sexta-feira, 6 de maio de 2011

Ora, direis, ouvir arcebispos...

Há muito o que celebrar na decisão histórica do STF sobre a união estável de pares homossexuais, mas aqui eu gostaria de fazer um comentário sobre uma questão paralela, relacionada à cobertura do julgamento pela imprensa: por que, sempre que o Supremo tem que decidir algo sobre direito dos homossexuais ou alguma questão de ética médico-científica (como no caso das células-tronco), os jornalistas correm para entrevistar arcebispos católicos?

Em parte pode ser o cacoete do "outro lado", o princípio de que todo fato importante ou opinião momentosa deve vir acompanhado por uma avaliação negativa, um contraponto. Na encarnação anterior deste blog eu já havia criticado a busca irracional pelo "outro lado", que muitas vezes leva a imprensa a abrir espaço para criacionistas ou maníacos antivacinação.

Mas reconheço a importância do princípio: em casos como a decisão do STF, ele pode ajudar a pôr os fatos em perspectiva e a evitar o jingoísmo -- a celebração unânime de uma decisão que, tendo sido tomada por seres humanos, sempre corre o risco de estar errada. Não posso deixar de notar, no entanto, que o saudável uso do "outro lado" como antídoto para o jingoísmo não parece ter aplicação universal. Não se viu sinal dessa medida preventiva, por exemplo, no noticiário da grande imprensa sobre a beatificação de João Paulo II.

Enfim: mesmo reconhecendo que o contraponto é importante, fica a pergunta: por que arcebispos e não, digamos, especialistas conservadores em direito da família, ou psicólogos? "Porque a maior parte da população brasileira é católica", responderá o vulgo. Ah, sim? Bem, claro, se olharmos os números do censo e a proporção de brasileiros batizados... Ei, mas até eu fui batizado. E quando o censo passou em casa meu pai, que é quem estava por aqui na hora, disse que éramos todos católicos. Perdi a oportunidade de me declarar um Cavaleiro Jedi.

"E a opinião da hierarquia católica é levada a sério, pela população em geral, em questões de moral e família", prosseguirá nosso comentarista. Ah, sim? É por isso, suponho, que camisinhas e pílulas anticoncepcionais mofam nas estantes das farmácias; que a família brasileira média tem sete filhos; que as mulheres que praticam sexo antes do casamento são alvo de escárnio e escândalo e acabam virando freiras ou prostitutas.

Imagino que até o ouvido mais duro para ironia de todo o Universo foi capaz de notar que o parágrafo acima não descreve o Brasil. Então, exatamente da onde vem a ideia de que as pessoas se importam com o que os arcebispos pensam?

Submeto a hipótese de que isso se trata de um mito, que se sustenta em três fatores.

Primeiro, a inércia da própria imprensa. A "opinião da CNBB" parece importante porque sempre é divulgada, e sempre é divulgada porque parece importante.

Segundo, comodidade: quando o jornalista precisa de uma opinião reacionária para arredondar um texto, um velhinho sorridente de vestido preto e barrete roxo fica melhor na fita do que o Bolsonaro espumando pelos cantos da boca.

Terceiro, o que eu chamaria de efeito Magico de Oz -- lembra-se? O mágico parecia ser um gigante dotado de poderes fantásticos, mas na verdade era apenas um velhote manipulando marionetes. No caso, o monstro terrível que não passa de um velhote fraquinho com um talento para efeitos especiais inócuos é o tão propalado "poder de mobilização e capilaridade" da igreja católica.

A teoria é mais ou menos assim: há igrejas por toda parte, em todo o país, até mesmo em grotões onde nem a Rede Globo chega. Se, de repente, os padres começarem a fazer sermões contra mim, meu partido, minha empresa, meu jornal... tô ferrado. Ergo, melhor não irritar esses caras.

Trata-se de um tigre de papel especialmente eficaz, muito bom para assustar políticos, principalmente prefeitos provincianos e deputados eleitos por Fiofó do Judas (SP). Mas nem por isso deixa de ser um tigre de papel. Se não fosse, camisinhas e pílulas estariam mofando... etc, etc.

Teste de hipótese: não ouvir arcebispos na próxima vez que o STF decidir algo sobre, digamos, fetos anencéfalos -- não por ranhetice anticlerical, mas pelos mesmos motivos pelos quais ninguém ouve monges budistas nos debates sobre direitos dos animais: a opinião pode até ser interessante, mas não tem legitimidade num Estado laico e ninguém liga para ela, exceto uma minoria -- e contar o número de cartas reclamando da omissão. Minha previsão é de que serão extensas, furiosas e malcriadas... Mas muito, muito poucas.

(As imagens que ilustram este texto são representações do papa Urbano II. Um beato -- com o mesmo grau de santidade que João Paulo II -- Urbano é mais lembrado como o instigador da Primeira Cruzada)

quinta-feira, 5 de maio de 2011

No campo gravitacional da Terra, pi não é o que costumava ser

A Nasa anunciou nesta quarta-feira os resultados do satélite Gravity Probe B, que confirmaram (mais uma vez) que as previsões mais malucas de Einstein a respeito da forma como a gravidade afeta a geometria o espaço estavam perfeitamente corretas.

(Esse tipo de revelação agride um pouco meus instintos jornalísticos: notícia, dizem os veteranos da profissão, é quando o homem morde o cachorro; cachorro morder homem é um evento ordinário. Eu deveria, então, esperar para publicar um resultado experimental que provasse que Einstein estava errado...)

Embora um tanto quanto frustrantes e já obsoletas (detalhes, aqui) as observações do GP-B merecem destaque pelo apuro técnico do experimento -- baseado nas mais perfeitas esferas já criadas pelo homem, que me perdoem os fãs dos crânios de cristal -- e, ao menos do meu ponto de vista, evidentemente idiossincrático, pela demonstração de como o valor de pi varia na presença de um campo gravitacional.

Agora, você talvez esteja achando isso tudo muito estranho: afinal, pi, a razão entre comprimento e diâmetro da circunferência, é uma constante universal, certo? Certo, mas seu valor mais famoso (3,14159...) se aplica a círculos desenhados em superfícies planas. Distorça a folha de papel e a divisão da circunferência pelo diâmetro começa a dar valores diferentes do pi a que estamos acostumados. Na ilustração abaixo (descaradamente surrupiada daqui):


Vemos uma representação gráfica de como a Terra, a Lua e um asteroide distorcem o espaço ao redor. Agora, olhe para um dos anéis traçados em torno do poço de gravidade da Terra. Pergunta capciosa: qual o raio dele? Ora, é a distância que vai de um ponto de sua borda até o centro. Certo, espertinho. Mas onde está o centro do anel?


A resposta é: o centro de cada um dos anéis do poço de gravidade se encontra no fundo do poço. Isso acontece porque as paredes do poço são o próprio espaço. O raio de cada anel é a distância entre sua borda e o ponto mais profundo do fosso de gravidade.

(Desculpe a overdose de itálicos, mas trata-se de algo que merece ênfase.)

Para tornar a coisa mais clara, imagine um cone, como este abaixo:


Num fosso de gravidade, o raio do círculo que serve de base não é mais o comprimento R, mas sim o comprimento g. Isso acontece porque o espaço onde o comprimento o R da figura se estende, no caso de um poço de gravidade, simplesmente não existe (olha o itálico aí de novo).

O Gravilty Probe B confirmou esse efeito: numa órbita de 40.000 km de extensão, a fórmula 2pi*r -- usando o valor tradicional de pi -- gera um resultado com erro de 2,8 centímetros.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Dieselpunk'd!

Foi anunciada nesta manhã a lista de histórias selecionadas para a antologia Dieselpunk, organizada por Gerson Lodi-Ribeiro para a Editora Draco e, yep!, estou nela.

Confesso que estava apreensivo: ano que vem faz 20 anos que uma obra de ficção minha foi aceita, pela primeira vez, para uma publicação profissional, e é de se imaginar que, de lá para cá, eu tivesse ficado um pouco mais blasé no tocante a aceitações e rejeições.

Mas A Fúria do Escorpião Azul, minha submissão para a DP, é um caso especial: talvez seja meu trabalho completo mais ambicioso -- sob certos aspectos, como na manipulação do tempo narrativo, mais até do que o romance Guerra Justa (publicado pela mesma editora e, <plim-plim> à venda no link do canto superior direito desta página</plim-plim>).

Imagino que os leitores que frequentam este blog pelo conteúdo polêmico/político/científico e que tiveram a gentileza de continuar lendo até aqui estejam um pouco intrigados com o título da antologia, "Dieselpunk". Que diabo é isso?

Bom, uma aposta seria imaginar que a palavra se forma da mesma derivação que "steampunk", que por sua vez deriva de "cyberpunk", que por sua vez se refere a um subgênero da ficção científica que floresceu nos anos 80 do século passado e que explorava os possíveis efeitos da penetração profunda da tecnologia da informação e da mídia eletrônica na sociedade e, principalmente, nos ambientes urbanos.

Em termos de tom, o cyberpunk estava para a ficção científica tradicional como o "hard-boiled" -- as histórias de detetives durões e cínicos investigando o crime nas sarjetas -- estava para o romance clássico de mistério, com seu detetive amador resolvendo casos em mansões vitorianas.

(É importante evitar deduzir juízos de valor desse tipo de justaposição, aliás: muita gente identifica o "hard-boiled" com os pontos altos das carreiras de Chandler e Hammett e o mistério clássico com os menos inspirados dentre os esforços de Agatha Christie e SS Van Dine, mas o fato é que há obras de grande valor e porcarias abissais dos dois lados dessa fronteira estilística.)

Sob esse aspecto, o steampunk e o dieselpunk buscam captar o pathos cyberpunk e lançá-lo em direção ao passado. Isso pode ser feito de várias formas -- por exemplo, imaginando uma radicalização das tecnologias disponíveis na época em que a narrativa se passa (como postular a existência de supercomputadores a vapor no século XIX) ou especulando sobre as transformações sociais e econômicas causadas por algum tipo de elaboração fantasiosa (há um conto, acho que de Neil Gaiman ou Kim Newman, onde a Inglaterra conquista Lilliput e escraviza seus diminutos moradores, criando toda uma tecnologia literalmente feita de "homenzinhos dentro da máquina").

O dieselpunk é especialmente atraente -- para mim, ao menos -- porque a época que o subgênero busca trabalhar, geralmente entendida como o período entre as décadas de 30 e 50, coincide com a Era de Ouro dos pulps e dos quadrinhos. Doc Savage e Batman, para ficar em apenas dois casos, eram dieselpunk "em tempo real", por assim dizer.

O que nos traz, enfim, à minha noveleta Fúria do Escorpião Azul. Sem entregar muita coisa, digo que ela é inspirada na obra de Norvell Page, principal autor dos romances  pulp do Aranha, uma versão mais visceral e psicótica do Sombra. E que, de certa forma, dialoga com meu conto Questão de Sobrevivência, presente na antologia Assembleia Estelar, lançada há pouco mais de um mês.

A antologia Dieselpunk deve ser lançada no segundo semestre, e conta ainda com trabalhos de Octavio Aragão, Gerson Lodi-Ribeiro e do português Jorge Candeias, entre outros nomes de talento. Aguardo ansiosamente para ter o livro nas mãos.

Pondo cada coisa em seu devido lugar: o papel da intuição

Passe tanto tempo quanto eu batendo na tecla de que os métodos da ciência são a única rota razoavelmente segura para a verdade e o conhecimento ou, pior ainda, defendendo o Princípio de Clifford (proposto pelo matemático britânico William Clifford, no século XIX), segundo o qual aceitar uma alegação como verdadeira sem prova suficiente é perigoso e imoral, e você encontrará não uma, mas diversas vezes, variações da objeção do Asno de Buridan.

Para quem não conhece, esse é um asno fictício que teria morrido de fome porque era incapaz de decidir entre dois montes de feno (ou moitas na beira da estrada) igualmente apetitosos. A ideia é a de que esperar por prova suficiente, ainda mais por prova científica, antes de formular um juízo ou tomar uma decisão raramente é prático. As pessoas precisam contar com a intuição, o feeling, o palpite, senão ninguém sairia da cama nas manhãs de inverno. O Princípio de Clifford seria um ideal ético tão impraticável quanto o mandamento de vender tudo o que se tem e dar o dinheiro aos pobres.

(Que, por sua vez, deixariam de ser pobres e teriam de vender tudo o que têm e devolver o dinheiro para os ricos então empobrecidos... mas, divago.)

Essa objeção, no entanto, embute um pressuposto psicológico -- o de que seres humanos precisam de uma ilusão de certeza para poder funcionar no mundo. Se eu decido, digamos, atravessar a rua quando o sinal para pedestres abre, é porque me sinto certo de que os carros vão parar, mesmo sem ter prova científica -- digamos, um estudo estatístico indicando que 99,99% dos automóveis realmente param no sinal vermelho --para sustentar essa certeza.

Esse pressuposto, no entanto, é falso. Todos temos a consciência de que, algumas vezes, agimos com base em conjecturas, palpites, intuições. Tomamos decisões e formamos juízos com base na melhor informação disponível, que muitas vezes pode estar anos-luz aquém do padrão de aceitabilidade científica -- mas, se é a melhor informação disponível, WTF?

O que os maníacos cientificistas cliffordianos como eu bradamos -- no deserto, muitas vezes -- é que, se o conhecimento científico é provisório, palpites, intuições e conjecturas são mais provisórios ainda. Portanto, devem ser tratados com extremo cuidado; portanto, edifícios construídos sobre eles devem ter saídas de emergência em profusão, desobstruídas e muito bem sinalizadas. Ao fim e ao cabo, as pessoas deveriam, sempre que possível, evitar basear suas vidas ou tomar decisões realmente cruciais nesse tipo de coisa.

O mundo é um lugar cheio de incertezas e, sim, a evolução da espécie e a experiência pessoal de cada um conspiram para produzir uma série de atalhos intuitivos que, geralmente, se mostram bons o suficiente para nos permitir navegar o dia-a-dia. Mas, como muitos atalhos, esses envolvem desvios por becos escuros em vizinhanças inóspitas. Convém não esquecer isso.

(A imagem que ilustra esta postagem é um retrato de Clifford, e uma prova de com a intuição pode errar: ele realmente achava que essa barba era bonita!)

terça-feira, 3 de maio de 2011

Dois corações batendo como se fossem um...

Quer que o coração do seu amor bata em sincronia com o seu? Comece a caminhar sobre brasas ardentes na frente dele (ou dela).

Resultado de um estudo realizado na Espanha e publicado, nesta semana, pela revista Proceedings of the National Academy of Sciences (a popular PNAS) mostra que o ritmo cardíaco de parentes e "amigos íntimos" (categoria que, suponho, deve incluir namorados), presentes à plateia, de pessoas que participaram de um ritual de caminhada sobre brasas ardentes -- mais especificamente, que passearam descalças sobre uma pista de 7 metros de brasas a 677° C -- entrou em sincronia com o dos voluntários que encaravam as chamas.

Caminhar sobre brasas é, claro, um truque antigo e sobejamente explicado pela ciência. O que torna possível caminhar sobre brasas a 677° C são exatamente os mesmos princípios que tornam impossível caminhar sobre uma chapa de aço aquecida à mesma temperatura: capacidade e condutividade térmica.

Capacidade térmica é o quanto de calor que um corpo precisa receber antes que sua temperatura aumente. O corpo humano (incluindo a sola dos pés) tem uma alta capacidade térmica, o que significa que para esquentar a pele é preciso um bocado de calor. Já as brasas têm baixa capacidade térmica -- isto é, embora tenham uma temperatura alta, o calor que efetivamente contêm é relativamente baixo.

Condutividade térmica é a capacidade de transmitir calor. Metais em geral têm alta condutividade: se você segurar uma ponta de um alfinete e encostar a outra numa chama, não vai demorar muito antes que seus dedos ardam. Já madeira tem baixa condutividade: é por isso que dá para segurar um palito de fósforo aceso.

O carvão é útil para assar comida exatamente por causa da baixa condutividade: é o que faz com que ele libere o calor devagar, no ritmo adequado para o churrasco da família.

Então, resumindo: ao caminhar sobre brasas, os pés, que têm alta capacidade térmica -- isto é, precisam receber grandes quantidades de calor para realmente esquentar -- estão passando sobre um material que, além de conter pouco calor, ainda por cima o transmite bem devagar.

(Um exemplo comum da diferença que a condutividade térmica faz é a de um forno onde um bolo acaba de ser assado. Tudo que existe no interior do forno -- as paredes de metal, o bolo, a assadeira, o ar -- estão exatamente na mesma temperatura. No entanto, ninguém hesita em esticar o braço através do ar quente, embora poucas pessoas em seu juízo perfeito aceitem tocar na assadeira sem luvas.)

O segredo da caminhada bem-sucedida é preparar bem a pista de brasas, garantir que não haja bons condutores de calor misturados ali (uma tampinha de garrafa na mesma temperatura da brasa circundante pode causar ferimentos graves) e caminhar num passo rápido. Claro, umedecer os pés antes do início da atividade, ou passar algumas horas todo dia, nos dias anteriores ao exercício, caminhando descalço na areia, para fortalecer as calosidades da planta do pé, também ajuda.

O estudo publicado na PNAS tinha como objetivo avaliar a função social dos rituais coletivos, e mostrou que o coração da pessoa caminhando pelas brasas e o coração dos entes queridos presentes na plateia entram em sincronia -- mas apenas o dos entes queridos. Em outras palavras, as pessoas da plateia que não amam o caminhante não entram em sincronia com ele.

Para além do significado antropológico da descoberta, fica a sugestão de roteiro para um novo reality show: casais onde um dos membros desconfia da indiferença do outro são chamados pelo apresentador e, enquanto o membro desconfiado caminha sobre brasas, o alvo de desconfiança é amarrado a um polígrafo...

Brincadeirinha, gente. Brincadeirinha...

segunda-feira, 2 de maio de 2011

A morte de Osama bin Laden

Sendo este um blog especialmente atento aos aspectos mais tóxicos da religião e do tipo de pensamento que sustenta a crença religiosa em geral -- e tendo sido Osama bin Laden o homem que, no mundo moderno, mas fez para extrair dor e sofrimento desses aspectos e modos -- alguns comentários sobre seu passamento me parecem cabíveis.

O primeiro é lamentar o grau de ódio e fanatismo que o ódio e o fanatismo engendram, como reação, em suas vítimas. Ler no New York Times que o presidente Barack Obama definiu a morte de Bin Laden com a frase "justiça foi feita" é nada menos que chocante.

Não, senhor presidente, justiça não foi feita. Justiça teria sido feita se Bin Laden tivesse sido levado para Haia (ou Washington, ou Miami, ou Nova York), julgado e condenado. Até mesmo os arquitetos do Holocausto tiveram direito a seu dia no tribunal. Até mesmo o Estado de Israel julgou necessário dar a Eichmann o direito de defesa.

Mesmo considerando que um passo do tipo talvez tivesse sido politicamente, ou militarmente, inviável no caso de Bin Laden, teria sido possível evitar a indecente inclusão da palavra "justiça" no discurso presidencial.

O segundo é temer pelo impacto que a forma como a localização de Bin Laden se deu terá no (já claudicante) respeito das potências ocidentais pelos direitos humanos. De acordo com o NY Times, o mensageiro que foi seguido entrando na fortaleza de Bin Laden no Paquistão teve sua identidade revelada por prisioneiros de Guantánamo. Sob quais condições esses homens falaram, e o que os induziu a falar, é algo, ao que parece, aberto a livre especulação.

Terceiro, resta imaginar os efeitos da morte de Bin Laden sobre a legião de fanáticos que o tinha como comandante, se não de campo, certamente espiritual. Se a história dos fanatismos religiosos servir de exemplo, haverá três reações, uma em seguida da outra:

1. A morte não aconteceu;
2. A morte aconteceu, mas será vingada;
3. A morte de Bin Laden nas mãos de seus inimigos passará a ser vista como uma espécie de transfiguração mística, transformando-o, morto, num símbolo ainda mais forte do que era em vida.

Esse é um padrão que se repete desde épocas imemoriais -- exemplos que me ocorrem agora incluem Jesus de Nazaré, o rei de Portugal Dom Sebastião e, em tempos relativamente recentes, Salvador Allende e Che Guevara.

Por fim:

No livro The Al Qaeda Reader, uma compilação de textos doutrinários da organização de Bin Laden, há um longo capítulo sobre a moralidade das operações suicidas e de se causar a morte de inocentes. A conclusão é de que todas essas coisas são permissíveis, desde que feitas pelo bem e pela glória do islã.

Substitua "islã" pela religião, ideologia, divindade, partido político, país ou clube de futebol de sua preferência e você verá quantas "Al Qaedas" em potencial nos espreitam pelos cantos deste mundo de malucos.