terça-feira, 16 de setembro de 2014

Jack, o Estripador? Devagar com o andor!

Teste de DNA revela identidade de Jack, o Estripador! Ao menos, foi o que disse o jornal britânico Daily Mail na semana passada. De acordo com a reportagem do Mail, um xale encontrado junto ao corpo de uma das vítimas do mítico assassino, Catherine Eddowes, continha material genético tanto da mulher quanto do suposto criminoso, identificado como o cabeleireiro polonês Aaron Kosminski. O que dizer da revelação do Mail? A seu favor, há o fato de que Eddowes é uma das chamadas “cinco canônicas”, as cinco mulheres, mortas entre agosto e novembro de 1888, cujos assassinatos foram, muito provavelmente, cometidos pelo mesmo serial killer. Mas também há muito espaço para ceticismo. Leia mais no Olhar Cético do site Galileu.

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Dieta e mudança climática

O carbono emitido na produção de alimentos para consumo humano deve superar as metas de liberação de gases causadores do efeito estufa até 2050, diz artigo publicado no periódico Nature Climate Change. “Estudos recentes mostram que as tendências atuais de aumento da produtividade não bastarão para atender à demanda global de alimentos prevista para 2050, e sugerem que uma expansão maior da área agrícola será necessária”, escrevem os autores, da Universidade de Cambridge. “No entanto, a agricultura é o principal motor da perda de biodiversidade e um grande contribuinte da poluição e da mudança climática, logo uma maior expansão é indesejável”. Leia mais sobre este assunto, e outros, na coluna Telescópio do Jornal da Unicamp.

terça-feira, 9 de setembro de 2014

ETs, balões e as linas de Nasca

Ventos fortes e tempestades de areia num deserto do sul do Peru revelaram novas figuras junto às famosas Linhas de Nasca, informa a imprensa peruana e internacional. Essas linhas dão forma a desenhos gigantescos, deixados no solo desértico por culturas que habitaram a região ao longo de séculos, num período que terminou cerca de mil anos antes da chegada dos europeus às Américas. As figuras são contornos de animais, plantas e formas geométricas. Entre as novas imagens reveladas, há uma serpente de cerca de 60 metros de comprimento. Leia o artigo completo no Olhar Cético do site da Galileu.

domingo, 7 de setembro de 2014

A religião do(a) presidente(a)

Quem acompanha o blog há mais tempo já deve estar com o saco cheio de me ver fazer copy-paste do discurso de John F. Kennedy sobre a separação entre igreja e Estado, mas dada a temperatura e a direção do debate eleitoral, eu me vejo obrigado a repeti-lo.

O contexto do discurso: em 1960, Kennedy era um católico com chances reais de se tornar presidente dos Estados Unidos, algo que alarmava os líderes de igrejas protestantes, e parte da população. Havia um certo folclore, na mente anglo-saxã, de que um governante católico seria um títere do Vaticano, um interventor governando em nome do papa, uma violação, portanto, da soberania nacional (esse medo atávico se reflete na lei britânica que proíbe um católico de assumir o trono do Reino Unido; e, por mais que o temor nos pareça infundado hoje em dia, lembremo-nos de que o Brasil precisou esperar surgir um presidente -- um ditador, na verdade -- luterano antes de ver aprovada a lei do divórcio).

Kennedy tinha motivos mais do que óbvios para tentar dissipar essa preocupação, e foi com esse intuito que se dirigiu à Associação de Ministros Religiosos da Grande Houston, em 12 de setembro de 1960. O trecho crucial aparece nos dois parágrafos abaixo:

Eu acredito em uma América onde a separação entre Igreja e Estado é absoluta, onde nenhum prelado católico dirá ao presidente (se este for católico) como agir, e nenhum ministro protestante dirá a seus fiéis como votar; onde nenhuma igreja ou escola religiosa receberá verbas públicas ou favores políticos; e onde nenhum homem será rejeitado para um cargo público apenas porque sua religião difere da do presidente que poderia nomeá-lo, ou da do povo que poderia elegê-lo.

Eu acredito em uma América que não é, oficialmente, nem católica, nem protestante, nem judaica; onde nenhuma autoridade pública pede ou acata instruções sobre políticas públicas do papa, do Conselho Nacional de Igrejas ou de qualquer outra fonte eclesiástica; onde nenhum corpo religioso busca impor sua vontade, direta ou indiretamente, à população ou aos atos das autoridades públicas; e onde a liberdade religiosa é tão indivisível que um ato contra uma igreja será tratado como um ato contra todas.

O que Kennedy estava dizendo, em suma, cabe em cinco proposições:

1. A religião do agente público deve ser irrelevante frente a sua capacidade para a função;

2. A religião do agente público deve ser irrelevante para o exercício de sua função;

3. Nenhuma religião deve receber favores do Estado;

4. Nenhuma religião deve tentar influenciar o Estado;

5. Perseguição religiosa é inaceitável.


É importante notar que essas proposições funcionam como uma espécie de salvo-conduto religioso para o candidato: se adotadas, não importa se o político é satanista, fundamentalista, criacionista, panteísta ou o raio que o parta: os princípios de irrelevância, não-favorecimento e veto à perseguição garantem que a filiação religiosa do mandatário não vai contaminar as políticas públicas, nem terá o aparelho do Estado como instrumento.

No Brasil, o que os candidatos buscam fazer -- e a dose de má-fé implícita nesse movimento eu deixo para o leitor julgar -- é dar a impressão aos eleitores de que a religião deles será a privilegiada. Sejam eles quem forem. O fato de Marina Silva ser identificada claramente com a Assembleia de Deus só faz com que a pose de "privilégios para todos" tenha menos credibilidade, só isso.

Melhor seria se os brasileiros de todos os credos aceitassem o fato de que é impossível privilegiar a todos, e que o que vem acontecendo de fato -- um rodízio de privilégios, com um acordo internacional que agrada a X, um alvará de construção que agracia Y, um beija-mão que mexe com a vaidade de Z -- só faz criar uma espiral descendente que ameaça tanto a forma quanto o espírito da democracia.

O discurso de Kennedy não foi feito para uma plateia de ateus, mas de ministros protestantes. Tornar a religião irrelevante para o Estado não é desprestigiá-la: é garantir sua liberdade. Seria bom se o povo brasileiro percebesse isso.



quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Vitaminas, anfetaminas e o valor de pi

O caso da proibição-liberação das anfetaminas e da sibutramina no Brasil desencadeou uma discussão sobre o papel do Estado na regulação do mercado de drogas e medicamentos. Seguindo o exemplo dado pelos Estados Unidos, hoje em dia as autoridades de várias partes do mundo, incluindo o Brasil, exigem, primeiro, que o fabricante que pretende lançar uma nova droga revele do que ela é feita; em seguida, que ofereça prova científica de que o medicamento é seguro; por fim, de que realmente funciona contra a doença ou condição que pretende combater. Há algumas exceções a esses princípios, principalmente em relação ao último, no que diz respeito a suplementos alimentares, vitaminas e medicamentos homeopáticos mas, no geral, a regra é essa.

Por razões óbvias, os governos que seguem esses princípios estabelecem órgãos próprios para avaliar se as provas de segurança e eficácia oferecidas pelos fabricantes são válidas, já que esse tipo de decisão requer uma competência técnica  que não está presente na população em geral. A ação desses órgãos, não raro, gera atritos. Não só porque os técnicos podem se enganar (errar é humano, etc.) ou afrontar interesses econômicos poderosos, mas também por razões ideológicas: afinal, alguém poderia dizer, quem esses burocratas pensam que são para dizer o que uma pessoa pode tomar ou não?

A história da regulação do mercado de medicamentos pelo Estado se confunde, na origem, com a história do jornalismo científico. O início do século 20 viu o auge  da era do "remédio de patente", misturas misteriosas, muitas vezes à base de álcool e drogas pesadas, vendidas livremente com a promessa de operar curas milagrosas. Se você acha que os pais de hoje exageram na ritalina, em 1900 as mães americanas ou britânicas que precisavam trabalhar fora davam a seus filhos o Xarope Calmante da Senhora Winslow, uma mistura de morfina, álcool e amônia. Bastava uma colher de sopa para nocautear os pequerruchos por várias horas.




A situação começou a mudar graças a um conjunto de reportagens publicado, em 1905, na revista Collier's. Intitulada "A Grande Fraude Americana"  e assinada pelo repórter Samuel Adams, a série -- na qual o jornalista enviava amostra de medicamentos do calibre do Xarope Winslow a químicos, e publicava o resultado das análises -- levou à proposição de uma lei que obrigaria os fabricantes de remédios a declarar a fórmula de seus preparados no rótulo, e proibiria a venda de drogas narcóticas sem receita.

A gritaria, que hoje talvez pudesse ser chamada de "libertária", foi enorme. Os fabricantes disseram que uma lei assim traria o caos para a indústria, e a proposta morreu. Mas, em 1906, uma versão atenuada da lei foi sancionada pelo presidente Ted Roosevelt, exigindo que o conteúdo dos remédios viesse declarado no rótulo. Essa lei viria a gerar a FDA, a Administração de Remédios e Alimentos, que hoje é o principal órgão de regulamentação sanitária do mundo. Graças a essa lei, o primeiro dos três pontos do marco de regulação atual -- o da transparência -- foi adotado.

O passo seguinte foi dado no fim da década de 30, quando uma fábrica de remédios, também nos Estados Unidos, resolveu criar uma versão do antibiótico sulfanilamida que fosse agradável ao paladar infantil. A mistura incluía açúcar, caramelo, essência de amora -- e dietilenoglicol, um éter anticongelante e tóxico. Mais de cem pessoas morreram, e a lei americana foi reformada para exigir que os laboratórios, a partir daí, passassem a ter de demonstrar que suas drogas são seguras, antes de vendê-las. Aí temos o segundo item dos três princípios da regulação, o da prova de segurança. Que só se tornou obrigatória em 1938.

Foi necessária uma terceira tragédia, desta vez em escala internacional -- a da talidomida --  para que o terceiro princípio, o da prova de eficácia, se tornasse obrigatório. Curiosamente, a talidomida não fez vítimas nos Estados Unidos, porque a FDA não a considerou segura, e os problemas da droga não estavam relacionados a sua eficácia. Mas o caso teve o efeito político de ampliar o poder dos órgãos reguladores.

A grande reação contra a crescente regulamentação dos produtos de saúde veio na década de 70, quando a FDA apertou o cerco sobre o mercado de suplementos alimentares e vitaminas. Várias empresas vendiam (como ainda vendem) cápsulas de suplementação que contêm várias vezes as necessidades mínimas diárias desses nutrientes, prometendo (ou insinuando) que essas overdoses podem evitar ou curar vários problemas, de fadiga e resfriado a câncer. A FDA desejava que os fabricantes de suplementos tivessem de oferecer as mesmas provas de segurança e eficácia que o restante da indústria farmacêutica.

A medida foi rechaçada no Congresso americano que, sob forte influência de um poderosos lobby da indústria de suplementos vitamínicos, desautorizou a agência de interferir no mercado de vitaminas e suplementos.

As mãos da FDA foram ainda mais fortemente atadas na década de 90, também graças a um poderoso esforço de lobby da indústria de "produtos naturais", e que incluiu um comercial de TV em que agentes do FBI invadiam o apartamento de Mel Gibson (!!) para confiscar um frasco de vitaminas. Esse lobby levou o Congresso americano a definir uma categoria especial de produto farmacêutico, a de "suplemento alimentar", que foi deixada fora da jurisdição da FDA.




Como disse um especialista, citado no livro Do You Believe in Magic?, do médico Paul Offit, "ponha cérebro de carneiro num remédio ou num alimento e você terá de gastar milhões de dólares e alguns anos provando que ele é seguro e eficaz; ponha num suplemento e tudo bem, nenhuma prova é necessária".

Comparar a decisão do Senado brasileiro, que passou por cima de medida da Anvisa a respeito dos inibidores de apetite, ao desmonte do poder da FDA sobre vitaminas e suplementos alimentares pode soar exagerado, mas seria mesmo? Em ambos os casos, um órgão legislativo restringiu o exercício da função mais básica de uma agência de regulamentação sanitária,  a de estabelecer a segurança e eficácia dos produtos farmacêuticos.

O que é uma questão técnica, não política. O Senado brasileiro tem tanta competência para decidir que os inibidores de apetite são seguros e eficazes, em 2014, quanto a Assembleia Legislativa de Indiana tinha para definir que pi deveria valer 3,0, em 1897.

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Ecologia complexa, ciências sociais enviseadas

Os estudos científicos sobre ecologia – que tratam da interação dos seres vivos entre si e com o ambiente – vêm se tornando cada vez mais complexos e detalhados, mas seu poder explicativo está ficando cada vez menor, afirma um artigo publicado no periódico Frontiers in Ecology and the Environment. No front das humanidades, levantamento de 221 estudos de ciências sociais de reconhecida qualidade, publicados nos Estados Unidos, mostrou que os trabalhos apresentando resultados positivos – isto é, onde a hipótese proposta pelo pesquisador acaba confirmada pelos dados – têm 40% mais chance de serem publicados, e 60% mais chance de sequer chegarem a ser redigidos. Leia mais sobre essas duas questões na coluna Telescópio do Jornal da Unicamp.

terça-feira, 2 de setembro de 2014

Bruxaria, carisma e conto do vigário

Uma edição recente da revista britânica Fortean Times, que se dedica a colecionar casos bizarros e notícias insólitas, traz duas páginas dedicadas a casos de fraude cometida por “bruxaria”. A história de maior destaque trata de Juliette D’Souza, que extraiu de suas vítimas 1 milhão de libras – quase quatro milhões de reais – prometendo oferecer a soma em “sacrifício” para uma árvore mágica na Amazônia. O dinheiro foi usado por Juliette, que se apresentava como “xamã”, para, entre outras coisas, comprar bolsas Louis Vuitton e imóveis em Londres. (Leia o artigo completo no site da Revista Galileu)