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Perguntam-me sobre orgonite...

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Um amigo no Facebook me marca numa postagem e sugere, "discorra sobre o orgonite". Até acessar a postagem eu jamais tinha ouvido falar na palavra, mas a morfologia traz pistas: há a semelhança fonética com "orgone" (ou "orgônio"), a suposta energia sexual universal postulada pelo revolucionário, louco e/ou charlatão (mais sobre isso à frente) Wilhelm Reich; e há o sufixo inglês "ite", em português, mais propriamente, "ita", que costuma aparecer no nome de rochas e minérios (cassiterita, hematita, pirita, etc.). Então, seria uma pedra relacionada ao orgone?

Exatamente -- como este link, por exemplo, revela. Agora, como "discorrer" sobre isso? Apenas dizer "mais uma bobagem" deve soar insatisfatório para quem está lendo. Mergulhar na vida e na obra de Reich em busca do momento em que ele cruzou a barreira entre pensador instigante e doido de pedra é assunto para teses universitárias (e imagino que deva haver algumas …

Arma de fogo e saúde pública

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Um dado curioso no debate empírico sobre a posse de armas de fogo por cidadãos comuns é que ele geralmente gira em torno da questão da segurança pública, e muito pouco da questão da saúde pública. Parando para pensar no assunto, é uma situação estranha: se coisas como automóvel, cachaça, cigarro e até telefones celulares são avaliadas sob a perspectiva do efeito na saúde da população, por que não armas de fogo?

Resposta: porque, nos Estados Unidos, país que financia a maior parte das pesquisas sobre saúde do mundo, um poderoso lobby político sabota, quando não ostensivamente proíbe, qualquer tentativa de se usar dinheiro público para enquadrar as armas de fogo como questão sanitária. Uma peça de opinião publicada recentemente na revista Nature volta a chamar a atenção para esse problema. Em 2013, um abaixo-assinado de uma centena de cientistas já batia na mesma tecla.

"O governo dos Estados Unidos, em  benefício do lobby da bala, limita a compilação de dados, impede que pesquisad…

A múmia começou mulher

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Meu masoquismo cultural ainda não foi forte o suficiente para me levar a ver o novo filme de Tom Cruise, A Múmia, mas alguma atenção especial vem sendo dada ao fato de que, desta vez, o monstro-título pertence ao sexo feminino. Curiosamente, esta é uma decisão até que bem ortodoxa: embora a múmia no cinema tenha sido celebrizada como uma figura masculina -- por Boris Karloff e, depois, Lon Chaney Jr. e Christopher Lee -- seus principais antecedentes literários eram, na maioria, mulheres.

Há um bocado de antropologia escrita em torno do fascínio dos autores britânicos do século 19 com "horrores do Egito". A introdução da antologia Lost in a Pyramid, publicada pela British Library, localiza o início dessa obsessão com a construção do Canal de Suez, entre  1859 e 1869.



A que talvez seja a primeira história ocidental de terror girando em torno de uma múmia egípcia, intitulada exatamente Lost in a Pyramid, publicada em 1869, envolve não apenas uma mulher mumificada como foi escr…

Mulher-Maravilha e o Grande Desastre

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Esta postagem contém leves spoilers sobre o filme


Muito se tem falado, e com, razão, da influência do trabalho do argumentista e desenhista George Pérez no título em quadrinhos da Mulher-Maravilha, principalmente no relançamento da personagem que ele promoveu na segunda metade da década de 80, sobre o filme em cartaz, estrelado por Gal Gadot. Assim como o filme, Pérez se preocupou em amarrar a personagem de modo mais consistente à mitologia grega e fez do deus da guerra, Ares, o principal antagonista. Mas, assistindo a Mulher-Maravilha no cinema, ocorreu-me que um outro canto, menos conhecido, do universo DC também teve papel importante, se não fundamental, na concepção do longa-metragem: a cronologia pós-apocalíptica do Grande Desastre.

Dá para dizer que a primeira série vinculada ao Grande Desastre foi a de Kamandi, "o último rapaz da Terra", escrita e desenhada por Jack Kirby a partir de 1971. Mas a ideia de um universo completo vinculado ao Desastre -- uma terceira guerr…

Sorte ou mérito?

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O anúncio de que a Unicamp realizará estudos para implantar um sistema de cotas em seu vestibular reacendeu não só o debate em torno desse tipo específico de medida (sobre o qual já me manifestei aqui), mas também uma discussão de fundo sobre a origem do sucesso (social, econômico, etc.): sorte ou mérito? Quando uma pessoa se destaca das demais, ela deve isso a suas qualidades e esforço, ou a oportunidades que o acaso jogou em seu caminho? A resposta óbvia seria "um pouco dos dois", mas daí surge uma nova questão: é meio a meio? um dos fatores predomina?

Embora o bom senso sugira que cada caso é um caso, a polarização ideológica da sociedade atual levou à criação de campos distintos, com a direita batendo na tecla do mérito e a esquerda, na da sorte (ou "privilégio"). Para complicar ainda mais a situação, vieses cognitivos turvam a questão, com muita gente que "se deu bem" achando que conseguiu tudo sozinho, na marra; e com muita gente que enfrenta obstá…

Entusiasmo natural

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Uma das narrativas mais cativantes da ciência contemporânea é a do produto natural validado em laboratório: a história do(a) pesquisador(a) que se embrenha na mata, estuda aos pés de velhas benzedeiras e sábios pajés, leva a flor, a lagarta, a folha ou a raiz de volta para a civilização e, dali, obtém a molécula que vai combater a hipertensão, o câncer, as rugas e os pés-de-galinha.

Há muito a admirar nesse tipo de conto. Entre outras coisas, ele sublinha o valor da biodiversidade e o fato de que a sabedoria tradicional e o conhecimento científico podem coexistir num clima de respeito mútuo e maior benefício para a humanidade. Seria difícil encontrar algo mais alinhado ao zeitgeist -- ou, ao menos, àquilo que as pessoas bem-pensantes gostariam que fosse o zeitgeist.

O problema é que o entusiasmo com uma ideia que parece boa demais por motivos emocionais, morais ou políticos pode acabar escondendo evidências de que ela talvez não seja cientificamente tão sólida assim. Por exemplo, em …

Homeopatia, "fosfo", mudança climática

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Há alguns meses, comecei a produzir material, de forma esporádica, para o caderno Ideias do jornal paranaense Gazeta do Povo. Com minha saída da Unicamp, a produção cresceu naturalmente e, na última quinzena, a Gazeta acabou publicando três textos meus que têm muito a ver com o material que comumente aparece neste blog. Divulguei tudo nas redes sociais, mas como sei que esses são canais de oportunidade -- tem de calhar da pessoa interessada estar olhando pra timeline na hora em que o link aparece -- resolvi juntar tudo aqui, para que quem frequenta o blog possa ter acesso ao material de modo mais estável.

Os temas são os que aparecem aí em cima, no título da postagem. Aos links:

Por que a homeopatia, mesmo sem comprovação, ainda tem espaço no Brasil? Este é um misto de artigo e reportagem que toma como "gancho" a polêmica (que ainda grassa) no Jornal da USP a respeito da validade da homeopatia como hipótese científica, disciplina acadêmica e prática médica.

Fosfoetanolamina, …