segunda-feira, 27 de junho de 2016

Treino placebo para o cérebro

Estudo publicado no periódico PNAS mostra que muitos dos resultados apresentados pela chamada indústria do “treinamento cerebral” – que oferece jogos e atividades capazes, de supostamente, aumentar a memória e a inteligência – na verdade podem ser apenas efeitos placebo.

“Demonstramos clara evidência de efeitos placebo após uma rotina curta de treinamento cognitivo que levou a ganhos significativos de inteligência fluida”, escrevem os autores. “Nossa meta é enfatizar a importância de se excluir explicações alternativas antes de atribuir efeitos às intervenções”.

O trabalho consistiu no uso de dois tipos de panfletos para recrutar voluntários para um exercício de treinamento cerebral. Um dos panfletos foi escrito em tom entusiástico, de modo a estimular uma resposta placebo, enquanto o outro descrevia o experimento de modo neutro. No final, testes de inteligência mostraram que os voluntários que participaram do treinamento após receber o convite-placebo se saíram muito melhor que os que fizeram o treinamento com base no estímulo neutro. (Esta nota é parte da coluna Telescópio do Jornal da Unicamp).

quinta-feira, 23 de junho de 2016

Dando as devidas proporções

Imagino que os leitores habituais deste blog já estão mais ou menos familiarizados com o conceito de viés cognitivo -- filtros mentais e hábitos de pensamento que distorcem o modo como vemos e interpretamos a realidade. Os mais comumente citados são o viés de confirmação (dar importância desproporcional a eventos que parecem confirmar nossas crenças e preconceitos), a validação subjetiva (interpretar uma série de ocorrências não relacionadas como uma cadeia de eventos que confirma nossa visão particular do mundo) e o viés de disponibilidade (achar que nossa experiência pessoal, ou os exemplos que estão mais à mão, são verdadeiramente típicos e representativos da realidade em geral). Cada um deles traz sérios desafios à tarefa, quase sempre árdua, de pensar com clareza, e tem parcela razoável de responsabilidade por muita coisa lamentável no estado atual da civilização.

Mas a leitura de Suspicious Minds,  do psicólogo britânico Rob Brotherton, chamou minha atenção para um outro viés que não só é bastante subestimado em seus efeitos, como também muitas vezes passa por raciocínio válido: o caso de uma falácia que não é reconhecida como tal mesmo quando articulada em toda sua glória.

Trata-se do viés de proporcionalidade, a pressuposição de que grandes efeitos requerem, necessariamente, grandes causas. A ideia de que incidentes desprezíveis podem ter efeitos momentosos é repugnante para a intuição humana. Ela exige que um grande evento tenha uma grande causa.

É uma intuição de raízes profundas e afeta até mesmo decisões, muitas vezes, inconscientes: por exemplo, a maioria das pessoas arremessa os dados com força quando quer um número alto, e mais delicadamente quando espera um resultado baixo -- grande força, grande número, e vice-versa. O problema é que essa intuição está errada. Grandes eventos às vezes têm causas grandiosas, às vezes não. A força do arremesso não afeta o resultado do lance de dados.

Brotherton descreve uma série de experimentos engenhosos, realizados por cientistas sociais e psicólogos, que mostra como o viés de proporcionalidade vai fundo no nosso modo de pensar. Num deles, voluntários ouviram duas versões de uma história sobre um acidente aéreo, em que uma explosão no compartimento de carga faz com que o avião perca o controle.

Numa versão, o piloto consegue realizar um pouso de emergência; na outra, o avião cai e todos a bordo morrem. A maioria das pessoas que ouve a versão com o final feliz tende a considerar uma explosão acidental mais plausível do que um atentado terrorista; já quem ouve a versão trágica prefere terrorismo como explicação. Mas, explica o autor, a única variante causal objetiva entre as histórias é a habilidade do piloto.

Outra história envolve uma epidemia num zoológico, causada por um vírus trazido por um de dois novos animais -- um urso ou um coelho. Se a história termina com a população do zoo dizimada, a maioria dos ouvintes tende a suspeitar de que o vírus veio no urso; se a doença vai embora sem deixar maiores sequelas, o suspeito preferido passa a ser o coelho.

O livro de Brotherton trata de teorias de conspiração, e o viés de proporcionalidade é citado como um dos fatores psicológicos que nos predispõem a, se não aceitá-las, ao menos a dar a elas o benefício da dúvida, seja na ausência de evidências ou, mesmo, até quando a preponderância das provas aponta na direção oposta. A morte de John Kennedy é apontada como um exemplo saliente dessa tendência.

No debate político, não é raro ver o exercício do viés de proporcionalidade ser tratado como sinal de profunda sabedoria, um argumento válido em si mesmo. Quem o aplica geralmente lança a frase "mas você não acha mesmo que foi só isso?", seguida por um piscar de olhos ou um arquear de sobrancelhas.

segunda-feira, 20 de junho de 2016

Vestígio de um asteroide extinto

O meteorito, no centro da placa de calcário

Um meteorito de um tipo até agora desconhecido na Terra foi descoberto numa pedreira sueca, informa artigo publicado no periódico Nature Communications. A pedra espacial única foi encontrada num leito de onde também foram extraídos mais de 100 meteoritos de um tipo mais comum, os L-condritos. Os autores do trabalho, de instituições da Suécia e dos EUA, especulam que a rocha pode ser parte de um asteroide que colidiu com o corpo original de onde vieram os L-condritos, há cerca de 470 milhões de anos. “Este pode ser o primeiro exemplo documentado de um meteorito ‘extinto’, isto é, um tipo de meteorito que não cai mais na Terra porque seu corpo de origem foi consumido em colisões”, escrevem os pesquisadores. Esta e outras notas da ciência internacional você encontra no Telescópio do Jornal da Unicamp.

domingo, 19 de junho de 2016

A mentira dos "2% de sobrevivência"

Meus contatos recentes com a subcultura das "terapias alternativas" para câncer andaram me expondo, seguidas vezes, à alegação de que a "quimioterapia tem uma taxa de sobrevivência de apenas 2%". Como costuma acontecer no reino das pseudociências, trata-se de uma frase de impacto mas cujo sentido exato, uma vez que se para para pensar a respeito, não é claro: o que essa "taxa de sobrevivência de 2%" quer dizer, afinal? Que as pessoas que entram em quimioterapia já se encontram tão à beira da morte que a intervenção quase não traz benefício? Que o tratamento quimioterápico é ridiculamente ineficaz? Que a quimioterapia em si mata 98% dos pacientes?

Seja qual for o sentido preciso que se procure atribuir à afirmação, ela é falsa. Mentirosa. Irresponsavelmente cruel. Eu, que já escrevi defendendo a liberação da autobiografia de Adolf Hitler, relutaria, por alguns instantes, em condenar a ideia de pôr na cadeia quem sai por aí repetindo esse tipo de coisa. Porque mentiras como a do "2% de sobrevivência" não só causam desespero e sofrimento que poderiam muito bem ser evitados, como ainda ajudam a convencer gente que teria uma boa chance de cura ou sobrevivência com tratamentos convencionais a jogar tudo para o alto -- inclusive a própria vida -- e abraçar falsas alternativas.

Agora, despejados os adjetivos carregados e extravasada a indignação moral, será que tenho fatos e dados para apoiar o que afirmei acima? Obrigado por perguntar. Claro que tenho. A eles.

A primeira coisa a fazer é checar a fonte original da alegação: em algum momento, afinal, as expressões "quimioterapia" e "2%" acabaram ligadas. Quando e onde isso aconteceu? Bom, foi num artigo de cientistas australianos publicado em 2004. O título era "The contribution of cytotoxic chemotherapy to 5-year survival in adult malignancies", ou "A contribuição da quimioterapia citotóxica para a sobrevivência de 5 anos em tumores malignos em adultos". Os autores concluem que, da taxa de sobrevivência de 5 anos de pacientes de câncer tratados na Austrália (que, o artigo diz, em 2004 era de 60%), a quimioterapia contribui com apenas 2%. 

Veja bem, os australianos não estão dizendo que a quimioterapia mata, ou que 98% das pessoas que fazem quimioterapia acabam morrendo. Eles estão dizendo que a contribuição da quimioterapia para a taxa geral de sobrevivência é de 2%. "quimioterapia tem uma taxa de sobrevivência de apenas 2%" é uma distorção grosseira, irresponsável, criminosa e execrável de "quimioterapia contribui com 2% para a taxa de sobrevivência de 60%".

E a última frase do parágrafo anterior só seria verdadeira se o estudo australiano tivesse chegado a conclusões válidas, o que muito provavelmente não é o caso. Os detalhes você encontra no blog do oncologista David Gorsky, mas resumindo: o trabalho em questão foi duramente criticado dentro da comunidade médica. 

Entre outros motivos, ele ignora leucemias e linfomas, exatamente os dois tipos de tumor contra os quais a quimioterapia é mais poderosa; ignora, também, a diferença entre o uso da quimioterapia como via de ataque principal ao câncer e como via auxiliar. Em muitos casos, a quimioterapia é usada como complemento à cirurgia: as curas e remissões então são atribuídas à cirurgia, e o mérito da químio acaba obscurecido.

 Para efeitos de comparação, Gorsky oferece um estudo, publicado na revista Lancet, que avaliou o impacto da quimioterapia no câncer de mama, agregando os resultados de 123 estudos, envolvendo 100 mil mulheres. O resultado global é de uma redução de 30% na mortalidade atribuída à doença num período de dez anos. 

Como os autores do artigo apontam, esse benefício está ligado ao risco inicial: se o câncer trazia um risco de vida de 10% em dez anos, ao ser detectado, a redução de 30% significará uma queda para algo em torno de 6,6%. Uma vantagem aparentemente pequena, mas que precisa ser vista no devido contexto.

Outro ponto importante levantado pelo oncologista é o modo como os mascates de curas milagrosas e tratamentos mágicos promovem o pânico e a insegurança em torno da quimioterapia como argumento de venda. Trata-se de uma verdadeira estratégia de marketing, implementada ao preço de intenso sofrimento psicológico para os pacientes e, no limite, de vidas humanas. 

Gorsky pondera que o retrato da quimioterapia oferecido pelos "alternativos" guarda boa semelhança com a imagem que a técnica tinha, na comunidade científica, 50 ou 60 anos atrás, quando o entusiasmo inicial com os primeiros sucessos no uso de drogas contra o câncer, na década de 30,  começou a arrefecer diante de novas dificuldades. A maioria das frases contra a químio atribuídas a médicos cientistas mais citadas na literatura dos charlatões foi extraída de trabalhos publicados nessa "Idade Média" da quimioterapia.

Mas muita coisa mudou desde então. Citando Gorsky: "Por volta de 1970, a doença de Hodgkin passou de uma sentença de morte para ser vista como amplamente curável com drogas, o primeiro câncer adulto curado por quimioterapia. Some-se a isso o progresso espantoso feito em cânceres infantis na época, e a maré começou a virar". Resumindo, os críticos alarmistas da quimioterapia estão com a cabeça no passado distante, assim como os proponentes da ideia de que a fosfoetanolamina funciona atacando células anaeróbicas apelam para uma visão da biologia do câncer desacreditada também desde, pelo menos, a década de 70. No fim, eles todos se merecem.  Só quem não merece nada disso são suas vítimas.

terça-feira, 14 de junho de 2016

Mitocôndrias e deuses astronautas

Durante o evento pró-fosfoetanolamina realizado no último sábado, os químicos da USP de São Carlos que, ainda hoje, são os principais promotores da fosfoetanolamina sintética(R) (FOS) como cura universal e inquestionável do câncer, apresentaram sua visão completa do suposto mecanismo de ação da substância (ou mistura de substâncias, de acordo com a análise realizada pelo Instituto de Química da Unicamp). Minimizando o tão decantado papel da FOS em "marcar" as células cancerosas para o sistema imunológico, concentraram-se mais na ideia de que a molécula é capaz de reativar as mitocôndrias, as estruturas responsáveis por oxidar açúcar e gerar energia no interior das células.

Resumindo, os pais da FOS afirmam que as alterações genéticas que fazem a célula reproduzir-se descontroladamente são mera consequência de um problema metabólico, envolvendo o transporte de gordura para o interior da célula.

A falta de gordura, de acordo com o modelo, desativa a mitocôndria. Para obter energia nessas condições, a célula passa a consumir o açúcar num processo de glicólise anaeróbica, análogo à fermentação praticada pelas bactérias, em vez de queimá-lo com oxigênio. Esse novo modo de produção acidifica o meio celular interno. No fim, é a acidez que causa as mutações que transformam o DNA saudável em canceroso. Ainda segundo a biologia são-carlense, a FOS atua normalizando o transporte de gordura, o que reativa a mitocôndria, o que leva a célula, já acostumada a uma dieta frugal à base do ineficiente processo de glicólise anaeróbica, a morrer de indigestão. E pronto: adeus, câncer!

Imagino que, para o biólogo molecular ou o estudioso sério do câncer, ler os parágrafos acima deve causar um efeito semelhante ao que ler um livro de Erich von Däniken produz num historiador ou arqueólogo: fascínio -- ou exasperação, dependendo do estado de ânimo -- diante do amontoado de ideias fora de lugar, de meias-verdades, da reciclagem inepta de teorias desacreditadas, da mistura de fantasia, erros crassos e cara de pau.

No entanto, para o cidadão desavisado -- para quem a palavra "mitocôndria" talvez evoque apenas uma ou duas lembranças vagas das aulas de biologia do ensino médio, e "fermentação" signifique um modo de produzir cerveja -- a coisa pode até soar lógica, mais ou menos como a hipótese dos deuses astronautas parece razoável para muita gente: afinal, há tantos planetas lá fora e, ora bolas, quem construiu as pirâmides?

Como o caso dos deuses astronautas mostra, porém, plausibilidade superficial aos olhos do público não significa plausibilidade científica. E, assim como um pouco de pesquisa logo revelou o fio da meada seguido por Von Däniken na elaboração de seu mito, a hipótese de São Carlos para a origem do câncer também tem antecedentes, e são antecedentes que em certo momento desempenharam um papel importante na história da ciência. A eles, então.

O principal é Otto Heinrich Warburg (1883-1970), biólogo alemão, ganhador do Prêmio Nobel de Fisiologia ou Medicina de 1931. Warburg ganhou seu Nobel por ter identificado a enzima que permite às células vivas queimar carboidratos com oxigênio, para obter energia, sem irromper em chamas -- afinal, no mundo extracelular, "queimar com oxigênio" significa "botar fogo". Mas ele é mais lembrado, no universo da pesquisa do câncer, por outra descoberta, o "efeito Warburg", e por ter formulado, com base nele, a "hipótese de Warburg", ambos na década de 20.

O "efeito Wargburg" é a constatação de que a maioria das células de câncer -- uma estimativa recente falava em algo entre 60% e 90% -- apresenta altas taxas de glicólise, mesmo na presença de oxigênio. Isso era (e é) estranho, porque, havendo oxigênio disponível, seria muito mais eficiente queimar o açúcar na mitocôndria, em vez de fermentá-lo no citoplasma (a meleca que preenche a célula). Já a "hipótese de Warburg" é a ideia de que o câncer é desencadeado por um defeito na mitocôndria.

Do ponto de vista da biologia conhecida em 1926 (isso são noventa anos atrás, nota bene), tinha lógica: havia a correlação forte entre célula maligna e fermentação; fermentação só parecia fazer sentido se a mitocôndria estivesse defeituosa. Dois fenômenos -- fermentação e câncer -- uma só causa, a mitocôndria coxa. Como dizem os tenistas, game, set, match. Certo?

Errado. Em ciência uma boa ideia, por melhor que seja, nunca ganha dos fatos, e as pesquisas realizadas nas décadas seguintes mostraram que os fatos não estavam ao lado dessa hipótese. Isso não é culpa de Warburg: ele formulou sua explicação para o câncer quase 20 anos antes que se estabelecesse que o DNA era a molécula da hereditariedade.

Em 1976, um artigo de revisão intitulado "The Warburg Hypothesis Fifty Years Later", anunciava que "o conceito de que o início ou a sobrevivência do câncer se dá por conta de uma respiração 'defeituosa' ou pela alta taxa de glicólise parece simplista demais para merecer séria consideração". Isso foi publicado 40 anos antes da apresentação do grupo de São Carlos no Hotel Excelsior. Talvez não tenham recebido o memorando.

Falando sério: é claro que, da mesma forma que a ciência sobre o assunto mudou de 1926 para 1976, ela também poderia ter mudado de novo entre 1976 e 2016. Mas não foi o que aconteceu. O efeito Warburg ainda é muito estudado, porque representa um marcador importante para o câncer e uma alteração metabólica significativa de parte das células tumorais: entre as hipóteses para explicá-lo estão a de  que ele permite que as células de câncer sobrevivam mesmo no interior de tumores sólidos, onde o oxigênio quase não chega, ou que, ao acidificar o microambiente no entorno do tumor, prejudica as células saudáveis. Mas, o efeito Warburg como causa do tumor? Nada feito.

Outra revisão, publicada em Nature Reviews em 2004, afirma: "Embora a 'hipótese de Warburg' tenha se provado incorreta [grifo meu], as observações experimentais de aumento da glicólise nos tumores, mesmo na presença de oxigênio, têm sido repetidamente confirmadas". Já dois outros artigos, um de 2006 na Science e outro de 2013 em Nature Communications implicam mutações no gene p53 na regulagem da respiração celular e na intensificação da glicólise. Ah, sim: o p53 é um dos mais conhecidos genes envolvidos na inibição (ou produção, dependendo de seu estado) de tumores. O título da Nature Communications são poderia ser mais claro: "Tumour-associated mutant p53 drives the Warburg effect".

Enfim, o estado atual da ciência sobre o assunto é claro: a cadeia causal vai da disfunção no DNA para a glicólise e a mitocôndria, não o contrário, como se supunha na Alemanha em 1926 (e em São Carlos em 2016, pelo jeito).

Tendo dito tudo isso, gostaria de fazer duas ressalvas.

A primeira é que o fato de não haver uma explicação competente para o funcionamento de uma droga não implica, logicamente, que ela, a droga, não pode funcionar. A história da Medicina está repleta de medicamentos e intervenções úteis que entraram em uso muito antes de alguém ser capaz de explicar por que eles davam certo. A vacinação é um caso clássico. O veredicto final sobre a FOS não virá de argumentos teóricos ou de exposição histórica,  mas dos ensaios clínicos. No entanto, é forçoso reconhecer que a evidência disponível até agora -- que inclui a distribuição irresponsável das pílulas, a explicação mal-ajambrada de seus efeitos, os resultados pré-clínicos decepcionantes -- não recomenda otimismo.

A segunda é que nenhuma "verdade científica" está gravada em pedra. Do mesmo modo que a hipótese de Warburg passou de respeitável em 1926 para "simplista demais" em 1976, chegando a "incorreta" em 2006, é concebível que algum dia ela venha a ser reabilitada. Mas essa reabilitação, caso ocorra, terá de vir apoiada em observações contundentes e experimentos sólidos, capazes de reverter praticamente todo o conhecimento sobre câncer e genética acumulado pela Bilogia e pela Medicina ao longo dos últimos 90 anos. Até que essas provas sejam apresentadas, falar em câncer causado por mitocôndrias merece o mesmo crédito que falar que deuses astronautas esculpiram a Face de Marte.

domingo, 12 de junho de 2016

Alice no País da Fosfoetanolamina

No último sábado, visitei uma realidade alternativa. Cheguei lá não caindo pela toca de um coelho, mas subindo no elevador de um hotel no centro da cidade de São Paulo, a dois quarteirões da Praça da República: foi no 23º andar do Hotel Excelsior que aconteceu o Seminário Fosfoetanolamina em Debate, patrocinado pelo Sindicado dos Farmacêuticos do Estado de São Paulo.

Neste mundo paralelo, onde as leis mais fundamentais da biologia e da fisiologia divergem das do nosso Universo, o câncer não é causado por mutações genéticas, mas pela mudança na acidez do citoplasma; as células cancerosas são anaeróbicas, mas precisam de oxigênio para viver; e uma só molécula, fosfoetanolamina sintética de São Carlos -- e só a de São Carlos -- , é capaz de levar essas células ácidas que não respiram, mas precisam de oxigênio, ao suicídio.

Esta, ao menos, é a biologia fundamental do câncer de acordo com as apresentações feitas pelos professores Gilberto Chierice e Salvador Claro Neto. Abaixo, alguns slides da apresentação de Claro Neto, explicitando as regras do mundo em que vive:







Ainda neste País da Fosfoetanolamina, uma conspiração sinistra, envolvendo a indústria farmacêutica, oncologistas, a mídia e os setores técnico-científicos do governo federal, atua arduamente para impedir que os pacientes de câncer tenham acesso à cápsula mágica, mas Deus trabalha para que lideranças iluminadas -- incluindo pré-candidatos á Presidência da República -- quebrem essas correntes de opressão. Professores aposentados são os novos messias, e advogados, seus profetas.

Em mais de um momento, o evento no Hotel Excelsior assumiu ares de culto neopentecostal televisivo -- o mesmo tom do discurso, a mesma linguagem corporal, os testemunhos de curas milagrosas operadas por meios maravilhosos, o mesmo apelo à submersão da consciência individual na fé da massa. Em outros momentos, lembrava as reuniões da franja mais paranoica do movimento ufológico: as insinuações que não chegam a se consolidar em acusações, a citação seletiva, desonesta e distorcida de documentos oficiais, o sugerido mas não dito. A Verdade sobre a Fosfoetanolamina vista como a nossa Área 51.

Bateu-se muito na tecla de que todo doente tem o direito de buscar a cura, que as pessoas podem optar por terapias alternativas, podem até escolher fumar e beber -- comportamentos danosos à saúde -- mas estão sendo "proibidas", pelas maquinações de forças ocultas, de ter acesso à fosfoetanolamina.

Esse discurso todo, no entanto, não passa de uma distorção: questões éticas e científicas à parte, o problema do acesso à "fosfo" não foi criado pelo Estado. Ele nasce do monopólio da oferta e da insistência para que a molécula seja vista como medicamento válido. Afinal, qualquer um pode plantar babosa no jardim, e há marcas de cigarro para todos os gostos, mas ninguém espera que o governo licencie a babosa como medicamento, forneça tabaco no sistema público de saúde ou que médicos receitem uísque.

Mas nem tudo é paz no País da Fosfoetanolamina. A sequência de apresentações durante o evento no Hotel Excelsior -- depois de Claro Neto falou o pesquisador Durvanei Maria, do Instituto Butantã -- mostrou que há fissuras sob a superfície: de fato, existem duas narrativas, ambas pretensamente científicas mas mutuamente excludentes, a respeito da eficácia da molécula contra o câncer, a versão de São Carlos e a versão do Butantã. A apresentação de Durvanei foi tratada como um aprofundamento, ou reiteração, da de Claro Neto, mas isso não passou de uma manobra para tentar ofuscar o público leigo com jargão científico. Biólogos presentes ao evento captaram rapidamente as contradições.

Na narrativa de São Carlos, o que atua contra o câncer é a fosfoetanolamina sintética(R) produzida segundo a receita que a equipe de Chierice tenta patentear desde 2008, que é eficaz quando consumida sob a forma de cápsulas, que torna desnecessários os tratamentos tradicionais, como quimioterapia e radioterapia e que age de acordo com os princípios fisiológicos da realidade alternativa estabelecida no 23º do andar do Hotel Excelsior .

Já na narrativa do Butantã, mais coerente com a realidade do nosso Universo, a fosfoetanolamina é apenas mais uma molécula de uma categoria maior, a dos fosfolipídios,  que vem sendo estudados em diversas partes do mundo como possíveis adjuvantes para o tratamento do câncer, aumentando a sensibilidade das células tumorais à radiação e à quimioterapia -- não substituindo a radiação ou a quimioterapia -- ou como veículos para a inserção de quimioterápicos nas células.

À luz da ciência, não há como conciliar São Carlos e Butantã. É curioso imaginar quais os interesses -- se comerciais, políticos ou ideológicos, é impossível dizer neste momento -- estão por trás da cuidadosa ocultação deste fato.

quarta-feira, 8 de junho de 2016

Polígonos em Plutão

A região de Plutão conhecida informalmente como Planície Sputnik, localizada na parte equatorial do planeta-anão, é recoberta por uma capa de nitrogênio congelado recortada em curiosas formas poligonais com até 40 quilômetros de largura. O centro de cada polígono pode ser vários metros mais alto que as bordas. A origem dessas formas é discutida em dois artigos publicados na revista Nature.

O primeiro artigo, do grupo liderado por William B. McKinnon, da Universidade de St. Louis, aponta que camadas sólidas de nitrogênio com quilômetros de espessura devem sofrer convecção nas condições atuais de Plutão, tal como medidas pela sonda New Horizons, da Nasa. “Demonstramos numericamente que a reviravolta convectiva em camadas de nitrogênio sólido, com vários quilômetros de espessura, pode explicar a grande largura lateral” dos polígonos, diz o texto.

O segundo trabalho, de A. J. Trowbridge, da Universidade Purdue, reforça a tese de que é a convecção no interior das camadas de nitrogênio a causa dos polígonos, e não outro mecanismo, como a mera contração do gelo. “O diâmetro dos polígonos da Planície Sputnik e as dimensões das ‘montanhas flutuantes’ (as colinas de água congelada ao longo das arestas dos polígonos) sugere que o gelo de nitrogênio tem cerca de dez quilômetros de espessura. A velocidade estimada de convecção é de 1,5 cm ao ano, e indica uma superfície de apenas um milhão de anos de idade”, diz o artigo. (Esta e outras notas fazem parte da coluna Telescópio, do Jornal da Unicamp)