terça-feira, 25 de agosto de 2015

Massacre e tortura na pré-história

Uma vala coletiva de cerca de 7.000 anos atrás, contendo os restos de pelo menos 25 corpos humanos, com sinais de violência, foi descoberta na Alemanha. Os achados são descritos no periódico PNAS. O sítio arqueológico pertence à chamada Cultura LBK da Europa Central, cujos padrões de violência são alvo de discussão entre cientistas. O novo local de massacre se soma a outros três vinculados à LBK, encontrados na Alemanha e na Áustria. Ele se destaca dos demais pela presença frequente de ossos quebrados nas pernas das vítimas, o que sugere o uso sistemático de tortura. Leia mais sobre esta e outras descobertas científicas na coluna Telescópio.

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

"Diz estudo", diz estudo: uma reflexão

Em março deste ano, o biólogo e jornalista John Bohannon convenceu parte significativa da mídia internacional de que o consumo, em doses moderadas, de chocolate amargo aumenta a eficácia de dietas para emagrecer. Em maio, desmentiu tudo. Escrevi um artigo explicando a "pegadinha" e dando minha interpretação do que ela significa para a comunicação científica para o jornal gaúcho Zero Hora, que circulou neste domingo. Quem quiser conferir meus palpites a respeito encontra o texto completo neste link.

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Ela está entre nós: levedura que transforma açúcar em ópio

A criação de uma levedura, geneticamente modificada, capaz de transformar açúcar nos opioides tebaína e hidrocodona é descrita na edição mais recente da revista Science. Na natureza, a tebaína aparece como uma molécula constituinte do ópio, e é usada pela indústria na síntese de analgésicos. Já a hidrocodona é um derivado da codeína, narcótico encontrado naturalmente na papoula, planta da qual é extraído o ópio. Mais detalhes sobre este e outros avanços científicos, você encontra no Telescópio.

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Novos livros para a Bienal: Flores e Fúria!

Eis que, depois de um lançamento independente do conto de ficção científica Diamante Truncado (bem avaliado tanto na Amazon nacional quanto na gringa), volto a publicar ficção seguindo o modelo "tradicional". Entram em pré-venda, nesta semana, no site da Editora Draco, dois livros meus, uma novela (com cerca de 90 páginas) de fantasia, Flores do Jardim de Balaur, e a muito esperada (ao menos por mim!) segunda edição, ampliada, comemorativa de dez anos da publicação original, da coletânea de contos de ficção científica e terror Tempos de Fúria.

Os dois novos livros, além dos meus três outros títulos já lançados pela editora (o romance Guerra Justa, a novela de fantasia As Dez Torres de Sangue e o volume de contos Campo Total) estarão disponíveis no estande da Draco na Bienal do Rio!

Mas, o que são esses livros novos? Começando, então, por Tempos de Fúria: publicado originalmente em 2005, este foi o livro que fez a minha "fama" -- seja lá o quanto disso que tenho. Foi adotado como leitura obrigatória numa importante escola de ensino médio do interior paulista, garantiu-me participação num documentário de TV sobre ficção científica nacional e rendeu minha primeira resenha numa revista de circulação nacional. Enfim, chamou a atenção de um bocado de gente que não me conhecia para o meu trabalho (embora nenhum produtor de Hollywood).

Tempos de Fúria  também é muito usado como régua para medir toda a minha obra posterior – que geralmente acaba sofrendo na comparação, o que me parece um tanto quando injusto, mas quem sou eu para opinar?

Entre os contos mais populares deste volume estão o que abria a primeira edição (hoje é o segundo), o levemente surrealista Estes 15 Minutos; e Planeta dos Mortos, uma, com o perdão da linguagem pretensiosa, sinfonia de destruição e tripas.

Junto a outro conto deste volume, Desígnios da Noite, e a Um Bom Emprego (que saiu na coletânea CampoTotal), Planeta dos Mortos completa minha “trilogia pseudocientífica”, histórias em que uso algum tipo de ideia ou doutrina desacreditada pela ciência como trampolim lógico do enredo. Desígnios da Noite é o meu favorito, mas parece não ter agradado a mais ninguém. O livro todo é um esforço de colar uma certa sensibilidade "pulp" -- aventura desbragada, mistério, violência -- às boas práticas da ficção científica mais honesta, incluindo uma  preocupação com a lógica da especulação por trás de cada história. Você me diga se funcionou. Ah, sim: o livro inclui dois contos que tinham ficado de fora da edição original, incluindo uma homenagem mais-ou-menos oculta a Octavio Aragão, autor da orelha da primeira versão, e uma história alternativa protagonizada por um nipo-brasileiro.

Flores do Jardim de Balaur é, como já disse, uma fantasia,  e algo que acho que posso chamar de semi-inédito". A novela já havia sido publicada, décadas atrás, numa edição especial do fanzine Juvenatrix, de Renato Rosatti, lá na época em que fanzines eram feitos na base de datilografia e xerox. Acho que nunca agradeci devidamente ao Renato pelo esforço de fazer uma edição inteira do fanzine para abrigar o que era, no fim das contas, um pequeno romance. Valeu, cara!

E de que trata o livro? Ele é a primeira -- e até agora, maior -- aventura de meu único protagonista recorrente: Hieron de Zenária (você encontra outra peripécia dele neste conto). Hieron é minha resposta a Conan da Ciméria: não um bárbaro errante, mas um erudito errante.No continente perdido de Darach, dominado por magia e superstição, os sábios de Zenária são os únicos cultores do que chamaríamos de lógica e filosofia natural.

Cansado da mesmice da vida acadêmica, e desconfiado do engessamento intelectual de seus mestres, sempre mais preocupados em citar autoridades do que em investigar a natureza, Hieron corre o mundo, vivendo aventuras e inventando o método empírico-científico no processo, vendendo seus serviços como professor, advogado, matemático e engenheiro. Em Balaur, nós o encontramos trabalhando como engenheiro de cerco durante uma guerra religiosa. Curiosamente, esta novela foi escrita alguns anos antes de eu cair em mim e perceber que era ateu, mas uma leitura retroativa da novela mostra que minha inteligência criativa, pequena como é, já sabia disso.

Minha esperança, claro, é de que todos os que virem esta postagem se sintam impelidos a gastar uns cobres em ambos os livros. Eles estão agora em pré-venda, antes do lançamento oficial, mas devem aparecer, em breve, nos formatos papel e e-book. E, como escrevi acima, estarão à venda na Bienal carioca. Quem sabe a HBO não resolve fazer uma série de Hieron? Sonhar, afinal, ainda é de graça...

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Curso superior, aprendizado contínuo?

Ter cursado graduação numa universidade não estimula as pessoas a manter uma vida intelectual mais ativa do que a da população em geral, mas por outro lado reduz a probabilidade de um adulto se tornar abstêmio, sugerem duas pesquisas realizada pelo Instituto Gallup nos Estados Unidos. Mais detalhes sobre os levantamentos, além de outras notas sobre ciência e educação superior, você encontra no Telescópio do Jornal da Unicamp.

terça-feira, 4 de agosto de 2015

Picaretagem quântica: qual o dano?

Faz uns dois anos que saiu Pura Picaretagem, livro em que eu e o físico carioca Daniel Bezerra dissecamos as falácias pseudocientíficas que tentam aderir ao campo perfeitamente legítimo da física quântica, mais ou menos como cracas grudam nos casos dos navios. A obra gerou, vem gerando, um feedback dos leitores que, se não é caudaloso, é constante: gente que ou escreve na página do livro no Facebook, manda e-mail ou inbox.

Uma coisa que tenho notado, no entanto, é uma mudança no tipo do feedback: no início, ele vinha quase sempre de gente comum ou professores, na maioria dos casos comentando o livro em si ou pedindo algum esclarecimento sobre nossas fontes bibliográficas. Em tempos recentes, começaram a predominar os contatos que buscam chamar minha atenção para algum evento deprimente ou para o uso do nome quântico em vão. Na última semana, no entanto, chegou algo totalmente novo: um pedido de socorro.

Um contato me procurou, via rede social, para pedir auxílio: uma pessoa ligada a sua família havia se convencido de que tinha um suposto "poder quântico de cura" e, por conta disso, vinha se recusando a fazer um tratamento médico considerado necessário. Será que eu tinha alguma ideia para ajudar?

Dei um ou dois palpites, mas duvido que algum deles seja realmente útil. Relações interpessoais, envolvendo questões de afeto, ego e confiança, são notoriamente complexas já para as partes envolvidas. Para um estranho (no caso, eu) podem ser totalmente incompreensíveis e impossíveis de manejar.

Uma coisa que vale a pena comentar de modo mais geral, sobre esse caso, é o fato de a vítima ser, ela também, uma promotora da "cura quântica". O estereótipo do curandeiro charlatão, que sabe que está vendendo ilusões mas insiste nisso, pelo lucro, é apenas isso, um estereótipo. A literatura está cheia de casos que mostram que, ao longo do tempo, mesmo quem começa, cinicamente, como "charlatão" tende a acabar convertido em crente fiel.

Há um artigo clássico do psicólogo Ray Hyman sobre sua experiência com quiromacia que  descreve bem o fenômeno e suas causas mas, em linhas gerais, os principais fatores são o impacto sobre os clientes -- o curandeiro, a princípio, se surpreende ao ver como os outros aceitam seu discurso, e começa a encarar o feedback positivo como sinal de que talvez haja alguma verdade naquilo, afinal -- e uma série de filtros cognitivos que reforça essa percepção, como viés de confirmação e validação subjetiva. Se o efeito atinge até os cínicos, é de imaginar seu poder sobre quem já entra nesse meio como crente.

Mas, enfim, o que é esse "discurso"? Depois de tudo que já li e vi sob o rótulo de "cura quântica" ou "consciência quântica", dá para dizer que, arranhando o verniz retórico e o jargão pseudocientífico, todas essas propostas se reduzem ao bom e velho mito do poder do pensamento positivo. Ou, como escrevi tempos atrás, para a revista Galileu:

A ideia de que nossos pensamentos podem construir ou destruir nossas vidas é antiga. “Porque como imaginou em seu coração, assim o homem é”, diz um versículo do "Livro dos Provérbios" da "Bíblia", citação que batiza o primeiro best-seller de autoajuda pelo pensamento positivo, "As a Man Thinketh", de 1902. A ele se seguiram inúmeros outros, incluindo o megassucesso "O Segredo".

Só o que mudou de 1902 para cá foi a apropriação indevida -- porque descontextualizada, e largamente exagerada -- da palavra observação, que no contexto quântico significa interação: duas partículas que interagem estão "observando" uma à outra e, no processo, definem parte de suas propriedades físicas -- para sugerir, ou mesmo afirmar, que o observador consciente "cria" a realidade, ou que os pensamentos dos indivíduos "atraem" o que lhes acontece. Você pode chamar esse negócio de "lançar no Universo o que deseja que o Universo traga para você" ou "harmonizar as vibrações energéticas", mas no fim é tudo a mesma coisa: desejar e esperar a fada madrinha.

Ah, sim: questões do tipo, como descobertas científicas revolucionárias são possíveis (já que contrariam a experiência e as expectativas da totalidade dos "observadores conscientes" do planeta até o instante exato em que são feitas) e por quê 6 milhões de observadores conscientes judeus teriam concordado em usar o poder de suas mentes para "atrair" o Holocausto são, convenientemente, varridas para debaixo do tapete.

sexta-feira, 24 de julho de 2015

Autopublicando ficção científica para Kindle

Resolvi fazer uma experiência com o Kindle Direct Publishing ("Publicação Direta para Kindle", ou KDP), e na noite passada formatei e submeti meu conto de ficção-científica hard Diamante Truncado ao sistema. Ele já está disponível e à venda, por duas merrecas e meia, neste link. A sinopse (que eu mesmo fiz) é a seguinte: "Quando um misterioso pulso de radiação faz uma base sul-americana no lado oculto da Lua perder contato com a Terra, um cientista brasileiro é enviado para investigar". A capa é uma imagem do lado oculto da Lua feita por uma das missões Apolo.

 Alguém poderia dizer que a coisa mais "ficção científica" da história é supor que a América do Sul consiga um dia ter um programa espacial viável, mas vá lá.

Este conto saiu, no início do século -- se não me engano -- no fanzine Scarium, numa edição especial sobre conquista espacial brasileira. É um dos meus "contos avulsos", dos que nunca foram reunidos em antologias como as publicadas ou que aguardam publicação pela Draco. Ah, sim: conto não é exatamente o mesmo que saiu na Scarium. Houve revisões.

Este é o meu primeiro experimento com o KDP da Amazon. Dependendo de como for, penso em soltar outros contos da mesma forma, e talvez uma coletânea de artigos de divulgação científica que venho montando, usando como base artigos que saíram neste blog e outros que estavam esboçados para o Olhar Cético, mas que não chegaram a ver a luz das telas.

Nada disso quer dizer que eu esteja desistindo das editoras tradicionais, do papel ou dos meios usuais de publicação e divulgação. Mas o KDP abre portas para um material que talvez não interessasse a nenhuma casa editorial, ou que corresse o risco de envelhecer muito ao longo do processo de publicação normal. Anos trabalhando com jornalismo online me deixaram meio impaciente, e ver o texto publicado poucas horas depois de concluído -- e não meses, ou anos -- traz uma satisfação especial.

PS

Só pra lembrar: ninguém precisa ter um kindle, hardware, pra ler a história. A Amazon oferece apps gratuitos de leitura para diversas plataformas: http://www.amazon.com/gp/help/customer/display.html?nodeId=200783640