quinta-feira, 8 de dezembro de 2011
A Natividade, uma obra de ficção
Aqui no prédio em que vivo há um morador profundamente cristão, que adora adornar o quadro de avisos do elevador social com mensagens edificantes sobre "nós, cristãos" ou sobre como podemos "praticar melhor o nosso cristianismo". Aproveitando o impulso do artigo de ontem de Daniel Sottomaior na Folha, fiquei imaginando como seria colocar, no mesmo quadro, uma pensata sobre o quanto é deselegante e presunçosa essa premissa de que todos os moradores do prédio são cristãos e, portanto, têm algum interesse nesse tipo de baboseira.
Ou apenas rabiscar, "Nós quem, cara-pálida?"
Mas, em nome da paz dos condomínios, me contenho, me contenho.
De qualquer modo: o cartaz mais recente é sobre o que o presépio revela sobre, adivinhe só, o melhor modo de viver uma vida cristã e, claro, prestar o devido respeito à figura de Jesus.
Pessoalmente, considero presépios criações bem interessantes. Não sei o bastante sobre história da arte para afirmar algo, mas talvez sejam os ancestrais mais remotos dos dioramas; e, claro, há variações extremamente criativas, indo do origami às apresentações com autômatos. Como todo motivo mitológico, se prestam a infinitas recriações e reinterpretações. Lembro-me de que no apartamento de meu avô materno havia um feito com peças de madeira entalhada, incluindo um burrico, uma vaquinha e os Três Reis Magos.
O que só pouca gente talvez saiba é que essa representação, que leva os Três Reis à manjedoura, está simplesmente errada.
Explicando, com informações que aparecem no meu Livro dos Milagres:
Dos quatro Evangelhos canônicos, apenas dois – Mateus e Lucas – tratam do nascimento de Jesus, e o fazem com narrativas totalmente incompatíveis. De fato, um Evangelho muito literalmente desmente o outro, nesse aspecto. Em Mateus, Jesus nasce na casa de José, na cidade de Belém. Algum tempo depois, a Sagrada Família recebe a visita dos Reis Magos, que vinham seguindo a tal da Estrela de Belém.
Já de acordo com o autor de Lucas, a família era de Nazaré, mas Maria, ainda grávida, teve de acompanhar o marido a Belém, para que José respondesse a um censo ordenado pelos romanos. De acordo com esse evangelista, por algum motivo Roma queria contar os judeus não onde cada um deles vivia e trabalhava – o propósito básico de um censo –, mas a cidade onde seus ancestrais haviam vivido séculos antes.
(O censo descrito no texto de Lucas é problemático também por outros motivos. Um deles, o fato de que, na época do nascimento de Jesus, a Galileia, região onde fica a cidade de Nazaré, era um protetorado, e não uma província, de Roma. O suposto decreto de César simplesmente não se aplicaria lá.)
Enfim, chegando a Belém, o Sagrado Casal não encontra lugar para se hospedar e vai passar a noite num estábulo, onde Jesus nasce. Mais tarde, mãe, pai e filho retornam para a carpintaria de José em Nazaré.
Repare que nessa versão não há estrela de Belém, nem Reis Magos.
Essa distinção entre as narrativas é, de fato, tão sobejamente desconhecida, que quando o Vaticano resolveu fazer um presépio à la Mateus -- o cenário sendo uma casa, não num estábulo -- a coisa virou notícia no mundo inteiro.
Tudo isso pode ser visto como mera implicância minha; olhaí o ateu pernóstico, reclamando de picuinhas. Afinal, um presépio que junte os reis e a estrela à manjedoura simplesmente reúne o que há de mais dramático e poético nas duas versões, meio que como os filmes do Christopher Nolan reúnem o que há de mais interessante nas várias versões do Batman.
A diferença, se é que preciso explicar, está em que, pelo menos no caso do Batman, todos reconhecem as histórias como peças de ficção.
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