terça-feira, 28 de outubro de 2014

Afinal, faz diferença dizer "presidenta"?

Você acha que chamar uma mulher que exerce um cargo de presidência de “presidenta” ajuda a combater o machismo? Ou que o fato de o português usar a forma masculina de modo inclusivo (“todos” pode se referir a um grupo de homens ou a um grupo de homens e mulheres; “todas” refere-se apenas a mulheres) torna, de algum modo, a cultura lusófona especialmente discriminatória contra o sexo feminino? Se for esse o caso, você talvez esteja sofrendo de “whorfianismo”, nome dado à hipótese defendida pelo linguista Benjamin Lee Whorf (1897-1941). Leia mais no Olhar Cético.

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Lovecraft, uma vida

Consumidos quase dois terços de minhas férias, finalmente chego ao fim de HP Lovecraft: A Life, catatau de mais de 600 páginas em letra miúda e entrelinha mínima, escrito pelo crítico literário S.T. Joshi e considerado o melhor livro disponível sobre a vida e o trabalho do escritor americano Howard Philips Lovecraft (1890-1937). Joshi tem sido, nas últimas décadas, o principal campeão do resgate do valor literário da obra de Lovevraft, em oposição ao valor meramente histórico -- como pai do terror moderno, ou inventor do tropo do "deus alienígena" --, que parece ser o único que boa parte da crítica, depois das análises demolidoras produzidas por figuras como Edmund Wilson e Colin Wilson, estava disposta a reconhecer, pelo menos até os anos 70 do século passado.

Joshi não se furta a reconhecer que muito da obra de Lovecraft sofre da doença "pulp"da "prosa púrpura" -- texto melodramático, excessivamente adjetivado -- mas insiste que Lovecraft era "senhor de seu estilo, não escravo dele" e cita um núcleo de contos e novelas -- especialmente, Os Ratos nas Paredes, A Cor que Caiu do Céu, O Chamado de Cthulhu, Nas Montanhas da Loucura, Uma Sombra Perdida no Tempo -- que são literatura de primeira qualidade e deveriam bastar para garantir ao autor um lugar no panteão das letras de expressão anglófona ao lado de Edgar Allan Poe.

Aos poucos, Joshi parece estar vencendo esta batalha: já há um volume de contos de Lovecraft na coleção Penguin Classics, o que possivelmente representa a coisa mais próxima de uma canonização formal a que um autor de língua inglesa pode aspirar, nos dias de hoje.

Isso tudo quanto à obra. Mas, e o homem? É para isso que servem biografias, certo?

Os contornos gerais da vida de Lovecraft são trágicos: da morte do pai, enlouquecido por sífilis, à progressiva degradação mental da mãe -- talvez contaminada pelo marido com a mesma doença --, à pobreza extrema de boa parte de sua vida adulta (Joshi deduz, a partir de cartas enviadas por Lovecraft a parentes, que em pelo menos uma oportunidade ele deve ter passado meses sem fazer uma só refeição quente, vivendo de sanduíches de pão velho recheado com enlatados vencidos) e à morte agonizante de câncer intestinal, não parece ter havido muita coisa para ele fazer, além de se lamentar e escrever fantasias macabras.

O azar também parece tê-lo perseguido na vida literária: duas de suas maiores obras, Nas Montanhas da Loucura e Uma Sombra Perdida no Tempo, foram publicadas originalmente com inúmeros erros e cortes arbitrários; dois de seus contos chegaram a ser citados nas "menções honrosas" de antologias de melhores histórias do ano, mas nunca chegaram a entrar nessas antologias; e vários projetos para a publicação de sua obra em livro fracassaram ao longo de sua vida.

Mas esses são os contornos. O que preenche esses contornos é fascinante: uma correspondência voluptuosa, com a troca efusiva de cartas, algumas com mais de 70 páginas, com mais de 90 diferentes amigos espalhados pelos Estados Unidos, o ativismo no mundo da "imprensa amadora" -- onde revistas e jornais produzidos artesanalmente circulavam entre grupos de correspondentes -- às frequentes viagens, que fazia em ônibus noturnos (para economizar dinheiro de hotel), hospedando-se muitas vezes na casa de correspondentes que o recebiam de braços abertos,às vezes por semanas a fio, e que o levaram da Flórida a Quebec.

Se há algo que brilha na biografia escrita por Joshi é a imensa generosidade de Lovecraft: ele era incapaz de deixar uma carta sem resposta, e de oferecer uma resposta que não fosse pensada e considerada. Os primeiros fanzines -- revistas amadoras de fãs -- de fantasia e terror surgiram praticamente ao seu redor e com seu apoio. Jovens talentos como Robert Bloch, Fritz Leiber e James Blish receberam dele orientações no início de suas carreiras. E o casal C.L. Moore e Henry Kuttner, que viria a escrever diversas obras importantes de ficção científica em conjunto, se conheceu por meio dele: ambos eram correspondentes de Lovecraft, e foi ele que os pôs em contato um com o outro. É de se imaginar como ele atuaria neste nosso mundo moderno de redes sociais. O círculo de correspondentes de Lovecraft era virtualmente um Facebook de papel e tinta, no qual ele fazia as vezes de nó central, ou servidor.

Imagino que o World Fantasy Award seja um busto de Lovecraft não só pela importância de sua obra no desenvolvimento do gênero, mas também pelo seu papel como uma das figuras estruturantes do "fandom" -- a comunidade de fãs que, no fim, acabou dando origem ao prêmio. Em tempos recentes, o uso de sua figura na estatueta tem sido criticado, por conta do que certamente foi a pior faceta de seu caráter, o racismo.

Joshi não se vale de meias palavras ao tratar do assunto: Lovecraft era um racista. Especialmente virulento na adolescência, quando escreveu poemas "odiosos" e "constrangedores" -- nas palavras do biógrafo -- louvando a segregação racial, até a idade adulta, onde, embora com menos violência retórica, continuou a defender a inferioridade biológica dos povos de pele escura e a ideia de que, mesmo entre os povos de pele clara, o melhor seria que as culturas fossem segregadas, evitando "contaminação" e "decadência".


Joshi se mostra intrigado com esse ponto fixo no pensamento de Lovecraft. Ele registra, por exemplo, como as ideias sociais do escritor evoluíram em sua última década de vida -- de conservador empedernido, ele se tornou um apoiador direto do New Deal de Roosevelt e um socialista,
condenando explicitamente seu conservadorismo anterior como uma forma de romantismo anticientífico e irrealista -- mas, na questão racial, embora tenha havido uma suavização de retórica, o fundo ideológico permaneceu o mesmo.

O biógrafo especula que o que Lovecraft realmente temia era mudança -- muitas de suas viagens foram feitas para visitar prédios antigos, cidades históricas, lugares onde, em suas palavras o tempo "tinha sido derrotado" -- e que a visão de pessoas de aparência diferente, língua diferente, costumes diferentes era, para ele, um lembrete desagradável de transformação e de passagem do tempo.

Joshi discorda, no entanto, de quem vê no racismo um componente fundamental da obra lovecraftiana, como uma nódoa odiosa e indissociável. Seus dois melhores trabalhos -- Nas Montanhas da Loucura e Sombra Perdida no Tempo -- não giram em torno da questão de raça. No fim, a forma de pesar as diferentes facetas de Lovecraft -- figura trágica, amigo generoso, escritor visionário, homem preconceituoso -- deve variar de acordo com a visão pessoal de cada um.

No caso da polêmica do World Fantasy Award, se fosse chamado a palpitar eu diria que críticos e escritores que estão sempre prontos a celebrar e compreender personagens ficcionais complexos e contraditórios, dotados de defeitos e qualidades, poderiam estender a mesma generosidade a pessoas de carne e osso.

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Conversa ao redor da fogueira

O domínio do fogo abriu espaço para novos tipos de interação social, permitindo que os membros de comunidades pré-históricas contassem histórias e conversassem sobre assuntos não relacionados às necessidades imediatas do grupo, sugere estudo feito por uma antropóloga americana entre bosquímanos do Kalahari, na África, e publicado no periódico PNAS. Além de analisar os hábitos dos bosquímanos, o artigo traz uma provocação para as sociedades industrializadas: “Fica aberta a questão de o que acontece quando o tempo economicamente improdutivo, à luz da fogueira, se transforma em tempo produtivo, sob luz artificial”. Leia mais sobre este assunto, e outros, no Telescópio.

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Discurso de Ódio versus Discurso Perigoso

O bafafá em torno das declarações escrotas de um Candidato Tabajara Hilóbata Ululante  Lamacento Homofóbico Ultrajante (C.T.H.U.L.H.U.) sobre união gay e direitos dos homossexuais trouxe à tona um debate sobre discurso de ódio, censura, a conveniência e a ética de se punir/coibir/tolerar certos tipos de exercício da liberdade de expressão. Como este blog tem uma posição libertária forte nesse tipo de questão, achei legal dar uns pitacos.

Uma distinção conceitual que me parece fazer sentido, que vem aparecendo no debate acadêmico a respeito e que parece meio borrada na discussão pública atual é a que se pode fazer entre "discurso de ódio" e "discurso perigoso". Discurso de ódio é todo discurso que busca apequenar pessoas simplesmente porque elas fazem parte de um dado grupo. Já discurso perigoso é todo discurso de ódio que tem uma probabilidade razoável que levar à violência contra o grupo ofendido.

A distinção é importante porque, embora todo discurso de ódio seja, de algum modo, ofensivo, nem todo discurso ofensivo é perigoso. E mesmo pessoas (como eu) que reconhecem o mais amplo "direito" de usar palavras para ofender podem ter restrições ao "direito" de usar palavras para pôr a integridade física de terceiros em risco. Ofender é ser escroto; pôr em perigo é ser bandido. Um caso requer condenação na esfera da cultura; outro, na criminal. Ou, ao menos, é assim que entendo.

Essa diferença já aparecia na obra de John Stuart Mill, o principal teórico da ampla liberdade de expressão: ele deixou, como exemplo, a diferença entre se escrever um artigo de jornal acusando os mercadores de trigo de matar as crianças pobres de fome com suas especulações (o que seria permitido) e apontar para um mercador de trigo na rua e gritar "lá vai um assassino de criancinhas!" (o que seria proibido). Dá para dizer que o artigo seria "discurso de ódio", enquanto que o grito na rua, "discurso perigoso".

Com o alcance das mídias atuais, a linha entre ódio e perigo tende ser se tornar cada vez mais indistinta, além de envolver cada vez mais fatores psicológicos: afinal, uma pessoa que decide fazer uma bobagem depois de ler a uma troca de insultos entre "tucanalhas" e "petralhas", ou entre "porcos" e "gambás" no Facebook é um desequilibrado, ou um agente motivado por incitação direta?  E o Estado deve começar a patrulhar os hábitos retóricos da população só porque um maluco em algum lugar de repente, quem sabe, pode, um dia, despirocar por causa de uma ironia mais psada, ou de uma grosseria explícita?

A pesquisadora Susan Benesh propôs um conjunto de cinco critérios para definir "discurso perigoso" e distingui-lo do discurso meramente ofensivo que, embora lamentável e condenável, estaria protegido segundo as concepções mais liberais de liberdade de expressão. O paper pode ser encontrado aqui, mas, em resumo, são:

1. O enunciador é uma figura poderosa que tem forte influência sobre a audiência;
2.  A audiência tem medos e rancores que o enunciador explora;
3. O discurso contém uma clara convocação à violência;
4. O discurso se dá num contexto histórico-social propício para a violência;
5. O meio de disseminação é influente em si -- por exemplo, um veículo oficial, ou de grande audiência.




"Magia ao Luar": bom filme, mau cético

Acrítica tem sido meio rabugenta com o filme “Magia ao Luar”, de Woody Allen. Não sen trata, claramente, de uma obra-prima, mas ainda assim é um belo trabalho: simpático, leve e divertido. E, no que é de interesse especial para este blog, protagonizado por um cético combativo, um mágico de palco interpretado pelo grande ator britânico Colin Firth. Leia mais sobre o filme, sua inspiração em personagens reais e seu cético problemático no site da Galileu.

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

O grande experimento transgênico

Nos últimos 19 anos, a proporção da ração animal consumida pelo gado e pelas aves de corte nos Estados Unidos que é composta por material geneticamente modificado passou de 0% para mais de 90%, com bilhões de animais alimentados a cada ano. Um estudo publicado no periódico Journal of Animal Sciencecomparou os registros sobre saúde do gado e dos frangos antes e depois da introdução dos transgênicos, e não encontrou nenhuma diferença relevante. Leia mais sobre esse assunto, e também sobre a violência dos chimpanzés e a censura sofrida por cientistas no Canadá, no Telescópio.

terça-feira, 23 de setembro de 2014

Complexidade "irredutível"

"Nunca consegui entender", disse Mr. Pond, "como uma mudança que deveria ter ajudado um animal, se acontecesse depressa, pode ajudá- lo se acontece devagar. E se acontece em seu tataraneto, muito depois de passada a hora de o animal ter morrido sem sequer deixar netos. Poderia ser uma vantagem se eu tivesse três pernas, digamos, para me apoiar em duas enquanto chuto um burocrata com a terceira. Poderia ser melhor se eu tivesse três pernas; mas não seria melhor se eu tivesse apenas uma perna rudimentar (...) até que seja longa o bastante para correr ou escalar, a perna seria apenas um peso extra". 

Este é, numa versão usada pelo escritor G.K. Chesterton (1874-1936), o argumento criacionista da "complexidade irredutível". Entenda por que ele não funciona, no Olhar Cético da Revista Galileu