segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Alienígenas ecoterroristas ameaçam a Terra?

Semana passada foi marcada pelo bafafá em torno deste paper, uma revisão de cenários a respeito de um eventual contato entre a Terra e inteligências extraterrestres. O trabalho explora diversas possibilidades -- todas, em princípio, de baixo nível de probabilidade, mas algumas mais baixas (ou muito mais baixas) que outras -- e menciona a ideia de que as mudanças abruptas no ecossistema terrestre podem chamar a atenção de uma civilização alienígena.

Mais precisamente, lá pela página 21 (de um total de 28, sem contar as mais de dez páginas de referências bibliográficas) os autores lançam a seguinte hipótese:

O aumento na concentração de CO2 na atmosfera da Terra altera a assinatura espectrográfica do planeta (em linhas gerais, uma mudança no equilíbrio dos gases que compõem nossa atmosfera faz com que o planeta passe a ter uma "cor" diferente) e essa mudança pode ser captada pelos instrumentos de astrônomos ETs.

A partir daí, surgem dois cenários desagradáveis:

(a) Essa mudança no matiz da Terra pode alertar extraterrestres para a presença de uma civilização tecnológica no planeta, e alguns povos "lá de fora" poderiam se sentir tentados a lançar um ataque preventivo contra nós, antes que viremos uma ameaça para eles;

(b) É possível (no sentido de plausível, concebível, etc.) que exista uma espécie alienígena dotada de uma ética "universalista", que encare a preservação de ecossistemas como um valor supremo (os autores mencionam, como indicativo dessa possibilidade, o surgimento de movimentos ecoterroristas aqui mesmo entre nós) e, por isso, nos desprezem, ou odeiem.

A apresentação da hipótese e a delineação dos cenários consomem menos de três parágrafos em uma única página. Mas ganhou manchetes pelo mundo por causa de uma matéria publicada online pelo jornal britânico The Guardian. O texto do Guardian usa a especulação em torno dos eco-aliens como ponto principal de seu título e, num erro de informação -- já corrigido, e bem explicado aqui -- atribui o estudo à Nasa.

Há dois fenômenos envolvidos aí: um é o apego que a mídia -- principalmente a britânica mas, com a expansão do serviço online da BBC, cada vez mais influente no resto do mundo -- tem por pautas que podem ser descritas como silly science, ou "ciência tolinha", em que temas científicos são apresentados em um tom que não é exatamente de ridículo, mas que junta um tanto de ironia a um outro tanto de condescendência.

Este é o tipo de coisa que apela à vaidade do leitor comum, que vê reforçada a noção de que os cientistas, com seus graus acadêmicos e linguajar difícil, na verdade não passam de um bando de tapados brincando num grande jardim de infância universitário; enquanto que ele, o leitor apedeuta, é um homem (ou mulher) sério e prático, lançado à luta renhida do mundo real. É reconfortante poder imaginar que qualquer pessoa que saiba de coisas de que você nunca ouviu falar é, na verdade, um idiota incapaz de reunir o bom-senso necessário para atravessar a rua.

O outro fenômeno, intimamente ligado ao primeiro, é a indignação com o desperdício de recursos nesses autistas sociais que ficam brincando de caçar ET enquanto <<insira aqui seu problema social favorito>>. A menção errônea à Nasa agravou o problema, já que se trata de uma agência pública. Indignação é um sentimento muito fácil de manipular, e cai muito bem nas mãos de populistas em geral.

No caso específico do paper sobre contato alienígena, no entanto, não havia verba da Nasa envolvida. Mas, e se houvesse? Seria realmente algo escandaloso?

Como não sou contribuinte nos EUA, creio que não tenho muita legitimidade para palpitar, mas mesmo assim digo que não, não seria nada escandaloso. O artigo completo, Would Contact with Extraterrestrials Benefit or Harm Humanity? A Scenario Analysis, é competente, bem escrito e articula ideias de vários campos do conhecimento de forma inteligente.

Escandalosos, mesmo, são o jornalismo de silly science, o populismo que o motiva e o orgulho irresponsável na própria ignorância que o referenda e reforça.