segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

O último homem na Lua

Morreu Eugene "Gene" Cernan, o último ser humano a deixar a Lua, como membro da missão Apollo 17. Copio abaixo suas últimas palavras na superfície lunar, ditas em 1972:

And, as we leave the Moon at Taurus-Littrow, we leave as we came and, God willing, as we shall return: with peace and hope for all mankind.

"As we shall return, with peace and hope for all mankind". É triste que Cernan parte num momento em que não só o retorno à Lua parece extremamente distante, como também distantes estão as promessas de "paz e esperança por toda a humanidade".

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Arma de fogo e legítima defesa

O site da revista The Economist chama atenção, em nota breve, para um estudo publicado no periódico Journal of the American Medical Association (JAMA) sobre o impacto  das leis "stand your ground" -- literalmente, "defenda sua posição" -- que ampliam o número de situações em que o uso letal de armas de fogo pode ser considerado um ato de "legítima defesa". O JAMA avaliou os efeitos das leis sob uma perspectiva de saúde pública: no caso, seu efeito sobre a estatística de homicídios.

Essas as leis eliminam a obrigação, por parte da pessoa que se sente ameaçada, de procurar outros meios de se proteger antes de usar de violência letal contra o agressor. O princípio de "stand your ground" foi usado, com sucesso, na defesa de  George Zimmerman, que matou a tiros o adolescente negro -- desarmado -- Trayvon Martin, em 2012.

A análise do JAMA mostra que a entrada em vigor de uma lei desse tipo elevou a taxa mensal de mortes por armas de fogo em 34% na Flórida, o primeiro Estado americano a adotar o estatuto. Levantamento do jornal Tampa Bay Times mostrou ainda que, nos cinco anos após a aprovação da lei, a taxa de homicídios julgados "justificáveis" no Estado multiplicou-se por três.

A eficácia das armas de fogo, e mais especificamente de leis facilitando o acesso e o uso de armas de fogo, na contenção da criminalidade é um assunto antigo e controverso. Existem dados convincentes apontando que a posse de uma arma aumenta bastante a chance de uma pessoa envolver-se um acidente ou cometer um crime "de bobeira" -- tipo, matar alguém numa briga de trânsito -- sem, no entanto, afetar de modo significativo sua segurança pessoal (escrevi sobre o assunto aqui).


Quanto à legislação, é muito fácil achar casos de países onde as leis sobre armas são duras e a violência é baixa (o Japão foi um exemplo recente), como também é muito fácil achar o contrário, países onde a posse de armas é disseminada e a violência também é baixa (a Suíça é um exemplo que muita gente gosta de mencionar).

Um levantamento de todos os países do mundo (ou, ao menos, de um número bem grande de países) mostra que há muito pouca relação entre uma coisa e outra. Se você é contra o desarmamento, vai encontrar casos e mais casos de países violentíssimos onde a posse de armas é restrita; se é a favor, vai encontrar casos e mais casos do contrário. A violência, no fim, tem muito mais a ver com fatores econômicos e culturais do que com as leis específicas sobre armamento.

O mesmo, talvez, possa ser dito de leis do tipo "stand your ground". Nesta semana , mesmo, vi a notícia de um brasileiro que alegava ter matado um adolescente, em legítima defesa -- mas o morto tinha levado um tiro na nuca. O que torna meio difícil conciliar as coisas. Se na Flórida esse tipo de regra causou um aumento de 34% nas mortes por arma de fogo, aqui o salto seria, pelo jeito, inimaginável.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Ciência sobre ciência

O método científico não é uma varinha mágica ou uma máquina cromada e inoxidável que produz verdades incontestáveis. É um conjunto mais ou menos estruturado de práticas descobertas (ou inventadas), ao longo dos últimos séculos, para evitar que as pessoas mintam para si mesmas ou tirem conclusões erradas quando investigam a realidade -- por exemplo, achando que o movimento aparente das estrelas no céu causa as estações do ano, ou que arrancar o coração de um prisioneiro de guerra, amarrado no alto da pirâmide, é um sacrifício necessário para impedir que o Sol se apague.

Um artigo publicado recentemente no periódico Nature Human Behavior  cita três fontes comuns de autoengano: apofenia, a tendência de ver padrões onde só existe caos; viés de confirmação, a tendência de prestar atenção numa mera fração da informação disponível (a fração que parece confirmar nossas preconcepções); e viés do retrovisor, a tendência de considerar certas sequências de eventos "óbvias" ou "previsíveis" -- mas apenas depois de elas terem acontecido.

As práticas que compõem o método convivem numa espécie de caixa de ferramentas. Como todo conjunto de instrumentos, também podem ser mal utilizadas, usadas de modo errado, fora de contexto ou sobre materiais inadequados. A mera aplicação mecânica de partes do método científico a uma questão de pesquisa ou a uma hipótese não faz com que o procedimento em si seja "científico", assim como uma criança martelando um parafuso no chão não está fazendo "marcenaria".

A escolha da ferramenta adequada requer reflexão, e em termos ideais deveria ser bem justificada. Além disso, o critério da reprodutibilidade -- todo resultado científico deve, em princípio, ser reprodutível por outros pesquisadores que utilizem os mesmos métodos e materiais equivalentes -- serve, entre outras coisas, como uma espécie de checagem do grau de perícia e competência com que o instrumento escolhido foi utilizado no estudo inicial.

Crucialmente, sem reprodutibilidade não há tecnologia: computadores e televisores só existem porque certos experimentos realizados com fótons e elétrons mostraram-se altamente reprodutíveis, ao ponto de deixarem de ser experimentos e virarem equipamentos do dia a dia.

Um efeito colateral, indesejável, da presente cultura acadêmica produtivista, em que teses e artigos são lançados em esquema de linha de montagem, é que não só as ferramentas do método muitas vezes são mal escolhidas e usadas de forma inadequada  (ano passado foi pródigo em alertas sobre o uso impensado e irrefletido de certos testes estatísticos), como a cultura da reprodutibilidade perde força: se o que traz prestígio são resultados originais, para que perder tempo testando os resultados dos outros?

 Nenhuma dessas considerações é exatamente nova. Um dos autores do artigo em Human Behavior (intitulado, aliás, "A manifesto for reproducible science"), John Ioannidis, já vem batendo esse bumbo pelo menos desde 2005, quando publicou o já clássico "Why Most Published Research Findings Are False" na PLoS Medicine.

Em 2011, artigo em Psychological Science alertava para os chamados "graus de liberdade do pesquisador", uma série de decisões sobre como coletar, analisar ou publicar dados que, se tomadas sem o devido cuidado (ou sob a influência de algum dos vieses apresentado no início da postagem), pode levar a falsos positivos. No ano de 2015, a Science publicava análise indicando a existência de uma "crise de reprodutibilidade" na psicologia. Livros e sites como Statistics Done Wrong também passaram a chamar atenção para erros inferenciais comuns das ciências.

Essa reação toda mostra que, ao contrário do que dizem seus críticos mais afoitos, a ciência não é um mero sistema de validação ritualística de "verdades" subjetivas, mas um conjunto de processos que inclui, entre outras coisas, o reexame crítico desses próprios processos.

Já o fato dessa reação ser necessária mostra que o que eu chamaria de "tentação degenerativa" -- pela redução do fazer científico a um conjunto de rituais estúpidos acobertados por matemática abstrusa e linguagem inacessível -- é real. Um sistema de incentivos perverso está aí, implantado, sussurrando no ouvido das pessoas que trocar a reflexão crítica e criativa pelo mecanicismo burocrático é o caminho, a verdade e a vida acadêmica.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Fraudes controladas


Uma "fraude controlada" é um tipo de experimento psicológico/metodológico/social: trata-se da produção deliberada de eventos ou resultados falsos, com o objetivo de testar a resiliência e a confiabilidade de uma metodologia científica, de um processo cognitivo ou de comunicação.

Ela se distingue da fraude pura e simples porque, enquanto esta última é construída de modo a circum-navegar os mecanismos humanos (senso crítico, bom-senso) e institucionais (revisão, crítica dos pares, controles) de checagem e alerta, a fraude controlada é criada com uma série de características salientes para excitar os mesmos mecanismos -- desde que, é claro, eles estejam funcionando adequadamente, ou haja uma intenção honesta de usá-los.

Nos últimos tempos, fraudes controladas passaram a ser um meio relativamente comum usado para revelar fragilidades no processo de comunicação científica -- seja a comunicação entre pares, por meio de periódicos especializados, seja a comunicação com o público, por meio do jornalismo. Talvez o caso mais recente tenha sido o protagonizado pelo jornalista John Bohannon, em 2015, quando ele não só conseguiu empurrar para um periódico um artigo de péssima qualidade com uma conclusão absurda -- a de que comer chocolate emagrece -- como ainda viu o artigo ganhar repercussão na mídia de massa.

Esta não foi a primeira fraude do tipo perpetrada por Bohannon: em 2013, ele havia enviado um artigo de biologia, obviamente imprestável, a centenas de journals que, supostamente, faziam revisão pelos pares, e viu-o ser aceito, acriticamente, diversas vezes. 

Como o próprio jornalista escreveu na revista Science, "qualquer revisor com mais do que um conhecimento de ensino médio em química e a capacidade de interpretar um gráfico simples deveria ter notado as inadequações do artigo na hora. Os experimentos descritos são tão ruins que o resultado não faz sentido".




Antes do trabalho de Bohannon neste século, a fraude controlada mais famosa provavelmente foi o Projeto Alfa, conduzido pelo mágico James Randi em 1979. Randi enviou dois jovens ilusionistas a um laboratório de pesquisa parapsicológica. 

Durante quase cinco anos, os dois foram levados a sério e considerados paranormais legítimos pelos pesquisadores, que acreditavam estar utilizando controles adequados contra fraude. O projeto só terminou em 1983, com a confissão dos ilusionistas, mas desde 1981 o próprio Randi já vinha alertando publicamente para os controles inadequados e a possibilidade de fraude nos testes realizados.

Uma fraude controlada pouco conhecida, e que antecede o Projeto Alfa, é descrita numa monografia britânica publicada em 2005, Conclusions from Controlled UFO Hoaxes, de David Simpson, que descreve um experimento envolvendo uma série de falsos "discos voadores" -- na verdade, balões de gás com lâmpadas e baterias penduradas -- lançada no céu de um vilarejo inglês no fim dos anos 60. 

Simpson, um dos responsáveis pelas fraudes, descreve alguns efeitos impressionantes, incluindo descrições exageradas e distorcidas dos objetos no céu por ufólogos -- alguns acreditavam que as luzes dos "óvnis" (as lâmpadas ligadas a baterias) piscavam em resposta a sinais enviados do solo, ou a seus pensamentos -- e a absoluta incapacidade dos mesmos ufólogos em aceitar a confissão, pelo grupo de fraudadores, de que os objetos não passavam de criações terrestres. 

Há uma grande controvérsia ética em relação às fraudes controladas, já que elas envolvem mentira e, no limite, a humilhação pública dos envolvidos. Em entrevista para o livro How UFOs Conquered the World: The History of a Modern Myth, Simpson não manifesta nenhuma dúvida quanto à correção de suas ações: os ufólogos enganados por ele estavam fazendo declarações públicas, almejavam à credibilidade pública e eram tratados como fontes confiáveis pela imprensa da época, incluindo a BBC. Nada mais justo que essa presunção de credibilidade e seriedade fosse posta à prova. Confiança não se dá de graça.

O mesmo argumento pode ser aplicado ao Projeto Alfa e ao trabalho mais recente de Bohannon. Em ambos os casos, pistas suficientes foram dadas -- o alerta de Randi em 1981, a qualidade sofrível dos falsos artigos -- para que as fraudes fossem detectadas por suas próprias vítimas. Também é possível argumentar que esse tipo de "experimento" produz resultados científicos úteis, ao mostrar como a mante humana está pronta para o engano, sempre predisposta a construir narrativas que tornem plausíveis os maiores absurdos, desde que devidamente motivada -- seja por vaidade, esperança ou (no caso dos periódicos engabelados) lucro.  



Uma segunda questão às vezes levantada é a do impacto de longo prazo dessas fraudes, ainda mais num mundo hipermidiatizado, dado o alcance limitado das revelações e desmentidos. É possível, talvez até provável, que o resultado do "chocolate emagrecedor" de Bohannon ainda seja citado em revistas de dieta como verdadeiro, e que os avistamentos de óvnis provocados pela fraude de Simpson ainda apareçam em parte da literatura ufológica como eventos inexplicados ou, até mesmo, de origem extraterrestre. 

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

Assassinatos em massa: a ciência

Publicada em 2014 pela editora acadêmica John Wiley & Sons, The Encyclopedia of Criminology and Criminal Justice traz um verbete de duas páginas e meia sobre "Mass Murders", isto é, "assassinatos em massa". Ali aprendemos que o termo é aplicado cientificamente "à matança, não-sancionada pelo Estado, de pelo menos três vítimas durante um único episódio", é às vezes considerado um sinônimo de "massacre" e se distingue de outros fenômenos de violência de vítimas múltiplas, como guerras, linchamentos, assassinatos em série e genocídios por uma série de características.

Entre elas, estão fatos como o de que o assassino em massa "tem alta probabilidade de conhecer pessoalmente as vítimas, utiliza armas de fogo e vê seus atos como um 'gesto definitivo de revolta', sem a intenção de realizar matanças futuras". Além disso, o assassino em massa tem uma chance muito maior do que outros tipos de criminoso de terminar seu crime cometendo suicídio, seja pelas próprias mãos ou sob a forma de "suicídio por policial", quando o criminoso armado ameaça as autoridades de modo a induzir a polícia a alvejá-lo.

O verbete prossegue delineando uma espécie de taxonomia dos assassinos em massa.Somos apresentados a categorias como "cidadão revoltado", "funcionário revoltado" e "atiradores escolares", mas o texto nota que a maioria dos matadores em massa -- responsáveis por 40% do total de massacres -- são os "aniquiladores de família", que "matam diversos membros da própria família. Esses crimes são frequentemente cometidos pelo chefe masculino da casa", embora também haja registros de mulheres e crianças "aniquiladoras". De qualquer modo, o caso típico citado no verbete é o de um pai de família que matou 14 parentes durante o Natal de 1987, no Arkansas (EUA).

Encyclopedia nota que esses crimes têm causas complexas, em que fatores sociais, pessoais e comunitários interagem, mas que de uma perspectiva individual parecem desencadeados pela percepção de uma "ofensa catastrófica" que "frequentemente leva a fantasias violentas de vingança".

Em artigo publicado no periódico Men and Masculinities, o mesmo pesquisador responsável pelo verbete, Eric Madfis, da Universidade de Washington, aponta que, nos Estados Unidos, assassinatos em massa são cometidos por um número desproporcionalmente grande de "homens brancos heterossexuais de classe média", adolescentes ou de meia-idade.

Analisando as possíveis causas dessa desproporção, Madfis sugere que "a relação da masculinidade heterossexual com a violência", somada à perda de posição social e de privilégios até então vistos como naturais e automáticos dessas três categorias -- homem, branco, hetero -- pode servir de gatilho para casos de assassinato em massa. Citando: "entre muitos assassinos em massa, os triplos privilégios da masculinidade branca heterossexual, que tornam as perdas  subsequentes ao longo da vida mais inesperadas e, portanto, mais vergonhosas, acabam cedendo sob os fracassos da mobilidade social descendente, e resultam num ato final de violência para evitar a masculinidade subordinada".

Também existe bastante pesquisa sobre o efeito copycat -- quando a divulgação de um crime acaba incentivando atos semelhantes -- em assassinatos em massa. Uma apresentação feita durante conferência da Associação de Psicologia dos Estados Unidos (APA, na sigla em inglês), no ano passado, levantou a questão de que fantasias violentas de vingança são bastante comuns, mas muito poucas são executadas; portanto, algum fator deveria ser responsável por "desequilibrar a balança" e levar o crime da imaginação para a realidade.

Os autores sugerem que "a identificação com assassinos anteriores, que se tornaram famosos por conta da extensa cobertura midiática (...) é um incentivo mais poderoso à violência que o estado de saúde mental ou mesmo o acesso a armas de fogo". O painel reconhecia, no entanto, que o "modelo do contágio da violência pela mídia" historicamente não era levado muito a sério, mas argumentava que estudos recentes deveriam levar a uma revisão dessa posição. O trabalho não sugeria censura, mas sim a elaboração de um guia de boas práticas para a cobertura desse tipo de evento.

Um dos artigos citados no painel como base para essa revisão foi Contagion in Mass Killings and School Shootings, publicado em 2015 na PLoS ONE. Esse trabalho aplicou dois modelos matemáticos a séries históricas de assassinatos em massa nos Estados Unidos,  um utilizando um "termo de contágio" -- que faz com que a probabilidade de novos crimes seja mais alta em períodos próximos a um massacre já consumado -- e outro, sem esse termo.

A conclusão é de que o "termo de contágio" faz com que o modelo se ajuste melhor aos dados. "Encontramos evidência significativa de que assassinatos em massa envolvendo armas de fogo são incentivados por eventos similares no passado imediato. Em média, esse aumento temporário em probabilidade dura 13 dias, e cada incidente incita pelo menos 0,3 novos incidentes". Os autores reconhecem, no entanto, que essa conclusão não equivale à afirmação de que a cobertura midiática é o fator desencadeante do "contágio".

"Embora nossa análise tenha sido inspirada, inicialmente, pela hipótese de que a atenção da mídia dada a eventos violentos sensacionais pode promover ideação em indivíduos vulneráveis, na prática o que nossa análise testa é se os padrões temporais nos dados indicam evidência de contágio, por quaisquer meios", diz o artigo, acrescentando que, como muitos desses eventos terminam com o suicídio do criminoso, "provavelmente nunca saberemos quem foi inspirado por atos anteriores, particularmente já que a ideação pode ser subconsciente".

sábado, 31 de dezembro de 2016

Destaques do ano

Acho que já comentei em outras oportunidades que sou péssimo para fazer listas de melhores do ano -- basicamente, leio muito poucos lançamentos, então quase nunca tenho algo do ano corrente para recomendar a quem quer que seja. Mas se você não fizer questão de lançamentos e quiser, em vez disso, saber quais os livros que mais me impressionaram neste ano -- não importa se foram publicados originalmente em 2016, 2001 ou mesmo neste século -- aqui vão as dicas. Selecionei um de ficção, um de não-ficção e uma HQ.

Começando pela ficção:


Hoje em dia, o cool é recomendar romances, o que faz com que antologias e coletâneas de contos acabam subestimadas e subrepresentadas na maioria das listas. Mas não dá pra deixar de apontar este volume pantagruélico, editado por Otto Penzler (o dono da Mysterious Bookshop, uma simpátrica livraria de Nova York especializada em edições raras de livros policiais), como uma das coisas mais deliciosas já publicadas desde, sei lá, a Bíblia de Gutenberg.

"Locked Room Mysteries" é o nome genérico dado a histórias de crimes  "impossíveis" -- o tipo clássico sendo aquele em que o cadáver é encontrado esfaqueado numa sala sem janelas, trancada por dentro, e sem faca por perto. Penzler simplesmente reuniu o que de melhor e mais emblemático já foi escrito dentro dessas "regras", do pulp mais rasteiro à prosa mais refinada. É um testamento à imaginação humana,e um livro que deixa uma dor no coração quando acaba.

Não ficção:



John Scarne (1903-1985) foi um mágico e inventor americano que se especializou em desvendar truques usados para trapacear em jogos de azar. Seu "Guia Completo da Jogatina" (tradução aproximada do título original, Complete Guide to Gambling) é uma mistura de história do crime organizado nos Estados Unidos, divulgação popular dos princípios fundamentais da teoria das probabilidades e guia de regras e "pegadinhas" sobre praticamente qualquer coisa que envolva sorte e dinheiro, de par ou ímpar a pôquer. O estilo de Scarne, que escreve como se fosse um malandro de rua dos anos 30 (o que ele talvez tenha mesmo sido), é um toque extra.

E, agora, a HQ:


A Dynamite é uma editora americana de quadrinhos que vem se especializando em trabalhar com personagens licenciados -- isto é, criados e desenvolvidos por outras editoras, ou vindos de outras mídias. Suas histórias do Sombra geralmente merecem ser lidas; já seus esforços com Doc Savage e James Bond  têm sido menos bem-sucedidos. Mas esta minissérie sobre a origem de John Shaft, o detetive particular negro do Harlem criado originalmente por  Ernest Tidyman (1928-1984) é preciosa. Não só o roteiro de David Walker consegue ser aquela coisa rara -- uma história de ação que consegue ser também uma história de detetive inteligente, onde todas as partes se encaixam -- como o desenho de Bilquis Eveley  recaptura a textura das HQs dos anos 70. Lendo o quadrinho, de repente me vi pensando no traço do veterano Dick Giordano.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

"Livro da Astrologia" entre os memoráveis de 2016

A Amazon.com.br pôs no ar nesta segunda-feira um catálogo dos e-books considerados "memoráveis" em 2016, e o meu humilde Livro da Astrologia está lá, mesmo tendo sido lançado em dezembro de 2015.

Não sei exatamente qual o critério usado pela loja para decidir quem é ou não memorável -- a relação completa tem mais de mil títulos, incluindo as obras completas de Sigmund Freud e Nosso Lar -- mas, enfim, o livrinho esteve, em vários momentos, em primeiro lugar entre os mais vendidos da categoria  (a saber, "religião, espiritualidade, new age , astrologia"), o que não deixa de ser irônico para uma obra de viés cético.

E agora, o mais importante: o fato de o livro estar entre os memoráveis faz com que ele receba um desconto no preço. Até o dia sete de janeiro, quem comprar o e-book de O Livro da Astrologia paga só metade do preço, bastando para isso digitar o código promocional MEMORAVEL na hora do pagamento. O link da promoção é este aqui. Para finalizar: se você leu e curtiu o livro (ou se vier a ler e curtir), considere a possibilidade de deixar uma avaliação no site. Pode parecer bobagem, mas essas coisas ajudam a obra a ganhar visibilidade.