E mais um teste da "fosfo" em animais...

No início da última semana, comentei aqui os resultados (negativos) dos dois primeiros teses patrocinados pelo governo federal da mistureba comumente chamada de" fosfoetanolamina sintética da USP" (FS, pra encurtar) em tumores implantados em ratos e camundongos. De lá para cá, apareceu um terceiro teste, desta vez realizado pelo Centro de Inovação e Ensaios Pré-Clínicos (CIEnP) em uma linhagem de camundongos transgênicos inoculados com melanoma, um câncer de pele. A íntegra do relatório pode ser lida aqui, mas o resumo gráfico é este abaixo:


E o que o gráfico nos diz? Que o tumor, nos animais tratados com uma solução de FS de 200 mg, cresceu até mais do que no tratamento com "veículo" (água e sal); que, nos camundongos tratados com FS a 500 mg, o tumor cresceu menos; e que os animais onde o câncer progrediu menos foram os tratados com um quimioterápico comum, a cisplatina. Em números, os camundongos tratados com cisplatina chegaram ao fim do tratamento com tumores 68% menores que os tratados com água salgada; e os tratados com FS-500 mg com tumores 34% menores.  

Parte da mídia interpretou o efeito levemente positivo da FS-500 mg como sendo um sinal -- o primeiro -- a favor da eficácia da droga nos testes oficiais. Mas, como lembra o blog Gene Repórter, esse resultado pode ser atribuído à presença da monoetanolamina, um veneno conhecido, na composição da FS. 

Testes anteriores, realizados por pesquisadores da Unicamp, já haviam apontado que o pó branco, chamado "fosfoetanolamina sintética da USP", presente nas cápsulas distribuídas irregularmente em São Carlos durante décadas, continha diversos contaminantes, entre eles a monoetanolamina. O mesmo grupo da Unicamp também testou a receita da FS patenteada pelos promotores da fórmula e encontrou monoetanolamina entre os produtos. Além disso, testes anteriores do governo federal já haviam mostrado que a "mono" tem poder antitumoral, ainda que pequeno se comparado ao quimioterápicos tradicionais.

Uma informação extra que sai do relatório do CIEnP e que parece não ter recebido a devida atenção é o motivo da escolha da concentração de 200 mg para um dos testes da FS. Esse número não saiu do nada. Os autores do estudo dão a seguinte justificativa:


Ou seja, a dose animal aplicada de 200 mg equivale a um consumo humano, levando em conta diferença de peso entre as duas espécies, praticamente idêntico ao recomendado pelos promotores da "fosfo" como panaceia contra o câncer. Dizendo de outro jeito: nos camundongos que tomaram uma dose de FS equivalente à hoje "recomendada" para pacientes humanos, a mistura não só não fez efeito, como o tumor cresceu um pouco mais depressa do que nos animais que ficaram sem tratamento nenhum, recebendo apenas água salgada. Isso deveria fazer acender algumas luzes vermelhas por aí.

Queria fazer uma consideração final sobre o modo como a mídia vem cobrindo a questão. De modo não muito surpreendente, ainda perdura o cacoete do outro lado, que se manifesta na iniciativa de dar voz a "clientes satisfeitos" da FS toda vez que se publica alguma notícia negativa -- que são, basicamente, todas as que têm como fonte cientistas responsáveis. Para além do fato de que relatos isolados de clientes satisfeitos não provam nada -- qualquer cartomante poderá lhe indicar dezenas de pessoas que saíram de suas consultas impressionadíssimas -- esses relatos costumam entrar no pé das matérias, dando à avaliação positiva um pernicioso ar de "última palavra" sobre o assunto.

O link no parágrafo acima aponta para um longo texto meu a respeito do problema do outro lado no jornalismo científico, mas deixo só uma sugestão aos colegas: se você realmente acha que precisa ouvir alguém que acredita estar se recuperando, ou ter se recuperado, de um câncer tomando FS, faça um esforço extra e ouça os parentes ou o médico de alguém que morreu nas mesmas condições.

Comentários

  1. Ou seja, sem novidades sobre a fosfoetanolamina.

    ResponderExcluir
  2. Os técnicos do Ministério da Ciência e Tecnologia (MCTI) não souberam sinterizar a FOSFO-s. Essa "síntese" foi feita pela "turma da Unicamp" a pedido do MTCI. A "turma da Unicamp", como não soube fazer a síntese pelo método dos pesquisadores da USP/Instituto de Química de São Carlos, fez uma outra síntese, com outra temperatura nos reagentes, outro fluxo de nitrogênio, outra quantidade de álcool na cristalização. Não deu outra: a síntese não prestou. Foi usado o método de síntese de CHEBOULIER. Por esse método um dos subprodutos gerados é o elemento químico BÁRIO, que não consta na FOSFO-s sintetizada pelos pesquisadores do grupo do Dr Gilberto Chierice (USP/Instituto de Química de São Carlos), mas apareceu na síntese usada pelo MTCI feita pelo pessoal da Unicamp. (Veja o Bário: http://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/2016/05/1776877-pilula-do-cancer-e-reprovada-mais-uma-vez-em-novos-testes.shtml ou https://www.facebook.com/samuelsuntuosogalvaode.tavares/posts/247469502300332 - veja o BÁRIO lá no final indicado por uma seta; abra a foto para você poder ver o BÁRIO)



    ResponderExcluir
    Respostas
    1. onde posso confirmar que o do chierice nao tinha bario?

      Excluir
    2. OLha, pra entender essa confusão toda, o melhor é este depoimento do químico da Unicamp que fez a análise. A parte mais esclarecedora começa lá pelos 20 minutos: https://www.youtube.com/watch?v=sfMXfmW_f3U

      Excluir
    3. muito triste ver as pessoas que não têm formação nenhuma na área virando especialistas da noite pro dia, se baseando apenas nas baboseiras que seus "deuses" afirmam, sem ao menos confrontar as idéias, repetindo-as como se fosse um mantra... o que me faz lembrar muito um culto religioso, mas não vou entrar nesse mérito.
      Um ponto que não vejo ninguém argumentar nessa tal "falsificação" é: e daí que tem bário? o bário foi detectado em, se eu não estiver enganado, poucos ppm, provavelmente oriundo na forma de contaminante dos reagentes utilizados (nada é 100%). Uma quantidade tão ínfima que me pergunto qual seria sua influência nos resultados e se sequer está acima da quantidade máxima definida na Farmacopéia.
      E outra questão que fico matutando até hoje e ninguém nunca perguntou: se a fosfoetanolamina é um entidade química definida (depois dos testes descobrimos não era bem o caso da USP), qual a diferença se ela é produzida pelo laboratório A ou B, pela técnica C ou D, desde que devidamente purificada e caracterizada? Excluindo-se aqui diferenças polimórficas, pois nem estudo farmacocinético a droga possui.

      Excluir
  3. Quem sabe destas pessoas e de suas histórias não se deixa engambelar: enfermeira canadense Renè Caisse (com o seu ESSIAC); o norte-americano Henry Hoxsey, com o seu preparado herdado de seu pai; o engenheiro brasileiro Dr Sebastião Corain (com o seu Caboncellox, 1955), e o Dr Burzynski (com os seus antioblastons), este ainda lutando com o FDA, em Huston, no Texas, este último curando todos os tipos de cânceres - assim como os demais o fizeram. (http://www.burzynskiclinic.com/)
    Disponíveis nas lojas do ramo, mas também constam na REDE, procure a assista a estes filmes:

    "CANCRO: AS CURAS PROIBIDAS" (https://m.youtube.com/watch?v=J4XfoKGO2GI) ou (https://www.facebook.com/samuelsuntuosogalvaode.tavares/posts/212155062498443)
    e
    "BURZYNSKI, o filme - O Cancer é um grande negócio." (https://m.youtube.com/watch?v=jgVmRdLiKR8) ou (https://www.facebook.com/samuelsuntuosogalvaode.tavares/posts/188447011535915)

    Você entenderá o que está acontecendo.

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

"Fosfo da USP" volta a dar chabu em testes oficiais

A maldição de Noé, a África e os negros

Primeiros testes: "fosfo da USP" não funciona e não é "fosfo"