sábado, 22 de outubro de 2016

Falácia da Lotofácil

Meu e-mail profissional fica exposto nas reportagens que escrevo para o Jornal da Unicamp. Uma consequência inevitável disso é que recebo toneladas de spam. Essas mensagens não-solicitadas vêm de assessorias de imprensa sem noção (já recebi convite para entrevistar uma youtubber de moda adolescente no Rio de Janeiro, sendo que sou um jornalista de ciência baseado em Campinas), de príncipes africanos ou magnatas russos com dinheiro sujo para tirar do país, de empresas que emitem notas fiscais ou avisos de cobrança por coisas que nunca comprei -- enfim, o de sempre. Mas, nas últimas semanas, uma modalidade diferente começou a tomar conta da minha caixa postal: sistemas para ganhar na Lotofàcil. Coisa de, assim, duas ou três mensagens ao dia. Isso me deixou curioso, e confesso que segui os links indicados para ver onde aquilo ia dar.

Antes de dizer onde os links me levaram, talvez valha a pena descrever o que é, afinal, a Lotofácil. Eu mesmo não conhecia essa modalidade. Trata-se de uma loteria mantida pela  Caixa Econômica Federal, assim como a Mega-Sena e outras. A Lotofácil tem esse nome porque nela é, mesmo, relativamente fácil de ganhar alguma coisa, ainda que o esquema de preços e prêmios esteja obviamente armado para pagar ao apostador menos do que ele matematicamente merece (se não fosse assim, a Caixa perderia dinheiro).

Para conseguir alguns cobres em troca do preço da aposta, é preciso acertar pelo menos 11 números de uma cartela de 25. Também há pagamentos para 12, 13, 14 e 15 acertos (com 11 acertos você recebe R$ 4,00 de prêmio, o dobro do custo da aposta mínima, de R$ 2,00; a chance de acertar 11, tendo pago a aposta mínima, é 1 em 11, ou 9%). O prêmio máximo (que pode chegar a alguns milhões) vem de um acerto de 15 números. A probabilidade de acertar 15 números com uma aposta mínima de R$ 2,00 é 1 em 3 milhões.

E, bem, o que o spam da Lotofácil promete? Basicamente, um pacote (pela bagatela de R$ 49,90) de análises estatísticas dos resultados pregressos dessa loteria: quais os números que saíram mais, quais os números que saíram menos, quais os números que saíram mais por setor do bilhete (superior esquerdo, inferior direito, etc.), quais os números que estão "quentes" (que andam saindo mais ) ou "frios" (que andam saindo menos), quais as dezenas "atrasadas" (que não saem há muito tempo) e muitas outras brincadeiras assim.

Esse produto me deixou fascinado. Primeiro, claro, porque é absolutamente inútil: a ideia de que é possível prever o resultado de um sorteio -- seja de que tipo for: lances de dados, cara-ou-cora, bolinhas de loteria -- analisando os resultados anteriores é conhecida como falácia do apostador, e tem esse nome por uma boa razão: o objeto usado no sorteio (bolinha, dado, roleta, etc.) não tem memória. Ele não "sabe" que já produziu um resultado "X" vezes demais, ou um resultado "Y" vezes de menos. Ele simplesmente segue gerando resultados, e pronto.

A falácia do apostador nasce de uma incompreensão da lei das probabilidades: há pessoas que imaginam que, se a chance de cada dezena da Lotofácil ser sorteada é 4% (ou seja, 1/25), então qualquer dezena que tenha saído com uma frequência inferior a 4% está "atrasada" e deve voltar a sair em breve; ou que uma que tenha aparecido mais de 4% está "superexposta" e, portanto, deve parar de aparecer num futuro próximo. Além de falácia do apostador, essa noção também é conhecida como Doutrina da Maturação das Chances. Mas essa é uma interpretação errada, que trata a lei das probabilidades como uma espécie de Mão Invisível que guia magicamente os resultados. Não se trata disso.

O que a lei das probabilidades diz é que, quantos mais sorteios forem realizados, mais a distribuição de dezenas deve se aproximar da proporção teórica de 4% para cada uma. Isso não impede que existam longas sequências de repetições ou prolongadas ausências. A ideia de que a sequência completa deve "se equilibrar" em algum momento só é verdadeira se acrescentarmos a advertência de que o equilíbrio pode acontecer hoje, amanhã, daqui a dez anos ou em algum momento entre o presente e o infinito.

Em seu livro New Complete Guide to Gambling, o mágico John Scarne relata algumas sequências fantásticas registradas em cassinos, incluindo um recorde de 32 vermelhos consecutivos numa roleta de Nova York, em 1943, e outra roleta, em Porto Rico, que produziu o número 10 seis vezes consecutivas. Sobre o recorde de vermelhos, Scarne escreve: "As chances contra esse acontecimento são de 22.254.817.519 contra 1. Você pode chamar isso de milagre, mas lembre-se de que as chances são exatamente as mesmas (...) para qualquer outra sequência arbitrária de 32 resultados". Quando nos lembramos de que há séculos que milhões de pessoas vêm apostando em roletas que, coletivamente, já rodaram vários bilhões de vezes em todo o mundo, a sequência de Nova York se dilui em mero ruído estatístico.

Alguém poderia argumentar que roletas (ou as bolas usadas no sorteio da Lotofácil) são objetos reais, imperfeitos, não entidades abstratas, e que uma análise estatística dos resultados de um jogo pode ajudar a revelar defeitos que um apostador astuto poderia explorar -- digamos, uma bola um pouco mais pesada (ou leve) que as demais. Isso daria uma base mais científica para a técnica oposta à da Maturidade das Chances, a de que existiriam números "quentes" ou "frios", e que os quentes tendem a sair mais e os freios, menos. Talvez o tal produto de análise de resultados da Lotofácil permita explorar isso? Meu ponto de vista é de que a Caixa Econômica Federal não está no negócio de perder dinheiro. Qualquer desvio do tipo já teria sido detectado e consertado há tempos.

Por fim, é preciso notar que os vendedores do pacote não parecem dar muito crédito á inteligência de seus clientes. Uma das "ofertas" que fazem é a de estratégias que garantem um acerto mínimo de 11, 12 ou 13 dezenas na loteria, segundo print screen abaixo (clique para ampliar):


Mas veja a remuneração prometida pela CEF para esse tipo de acerto (também vale o clique para ampliar):


Em resumo, eles querem ensinar às pessoas como gastar R$ 78,75 para ganhar R$ 4,00, ou R$ 6,7 mil para ganhar R$ 20. Tremendo negócio da China.


terça-feira, 18 de outubro de 2016

Loucos no espaço

A radiação cósmica a que astronautas estarão expostos, quando se aventurarem para além da proteção oferecida pelo campo magnético da Terra, tem o potencial de danificar o cérebro, causado efeitos como perda de memória, aumento da ansiedade e redução da “extinção de medo”, a capacidade do cérebro de suprimir reações negativas associadas a experiências desagradáveis – por exemplo, permitindo que vítimas de queimaduras voltem a se aproximar de uma chama. O alerta vem de experimentos com roedores, publicados no periódico Scientific Reports, do grupo Nature.

Os animais foram submetidos à irradiação de partículas carregadas – núcleos de oxigênio e titânio – e avaliados depois de três e seis meses. Mesmo ao final do período, os pesquisadores ainda encontraram alterações físicas no cérebro dos animais, bem como os déficits de memória e comportamento.

“A missão a Marte resultará em uma inevitável exposição à radiação cósmica”, escrevem os autores do artigo, de instituições dos Estados Unidos. “Particularmente preocupante é o potencial da exposição à radiação cósmica comprometer a tomada de decisões cruciais durante a operação normal ou em emergências no espaço profundo”. Esta nota é parte da coluna Telescópio, do Jornal da Unicamp.

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

"Mas como você explica...?"

Uma questão com que, imagino, todo mundo que se põe a discutir criticamente uma terapia dita "alternativa" acaba se deparando, cedo ou tarde, é: "Mas como você explica a melhora?" Não importa se, como no caso de práticas como a homeopatia ou o reiki, a terapia em questão tem contra si as evidências, as estatísticas, a literatura especializada e até mesmo as leis da física: nada como alguns casos "de sucesso" para evocar, no mínimo, o velho princípio de que qualquer minúscula margem de dúvida deve favorecer o réu.

O "como você explica" costuma aparecer em um de dois sabores: ou o interlocutor aponta um caso que conhece pessoalmente -- às vezes, trata-se uma experiência própria (o número de vítimas de asma e rinite que atribuem alívio à homeopatia é legião), ou há um apelo a uma espécie de implausibilidade geral ("milhares de curas não podem ser só o efeito placebo").

Muitos céticos argumentam, com razão, que a exigência de explicação alternativa embute uma ou várias falácias. A primeira, claro, é a ideia errônea de que a demonstração da falsidade de uma explicação deve, necessariamente, incluir uma explicação verdadeira como bônus. Dizer, por exemplo, que uma receita não ficou boa não obriga ninguém a apresentar uma receita melhor: basta a evidência do paladar.

Em seguida, vem o apelo à ignorância ("ninguém sabe por que eu melhorei, logo eu sei que foi por causa do enema de purê de batata": bolas, se ninguém sabe, você também não).

Outra favorita é a afirmação do antecedente -- "se o enema de purê de batata funciona, devo sarar; sarei, logo o enema funciona". Este é um erro clássico de raciocínio, que fica mais claro no seguinte exemplo: "se chover, a rua ficará molhada; a rua está molhada, logo choveu". Mas a água na rua pode ter outras causas além da chuva -- passou um carro-pipa, estourou uma adutora, etc.

Há ainda a falsa dicotomia. Digamos, "ou o enema de purê é bom pra valer ou todos os casos de sucesso são placebo". Resposta: não necessariamente! As pessoas podem ter sarado por outros motivos, como um tratamento anterior que demorou a fazer efeito, uma mudança de dieta, talvez até muitas delas nem estivessem realmente doentes ou receberam diagnóstico errado.

E, para não faltar um pouquinho de latim, há a post hoc ergo propter hoc -- a falsa ideia de que, já que uma coisa (a cura) veio depois de outra (o enema), a anterior foi causa da posterior. Mas, como se diz por aí, todo mundo bebe água antes de morrer, e nem por isso afirmamos que tomar água mata.

Mas dizer a alguém que levanta uma dúvida sincera que sua pergunta não vale, porque é falaciosa, pode não funcionar muito bem como estratégia retórica. Uma explicação detalhada da falácia, que não descarta a pergunta logo de cara e sim busca elucidar o raciocínio por trás dela, pode ser bem útil. Só que talvez não baste.

Isso porque todos nós temos o que chamo de "crenças placê", coisas em que acreditamos só para tapar um buraco cognitivo, na falta de algo melhor para pôr no lugar. Na ausência de uma explicação que considere adequada, a pessoa pode decidir manter sua confiança na terapia alternativa como um tipo de placê. Em termos ideais, crenças placê devem ser provisórias e altamente vulneráveis à evidência, mas as coisas nem sempre seguem o caminho ideal.

Então, se desempacotar as falácias embutidas na pergunta "como você explica?" não basta, o que nos resta? Pode-se tentar explicar a importância dos estudos duplo-cegos controlados, o tipo de conhecimento que todo mundo deveria ter, por uma questão de defesa pessoal. Mas eu gostaria de apresentar um gráfico que é uma das imagens mais esclarecedoras que já vi:




Como deve estar mais do que claro pelo escaneamento torto, a imagem veio de um livro: para ser exato, do artigo The Psychopathology of Fringe Medicine, de autoria de Karl Sabbagh, um jornalista de ciência britânico, publicado no volume "The Hundredth Monkey and Other Paradigms of the Paranormal". O eixo horizontal representa a passagem do tempo; o vertical, a qualidade de vida do paciente de uma doença qualquer (no alto está a saúde plena, embaixo, a morte).

A linha serrilhada representa o fato de que as pessoas, mesmo sem tratamento, quase nunca adoecem e vão piorando continuamente: mesmo que a doença progrida, implacável, rumo à morte, a qualidade de vida oscila no dia-a-dia. Sabbagh sugere que as pessoas são levadas a procurar remédios alternativos nos momentos excepcionalmente ruins, que por mera flutuação estatística quase com certeza serão seguidos por algum alívio, ainda que moderado.

Já nos momentos de alívio, ninguém vai se preocupar em tomar uma garrafada ou fazer um enema de purê de batata. Como resultado, o remédio alternativo tende a sempre dar a impressão de ter causado um efeito positivo. Outro dado importante que se pode tirar do gráfico é que há uma diferença forte entre a impressão de cura e a cura real: redução do desconforto e dos sintomas não significa necessariamente que a doença foi embora.