sábado, 19 de março de 2016

Primeiros testes: "fosfo da USP" não funciona e não é "fosfo"

O pó produzido na USP de São Carlos, encapsulado e distribuído como "fostoetanolamina sintética" para pacientes de câncer, contém no máximo 32% da molécula pura; e essa molécula é completamente inútil, mesmo em testes in vitro, contra tumores de pâncreas e melanoma. As conclusões estão em relatório publicado pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, MCTI e que, temo, será ignorado pelas vítimas do verdadeiro culto que se formou em torno da substância, e pelos abutres, de diferentes plumagens, que esperam transformar o desespero dos doentes em votos ou dinheiro.

Os testes que produziram os resultados desapontadores -- mas não inesperados -- foram conduzidos como parte da iniciativa desencadeada ano passado, em resposta ao forte lobby pró-liberação da "fosfo", formado depois que uma combinação de jornalismo irresponsável, pusilanimidade oficial, ignorância e populismo criou o mito de que a a substância seria uma espécie de cura milagrosa para qualquer tipo de câncer. Em plena crise fiscal, o MCTI, nunca o mais prestigiado dos ministérios me termos orçamentários, conseguiu levantar R$ 10 milhões para "acelerar" os testes e a eventual liberação legal da substância.

O relatório do MCTI descreve os resultados da primeira bateria de testes in vitro, nos quais o remédio proposto é inserido no meio de cultura das células tumorais. É importante lembrar que o in vitro é um dos testes mais propensos a gerar falsos positivos, já que, como se diz, é possível matar células de câncer pondo cândida ou detergente no meio de cultura.

Resultado: isolada e pura, a fosfoetanolamina é inútil contra os dois tipos de câncer, mesmo em concentrações absurdamente altas, e quando escrevo "absurdamente" quero dizer: vários milhares de vezes mais altas que as necessárias para obter bons resultados com drogas tradicionais de quimioterapia.

No que poderia ser visto como uma virada irônica, um dos contaminantes da "fosfo" de São Carlos -- a monoetanolamina -- se mostrou tóxica para os tumores testados, mas em concentrações de 7 mil a 70 mil vezes maiores que as drogas tradicionais de quimioterapia. Isso quer dizer que são necessários até 3 litros e meio de monoetanolamina para se obter o mesmo benefício que uma gota de quimioterapia comum. In vitro.

O relatório do MCTI conclui descrevendo as próximas etapas do estudo: teste in vitro da "fosfo" (e, também agora, da "mono") contra células de câncer de pulmão, contra células humanas saudáveis e o início dos testes em camundongos. 

Um segundo relatório divulgado pelo MCTI, que testou a toxicidade da "fosfo" in vitro contra células de outros tipos de tumor -- colorretal, próstata, glioblastoma (cérebro) --, também concluiu que a substância não tem efeito, ou só tem efeito em concentrações milhares de vezes maiores que as da quimioterapia comum. 

Os autores desse trabalho, no entanto, sinalizam algum otimismo, ponderando que, embora os testes in vitro sirvam para fazer a triagem de moléculas promissoras -- triagem em que a "fosfo", não dá para negar, fracassou -- é concebível que os resultados em cobaias vivas sejam melhores, "possivelmente por depender de rotas metabólicas". É uma esperança talvez admirável, frente o enorme investimento emocional de milhares de pessoas na suposta eficácia da "fosfo", mas fica a questão de até que ponto ela faz mesmo sentido. 

O acervo completo de relatórios do MCTI sobre a "fosfo" pode ser acessado aqui.

Adendo (28/3): Na última semana surgiu um coro bem afinado de críticas a supostos "erros metodológicos" do processo de análise conduzido pelo Grupo de Trabalho do MCTI. Dois pontos, a meu ver, merecem destaque especial.

Um deles é a forma irresponsável, despreocupada e negligente com que essas réplicas tratam o fato de as cápsulas distribuídas pela USP não terem, sequer, peso consistente ou correspondente ao declarado na embalagem. Afinal, se tanto faz o paciente receber 200 mg, 300 mg ou 500 mg de "fosfo", por que não 1 kg, ou zero? Essa indiferença quanto à relação dose-resposta e seu impacto na saúde dos pacientes é assombrosa, do ponto de vista humano, e uma evidência forte de que o único efeito esperado -- talvez até mesmo pelos proponentes da droga -- é o de um placebo inócuo.

O segundo é a alegação de que parte dos contaminantes encontrados nas cápsulas -- incluindo o veneno monoetanolamina -- é um artefato do processo de análise, e não um componente original das cápsulas. Essa alegação, que equivale a uma acusação de incompetência lançada contra os responsáveis pela análise, é feita sem que nenhuma prova de que esse é realmente o caso seja oferecida. O que temos é, de um lado, um laudo científico e, de outro, a palavra de alguém que diz, sem nenhum razão concreta, que acha que o laudo não presta.

Outras críticas metodológicas, supostamente mais sofisticadas, também foram feitas ao trabalho patrocinado pelo MCTI, e estão sendo analisadas, ponto a ponto, no blog Gene Repórter.

sexta-feira, 18 de março de 2016

Detector de raios cósmicos no porão da universidade

No subsolo do Instituto de Física Gleb Wataghin (IFGW) da Unicamp, quatro pirâmides metálicas – dispostas como um par de ampulhetas, ocupando todo pé-direito da sala, onde se encontram também bancadas e computadores – coletam múons, partículas invisíveis geradas por raios cósmicos e que passam através das lajes de concreto do prédio e dos corpos humanos sem se fazer notar. “Em um metro quadrado, a cada segundo, passam mais ou menos 140 múons”, explica o pesquisador Anderson Fauth, responsável pelas “ampulhetas” que formam o telescópio Muonca [acrônimo para Múons em Campinas]. Leia a íntegra da entrevista no Jornal da Unicamp.

quinta-feira, 17 de março de 2016

Cuidado com o valor-p

A Associação de Estatística dos Estados Unidos (ASA, na sigla em inglês) publicou, no início do mês, uma nota advertindo cientistas contra o uso indiscriminado do “valor-p”, uma ferramenta estatística tradicionalmente adotada para determinar a “significância” de uma descoberta: considera-se significativo um achado cujo valor-p seja igual ou menor que 5%. Esse limiar de 5% acabou se tornando uma espécie de pré-requisito para publicação no meio acadêmico. A nota da ASA condena tanto as interpretações informais do valor-p – muitas vezes visto como equivalente à probabilidade de o resultado do estudo ser falso – quanto o uso indiscriminado do limiar de 5%. (Leia a íntegra desta nota, e outras, no Telescópio da semana)

domingo, 13 de março de 2016

As aventuras de Hieron de Zenária

Entre as (poucas) pessoas que acompanham com atenção minha obra ficcional, várias costumam se queixar do que consideram um "desperdício" de cenários: neste mundo de dodecalogias com volumes de 500 páginas cada, eu insisto em criar universos ficcionais aparentemente complexos e detalhados que são descartados depois de aparecer em um único mísero conto.

"Você não vai voltar àquele mundo?", perguntam. E não é que eu me recuse a revisitar cenários por princípio, teimosia ou algo do gênero: é que, para mim, o mundo serve à história. Contada a história, ele perde sua razão de ser.

No entanto, existe um mundo que já revisitei algumas vezes: Darach, o continente em que baseei meu cruzamento pós-apocalíptico entre a Era Hiboriana e Zotique, e onde se passam as aventuras de Hieron de Zenária, um cientista errante que percorre os reinos da Terra numa espécie de paralelo com as andanças de um certo cimério.

Até hoje, visitei Darach e Hieron três vezes, em uma novela e dois contos. Por ironia do destino (ou num sinal de que faço bem em não insistir em reaproveitar cenários) essas histórias, espalhadas em fanzines e antologias, estão entre as menos populares que já escrevi.

Agora, no entanto -- e pela primeira vez --, as três estão disponíveis, simultaneamente, em formato e-book: são a novela Flores do Jardim de Balaur, e os contos Escaravelhos e a Filha do Duque de Ev e A Festa de Todos os Deuses. Sei que Festa foi a última aventura de Hieron a ser escrita. Já a ordem entre Flores e Escaravelhos é incerta: não me lembro de qual história escrevi primeiro, nem para qual inventei o personagem.

Assim como as histórias de Conan por Robert E. Howard, elas pinçam pontos distintos da carreira do protagonista -- eu sugeriria que os dois contos pegam Hieron ainda jovem, enquanto que Flores já apresenta o personagem mais adulto, mas posso estar enganado. Tenho, em alguma pasta perdida do HD, um embrião de uma quarta aventura de Hieron, envolvendo um lobisomem e um cenário semelhante ao da peça Romeu e Julieta, mas esse fragmento nunca passou do segundo parágrafo.

Criei Darach e Hieron numa época em que estava totalmente imerso em sword-and-sorcery, passando de modo mais ou menos indiscriminado de Frtiz Leiber para Clark Ashton-Smith e Michael Moorcock, e de volta. Confesso que cheguei até a esboçar um mapa do continente -- duas vezes, e com bem poucas semelhanças entre um e outro, na verdade.

O único ponto fixo era Zenária, uma espécie de Atenas, onde mestres-filósofos treinavam aprendizes nas artes da lógica e da retórica, e de onde partira Hieron, cansado dos debates e embates teóricos de seus mestres, sedento por contato empírico com o mundo. Agora com a disponibilidade simultânea das três histórias, talvez mais pessoas se interessem pelo estudante irrequieto e seu caminho. Quem sabe?