segunda-feira, 13 de maio de 2013

Space Oddity in Space



Tá, eu sei, todo mundo já deu, mas não tinha como deixar de registrar aqui: o comandante da Estação Espacial Internacional, o canadense Chris Hadfield, despede-se do posto orbital gravando um "cover" de David Bowie. A melhor crítica que vi até agora ao vídeo é que a interpretação de Hadfield é "literal demais", o que é uma ironia em escala (com o perdão da hipérbole) cósmica.

Mas, vamos lá: é arte, tecnologia e ciência juntas como poucas vezes se viu. E Hadfield merece ser o primeiro astronauta ganhar um Emmy.

sábado, 11 de maio de 2013

Ceticismo para crianças

Antes do artigo em si, uma nota explicativa: há vinte anos, quando, se não me engano, Itamar Franco governava o Brasil e a inflação era tanta que os preços subiam em progressão geométrica de um dia para o outro, este escriba finalmente obteve seu diploma de bacharel em Comunicação Social, com Habilitação em Jornalismo, e foi procurar emprego. 

O que consegui foi uma vaga genérica de repórter no Jornal de Jundiaí, o mais antigo diário ainda em circulação de minha cidade natal. Minha primeira pauta foi um assalto a mão armada contra um posto de gasolina; a segunda, uma denúncia de esgoto a céu aberto numa favela (o editor me recomendou, paternalmente, que "levasse galochas"). 

Também visitei uma comunidade de idosos que estava prestes a ser despejada por conta da ampliação de uma avenida e um acampamento de sem-terra. Às vezes me pergunto onde teria ido parar se tivesse seguido nessa linha, no "barro" do jornalismo, escrevendo sobre o povo para o povo. Teria sido uma vida mais interessante? Menos? Será que eu prestava para fazer aquilo? Mas, enfim. Com o passar do tempo, acabei em envolvendo na cobertura da política municipal e, não sei exatamente como, fui convidado para colaborar com o suplemento infantil do jornal, chamado Jotinha, fazendo uma coluna sobre ciência.

 Lembro-me de ter escrito textos sobre coisas bem básicas -- número, espaço, tempo -- e aí saí do jornal para tentar virar como escritor e tradutor free-lance, fracassei fragorosamente e, depois de mais algumas idas e vindas, acabei indo parar na internet do Estadão, onde fiquei pelos 14 anos seguintes.

 Bom, toda essa introdução é para explicar que, nesta semana, o Jotinha completou 1000 edições e seu editor, o professor Fernando Bandini, me convidou para escrever a milésima coluna de ciência para crianças. Aceitei, tão honrado quanto nostálgico, mas optei por, em vez de falar sobre o conteúdo das ciências, tentar tratar do método -- algo que, 20 anos atrás, eu teria sido incapaz de fazer. O resultado, compartilho com vocês aqui abaixo:

 Comecei a escrever para o Ciência e Consciência há uns vinte anos. Muitos dos leitores que estão vendo este texto, agora, nem tinham nascido! Talvez nem seus pais se conhecessem. Vinte anos é muito tempo. Durante todo esse tempo, o Ciência e Consciência falou sobre as coisas que os cientistas descobriram, e que continuam descobrindo, a respeito do mundo em que vivemos.

 Eu queria aproveitar este aniversário, no entanto, para falar de uma coisa um pouco diferente: o segredo que leva os cientistas a fazerem suas descobertas. Claro, cada ciência tem seu jeito próprio. O arqueólogo (que é o cientista que estuda povos e civilizações antigas) visita ruínas e faz escavações. Os biólogos (que estudam os seres vivos) vão para as matas, as florestas, o fundo do mar, e também têm seus laboratórios. Os matemáticos pensam muito, prestando sempre muita atenção no que fazem. Mas todos os cientistas, não importa a especialidade, têm um método, um segredo em comum: eles duvidam.

 É porque o arqueólogo duvida das histórias que ouviu sobre como os povos do passado viviam que ele vai até as ruínas, vai escavar as ruas das antigas cidades: para ver se o que lhe disseram era mesmo verdade e assim, quem sabe, descobrir coisas novas. É porque os cientistas duvidam que existem os laboratórios, que são lugares onde se fazem experiências.

Uma experiência é algo que se faz para ver o que acontece: um jeito de resolver uma dúvida. Pessoas que não têm dúvidas, que não duvidam, não precisam experimentar. É por isso que nós experimentamos roupas ou comidas: porque temos dúvida de se camisa vai servir, ou de se o doce é mesmo bom.

 Agora, muita gente acha que duvidar é feio, uma coisa de falta de educação. Que é preciso aceitar a palavra dos outros, senão estaremos ofendendo as pessoas – chamando-as de mentirosas ou, caso sejam pessoas adultas, faltando com o respeito. Mas é que existem maneiras diferentes de dizer que se duvida de uma coisa. Fazer cara feia, dar risadinha, ser teimoso não vão ajudar você a fazer amigos ou a ganhar a paciência dos adultos.

O jeito de duvidar dos cientistas, porém, é diferente: é respeitoso, interessado, ativo. Ser respeitoso é apenas isso: não fazer careta, não dar risadinha, não tentar parecer melhor que os outros. Ser interessado é não ficar apenas dizendo “eu duvido”, mas fazer perguntas, pedir detalhes, explicações.

 Gente que tem coisas legais a dizer costuma até gostar desse tipo de dúvida, já que ele mostra que você está ligado e prestando atenção. E nem todo mundo que passa uma informação falsa está mentindo: muitas vezes a pessoa apenas está enganada, e suas perguntas podem até ajudá-la a perceber isso. Todo mundo erra de vez em quando, e um pouco de dúvida pode ajudar a pegar o erro.

 Já ser ativo é fazer o que o arqueólogo, o biólogo, o astronauta fazem: ir atrás das provas – o que os cientistas chamam de “evidências” – a favor ou contra aquilo que você pensa. É essa busca que leva aos laboratórios, ao espaço, ao fundo do mar. É onde a parte divertida da ciência está.

sexta-feira, 3 de maio de 2013

Enquadrando a questão da "cura gay"

"Enquadramento" é a estratégia retórica de tentar controlar a forma com que uma questão em debate é vista pelo público em geral. Um enquadramento eficaz funciona como uma espécie de funil conceitual, dirigindo a discussão para uma conclusão preconcebida. Por exemplo, a frase "o governo pode punir você pelo que está no seu sangue" soa sinistra, com até alguns tons de eugenia e fascismo no meio, mas alguém poderia dizer que esse é, basicamente, o princípio por trás da proibição de se dirigir alcoolizado.

Claro que, no caso da Lei Seca, o governo na verdade pune as pessoas por colocar a vida dos outros em perigo: o conteúdo do sangue é avaliado por ser um fator determinante, na circunstância específica. Mas é assim que o enquadramento funciona: como num filme, o quadro mostra parte da cena diante das câmeras, e omite o resto. Num enquadramento ruim (ou desonesto), o omitido acaba sendo mais importante que o mostrado.

No aparentemente interminável debate legislativo sobre se certos psicólogos deveriam ter a prerrogativa -- negada por norma do Conselho Federal de Psicologia -- de oferecer uma "cura gay" ou, para ser menos vulgar, "terapias de reorientação sexual", há uma operação de enquadramento em curso, que busca apresentar a questão como um problema de direitos individuais: nessa perspectiva, a "ditadura gayzista" estaria agindo para aprisionar, na homossexualidade, pessoas que prefeririam mudar de orientação.

Esse enquadramento, ao menos à primeira vista, contorna o ponto mais reforçado pelos defensores da proibição da oferta do "serviço": o de que a homossexualidade não é uma doença e, portanto, não requer "cura". Afinal, uma série de outras condições -- da calvície à celulite e aos pés-de-galinha -- também não são precisamente patologias, mas os membros das profissões médicas não são impedidos de oferecer tratamentos. Se há clientes em potencial, por que não haveria de haver oferta?

Mas, se formos adotar o quadro "liberdade pessoal/relação comercial", temos de levar um outro fator em consideração: a eficácia. Mesmo a mais anarco-capitalista das éticas deve condenar a quebra de contrato, o comerciante que vende e não entrega, ou que pratica o bait-and-switch -- a fraude que consiste em fazer publicidade de um produto mas, no fim, apresentar outro, de qualidade inferior, ao cliente.

E o que sabemos sobre a eficácia dos tratamentos de reorientação sexual? Bem, em 2008 foi publicado, no periódico Journal of Marital and Family Therapy um artigo com o título A Systematic Review of the Research Base on Sexual Reorientation Therapies, que analisou estudos sobre os efeitos desse tipo de tratamento realizados a partir de 1956 e até a década passada. A conclusão? "Homens e mulheres que buscam mudar comportamentos sexuais (...) devem ser informados de que a eficácia dessas terapias não foi provada, que a pesquisa sobre essas terapias é metodologicamente falha. Além disso, a teoria e a prática dessas terapias viola princípios de dignidade, competência e (...) responsabilidade social".

A questão da "responsabilidade social" merece elaboração: porque a promoção de uma "cura gay" não é como, digamos, a promoção da astrologia -- outra prática sem nenhuma base científica, mas geralmente tolerada, por ser vista como uma relação privada entre astrólogo e consulente.

Uma cartilha publicada pela Academia de Pediatria dos Estados Unidos, e endossada por mais de dez outras entidades profissionais (incluindo a Associação de Psicólogos) deixa bem claro que "tanto a heterossexualidade quanto a homossexualidade são expressões normais da sexualidade humana", e que esforços terapêuticos para mudar a orientação sexual humana "têm grave potencial de dano para a juventude, porque apresentam a visão de que  a orientação sexual de jovens gays, lésbicas e bissexuais é uma doença ou distúrbio mental, e frequentemente tratam a incapacidade de mudar de orientação sexual como uma falha pessoal de caráter".

A Associação de Psiquiatria dos EUA, por sua vez, afirma que "os riscos potenciais da terapia reparativa são grandes, incluindo depressão, ansiedade e comportamento autodestrutivo, já que o alinhamento do terapeuta com os preconceitos sociais contra a homossexualidade pode reforçar o ódio a si mesmo já sentido pelo paciente". 

Um estudo publicado em 2002 indicava que, quando o "bullying" e a perseguição por parte dos colegas era controlado,  a taxa de suicídio e de outros comportamentos antissociais entre adolescentes gays caía ao nível do da população heterossexual da mesma idade.

Enfim: o consenso científico é de que, se os gays precisam de psicoterapia, é para aprender a lidar com a própria identidade sexual em meio a um ambiente hostil, e não para mudar de identidade -- mesmo porque essa segunda opção não existe cientificamente, e buscá-la traz um potencial real de dano, tanto físico quanto psicológico.

Não causar dano é um princípio norteador não só da ética médica, mas de todas as profissões que lidam com saúde. Impô-lo é, ou deveria ser, uma das razões de existir dos órgãos de classe, como os conselhos de psicologia que proíbem seus filiados de anunciar por aí que sabem como "curar" gays.

segunda-feira, 29 de abril de 2013

Só poder dizer coisas inofensivas é uma liberdade inútil

O New York Times desta segunda-feira trouxe um artigo de Salman Rushdie sobre a necessidade de que voltemos a valorizar a coragem moral -- a coragem de desafiar a opinião dominante, mesmo quando isso pode trazer consequências bem mais graves que um desentendimento com o sogro.

Como o jornalista britânico Nick Cohen notou em seu livro You Can't Read This Book (que, aliás, já recomendei em outras postagens deste blog), é muito cômodo espumar contra o imperialismo ocidental e sair por aí xingando a rainha na Inglaterra, o papa ou o governo Obama. Afinal, sejam os impropérios merecidos ou não -- e meus leitores bem sabem que o já escrevi sobre a Santa Sé --, é mais do que razoável supor nem o MI-5, nem a Guarda Suíça e nem mesmo a CIA vão mandar homens-bomba atrás de você.

Já o pessoal que aparece no clip de vídeo abaixo usou de palavras para enfrentar adversários bem menos caridosos e, curiosamente, obteve muito pouca solidariedade aqui no Ocidente. Como escreveu Rushdie no NYT, "esta nova ideia -- de que escritores, acadêmicos e artistas que se levantam contra a ortodoxia ou o preconceito devem ser penalizados por incomodar as pessoas -- vem se espalhando depressa".

Nesta quinta-feira, dia 2, haverá um protesto internacional em defesa de blogueiros de Bangladesh que foram presos por "ferir sentimentos religiosos". Não sei se manifestar apoio a isso aqui no Brasil é menos inócuo do que a patética nota do PCdoB em defesa do regime norte-coreano, mas a causa é certamente melhor.

Ah: a frase-título da postagem é do jurista britânico Stephen Sedley.

sexta-feira, 26 de abril de 2013

Vivendo a vida motivada

Alguma alma caridosa do condomínio em que moro costuma pôr pequenas crônicas motivacionais no quadro de avisos do elevador -- geralmente trocando o texto uma vez por semana. São breves exortações bem-intencionadas, produzidas por um desses gurus engravatados da vida corporativa que, hoje, são mais fáceis de se achar por aí do que fungo em madeira podre, sempre falando como é importante dar duro, ser honesto, tratar bem o cliente, liderar para a vitória, blá-blá-blá, e amar o que se faz. Um texto recente lembrava que "você passa as melhores horas dos melhores anos da sua vida no trabalho" e tentava fazer isso parecer uma coisa boa, como se não fosse, na verdade, uma das constatações mais deprimentes já escritas desde que Jean-Paul Sartre pôs o ponto final em A Náusea.

O que me deixou pensando na relação das pessoas com o trabalho, e em como fomos todos fraudados pelas promessas de transformação profissional que ouvimos lá nos longínquos anos 80. Ou talvez fossem mais antigas? Eu me lembro delas nos anos 80, mas até aí, eu não pensava muito em trabalho antes disso.

Mas, enfim: até algum momento do passado, havia uma distinção entre "trabalho" e "vida". Trabalho era uma coisa que você fazia -- varrer o chão, lavar pratos, apertar parafusos, contar dinheiro -- e vida era o que você era: pai amoroso, marido carinhoso, zagueiro do time de várzea.

Algumas carreiras, principalmente nas artes e na política, fundiam trabalho e vida, enquanto outras, como medicina e jornalismo, tendiam a tornar mais finas as paredes entre as duas esferas, mas esses eram os casos excepcionais. No geral, a coisa seguia uma demarcação clara: da catraca para dentro, trabalho; da catraca para fora, vida.

Não que fosse uma situação confortável. Bibliotecas inteiras já foram escritas sobre os efeitos deletérios da alienação do trabalho, sem falar no filme Tempos Modernos, de Charles Chaplin. H.L. Mencken produziu um artigo cáustico, chamado "A Mente do Escravo", sobre  a cabeça do homem que trabalha apenas para ganhar o sustento, sem nenhum outro objetivo em vista. O sonho de Marx de uma vivência realmente integrada -- onde fosse possível pescar pela manhã, caçar à tarde, criticar à noite -- era uma aspiração mesmo entre os não-marxistas. Profissões, como a de ator ou compositor, onde vida e trabalho pareciam existir numa espécie de fluxo contínuo eram -- como ainda são -- glamurizadas.

A promessa que minha geração ouviu, nos anos 80, era a de que, no futuro, todo trabalho seria assim: existiria em fluxo, e seria possível levar a vida para o trabalho. Parecia uma perspectiva excitante, refrescante, inacreditavelmente humana. Porém, como o talismã maligno do conto A Pata do Macaco, que amaldiçoa seu possuidor ao mesmo tempo em que realiza seus desejos, a mudança teve um preço imprevisto: o de termos de levar o trabalho para a vida.

Isso não é um problema se o que você faz coincide naturalmente com o que você é -- no caso, digamos, de um cineasta ou de um poeta -- mas a coisa fica um pouco mais complicada quando o que se faz é apertar parafusos ou vender ternos. Nem mesmo o patrão sádico do filme de Chaplin esperava que seus funcionários amassem suas porcas e parafusos como um poeta ama sua poesia; ou se mantivessem em prontidão 24 horas para atender o cliente, como o cineasta pode virar a noite acordado esperando o momento exato para sua cena.

Essa é a promessa quebrada: esperávamos que poderíamos todos fazer arte, e em vez disso o que ganhamos foram as mesmas funções maçantes e sem sentido de sempre, mas agora somadas à obrigação de desempenhá-las com todo o zelo e o desprendimento de verdadeiros artistas. Tínhamos acreditado que poderíamos fazer o que amássemos; em vez disso, demos de cara com o dever de amar o que -- o que quer que seja -- que fazemos.

Nesse contexto, o discurso motivacional é uma espécie de Fanta Uva da alma, um doce refresco que tenta convencer as pessoas de que vender um apartamento ou um carro merece a mesma recompensa emocional que pisar na Lua ou compor um poema épico em decassílabos: que o importante não é buscar as aspirações mais nobres, mas considerar nobres as aspirações que estão à mão.

O fato da indústria da motivação não dar mostras de exaustão reflete, talvez, o fato de que o efeito de seu alucinógeno edulcorado é passageiro, de que as pessoas precisam de doses cada vez maiores, e a intervalos cada vez menores, para sustentar o delírio de que o trabalho que fazem é o verdadeiro propósito de suas vidas. De que ser vendedor é mais importante, num sentido profundo, ontológico, do que ser zagueiro no time de várzea.

Enfim, se a solução para a alienação do trabalho é a alienação da vida, será que podíamos ter a primeira de volta, por favor?

terça-feira, 23 de abril de 2013

E se a vida aqui começou... lá fora?

O título desta postagem é um plágio descarado da narração inicial da série Galactica original, mas não resisti: o assunto é um artigo publicado no ArXiv, assinado por dois físicos, que propõe que a vida, tal como existe na Terra, teria começado há 10 bilhões de anos -- o que é uns 5 bilhões de anos antes da formação do Sistema Solar.

O ponto mais interessante ad discussão toda (altamente especulativa, aliás) é que o argumento levantado pela dupla leva à conclusão de que a Terra é o primeiro planeta, em todo o Universo, a abrigar vida inteligente -- o que resolve o Paradoxo de Fermi, embora deva desapontar os ufólogos.

Mas, afinal, que argumento é esse? Trata-se de uma especulação engenhosa: a de que o ganho de complexidade dos seres vivos, ao longo da evolução, obedece a algo como a Lei de Moore, segundo a qual o número de transistores num chip de computador -- e, por tabela, outras características como velocidade e capacidade de memória -- deve dobrar a cada dois anos, aproximadamente.

No caso dos seres vivos, dizem os autores do artigo, a complexidade do genoma, medida em termos do tamanho das sequências não redundantes que codificam proteínas, cresce numa escala em que vem a dobrar a cada 376 milhões de anos. Projetando isso para o passado, o ponto de "complexidade zero" aparece 10 bilhões de anos atrás, como mostra a tabela abaixo, surrupiada do artigo original:


A conclusão de que não pode ter havido vida inteligente antes da evolução dos seres humanos na Terra decorre do fato de que o Universo, como um todo, tem apenas 14 bilhões de anos -- se são mesmo necessários 10 bilhões para gerar inteligência, simplesmente não houve tempo para nenhuma outra espécie chegar antes da gente. Como se vê em outra figura tirada do paper:




Mas, como já disse, isso tudo é altamente especulativo. Os próprios autores do artigo reconhecem que suas conclusões dependem de uma série de pressupostos -- que vão desde a escolha de uma medida de complexidade até a ideia, bastante problemática, de que a taxa de aumento dessa complexidade seria constante. Se, por exemplo, nos primórdios da vida (ou, mesmo, na evolução química, pré-biótica) o ganho tiver sido muito acelerado, talvez os efeitos atribuídos aos primeiros 5 bilhões de anos nos gráficos acima tenham, na verdade, sido compactados num intervalo muito menor.

Ainda assim, os autores defendem sua ideia como sendo uma hipótese testável. Escrevem:

"Vida extrassolar está provavelmente presente em alguns planetas e satélites do Sistema Solar, porque (1) todos os planetas tiveram oportunidade comparável de serem contaminados com  vida microbiana e (2) alguns planetas e satélites (...) oferecem nichos onde certas bactérias podem sobreviver e reproduzir. Se vida extraterrestre estiver presente no Sistema Solar, ela deverá ter fortes semelhanças com micróbios terrestres (...) Esperamos que tenha os mesmos ácidos nucleicos e mecanismos similares de transcrição e tradução, como nas bactérias terrestres".


É ousado, sem dúvida, mas é testável, o que é mais do que se pode dizer de coisas como o tal do Design dito Inteligente.

Aqui tenho de confessar que nutro uma simpatia um tanto quanto irracional (romântica?) pela ideia de panspermia -- de que a evolução da vida começou no espaço -- e que é, claro, apoiada pela hipótese apresentada no artigo.

No fim, o veredicto virá, como sempre, das evidências, ou da ausência delas. Mas como não trabalho com isso, posso deixar meus vieses cognitivos correrem mais ou menos soltos e ficar aqui na torcida.

P.S.


Via Twitter, o Roberto Takata me lembra de que, caso a vida tivesse mesmo caído do espaço, depois de evoluir por lá ao longo de bilhões de anos, seria improvável que a genética atual indicasse, como indica, que todos os seres vivos do planeta têm um ancestral comum: seria de se esperar uma pluralidade de formas primitivas semeando a Terra. O que só mostra que o romantismo não é um bom guia para escolher teorias...