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O algoritmo na cabeça das pessoas

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O Brasil é um dos cinco países que mais usa WhatsApp, e linchamentos motivados pela internet não são novidade por aqui, mas a imprensa nacional meio que vem ignorando a grande polêmica que cerca o aplicativo no mundo de língua inglesa -- a saber, a onda de linchamentos, na Índia, estimulada por boatos divulgados nessa rede. Jornais britânicos (aqui, aqui e aqui) e americanos (aqui) vêm cobrindo o assunto com atenção. E por um bom motivo: a tragédia indiana abre um novo capítulo no debate sobre "fake news", seus impactos e modos de ação.

Muitas das notícias publicadas falam de apelos das autoridades para que a rede, de alguma forma, coíba a circulação de boatos. Isso me parece fazer tanto sentido quanto pedir para as fábricas de motocicleta que façam algo para coibir o uso desses veículos em assaltos na saída de caixas eletrônicos, ou que as operadoras de telefonia façam algo para combater os trotes.

Afinal, diferente do Facebook, que aplica uma série de filtros e algoritmos

Notícias falsas: mais complicado do que parece

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Uma capacidade fantástica do ser humano é de pegar o que poderia ser um debate rico, complexo e produtivo e imediatamente reduzi-lo a meia-dúzia de clichês rasteiros. A questão das notícias falsas/fake news, por exemplo, que poderia ter dado margem a uma discussão séria sobre meios de comunicação, uso de fontes e credibilidade, virou basicamente uma estratégia de marketing da mídia corporativa -- "confie em nós", dizem os jornalões, as grandes redes de TV e rádio em suas campanhas de conscientização sobre fake news -- "e tudo vai ficar bem".

Mas aí a gente se lembra de que o Estadão engoliu a lorota do Jogo da Baleia Azul com isca, anzol e linha; que a Folha de S. Paulo endossou teorias de conspiração malucas sobre o 11 de setembro; que a CBN fez um programa cantando os loas da "medicina" ayurvédica; que a febre nacional da fosfoetanolamina começou com uma reportagem de afiliada da Globo,  e é compreensível que fiquemos desconfiados e desconsolados.

A qu…

Fé, longevidade, burrificação

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Semana retrasada tive uma pequena maratona de eventos acadêmicos sobre divulgação científica -- aparentemente, hoje em dia não é de bom-tom, no meio universitário, realizar um seminário, sobre o que quer que seja, sem incluir pelo menos uma mesa redonda tratando do tema, o que parece indicar uma certa angústia, que precisa ser melhor explorada (e explicada). Mas, enfim: em quase todos os eventos do tipo, costuma recorrer uma questão que assume diversas formas, mas que pode ser exemplificada pelo trocadilho "como simplificar sem burrificar"?

Claro, muitas vezes a pergunta embute um quê de arrogância -- o subtexto sendo, "esse negócio que eu estudo é complicado demais, a plebe ignara nunca vai entender" -- mas há inúmeras situações em que a preocupação é legítima e real, principalmente quando a informação vai passar por um filtro midiático: isto é, vai ser reinterpretada  e "re-embalada" com base nos critérios usuais de novidade, alcance, capacidade de atr…

As ondas da ficção científica nacional

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Entre 1989 e 2013, mais ou menos, escrevi muita ficção científica: às vezes, chegava a produzir um conto por mês. Como, de acordo com as leis da probabilidade, quem  atira muito na direção do alvo tende a acabar acertando de vez em quando, parte desse material prestou um pouco -- o suficiente para que eu ganhasse dois Prêmios Argos e, agora, tivesse um conto incluído no livro Fractais Tropicais -- Os Melhor da Ficção Científica Brasileira, organizado por Nelson de Oliveira, e que deve ser lançado no próximo semestre pela SESI Editora (estudei da 1ª à 8ª série num SESI, a propósito; fico imaginando que minhas professoras de então achariam disso).

O escopo de Fractais Tropicais é, para dizer o mínimo, ambicioso: cobre 30 autores e um período de cerca de 70 anos, de Jerônymo Monteiro (o primeiro escritor brasileiro a se dedicar seriamente à produção de ficção científica, ativo a partir do final da década de 30 do século passado) a Cristina Lasaitis, jovem autora que estreou já neste séc…

Mundo e Copa em banho-maria

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Os mesmos jornais que, no início da semana, noticiavam que a população brasileira estava cagando e andando para a Copa do Mundo da Rússia, hoje não falam de outra coisa -- a ponto de não ter sobrado espaço, nas capas da Folha e do Estado, para a verdadeira notícia mais importante da semana: a aceleração do degelo antártico e sua dramática contribuição para a elevação do nível dos mares. O efeito acumulado nas últimas décadas aparece no gráfico abaixo, publicado pela revista Nature, periódico que nesta semana traz uma série de artigos sobre o estado da Antártida:



O Brasil, especialmente a costa brasileira, é bastante sensível ao que acontece na Antártida Ocidental (a parte esquerda do mapa acima). A ponta de terra mais proeminente ali, a Península Antártica, quase encosta na América do Sul, e era por ali que ficava a base brasileira Comandante Ferraz.

A Folha de São Paulo, que publicou recentemente boas reportagens sobre o impacto do aumento do nível do mar no litoral paulista, perdeu …

Aniversário da Ciência?

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Dizem que Isaac Asimov certa vez disse (não consegui confirmar isso nas fontes primárias) que o dia 28 de maio deveria ser celebrado como o Aniversário da Ciência. Isso porque, segundo algumas fontes do mundo antigo (Heródoto é o mais citado, mas também há Diógenes Laércio e outros), este dia marca a dramática confirmação da primeira "previsão científica"  registrada na história: a de um eclipse solar, ocorrido em 28 de maio de 585 AEC e que teria sido previsto por Tales de Mileto. Tales (624-546 AEC) é muitas vezes citado como o "primeiro cientista", por ter proposto explicações para fenômenos naturais sem apelar para a linguagem da religião e do mito -- usando apenas a natureza para falar da natureza.

Há, no entanto, diversas razões para duvidar de que a previsão do eclipse por Tales tenha mesmo ocorrido -- e, se ocorreu, que tenha sido realmente baseada em algo semelhante a princípios científicos, e não pura sorte. Se sorte foi mesmo o caso, Tales, além de prim…

Cuba cura câncer?

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O pior tipo de fake news não é a que mente de modo descarado, mas a que usa um base verdadeira como pedra angular para um castelo de falsidades. A mentira pura e simples pode ser pura e simplesmente negada; o edifício fajuto erguido sobre a base verdadeira requer cuidado especial, já que qualquer tentativa de demoli-lo às pressas torna a pessoa que tenta produzir o esclarecimento vulnerável à acusação de estar negando uma verdade -- aquela, pequenininha, ali no alicerce.

Caso em tela: um amigo me envia, pelo Facebook, link para um texto online que afirma que Cuba tem uma vacina milagrosa que cura câncer de pulmão, que já beneficiou milhares de pessoas, mas que a maligna indústria farmacêutica capitalista não quer que você saiba disso. É o típico caso de alegação que aperta todos os botões emocionais certos: para o ideólogo de direita é, obviamente, uma mentira comunista; para o de esquerda, é, obviamente, uma prova da cupidez capitalista, da ineficiência do mercado, um claro triunfo