quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Conversa ao redor da fogueira

O domínio do fogo abriu espaço para novos tipos de interação social, permitindo que os membros de comunidades pré-históricas contassem histórias e conversassem sobre assuntos não relacionados às necessidades imediatas do grupo, sugere estudo feito por uma antropóloga americana entre bosquímanos do Kalahari, na África, e publicado no periódico PNAS. Além de analisar os hábitos dos bosquímanos, o artigo traz uma provocação para as sociedades industrializadas: “Fica aberta a questão de o que acontece quando o tempo economicamente improdutivo, à luz da fogueira, se transforma em tempo produtivo, sob luz artificial”. Leia mais sobre este assunto, e outros, no Telescópio.

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Discurso de Ódio versus Discurso Perigoso

O bafafá em torno das declarações escrotas de um Candidato Tabajara Hilóbata Ululante  Lamacento Homofóbico Ultrajante (C.T.H.U.L.H.U.) sobre união gay e direitos dos homossexuais trouxe à tona um debate sobre discurso de ódio, censura, a conveniência e a ética de se punir/coibir/tolerar certos tipos de exercício da liberdade de expressão. Como este blog tem uma posição libertária forte nesse tipo de questão, achei legal dar uns pitacos.

Uma distinção conceitual que me parece fazer sentido, que vem aparecendo no debate acadêmico a respeito e que parece meio borrada na discussão pública atual é a que se pode fazer entre "discurso de ódio" e "discurso perigoso". Discurso de ódio é todo discurso que busca apequenar pessoas simplesmente porque elas fazem parte de um dado grupo. Já discurso perigoso é todo discurso de ódio que tem uma probabilidade razoável que levar à violência contra o grupo ofendido.

A distinção é importante porque, embora todo discurso de ódio seja, de algum modo, ofensivo, nem todo discurso ofensivo é perigoso. E mesmo pessoas (como eu) que reconhecem o mais amplo "direito" de usar palavras para ofender podem ter restrições ao "direito" de usar palavras para pôr a integridade física de terceiros em risco. Ofender é ser escroto; pôr em perigo é ser bandido. Um caso requer condenação na esfera da cultura; outro, na criminal. Ou, ao menos, é assim que entendo.

Essa diferença já aparecia na obra de John Stuart Mill, o principal teórico da ampla liberdade de expressão: ele deixou, como exemplo, a diferença entre se escrever um artigo de jornal acusando os mercadores de trigo de matar as crianças pobres de fome com suas especulações (o que seria permitido) e apontar para um mercador de trigo na rua e gritar "lá vai um assassino de criancinhas!" (o que seria proibido). Dá para dizer que o artigo seria "discurso de ódio", enquanto que o grito na rua, "discurso perigoso".

Com o alcance das mídias atuais, a linha entre ódio e perigo tende ser se tornar cada vez mais indistinta, além de envolver cada vez mais fatores psicológicos: afinal, uma pessoa que decide fazer uma bobagem depois de ler a uma troca de insultos entre "tucanalhas" e "petralhas", ou entre "porcos" e "gambás" no Facebook é um desequilibrado, ou um agente motivado por incitação direta?  E o Estado deve começar a patrulhar os hábitos retóricos da população só porque um maluco em algum lugar de repente, quem sabe, pode, um dia, despirocar por causa de uma ironia mais psada, ou de uma grosseria explícita?

A pesquisadora Susan Benesh propôs um conjunto de cinco critérios para definir "discurso perigoso" e distingui-lo do discurso meramente ofensivo que, embora lamentável e condenável, estaria protegido segundo as concepções mais liberais de liberdade de expressão. O paper pode ser encontrado aqui, mas, em resumo, são:

1. O enunciador é uma figura poderosa que tem forte influência sobre a audiência;
2.  A audiência tem medos e rancores que o enunciador explora;
3. O discurso contém uma clara convocação à violência;
4. O discurso se dá num contexto histórico-social propício para a violência;
5. O meio de disseminação é influente em si -- por exemplo, um veículo oficial, ou de grande audiência.




"Magia ao Luar": bom filme, mau cético

Acrítica tem sido meio rabugenta com o filme “Magia ao Luar”, de Woody Allen. Não sen trata, claramente, de uma obra-prima, mas ainda assim é um belo trabalho: simpático, leve e divertido. E, no que é de interesse especial para este blog, protagonizado por um cético combativo, um mágico de palco interpretado pelo grande ator britânico Colin Firth. Leia mais sobre o filme, sua inspiração em personagens reais e seu cético problemático no site da Galileu.

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

O grande experimento transgênico

Nos últimos 19 anos, a proporção da ração animal consumida pelo gado e pelas aves de corte nos Estados Unidos que é composta por material geneticamente modificado passou de 0% para mais de 90%, com bilhões de animais alimentados a cada ano. Um estudo publicado no periódico Journal of Animal Sciencecomparou os registros sobre saúde do gado e dos frangos antes e depois da introdução dos transgênicos, e não encontrou nenhuma diferença relevante. Leia mais sobre esse assunto, e também sobre a violência dos chimpanzés e a censura sofrida por cientistas no Canadá, no Telescópio.

terça-feira, 23 de setembro de 2014

Complexidade "irredutível"

"Nunca consegui entender", disse Mr. Pond, "como uma mudança que deveria ter ajudado um animal, se acontecesse depressa, pode ajudá- lo se acontece devagar. E se acontece em seu tataraneto, muito depois de passada a hora de o animal ter morrido sem sequer deixar netos. Poderia ser uma vantagem se eu tivesse três pernas, digamos, para me apoiar em duas enquanto chuto um burocrata com a terceira. Poderia ser melhor se eu tivesse três pernas; mas não seria melhor se eu tivesse apenas uma perna rudimentar (...) até que seja longa o bastante para correr ou escalar, a perna seria apenas um peso extra". 

Este é, numa versão usada pelo escritor G.K. Chesterton (1874-1936), o argumento criacionista da "complexidade irredutível". Entenda por que ele não funciona, no Olhar Cético da Revista Galileu

terça-feira, 16 de setembro de 2014

Jack, o Estripador? Devagar com o andor!

Teste de DNA revela identidade de Jack, o Estripador! Ao menos, foi o que disse o jornal britânico Daily Mail na semana passada. De acordo com a reportagem do Mail, um xale encontrado junto ao corpo de uma das vítimas do mítico assassino, Catherine Eddowes, continha material genético tanto da mulher quanto do suposto criminoso, identificado como o cabeleireiro polonês Aaron Kosminski. O que dizer da revelação do Mail? A seu favor, há o fato de que Eddowes é uma das chamadas “cinco canônicas”, as cinco mulheres, mortas entre agosto e novembro de 1888, cujos assassinatos foram, muito provavelmente, cometidos pelo mesmo serial killer. Mas também há muito espaço para ceticismo. Leia mais no Olhar Cético do site Galileu.

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Dieta e mudança climática

O carbono emitido na produção de alimentos para consumo humano deve superar as metas de liberação de gases causadores do efeito estufa até 2050, diz artigo publicado no periódico Nature Climate Change. “Estudos recentes mostram que as tendências atuais de aumento da produtividade não bastarão para atender à demanda global de alimentos prevista para 2050, e sugerem que uma expansão maior da área agrícola será necessária”, escrevem os autores, da Universidade de Cambridge. “No entanto, a agricultura é o principal motor da perda de biodiversidade e um grande contribuinte da poluição e da mudança climática, logo uma maior expansão é indesejável”. Leia mais sobre este assunto, e outros, na coluna Telescópio do Jornal da Unicamp.