segunda-feira, 14 de abril de 2014

O mito do Stradivarius

A superioridade inquestionável dos violinos produzidos pelos velhos mestres italianos dos séculos 17 e 18 – Stradivarius e Guarnieri, por exemplo – é um mito, de acordo com estudo publicado no periódico PNAS. “Grandes esforços têm sido feitos para explicar por que instrumentos feitos por Stradivarius e outros mestres italianos antigos soam melhor que os violinos modernos de alta qualidade, mas sem oferecer evidência científica de que este é mesmo o caso”, escrevem os autores, vinculados a instituições da França e dos Estados Unidos. Eles lembram que o verniz, a madeira e outras propriedades dos violinos antigos já foram estudados com grande atenção. (Leia mais sobre isso, e outros assuntos, na coluna Telescópio)

sexta-feira, 11 de abril de 2014

Podcast científico debate 'Guerra Justa'

Para os leitores do blog que têm algum interesse ou curiosidade sobre minha obra ficcional: o podcast Dragões de Garagem, abrigado no ScienceBlogs Brasil, produziu uma edição sobre meu romance de ficção científica Guerra Justa (que, não custa lembrar, pode ser comprado -- "adquirido" é papo de marqueteiro -- nos links à direita).

Já vou dizendo que não ouvi o podcast -- escutar gente falando do meu trabalho tende a me pôr constrangido ou irritado, dependendo do tom e da natureza dos comentários, então no geral evito isso. Resenhas escritas são mais fáceis de administrar, mas comentários verbais costumam me dar vontade de enfiar a cabeça num saco de papel. Portanto, não sei se o livro foi elogiado, vilipendiado ou alguma coisa no meio do caminho (o que me parece mais provável, em se tratando de um debate).

Resolvi destacar o "Dragões" sobre Guerra Justa porque a iniciativa não só me pegou de surpresa como me deixou muito feliz: trata-se, afinal, de um programa de divulgação científica -- episódios anteriores tratam do bioma Cerrado e das Leis da Termodinâmica -- e, assim, o episódio representa um tipo de interação, muito rara ou talvez até inédita, entre a ciência brasileira e a ficção científica idem. Esses são dois campos que, em tese, teriam muito a dizer um ao outro e cujos praticantes, somados, se não cabem mais numa kombi, certamente ainda não lotam um desses estádios Padrão Fifa.

Então, acho que vale muito a pena escutar. Desde que, é claro, você não seja eu.

quarta-feira, 9 de abril de 2014

"Olhar Cético", agora, só online

Se não errei nas contas, faz mais ou menos 10 meses que lancei a coluna Olhar Cético na revista Galileu, impressa e online, a convite do então editor-chefe Alexandre Matias. De lá para cá, muita água passou por debaixo da ponte, incluindo a saída de Matias da revista, no início do ano. Com a troca de comando é natural que algumas mudanças de caráter mais estrutural também aconteçam, e uma delas é o fim da Olhar Cético na Galileu de papel. A coluna sobre Harriet Hall é a última que os leitores "físicos" da revista verão, embora outros textos meus, como artigos ou reportagens, possam eventualmente voltar a aparecer na publicação. Mas o texto mensal, fixo, não sairá mais.

A coluna na internet, no entanto, continua, firme e forte. Confesso que a decisão de encerrar a participação na edição impressa por um lado me entristece um pouco -- minha grande inspiração sempre foi a clássica página de ceticismo da Scientific American original, e eu tinha a vaga pretensão de estabelecer uma tradição comparável -- mas, por outro, vem com certo alívio: o espaço no papel era bem exíguo, e escrever as colunas estava se tornando um exercício frustrante, onde era frequente a sensação de que a concisão forçada estragava alguns temas.

Escrevendo apenas para a internet, terei mais espaço e mais tranquilidade para apresentar as coisas como acho que devem ser apresentadas, e com um tempo de reação mais compatível com a velocidade com que as bobagens se multiplicam pela web, algo que ficava meio embaraçado na periodicidade mensal do papel.

Bom, enfim: se você acompanha a Galileu impressa, não se assuste quando a edição de maio sair sem o Olhar Cético. Meus escritos continuarão a aparecer no site da revista -- e agora, espero, com mais fôlego e desenvoltura.

quinta-feira, 3 de abril de 2014

Anotando "O Rei de Amarelo"

A Editora Intrínseca apresenta, agora em abril, sua edição de O Rei de Amarelo. Lançada em 1895, essa obra é muitas vezes considerada a mais importante da literatura fantástica norte-americana a sair no período entre a morte de Edgar Allan Poe e o início da carreira de H.P. Lovecraft. O texto original em inglês já se encontra em domínio público, e o livro está saindo agora no Brasil por conta das referências a ele contidas na série de TV True Detetctive, da HBO. De fato, além da Intrínseca, já ouvi falar em pelo menos duas outras editoras que trabalham para pôr suas traduções de O Rei no mercado de língua portuguesa.

Então, alguém poderia perguntar, por que escolhi esta edição específica para destacar? Por um motivo simples: O Rei de Amarelo da Intrínseca conta com introdução, comentários e notas deste que vos escreve. De uma  madrugada correndo atrás da etimologia de "Carcosa" a consultas enciclopédicas sobre o Yellow Book londrino dos anos 1890, passando por uma análise comparativa das cinco edições do Rubaiyat publicadas na Era Vitoriana, o trabalho em si foi uma viagem e tanto -- cujo resultado os curiosos podem encontrar no próprio livro, já anunciado no website da editora e em pré-venda em algumas livrarias online.

O mais interessante de tudo, ao menos para mim, foi ver como, ao longo da pesquisa, emergia um emaranhado de influências e de diálogos entre obras literárias, onde entrelaçavam-se Poe, Baudelaire, a vanguarda decadente francesa, Ambrose Bierce e Oscar Wilde, tudo concentrando-se em Robert W. Chambers -- o autor de O Rei de Amarelo -- e, a partir daí, abrindo-se novas vertentes, onde aparecem Lovecraft, Derleth, Raymond Chandler, os pós-modernos lisérgicos da década de 70, Stephen King e, claro, True Detective.

Para quem vive, como eu, imerso no que se convencionou chamar de "literatura de gênero" -- pulp, ficção científica, terror, etc. -- foi muito interessante constatar os movimentos de fluxo e refluxo que os ditos gêneros mantêm entre si e, também, com a chamada "literatura séria".

O próprio Chambers transitava livremente entre esses campos: a maior parte de sua obra, para além de O Rei de Amarelo, é composta de romances do tipo moça-pobre-e-pura-encontra-marido-sexy-rico, mas também traz incursões por gêneros tão díspares quanto espionagem (seu romance The Slayer of Souls é uma aventura em que o Serviço Secreto americano salva a Civilização Ocidental de uma perigosa sociedade secreta do Oriente) e a ficção científica, incluindo uma série de histórias sobre a descoberta de animais fantásticos, In Search of the Unknown.

Se o trabalho de anotar Chambers me mostrou alguma coisa, foi que uma obra de literatura, se lida com atenção, dificilmente caberá no escaninho mental que preparamos para ela. "Sou enorme, contenho multidões", disse Walt Whitman. E dizem os bons livros, se tivermos a disposição e a disciplina de ouvir.

quarta-feira, 2 de abril de 2014

Senso comum, informação e estupro

Uma característica curiosa que certos comentaristas conservadores têm é a de reagir de modo reflexo, quase instintivo, em defesa do senso comum -- qualquer senso comum. É o tipo de gente que, no século XVII, estaria inventando desculpas para não olhar para o céu pelo telescópio de Galileu. O efeito, muitas vezes, assume a forma daquilo que os americanos chamam de knee-jerk reaction: reação emocional, impensada, comparável ao chute involuntário que toda pessoa saudável dá, inevitavelmente, quando o médico bate com o martelinho no tendão do joelho.

O knee-jerk conservador mais recente veio em resposta à pesquisa do IPEA sobre as atitudes do brasileiro diante da violência contra a mulher. Um dado do senso comum captado pelo levantamento -- o de que estupros poderiam ser evitados se a mulher "soubesse se comportar" (58% dos entrevistados concordaram, total ou parcialmente) -- passou a ser lamentado por feministas, estudiosos e, quase ao mesmo tempo, defendido pelos punditos da hora.

Os mais sofisticados (ou menos brucutus) buscaram traçar uma distinção entre os aspectos moral e pragmático da questão: sim, moralmente é errado estuprar uma mulher sob quaisquer circunstâncias, não importa o que ela esteja vestindo ou como se comporte, e ninguém merece ser vítima de violência, ainda mais violência sexual, PORÉM, TODAVIA, CONTUDO, pragmaticamente, é lógico, óbvio, evidente que certas roupas/atitudes atraem ou facilitam o crime. Afinal, o tarado atrás da moita não vai avançar na freirinha de hábito, mas na menina de shortinho... E o cafajeste da balada não vai seguir a moça recatada até o banheiro, mas sim a periguete que fica dando mole. Há até um meme circulando que compara a mulher que anda com pouca roupa na rua ao sujeito que ostenta Rolex. Se o relógio é tentação para o assaltante, vai o raciocínio, as pernas de fora viram a cabeça dos estupradores.

Lógico. Óbvio. Evidente. Mesmo? O fato é que existem, olha só, dados estatísticos sobre a vitimologia e também sobre os perpetradores de estupro no Brasil. Será que sustentam o modelo do "tarado atrás da moita que ataca funqueiras vadias seminuas?"

A eles: 70% das vítimas de estupro no Brasil têm menos de 17 anos. Praticamente 51% são menores de 13. Entre as meninas de até 13 anos que sofrem estupro, apenas cerca de 13% foram atacadas por desconhecidos: parentes e amigos (incluindo pais e padrastos) respondem por 89% cerca de 80% dos casos. Já na faixa adolescente, dos 14 aos 17, os desconhecidos são 38% dos estupradores, ainda bem menos da metade. A única faixa etária onde predominam os estupros por estranhos é a das mulheres adultas, maiores de 18 anos, onde 60% dos casos são atribuídos a desconhecidos. Mas as adultas compõem a menor proporção, 30%, das vítimas.

"No geral, 70%  dos estupros são cometidos por parentes, namorados ou amigos/conhecidos da vítima, o que indica que o principal inimigo está dentro de casa", diz o relatório (também do IPEA) que apresenta os dados. Esses dados confirmam um relatório da OMS que informa que, de longe, o principal fator de risco que torna uma uma mulher vulnerável a abuso sexual é morar com um homem. Pode até haver um ou outro maluco atrás da moita, mas o foco nele é obviamente desproporcional.

Resumindo: as brasileiras que mais risco correm de sofrer estupro são as menores de idade, e a principal fonte de perigo não é o tarado da rua ou o cafajeste do pancadão, mas amigos, namorados, maridos, pais e padrastos. Com o agravante de que, quando o estupro é cometido por um conhecido, a agressão se repete em quase 50% dos casos (quando a vítima é criança) ou em mais de 40% (quando as vítimas são adolescentes ou adultas). Outro importante fator de risco de estupro é já ter sido estuprada.

No mínimo, esses dados todos servem para desarmar a falsa analogia entre estupro e assalto. Não creio que 70% dos assaltos sejam cometidos por parentes e amigos das vítimas, mas se algum blogueiro da Veja tiver dados sugerindo o contrário, sou todo ouvidos.

Os números também depõem, de modo incisivo, contra o tal "argumento pragmático" por um comportamento mais recatado das moças: se a maior parte dos crimes de estupro é cometida por conhecidos, não parece que as roupas com que a mulher sai à rua, ou a forma como se comporta em público, sejam fatores significativos. Talvez o recato ajude a evitar um ou outro crime, mas mesmo isso é bem duvidoso.

Duvidoso porque fica faltando uma compreensão dos motivos do estuprador. Se ele é movido pela libido, talvez uma escolha "defensiva" de roupas ou atitudes possa oferecer alguma proteção, ainda que vestigial (em termos comportamentais, o relatório da OMS cita álcool e drogas como fatores de risco).

Agora, um trabalho publicado nos EUA em 1988 sugere que o estupro tem mais a ver com misoginia, e com a necessidade de se impor, de obter controle e de exercer poder, do que com desejo sexual propriamente dito. Estupros por desejo sexual costumam ser premeditados, e são mais comuns entre conhecidos e namorados, o que novamente dissipa a imagem do tarado que age por impulso ao ver um decote.

No caso específico dos estupros cometidos por estranhos -- os tais "tarados atrás da moita" -- a principal causa parece ser ressentimento misógino: "O estuprador é consumido por um ressentimento contra os outros, geralmente mulheres, que faz com que o estuprador sinta que algo deveria ser feito para puni-las. O estupro por ódio é (...) mais frequente entre estranhos", diz este artigo da Universidade da Califórnia - Santa Bárbara.

Talvez shortinhos despertem esse tipo de ódio em alguns, mas até aí, jeans, saias, burcas, a cor dos olhos, o comprimento dos cabelos e o formato do nariz podem ter o mesmo efeito, em outros. Embora estupradores tentem, em geral, empurrar a culpa para a vítima, não há nenhum dado que indique que a roupa ou qualquer outro fator objetivo, com existência real fora da imaginação do criminoso, seja relevante.

sexta-feira, 28 de março de 2014

A Ascensão de Cthulhu: começa 2014

Será lançado em meados de abril, na Odisseia de Literatura Fantástica de Porto Alegre,  o volume de contos A Ascensão de Cthulhu, da Argonautas Editora -- livro que traz um conto de minha autoria, e representa o pontapé inicial da série de lançamentos contendo escritos meus que deve ocorrer, salvo alguma intervenção dos Grandes Antigos, ao longo do ano.

Cthulhu é, claro, o Grande Cthulhu, a entidade alienígena-extradimensional que reside em animação suspensa sob o Oceano Pacífico, e cujo despertar marcará o fim da história humana sobre a Terra -- ou, ao menos, é o que se depreende do conto The Call of Cthulhu, de H.P. Lovecraft. O livro da Argonautas é uma coletânea de contos de inspiração lovecraftiana.

Minha relação com a obra de Lovecraft passou, como se costuma dizer, por fases. Esse autor foi uma das principais influências de minha primeira década como ficcionista publicado -- digamos, de 1992 a 2002.

Gostava muito, como ainda gosto, da forma como estruturava suas narrativas, e ele me deu um formato dentro do qual trabalhar.

Com o tempo, comecei a me distanciar ideologicamente de seu trabalho: enquanto, na ficção lovecraftiana, a ignorância geralmente é uma bênção e a compreensão do verdeiro lugar da humanidade no cosmo leva à loucura, minhas convicções pessoais deslocaram-se na direção oposta: se o conhecimento traz problemas, eles só podem ser resolvidos com mais conhecimento, não queimando papéis, trancando livros em cofres ou alimentando mentiras.

Claro, dá para discutir se Lovecraft realmente achava que a ciência era o caminho do desastre -- há sinais de que não -- mas, enfim, peguei outros caminhos, me meti a fazer ficção científica hard, etc.

Curiosamente, no entanto, sempre me senti tentado a cometer uma "última história lovecraftiana". E, por conta disso, acabei escrevendo umas três ou quatro. A primeira-última foi Sob o Signo de Xoth, que está para ser republicada pela Draco numa coletânea de futebol, e depois ainda vieram  Deus dos Abutres, seguida por Toda Forma de Amor e, finalmente, por Caos e Eternidade, que é a que aparece nas páginas da nova coletânea da Argonautas.

O convite para participar de A Ascensão de Cthulhu me pegou de surpresa. Veio num momento em que eu já havia me decidido a parar de escrever ficção para o mercado brasileiro -- mas, por sorte, Chaos and Eternity era um conto que eu já tinha pronto, escrito originalmente em inglês, sob encomenda, para uma antologia americana sobre Nyarlathotep que acabou não se concretizando. Peguei o conto, traduzi, cortei, costurei, reformei e, graças ao editor Duda Falcão, aí está ele para quem quiser ler.

A história foi produzida bem na época em que eu transitava do terror para a ficção científica hard, e isso aparece. Mais não digo, para evitar spoiler.

E como o mundo é cíclico, estou recomeçando a ler (ou começando a reler) literatura dos Mitos de Cthulhu. Algum Lovecraft original, e incursões nesse universo por James Blish, Ramsey Campbell e Karl Edward Wagner, entre outros nomes. Está sendo um passeio bem interessante.