choque, a deferência especial que habita na cabeça das pessoas, na esperança de que o efeito institucional acabe se seguindo ao psicológico.

Uma última observação: na reta final de Spotlight, quando a reportagem inicial da série sobre os abusos de crianças por sacerdotes e a cumplicidade implícita do cardeal Bernard Law (depois removido de Boston pelo Vaticano e "premiado" com uma basílica em Roma, confortavelmente longe do alcance da polícia dos Estados Unidos) preparava-se para ir às rotativas, fiquei imaginando algo parecido no Brasil, e o anticlímax logo me veio à mente: a liminar do desembargador católico, amigo do arcebispo, chegando à redação na undécima hora para melar tudo.

sábado, 26 de dezembro de 2015

A culpa é da falta de assunto

Na mídia de língua inglesa, o período do verão -- onde os parlamentos e universidades se encontram em recesso, parte da população urbana fugiu para a praia e as empresas costumam conceder folgas e férias -- é chamado de silly season, ou "estação da tolice": confrontados com a crise aguda de falta de assunto causada pelo sumiço das principais fontes de pauta (políticos, pesquisadores, empresários) os jornalistas começam a apelar para qualquer tipo de bobagem a fim de vencer a angústia da página (ou tela) em branco.

 O Brasil, claro, também tem sua silly season, situação agravada pelo encolhimento radical das redações, encolhimento ainda mais acentuado durante a vigência do esquema tradicional de folgas e plantões de Natal e Ano-Novo. Uma característica da estação das tolices da mídia nacional é sua queda pelo esoterismo. Você sabe que a imprensa brasileira está sem assunto quando videntes e astrólogos tomam conta dos cadernos ditos "de cultura". Lá se vão dez anos desde que o Estadão desperdiçou a capa de seu Caderno 2 com o astrólogo Oscar Quiroga, num vexame que chegou a ser lamentado no Observatório da Imprensa.




Neste ano, a largada veio da Folha de S. Paulo. Sempre que faço apresentações a estudantes universitários, reservo uma lâmina para reconhecer o fato de que a FSP é, hoje, o único diário de alcance nacional a sustentar o esforço de apresentar, pelo menos, uma matéria de ciência em cada edição. Além de ter criado uma coluna (mensal) de astronomia para servir contraponto à coluna (diária) de horóscopo. Mas todo órgão de imprensa é meio esquizofrênico, e a Folha tem o hábito de tratar de temas pseudocientíficos com uma pegada que poderíamos chamar, caridosamente, de "etnográfica": registrando o que as pessoas dizem e acreditam, mas sem submeter as falas e crenças a um exame crítico. Por exemplo:


O problema dessa abordagem etnográfica é que, sob o pretexto de mostrar-se neutra ou imparcial, ela acaba, na verdade, sendo arrogante ("olha no que esses idiotas acreditam") ou condescendente ("esses coitadinhos acreditam nessas coisas malucas, mas são inofensivos") ou crédula ("olha que legal no que essas pessoas acreditam!"). A diferença entre um foco e outro depende do tom adotado pelo repórter, e do trabalho que executa -- conscientemente ou não -- nas entrelinhas. Uma abordagem abertamente crítica, que confrontasse as alegações da fonte de modo claro, poderia, num primeiro momento, parecer hostil, mas no fim acabaria fazendo muito mais justiça tanto à fonte quanto ao leitor.

Mas, voltando à silly season deste ano: a Ilustrada deste sábado nos brinda com meia página, que poderia ter sido dedicada à crítica de um livro ou a uma crônica digestiva pós-festa de Natal, para tratar de um evento que analisou a influência dos astros na obra de grandes escritores. O título, um verdadeiro Everest da criatividade editorial, é "A Culpa É das Estrelas":


O texto em si é, mais uma vez, "etnográfico", tentando assumir um tom entre a descrição jornalística propriamente dita e a crônica -- o objetivo, suponho, era produzir uma leitura agradável, "interessante e gostosa", como se diz, mas que não consegue ser mais do que engraçadinha. E o pobre leitor fica a ver navios: não só do ponto de vista estético (não se trata de uma boa leitura) quanto jornalístico: afinal, o signo dos escritores afeta as características da obra? Se um veículo informativo vai dedicar meia página ao assunto, ele poderia, pelo menos, informar a resposta.

Que o leitor da Folha vai ficar sem saber, mas que é um redondo não. Os detalhes, dou no meu Livro da Astrologia, mas em linhas gerais: qualquer mapa astral pode ser interpretado de modo "compatível" com qualquer pessoa. 

Há casos clássicos de mapas astrais que corresponderiam a Lênin e Churchill, só que construídos com base em dados errados, mas que, para os astrólogos que os interpretaram -- sabendo que os mapas deviam ser de Lênin e Churchill -- mostravam claramente as características e os feitos desses dois líderes. E esses são apenas os exemplos mais notáveis.

Que os astrólogos envolvidos no tal evento ignorassem esses fatos (ou preferissem ignorá-los) é compreensível. Que a jornalista, com o compromisso profissional de bem informar o leitor, os ignorasse é um pouco mais difícil de engolir. Mas é assim que funciona a silly season: todo mundo se fazendo de bobo enquanto espera a folga chegar.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Postagem 666: Madre Teresa

Estava aqui dando tratos à bola em busca de uma postagem adequada para ser a 666ª deste blog, e eis que me vem a notícia de que foi autorizada a canonização de Madre Teresa de Calcutá.  Não sei que fração (se alguma) da mídia brasileira vai se lembrar da investigação que Christopher Hitchens realizou sobre o trabalho dessa freira albanesa, radicada na Índia, então deixo aqui o link para o livro e, imediatamente abaixo, o documentário em que apresentou suas conclusões (fundamentalmente, de que ela estava muito mais preocupada em salvar almas do que em salvar vidas, uma postura que teve consequências cruéis e trágicas). 



E, para completar, reproduzo, abaixo, uma postagem bem antiga deste blog sobre o processo de validação de "milagres" da Igreja Católica (lembrando que já escrevi um livro inteiro sobre o assunto):

"A notícia de que o Vaticano reconheceu a cura de uma freira, supostamente portadora do Mal de Parkinson, como sendo um milagre operado por intercessão do falecido papa João Paulo II, chega num momento onde estou até as orelhas em estudos e análises a respeito exatamente desse tipo de fenômeno.


A mídia deu um bom destaque à história do milagre e, como sói acontecer nesses casos, sem basicamente nenhum tipo de análise crítica das falhas lógicas embutidas -- na verdade, falhas essenciais -- no processo católico de criação de beatos e santos.

É instrutivo, portanto, dar uma olhada em alguns detalhes do caso.

Começando pela questão da cura da freira Marie Simon-Pierre. Esta reportagem do Los Angeles Times lembra que, em 2010, autoridades no próprio Vaticano haviam expressado dúvidas quanto ao diagnóstico de Parkinson. É curioso ainda mencionar, numa nota à parte, que esclerose múltipla -- uma doença responsável por quatro milagres certificados do santuário de Lourdes, e que também afeta o sistema nervoso em sua comunicação com os músculos -- apresenta, de acordo com o psiquiatra Terence Hines, vários casos conhecidos de remissão natural.

Hines, em seu livro Pseudoscience and the Paranormal cita um estudo no qual o acompanhamento de pacientes de esclerose múltipla revelou que, 25 anos após o início da doença, 75% deles estavam vivos e dos sobreviventes, 55% não apresentavam nenhuma deficiência significativa.

Mesmo supondo que o diagnóstico da freira foi correto, e que ela não estivesse sofrendo de alguma outra doença mais facilmente curável (ou de uma aflição de origem psicológica), é possível afirmar (a menos que, num caso clássico de raciocínio circular, já se parta dessa premissa) que a cura tenha sido operada por milagre -- isto é, por uma suspensão das leis da natureza -- e que o milagre foi obtido por intermédio de João Paulo II?

Não e não.

Primeiro, porque declarar que um fenômeno (no caso, uma cura) não tem explicação conhecida -- mesmo supondo que nenhum outro médico sobre a face da Terra, com um conjunto de competências e de experiências diferente do dos membros da comissão que investigou o caso, fosse capaz de explicar o ocorrido -- é apenas uma manifestação de ignorância.

Dizer "não sei o que provocou a cura de irmã Marie, logo foi um milagre operado por intercessão de João Paulo II" faz tanto sentido quanto dizer "não sei o que causou aquela luz no céu, logo ela veio de uma nave da galáxia de Andrômeda".

Segundo, a questão da atribuição: a freira rezou para João Paulo II, e depois foi curada. Faz sentido estabelecer uma relação de causa e efeito?

 Em princípio, pode-se tratar apenas de um caso de post hoc ergo propter hoc, o erro lógico de supor que, só porque uma coisa aconteceu depois da outra, ela foi causada pela outra. É como imaginar que estou escrevendo esta postagem porque comi sanduíche de queijo no café da manhã. As causas precedem os efeitos, mas nem tudo que precede um efeito deve ser necessariamente lançado na lista de suas causas.

A hipótese de coincidência, em oposição à de causalidade direta, ganha força quando levamos em conta o fato de que candidatos a santo tão populares quanto João Paulo II costumam ser alvos decampanhas -- basicamente, os fãs do candidato passam a sugerir a todas as pessoas que conhecem e que precisam de um "milagre" que rezem para ele, solicitando a intercessão. Com milhares, ou milhões, de suplicantes, o surgimento de um ou dois casos que escapem ao poder explicativo das comissões investigatórias é uma certeza matemática.

Assim como nas eleições parlamentares brasileiras -- onde, dado um determinado nível de investimento em publicidade de campanha, a conquista do mandato é virtualmente inevitável -- deve haver um brake-even de orações que também torna a beatificação, e posterior santificação, de um candidato um fato garantido.

Resumindo, o sistema de reconhecimento de santos e beatos do Vaticano é formado por uma máquina de geração de eventos, a campanha,  que multiplica as súplicas (às vezes por séculos a fio, se necessário) até que a lei das probabilidades gere um pequeno saldo a respeito do qual um grupo de especialistas esteja disposto a manifestar ignorância. A essa manifestação segue-se a aplicação de dois erros básicos de raciocínio: o apelo à ignorância e o post hoc."