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Debates científicos: quanto é o bastante?

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Um cacoete bastante comum no mundo das pseudociências é o apelo à prova final que está logo ali na esquina -- mais um experimento, mais uma bolsa do CNPq, mais uma análise estatística e o mundo cairá aos nossos pés (ou, melhor dizendo, aos pés lá deles). Se ao menos esses céticos pentelhos não ficassem sabotando...

Duas variações populares do tema são a da conversão iminente -- já temos provas suficientes e o consenso da comunidade científica está prestes a se transformar, espere só mais um bocadinho -- e a da novidade redentora: vocês vão ver como, daqui a pouco, a física quântica (ou a teoria do caos, ou a lógica paraconsistente, ou qualquer que seja o novo craque em campo) vai provar que nosso Mestre estava certo o tempo todo!

Não há nada de essencialmente errado nesse tipo de alegação, é bom reconhecer. Às vezes acontece de aparecer um visionário anunciando uma revolução científica iminente e, pimba!, a revolução vem. O problema é: quanto tempo é o bastante? Qual a hora de parar …

Vacinas, terapias e verdades alternativas

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Poucas leituras me foram mais penosas que a do primeiro capítulo do livro The Panic Virus, uma história do movimento antivacinação nos Estados Unidos e seu terrível impacto sobre a saúde pública.  O relato abre com a história de uma criança de três anos que morreu porque seus pais se recusaram a vaciná-la -- e de outras duas, de poucos meses de idade, que morreram porque os filhos dos vizinhos não tinham sido vacinados, o que as privou do benefício da chamada "imunidade de manada", que existe quando uma proporção suficientemente grande da população tomou vacina e, com isso, cria uma barreira que impede a chegada da doença a crianças que são novas, ou frágeis, demais para receber a imunização.

Esses relatos arrepiantes sempre me vêm á mente quando leio algo sobre os avanços do movimento antivacinação no Brasil, mais uma moda lamentável importada dos EUA, a exemplo do movimento do design inteligente. Neste domingo, o jornal O Estado de S. Paulotraz uma reportagem sobre o assu…

Pint of Science: é hoje!

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Só lembrando os incautos: esta noite estarei no Alzirão II, em Campinas, para falar sobre a sempre tumultuada relação entre a ficção científica e o futuro da humanidade. Não vai ter palco, não vai ter Power Point, só microfone, cerveja e a cola no caderninho. Quem puder, apareça!

Centenário de Fátima: considerações

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Este sábado, 13 de maio, além de ser véspera do Dia das Mães, marca o centenário da primeira suposta aparição de Maria em Fátima. Embora essa aparição inicial tenha tido pouca repercussão pública na época (o famoso "milagre do Sol" só correria meses mais tarde, em outubro) foi ela que desencadeou o que depois viria a ser uma comoção popular em Portugal. Espera-se que dois dos três visionários sejam canonizados, como parte das celebrações deste centenário.A imprensa brasileira está batendo bumbo com o fato de que um dos "milagres" que tornou a canonização possível envolveu compatriotas, mas já escrevi sobre como "milagres" que levam à canonização de figuras populares são quase que estatisticamente inevitáveis.

Em meio ao fervor religioso que deve cercar a festa, é improvável que a mídia tradicional abra espaço para a discussão antropológica, política e científica do fenômeno. Então, tomo a liberdade de fazê-lo aqui. A primeira coisa importante é pôr a ap…

Olha eu no Pint of Science!

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A escritora Ursula K. Le Guin certa vez disse que, para o autor de ficção científica, "o futuro é uma metáfora". Já para o inventor da expressão "ficção científica", o escritor e editor Hugo Gernsback, uma das principais funções do gênero era inspirar engenheiros e cientistas, dando-lhes ideias para serem executadas no futuro. Esse foco no desenvolvimento técnico talvez ajude a explicar por que tantas aventuras passadas milhares de anos no futuro reproduzem estruturas sociais dos anos 30.
Ao longo do século 20, milhares de contos, novelas e romances previram coisas a colonização do Sistema Solar, o Holocausto Nuclear ou a conquista da Terra por alienígenas -- mas apenas uma história, publicada em 1946 e hoje quase esquecida, previu não só a internet como os serviços de streaming, e também os dilemas éticos envolvendo privacidade e liberdade de informação que enfrentamos hoje.
Afinal, qual a relação entre a ficção científica e o futuro? Na noite da próxima terça-fe…

Design Inteligente é propaganda, não ciência

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Bom, a esta altura acho que todo mundo já viu ou ouviu falar da notícia, publicada na Folha de S. Paulo, de que a Universidade Presbiteriana Mackenzie formou uma parceria com Discovery Institute dos Estados Unidos, famoso (ou infame) por desenvolver propaganda religiosa disfarçada de ciência, a fim de trabalhar na promoção da "teoria" do Design Inteligente. A parceria tem um site, que pode ser acessado aqui. O texto de abertura -- "(...) promove estudos científicos focados em complexidade e informação na busca de evidências que apontem para a ação de processos naturais ou design inteligente na natureza (...)" -- sugere que a coisa toda trata de ciência, mas isso é mera cortina de fumaça: trata-se, estritamente, de uma questão de política e relações públicas.

Porque o Discovery Institute é uma instituição de relações públicas. Se não acredita em mim, leia esta declaração de missão no site dos caras. Cito: "A missão do Centro para Ciência e Cultura do Discovery…

Vacina anti-besteira

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Há um ditado no meio da divulgação científica que alega que uma bobagem dita em dez palavras requer pelo menos 100 para ser desmentida. Depois de minhas experiências recentes com as questões da fosfoetanolamina e da Terra plana, temo que essa avaliação seja otimista demais. A questão não é apenas que argumentos intelectualmente honestos requerem espaço para se desenvolver, e a correção de erros conceituais muitas vezes demanda longas explicações passo-a-passo para que se encontre o ponto exato em que o raciocínio caiu no acostamento: há ainda barreiras psicológicas a vencer, muitas das quais só começaram a ser identificadas recentemente.

Há, por exemplo, o efeito rebote, em que bombardear uma pessoa com evidências de que ela está errada gera uma reação defensiva que reforça sua crença inicial -- aquela história de que a fé se fortalece nas adversidades tem lá sua razão de ser.

Esse efeito provavelmente está ligado à estrutura em rede das crenças humanas, a constatação de que crenças n…