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Mostrando postagens de 2018

O algoritmo na cabeça das pessoas

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O Brasil é um dos cinco países que mais usa WhatsApp, e linchamentos motivados pela internet não são novidade por aqui, mas a imprensa nacional meio que vem ignorando a grande polêmica que cerca o aplicativo no mundo de língua inglesa -- a saber, a onda de linchamentos, na Índia, estimulada por boatos divulgados nessa rede. Jornais britânicos (aqui, aqui e aqui) e americanos (aqui) vêm cobrindo o assunto com atenção. E por um bom motivo: a tragédia indiana abre um novo capítulo no debate sobre "fake news", seus impactos e modos de ação.

Muitas das notícias publicadas falam de apelos das autoridades para que a rede, de alguma forma, coíba a circulação de boatos. Isso me parece fazer tanto sentido quanto pedir para as fábricas de motocicleta que façam algo para coibir o uso desses veículos em assaltos na saída de caixas eletrônicos, ou que as operadoras de telefonia façam algo para combater os trotes.

Afinal, diferente do Facebook, que aplica uma série de filtros e algoritmos

Notícias falsas: mais complicado do que parece

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Uma capacidade fantástica do ser humano é de pegar o que poderia ser um debate rico, complexo e produtivo e imediatamente reduzi-lo a meia-dúzia de clichês rasteiros. A questão das notícias falsas/fake news, por exemplo, que poderia ter dado margem a uma discussão séria sobre meios de comunicação, uso de fontes e credibilidade, virou basicamente uma estratégia de marketing da mídia corporativa -- "confie em nós", dizem os jornalões, as grandes redes de TV e rádio em suas campanhas de conscientização sobre fake news -- "e tudo vai ficar bem".

Mas aí a gente se lembra de que o Estadão engoliu a lorota do Jogo da Baleia Azul com isca, anzol e linha; que a Folha de S. Paulo endossou teorias de conspiração malucas sobre o 11 de setembro; que a CBN fez um programa cantando os loas da "medicina" ayurvédica; que a febre nacional da fosfoetanolamina começou com uma reportagem de afiliada da Globo,  e é compreensível que fiquemos desconfiados e desconsolados.

A qu…

Fé, longevidade, burrificação

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Semana retrasada tive uma pequena maratona de eventos acadêmicos sobre divulgação científica -- aparentemente, hoje em dia não é de bom-tom, no meio universitário, realizar um seminário, sobre o que quer que seja, sem incluir pelo menos uma mesa redonda tratando do tema, o que parece indicar uma certa angústia, que precisa ser melhor explorada (e explicada). Mas, enfim: em quase todos os eventos do tipo, costuma recorrer uma questão que assume diversas formas, mas que pode ser exemplificada pelo trocadilho "como simplificar sem burrificar"?

Claro, muitas vezes a pergunta embute um quê de arrogância -- o subtexto sendo, "esse negócio que eu estudo é complicado demais, a plebe ignara nunca vai entender" -- mas há inúmeras situações em que a preocupação é legítima e real, principalmente quando a informação vai passar por um filtro midiático: isto é, vai ser reinterpretada  e "re-embalada" com base nos critérios usuais de novidade, alcance, capacidade de atr…

As ondas da ficção científica nacional

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Entre 1989 e 2013, mais ou menos, escrevi muita ficção científica: às vezes, chegava a produzir um conto por mês. Como, de acordo com as leis da probabilidade, quem  atira muito na direção do alvo tende a acabar acertando de vez em quando, parte desse material prestou um pouco -- o suficiente para que eu ganhasse dois Prêmios Argos e, agora, tivesse um conto incluído no livro Fractais Tropicais -- Os Melhor da Ficção Científica Brasileira, organizado por Nelson de Oliveira, e que deve ser lançado no próximo semestre pela SESI Editora (estudei da 1ª à 8ª série num SESI, a propósito; fico imaginando que minhas professoras de então achariam disso).

O escopo de Fractais Tropicais é, para dizer o mínimo, ambicioso: cobre 30 autores e um período de cerca de 70 anos, de Jerônymo Monteiro (o primeiro escritor brasileiro a se dedicar seriamente à produção de ficção científica, ativo a partir do final da década de 30 do século passado) a Cristina Lasaitis, jovem autora que estreou já neste séc…

Mundo e Copa em banho-maria

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Os mesmos jornais que, no início da semana, noticiavam que a população brasileira estava cagando e andando para a Copa do Mundo da Rússia, hoje não falam de outra coisa -- a ponto de não ter sobrado espaço, nas capas da Folha e do Estado, para a verdadeira notícia mais importante da semana: a aceleração do degelo antártico e sua dramática contribuição para a elevação do nível dos mares. O efeito acumulado nas últimas décadas aparece no gráfico abaixo, publicado pela revista Nature, periódico que nesta semana traz uma série de artigos sobre o estado da Antártida:



O Brasil, especialmente a costa brasileira, é bastante sensível ao que acontece na Antártida Ocidental (a parte esquerda do mapa acima). A ponta de terra mais proeminente ali, a Península Antártica, quase encosta na América do Sul, e era por ali que ficava a base brasileira Comandante Ferraz.

A Folha de São Paulo, que publicou recentemente boas reportagens sobre o impacto do aumento do nível do mar no litoral paulista, perdeu …

Aniversário da Ciência?

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Dizem que Isaac Asimov certa vez disse (não consegui confirmar isso nas fontes primárias) que o dia 28 de maio deveria ser celebrado como o Aniversário da Ciência. Isso porque, segundo algumas fontes do mundo antigo (Heródoto é o mais citado, mas também há Diógenes Laércio e outros), este dia marca a dramática confirmação da primeira "previsão científica"  registrada na história: a de um eclipse solar, ocorrido em 28 de maio de 585 AEC e que teria sido previsto por Tales de Mileto. Tales (624-546 AEC) é muitas vezes citado como o "primeiro cientista", por ter proposto explicações para fenômenos naturais sem apelar para a linguagem da religião e do mito -- usando apenas a natureza para falar da natureza.

Há, no entanto, diversas razões para duvidar de que a previsão do eclipse por Tales tenha mesmo ocorrido -- e, se ocorreu, que tenha sido realmente baseada em algo semelhante a princípios científicos, e não pura sorte. Se sorte foi mesmo o caso, Tales, além de prim…

Cuba cura câncer?

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O pior tipo de fake news não é a que mente de modo descarado, mas a que usa um base verdadeira como pedra angular para um castelo de falsidades. A mentira pura e simples pode ser pura e simplesmente negada; o edifício fajuto erguido sobre a base verdadeira requer cuidado especial, já que qualquer tentativa de demoli-lo às pressas torna a pessoa que tenta produzir o esclarecimento vulnerável à acusação de estar negando uma verdade -- aquela, pequenininha, ali no alicerce.

Caso em tela: um amigo me envia, pelo Facebook, link para um texto online que afirma que Cuba tem uma vacina milagrosa que cura câncer de pulmão, que já beneficiou milhares de pessoas, mas que a maligna indústria farmacêutica capitalista não quer que você saiba disso. É o típico caso de alegação que aperta todos os botões emocionais certos: para o ideólogo de direita é, obviamente, uma mentira comunista; para o de esquerda, é, obviamente, uma prova da cupidez capitalista, da ineficiência do mercado, um claro triunfo

Jornada dupla no Pint of Science!

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Neste ano, participei duas vezes do festival Pint of Science, em Campinas e São Paulo, falando no interior sobre fake news e, na capital, sobre fale news e jornalismo de saúde (esta última participação apareceu de última hora). Esses eventos ao vivo sempre me deixam com a impressão de que fui menos claro e coerente do que deveria, em parte porque certamente me comunico melhor por escrito, em parte porque provavelmente sou mesmo meio incoerente e obscuro, ainda mais com três chopes na cabeça.

Então, para quem assistiu e talvez tenha ficado curioso, já discorri mais longamente (e, espero, com maior propriedade e coerência) sobre os assuntos de que falei no Pint nestes textos, sobre notícias falsas (aqui e aqui e neste vídeo) e cobertura de saúde (aqui, aqui e, de modo indireto, aqui). Felizmente, minhas duas participações no festival não foram solo, e os colegas Angela Pimenta (em Campinas) e  Ruth Helena Bellinghini, Álvaro Pereira Júnior e Lúcia Helena de Oliveira (em São Paulo) segu…

Faz sentido noticiar pesquisa pré-clínica?

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Há mais ou menos um mês, assisti em São Paulo a uma apresentação do pesquisador Samuel Cohen, do Centro Médico da Universidade de Nebraska, sobre a crise de reprodutibilidade nas ciências. O que isso quer dizer?

A ideia é que, se a ciência se pretende produtora de conhecimento com validade universal -- e, por isso, tem em seus métodos uma forma de acesso ao conhecimento superior às alternativas (revelação divina, interpretação de sonhos, tradição familiar, etc) -- então seus resultados têm de ser reprodutíveis: a mesma equação que descreve a trajetória de uma maçã jogada para o alto aqui deve descrever a trajetória de uma maçã jogada para o alto na China. As leis da termodinâmica que regem o motor do meu carro (se eu tivesse um carro) regem o motor do jipe lunar.  E assim por diante.

Falei em motores. Além de seu papel epistemológico, a reprodutibilidade é, no fim, a grande fiadora da tecnologia. Se os resultados da física quântica, por mais malucos que sejam, não fossem reprodutívei…

Capas reveladas!

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Depois de um primeiro semestre em que contos meus foram publicados duas vezes em revistas no exterior -- em janeiro na Mystery Weeklye agora, em maio, na Ellery Queen -- a segunda metade do ano, aparentemente, será dos livros. Nas últimas semanas foram reveladas as capas de duas antologias de que participo, e as datas previstas de publicação: agosto e setembro deste ano.

Seguindo a ordem cronológica, então, começamos pela edição internacional de Solapunk:


Trata-se da tradução para o inglês da Solarpunk originalmente publicada aqui no Brasil pela Editora Draco. O livro original é de 2012 e, até onde se sabe, representou a primeira antologia do mundo a reunir escritores para especular sobre como seria um futuro movido a energias sustentáveis. Num caso clássico de "Efeito Tom Jobim", tanto o pioneirismo quanto a ousadia foram reconhecidos lá fora, e seguem largamente ignorados aqui no Brasil. Meu conto, Soylent Green is People!, é um mistério de assassinato. Gosto muito do enre…

Psicologia aplicada à pseudociência

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A bibliografia brasileira crítica sobre pseudociências é criminosamente escassa. Para cada dúzia de livros prometendo a cura quântica das hemorroidas ou a fórmula secreta da neurociência para pegar mulher e ganhar na loteria, saem -- um? dois? -- títulos tentando explicar que as coisas não são bem assim. Quase sempre, são traduções, como dos livros de Michael Shermer, Edzard Ernst ou Ben Goldacre. Quando um cientista brasileiro, portanto, decide separar parte de seu tempo para fazer algo a respeito do Febeapá (pseudo)científico em que vivemos, é hora de soltar rojão.
Foi com enorme alegria, então, que recebi o livro Ciência e Pseudociência, de Ronaldo Pilati, professor do Instituto de Psicologia da Universidade de Brasília (UnB). Vou confessar logo de cara que tenho algumas críticas: acho que o autor, nos capítulos introdutórios, poderia ter tratado a questão do falsificacionismo popperiano de maneira um pouco mais clara; e que foi muito caridoso com os envolvidos no caso da "pí…

Explicando o impossível na ficção

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Saiu! Já tinha anunciado isso nas redes sociais, mas para os amigos que só seguem o blog, isto pode (ainda) ser novidade: meu conto The Glass Floor está na mais recente edição da americana Ellery Queen's Mystery Magazine (EQMM), disponível para compra online, em ebook ou papel. E esta é uma história que tem uma história. Ei-la.

Tenho o hábito irritante de me interessar por mais coisas do que consigo fazer direito. Dois desses hobbies negligenciados são mágica (um dia, muito tempo atrás, eu fazia uns truques até passáveis com cartas) e xadrez (sou consistentemente derrotado pelo meu telefone celular, que só joga em modo "iniciante"). Para minha felicidade, no entanto, certo dia descobri um nicho literário que oferece estímulo e prazer muito semelhantes aos do xadrez e da mágica: a história de crime impossível.

O "crime impossível" prototípico é o assassinato cometido num quarto trancado por dentro, ou a vítima de homicídio à queima-roupa encontrada na areia da …

Divulgação científica: agenda cheia em maio

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"Divulgação científica" é uma daquelas expressões -- como "democracia" ou "justiça" -- que todo mundo concorda que se refere a algo essencial, mas cuja natureza exata tende a ser alvo de intensa disputa.

Há que se distinguir divulgação de educação, há que se decidir se a prioridade é divulgar conteúdos ou modos de pensar, há que se tomar cuidado para que a divulgação "WOW!" (pássaros lindos, estrelas fantásticas, gênios excêntricos) não sufoque a divulgação "de combate" (crítica a charlatanismos e raciocínios tortos, denúncia de fraudes, esclarecimentos sobre saúde ou meio ambiente).

Há que se pensar no público: na academia e no microcosmo das bolhas online, principalmente, é muito fácil cair na ilusão de que se está fazendo divulgação científica quando, na verdade, seu público é sempre aquela meia dúzia de fãs de Carl Sagan que são as pessoas que menos precisam ouvir o que você está dizendo (não é improvável que a carapuça sirva para…

Demônios e ETs em Fátima: erros instrutivos

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Se você, como eu, sofre de uma curiosidade patológica a respeito do que borbulha e fermenta na franja lunática da pseudociência -- clones ciborgues templários de Jesus e conspirações urdidas por demônios lovecraftianos do espaço, coisas perto das quais até homeopatia parece razoável -- uma boa ideia é assinar a newsletter de Jason Colativo, um antropólogo americano  que construiu uma carreira correndo atrás das besteiras que o History Channel empurra para seus telespectadores.

Nesta semana, Colavito chama atenção para  uma pequena indústria que vem sendo criada, tendo como alvo o público evangélico de língua inglesa, para vincular as aparições de Fátima a demônios e extraterrestres. A escolha de  nicho tem lá sua lógica: dizer que os milagres da religião dos outros é, na verdade, ilusão demoníaca representa uma estratégia antiga, mas bem-sucedida.

Para os leitores que não tiveram o duvidoso benefício de uma educação católica (e nem leram meu Livro dos Milagres): entre maio e outubro d…

"Fosfo", terapias alternativas e a maldição do falso positivo

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A fosfoetanolamina sintética volta ao noticiário (aqui e aqui), poucas semanas depois de o Ministério da Saúde produzir manchetes com sua decisão descerebrada de ampliar a oferta de "práticas alternativas e complementares". Já escrevi mais do que o suficiente (aqui, aqui, aqui), imagino, sobre esses dois casos específicos, e então achei que seria hora de tratar do fenômeno mais geral: o fato de tantas pessoas se encantarem com, converterem-se em verdadeiros paladinos de, supostas terapias que não só não funcionam, como ainda por cima podem ser perigosas ou, até mesmo, letais.

E não se trata apenas do que gosto de chamar de "Efeito Franklin", que acontece quando uma pessoa, tendo sido enganada, passa a defender fervorosamente quem a enganou, só para não ter de dar o braço a torcer (tirei o nome da frase atribuída a Benjamin Franklin, "só quem mente mais do que um charlatão são suas vítimas"). Há algo muito mais profundo aí.

Durante milhares de anos, a med…

Pseudociências, cristais, jornalismo

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Em seu divertidíssimo livro sobre a história da medicina e das terapias "integrativas e complementares", Suckers, a jornalista britânica de saúde Rose Shapiro aponta uma distinção simples -- e categórica -- entre a ciência médica e as diversas tradições culturais em que terapeutas alternativos buscam (ou dizem buscar) inspiração: enquanto a ciência foi descobrindo inúmeras causas para as doenças (vírus, bactérias, genética, contaminantes ambientais, estilos de vida, etc.), os integrativos costumam se agarrar a uma monocausa, uma causa única para todo mal: desequilíbrio. Desarmonia. Desalinhamento.

Seja do chi, do prana, do yin ou do yang, da coluna vertebral, da dieta ou de algo genérico como "as vibrações", sempre há uma coisa fora da ordem que, se recolocada no devido lugar, traz a cura. Mesmo se reconhecem a existência de causas imediatas para a doença -- um parasita, uma infecção, uma mutação -- esses terapeutas tendem a pressupor que o agente só conseguiu ata…

Variedades da experiência placeba

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Muito já se lamentou, de ontem para hoje nas redes sociais, sobre a decisão do Ministério da Saúde de ampliar a oferta das chamadas "terapias complementares e alternativas" no Sistema Único de Saúde (SUS). Chamou-se atenção, por exemplo, para o fato de que países com sistemas de saúde pública funcionais, como o Reino Unido,  vêm excluindo essas terapias de seu rol de procedimentos, com o objetivo de otimizar o gasto público, e o SUS não tem exatamente dinheiro para queimar em bobagem; e de que não há evidência científica de que essas terapias funcionem melhor do que um placebo (isto é, do que mentir para o paciente, dizendo que o copo de água que ele tomou durante a consulta era remédio).

É sobre este segundo ponto que eu gostaria de me debruçar no momento. Há algum tempo (pelo menos desde as "Homeopathy Wars" do Jornal da USP, no ano passado) que os proponentes de terapias alternativas vêm respondendo a essa acusação com um "Mas nós temos evidências!"

E…