quarta-feira, 8 de junho de 2016

Polígonos em Plutão

A região de Plutão conhecida informalmente como Planície Sputnik, localizada na parte equatorial do planeta-anão, é recoberta por uma capa de nitrogênio congelado recortada em curiosas formas poligonais com até 40 quilômetros de largura. O centro de cada polígono pode ser vários metros mais alto que as bordas. A origem dessas formas é discutida em dois artigos publicados na revista Nature.

O primeiro artigo, do grupo liderado por William B. McKinnon, da Universidade de St. Louis, aponta que camadas sólidas de nitrogênio com quilômetros de espessura devem sofrer convecção nas condições atuais de Plutão, tal como medidas pela sonda New Horizons, da Nasa. “Demonstramos numericamente que a reviravolta convectiva em camadas de nitrogênio sólido, com vários quilômetros de espessura, pode explicar a grande largura lateral” dos polígonos, diz o texto.

O segundo trabalho, de A. J. Trowbridge, da Universidade Purdue, reforça a tese de que é a convecção no interior das camadas de nitrogênio a causa dos polígonos, e não outro mecanismo, como a mera contração do gelo. “O diâmetro dos polígonos da Planície Sputnik e as dimensões das ‘montanhas flutuantes’ (as colinas de água congelada ao longo das arestas dos polígonos) sugere que o gelo de nitrogênio tem cerca de dez quilômetros de espessura. A velocidade estimada de convecção é de 1,5 cm ao ano, e indica uma superfície de apenas um milhão de anos de idade”, diz o artigo. (Esta e outras notas fazem parte da coluna Telescópio, do Jornal da Unicamp)

terça-feira, 7 de junho de 2016

Valor-p na mira da "Science"

Artigo publicado na revista Science vem a se somar ao coro de críticas ao uso indiscriminado do critério estatístico do “valor-p” como determinante em publicações científicas. Assinado por Steven Goodman, da Universidade Stanford, o texto condena a “noção equivocada” de que “a divisa entre uma alegação cientificamente justificada e uma injustificada é definida por se o valor-p cruzou a ‘linha luminosa’ da significância, excluindo-se considerações externas como evidências anteriores, compreensão do mecanismo ou conduta e desenho experimental”.

Referindo-se a um nível de probabilidade – por exemplo, “p < 0,05” – o valor-p aparece rotineiramente em artigos científicos e costuma ser interpretado como a chance de os resultados apresentados terem sido causados por mero acaso, e não por um fenômeno real. Essa interpretação foi atacada, em março deste ano, pela Associação de Estatística dos Estados Unidos (ASA, na sigla em inglês), ao afirmar, em nota que “isoladamente, um valor-p não oferece uma boa medida da evidência a respeito de um modelo ou hipótese”.

No artigo para a Science, Goodman afirma que o estatístico R.A. Fisher (1890-1962), responsável pela introdução do valor-p, defendia seu uso como “uma de diversas ferramentas para auxiliar o processo fluido e indutivo do raciocínio científico – e não como um substituto desse processo. Fisher usava ‘significância’ apenas para indicar que uma observação merecia ser acompanhada”. (Esta e outras notas fazem parte da coluna Telescópio, do Jornal da Unicamp)

segunda-feira, 6 de junho de 2016

E mais um teste da "fosfo" em animais...

No início da última semana, comentei aqui os resultados (negativos) dos dois primeiros teses patrocinados pelo governo federal da mistureba comumente chamada de" fosfoetanolamina sintética da USP" (FS, pra encurtar) em tumores implantados em ratos e camundongos. De lá para cá, apareceu um terceiro teste, desta vez realizado pelo Centro de Inovação e Ensaios Pré-Clínicos (CIEnP) em uma linhagem de camundongos transgênicos inoculados com melanoma, um câncer de pele. A íntegra do relatório pode ser lida aqui, mas o resumo gráfico é este abaixo:


E o que o gráfico nos diz? Que o tumor, nos animais tratados com uma solução de FS de 200 mg, cresceu até mais do que no tratamento com "veículo" (água e sal); que, nos camundongos tratados com FS a 500 mg, o tumor cresceu menos; e que os animais onde o câncer progrediu menos foram os tratados com um quimioterápico comum, a cisplatina. Em números, os camundongos tratados com cisplatina chegaram ao fim do tratamento com tumores 68% menores que os tratados com água salgada; e os tratados com FS-500 mg com tumores 34% menores.  

Parte da mídia interpretou o efeito levemente positivo da FS-500 mg como sendo um sinal -- o primeiro -- a favor da eficácia da droga nos testes oficiais. Mas, como lembra o blog Gene Repórter, esse resultado pode ser atribuído à presença da monoetanolamina, um veneno conhecido, na composição da FS. 

Testes anteriores, realizados por pesquisadores da Unicamp, já haviam apontado que o pó branco, chamado "fosfoetanolamina sintética da USP", presente nas cápsulas distribuídas irregularmente em São Carlos durante décadas, continha diversos contaminantes, entre eles a monoetanolamina. O mesmo grupo da Unicamp também testou a receita da FS patenteada pelos promotores da fórmula e encontrou monoetanolamina entre os produtos. Além disso, testes anteriores do governo federal já haviam mostrado que a "mono" tem poder antitumoral, ainda que pequeno se comparado ao quimioterápicos tradicionais.

Uma informação extra que sai do relatório do CIEnP e que parece não ter recebido a devida atenção é o motivo da escolha da concentração de 200 mg para um dos testes da FS. Esse número não saiu do nada. Os autores do estudo dão a seguinte justificativa:


Ou seja, a dose animal aplicada de 200 mg equivale a um consumo humano, levando em conta diferença de peso entre as duas espécies, praticamente idêntico ao recomendado pelos promotores da "fosfo" como panaceia contra o câncer. Dizendo de outro jeito: nos camundongos que tomaram uma dose de FS equivalente à hoje "recomendada" para pacientes humanos, a mistura não só não fez efeito, como o tumor cresceu um pouco mais depressa do que nos animais que ficaram sem tratamento nenhum, recebendo apenas água salgada. Isso deveria fazer acender algumas luzes vermelhas por aí.

Queria fazer uma consideração final sobre o modo como a mídia vem cobrindo a questão. De modo não muito surpreendente, ainda perdura o cacoete do outro lado, que se manifesta na iniciativa de dar voz a "clientes satisfeitos" da FS toda vez que se publica alguma notícia negativa -- que são, basicamente, todas as que têm como fonte cientistas responsáveis. Para além do fato de que relatos isolados de clientes satisfeitos não provam nada -- qualquer cartomante poderá lhe indicar dezenas de pessoas que saíram de suas consultas impressionadíssimas -- esses relatos costumam entrar no pé das matérias, dando à avaliação positiva um pernicioso ar de "última palavra" sobre o assunto.

O link no parágrafo acima aponta para um longo texto meu a respeito do problema do outro lado no jornalismo científico, mas deixo só uma sugestão aos colegas: se você realmente acha que precisa ouvir alguém que acredita estar se recuperando, ou ter se recuperado, de um câncer tomando FS, faça um esforço extra e ouça os parentes ou o médico de alguém que morreu nas mesmas condições.