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Instituto Questão de Ciência

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Agora que o gato proverbial está proverbialmente fora do proverbial saco, posso contar aqui no blog -- e para os amigos que só me ouviam dizer, de modo um tanto quanto misterioso, que eu estava "enrolado com uns projetos" -- que na segunda quinzena de novembro acontece o lançamento oficial do Instituto Questão de Ciência, em cuja organização estou envolvido, sobre o qual há um press-release publicado no Facebook, onde também se encontra o convite para a abertura oficial.

Mas você está agora no meu blog, não no Facebook, então provavelmente gostaria de ler algo sobre minha perspectiva pessoal a respeito do que está acontecendo. Vamos lá, então.

Comecei a trabalhar com jornalismo para internet em 1996. Falei sobre isso na minha palestra TEDx do ano passado, mas acho que jamais serei capaz de expressar direito meu estado de absoluta estupefação com o universo online quando o encontrei pela primeira vez como jornalista -- jornalista encarregado de entender, organizar e explicar…

Livro interativo!

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Tanta coisa acontecendo na vida do jornalista de meia-idade que a gente esquece de anunciar as boas notícias. Então, com algum atraso, aí vai: já está disponível, para Apple e Android, O Mistério do Sr. Gratus, um conto interativo de ficção científica de mina autoria e magistralmente ilustrado, animado e sonorizado pela StoryMax.

O objetivo desse livro virtual é divertir crianças e jovens -- eu chutaria aí de uns 9 aos 13 anos -- , ao mesmo tempo, passar alguns conceitos sobre ecologia, evolução e saúde. A revisão técnica do trabalho foi feita pela pesquisadora Natalia Pasternak Taschner, da USP, que dirige no Brasil o festival Pint of Science.

Este trabalho multimídia acaba sendo meu primeiro conto original publicado em português nos últimos anos, e minha segunda incursão no universo infanto-juvenil, depois do romance space-opera Nômade, que saiu lá em 2010.

Escrever "juvenis" sempre me assusta um pouco. Uma coisa que me esforço conscientemente em fazer é evitar ao máximo …

Falta rigor nas Humanidades... só nelas?

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Se você se interessa por ciência, o assunto provavelmente chamou sua atenção: ontem, um grupo de três pesquisadores dos Estados Unidos revelou ter feito publicar, em periódicos respeitados da área de Humanidades, sete artigos totalmente idiotas -- incluindo um trecho de um manifesto nazista (nada menos que do livro Mein Kampf, de Adolf Hitler!) com a linguagem alterada para soar feminista. Um dos artigos, sobre o caráter machista e homofóbico do coito entre cães em praças públicas (sim, você leu certo) chegou a ganhar um prêmio acadêmico.

Ao todo, os autores da fraude (que eles descrevem como um experimento etnográfico) produziram vinte artigos cretinos, sete dos quais foram aceitos para publicação, seis rejeitados e sete devolvidos para correções e revisões. Entre os devolvidos, há um que defende a inclusão da astrologia como ciência legítima, num novo paradigma "feminista" de pesquisa astronômica.

As reações à pegadinha foram variadas, como mostra, por exemplo, esta repor…

Uma verdade milenar sobre astrologia

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Existem algumas verdades milenares que se perdem na poeira do tempo, e precisam ser redescobertas a cada geração. Uma das mais preciosas é a de que astrologia é bobagem. Defensores da prática adoram dizer que têm uma tradição imemorial que só passou a ser atacada por causa do materialismo reducionista do mundo moderno.

Nada mais falso: em todas as eras, diversas das mentes mais argutas se pronunciaram contra o patente absurdo da hipótese astrológica -- de que a posição dos astros na hora do nascimento determina, ou influencia, a personalidade e o destino dos seres humanos. O que o "materialismo reducionista" dos tempos modernos fez foi produzir instrumentos para mensurar o tamanho do absurdo.

Em 50 AEC, mesma época em que os irredutíveis gauleses da aldeia fictícia de Asterix se insurgiam contra os romanos, o orador romano Cícero produziu o discurso Sobre a Adivinhação (De Divinatione), onde argumenta longamente contra a astrologia. Um trecho: "O fato de que homens nas…

Ceticismo, pensamento crítico e "tone trolls"

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Encontrei a expressão "tone troll" (literalmente, "troll de tom"), pela primeira vez, há quase dez anos, em meio às reações da comunidade cética/racionalista internacional à palestra Don't Be a Dick ("Não Seja Babaca"), do astrônomo e divulgador de ciência americano Phil Plait. Plait, que em seu site Bad Astronomy analisa à exaustão bobagens como as teorias da conspiração em torno do Projeto Apollo, sugeria na palestra que divulgadores de ciência, principalmente nas trincheiras do movimento cético/laicista, evitassem tratar os oponentes como idiotas. As pessoas raramente mudam  de ideia quando são xingadas, ponderava ele.

Plait foi rapidamente acusado de ser um "tone troll". Definição: alguém que, embora concorde com a substância do que você diz, se dá ao trabalho de vir a público criticá-lo pela forma como você diz. "Astrologia não faz sentido, homeopatia é uma bobagem, certo, concordo, mas por que você não respeita os sentimentos das…

Uma modesta proposta: astrologia no SUS

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Passando os olhos pela ampla relação de Práticas Alternativas e Complementares (PICs) abraçadas pelo Sistema Único de Saúde (SUS), e incluídas no II Workshop de PICs a ser realizado Centro de Práticas Esportivas da USP, o popular Cepê, deparei-me com uma curiosa omissão: a astrologia. Como um sistema integrativo que contempla ayurveda, homeopatia, medicina tradicional chinesa, antroposofia e acupuntura ignora uma das mais venerandas tradições curativas do Ocidente?

Para quem se escandaliza com a sugestão, afirmo que não existe nada -- absolutamente nada -- que se possa dizer a favor das PICs atualmente em uso que também não se possa afirmar, e com vantagem, sobre a arte da interpretação de cartas astrais e elaboração de horóscopos. Eu sei, até porque escrevi um livro sobre o assunto. Senão, vejamos:

Tradição milenar: praticamente todas as PICs são bebês recém-nascidos se comparadas à astrologia, que remonta à antiga civilização mesopotâmica. Essas foram os caras que inventaram a lingu…

Epistemologias "alternativas" e saúde

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A recente publicação, em O Estado de S. Paulo, de um artigo apontando a incoerência da introdução de práticas ditas "alternativas" -- isto é, carentes de base científica -- no Sistema Único de Saúde (SUS) provocou uma previsível maré de objeções, a maioria das quais, quando analisadas, acaba se enquadrando em um de três campos: "ei, mas nós temos base científica"; "terapias com base científica também não são isso tudo";  "base científica é um critério ruim, porque se fecha a epistemologias alternativas".

Da primeira objeção já tratei algumas vezes (por exemplo, aqui e aqui), então vou deixá-la de lado, desta vez. Da segunda, diga-se que confunde critério necessário com suficiente. Não é porque nem todo mundo que tem duas pernas consegue correr os 100 metros em menos de dez segundos que ter duas pernas deixa de ser uma vantagem considerável para quem se dispõe disputar os 100 metros rasos.

Do mesmo modo, não é porque nem toda terapia que passa p…